O nascimento de uma nação

Por Roberto Vieira

Mentem os livros de história.

Como sempre.

O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral. O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga. O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950. Às margens do Rio Maracanã.

O Brasil que se imaginava rico e febril. O Brasil que sonhava com vitórias nos campos de batalha. O Brasil que se vestia de branco e azul. Morreu. Pelas chuteiras que apedrejam. Morreu às cinco da tarde em um chute de Alcides.

O alferes Barbosa no chão. Corpo e alma dilacerados e inconfidentes. Sem Bastilhas. Porém, com a cabeça do prefeito guilhotinada. Transformada em bola de pelada pela turba igualitária.

O Brasil sonhado por poetas de quinta categoria. Por políticos de plantão em São Januário. Por técnicos que se elegeriam nas Touradas de Madri. O Brasil já não existia.

Outro Brasil nascia.

Verde e amarelo. Um Brasil de inesquecíveis vitórias e derrotas. Um Brasil, entretanto, com a memória do luto. A memória Rodrigueana de Hiroshima. Um Brasil que reconheceu a vergonha da lona.

Muitos caluniaram este Brasil. Seria uma terra de covardes. Mulatos e sifilíticos craques sem pedigree. Cachorros vira-latas.

Melhor seriam os ingleses. Muito melhor os alemães. Insuperáveis os norte-americanos que curtiam baseball.

Mal sabiam os sábios. O Brasil não era Pedro I nem Pedro II. O Brasil não era 1808. O Brasil não era a elite do café com leite e açúcar. O Brasil era a mão calejada das arquibancadas. Do sonho desfeito numa tarde de domingo.

O Brasil era a lágrima do 16 de julho de 1950. Reerguendo-se na segunda-feira silenciosa.

Mentem os livros de história. Como sempre.

O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.

O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.

O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.

Às margens do Rio Maracanã.

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