Por Cássio Andrade
Meses após assumir o papado em 2004, Bento XVI em visita a um antigo campo de concentração, teve um raro momento de emoção ao afirmar a frase: “Onde estava Deus?”. Não se sabe se para evitar o desgaste da mídia internacional que o acusava de colaborador e membro do exército nazista em sua juventude, ou por crise existencial, Bento XVI fez essa sensível afirmação – corajosa em se tratando de um Papa – ao evidenciar os terríveis massacres de judeus pelos alemães. Com assombroso cabedal filosófico, Bento XVI discorreu desde o existencialismo laico de Sartre ao existencialismo cristão de Karl Jasper, passando por Bubber, para rememorar a clarividência do mal naqueles tempos sombrios.
Sem a presunção de parodiar o iluminado Bento XVI, mas fazendo um exercício de Juca Kfouri, em tempos de proselitismos jorginianos e kakaqueanos, fico agora a operar a seguinte e profunda questão problemática: onde estava Deus naquele fatídico 02 de julho de 2010? Sim, pois em quatro anos de seleção, após o fracasso da hedonista e dionisíaca seleção de 2006, o que mais ouvi, vi e li foram preleções salvíficas, prédicas messiânicas e regras morais de castidade. No lugar do prazer, a regra; do drible, a marcação severa; da malemolência sadia, o compromisso. Sob o véu de tudo o que foi sagrado, Jorginho/Kaká e seu apostolado.
Para eliminar o pecado original e a perda do paraíso em 2006, Dunga tornou-se um cristão-novo, sob o beneplácito de um anticristo convertido:
Ricardo Teixeira. Ai de quem ousasse desafiar a trindade suprema! Novas Inquisições foram formadas e fogueiras calvinistas foram acesas. Hereges e
seus pecados foram logo classificados: Roberto Carlos e seu meião, Ronaldo Gaúcho entre dentes e baladas e o índex foi aumentando. Kaká tentou se
rebelar, de início, mas não quis parecer o ex-anjo da luz e se aprumou na teogonia do Bispo. Até ex-pecadores, como Luís Fabiano, foram arrebatados.
Vedem-se os baralhos e pagodes! Morte à tradição! Axiomas lançados e pecados foram purgados em nome do compromisso. Até Robinho perdeu o brilho laico para se submeter aos novos tempos. Ah esse bendito compromisso! Um dogma, uma missão, uma escatologia. Em nome dele, exclusões e afogamentos de gansos (epa, lascívia, não…). Suores sem gozo, transpirações em combate. E haja contenção. Como Deus se regozijava!
A certeza estava à frente, a história, na mão. Pronto, eis que se aproximava o momento final do acerto de contas. A final da Copa seria somente um detalhe para os novos prosélitos. Em verdade em verdade, a luta final dos arrebatados. Deus seria fiel e jamais abandonaria os justos e puros de coração que tudo poderiam Naquele que os fortalecia. O apocalipse, a redenção, um novo reino dos céus nos templos verdes de um continente pagão, de negros animistas e marcados pelo sinal de Caim.
E não é que Deus dormiu no ponto? Talvez dotado de uma santa soberba, depois de assistir um primeiro tempo primoroso, desligou a televisão e foi cuidar de outros assuntos (sim, Deus, ao contrário do que alguns pensam, tem outras coisas mais sérias para cuidar, considerando que o país de seus
apóstolos estava convivendo com a tragédia de Pernambuco e Alagoas). Tempo suficiente para que o inimigo do inferno, o Príncipe das Trevas,
passasse em campo e desse um empurrão em Júlio César, um cocorote na carequinha do holandês e entrasse de novo no corpo do Felipe Melo. Pronto,
o estrago foi feito. E agora? Senhor nos abandonou? Foi obra do demo no cochilo do Senhor? Ficou a versão.
Passados os dias e vendo a Holanda chegar à final, recebo um e-mail de São Pedro: “Meu caro, deixe de culpar Deus ou o demônio. São Paulo às
vezes apronta!”.
Excelente!
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A tese de São Pedro agora parece confirmada com a possibilidade do Morumbi voltar a ser sede, Fábio. O diabo é que esses dois já não se entendiam à época do Novo Testamento, daí a dúvida, mas quem sou eu para questionar o camarada das chaves…Rs.
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Cassio, parabéns pela crônica, e acho que não devemos colocar a culpa em Deus nem no diabo, nem em São Paulo, mas quem sabe na Santissima trindade: Ricardo teixeira, Dunga e Blater?
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O defeito é de fábrica. Culpa dos aparelhos reprodutores? Interessante é saber que o professor Pardal fica indignado com seu invento e procura um Dunga para Cristo.
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Com certeza Deus estava em Santiago de Compostela. Desconfio, há muito, que o Mestre preferiu a Espanha para alegrar-se nesta Copa.
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Nada mais divinalmente justo do que dentre os quatro melhores do mundo três sejam europeus porque acreditaram na razão, planejaram com fé na lógica e levaram seleções para ganhar a copa e não para provar que a vitória do bem sobre o mal está na fé.
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Tem que mesclar santos e pecadores. Seleção só de santos não ganha Copa. Desconfio que o Senhor deixou de se revelar pela palavra e pelo homem encarnado. Seu instrumento de revelação agora é um molusco para confirmar a tese que “a voz do polvo é a voz de Deus”.
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