
Essas medidas encantaram Donald Trump, que tuitou entusiasmado “Parabéns ao presidente @JairBolsonaro que acaba de fazer um grande discurso de posse — os EUA estão com você”.
Bolsonaro retribuiu o amor tuitando em resposta: “Juntos, sob a proteção de Deus, havemos de trazer prosperidade e progresso para nossos povos”.
As decisões [iniciais] de Bolsonaro são tristes, mas não inesperadas. O novo governante do Brasil é um ex-militar cujos únicos feitos notáveis em 27 anos de mandato no Congresso foram os brutais insultos a mulheres, minorias sexuais e negros.
“Bandido bom é bandido morto”, ele declarava. Prometeu mandar “os criminosos vermelhos” para a prisão e o exílio. Dedicou seu voto pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff ao militar que a torturou durante a ditadura.
Nada disso pareceu importar aos eleitores enfrentando um colapso econômico, uma onda de crimes e um escândalo de corrupção que mina qualquer confiança no Sistema político.
A promessa de mudança feita por Bolsonaro — qualquer mudança — foi suficiente para guindá-lo à Presidência com 55% dos votos em outubro passado.
A linguagem de seu discurso de posse — “Hoje é o dia em que o povo brasileiro se livra do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto” — soou como música nos ouvidos de sua base reacionária, dos investidores e de Trump, que compartilham seus valores e sua fanfarronice.
A Bolsa de Valores saltou para um recorde positivo e a cotação do Real subiu frente ao dólar. Mobilizar a raiva, o ódio e o medo é uma estratégia familiar aos aspirantes a ditadores. Bolsonaro nada de braçada no mesmo enredo de tipos como Rodrigo Duterte, das Filipinas, Viktor Orban, da Hungria, e Recep Tayyip Erdogan, da Turquia.
Bolsonaro também é apelidado de “Trump dos Trópicos” por seus comentários ultrajantes e sua base política formada por cristãos evangélicos, elites endinheiradas, políticos covardes e militares linha-dura.
Mas atacar minorias e fazer promessas grandiosas serve apenas para compensar a ausência de capacidade de governar e a falta de um programa coerente. Ao longo da primeira semana de Bolsonaro no posto, os mesmos investidores e militares que celebraram o presidente reacionário também tiveram motivos para alarme.
Enquanto o ministro da Economia Paulo Guedes — um neoliberal formado na Universidade de Chicago que deu aulas no Chile, na era Pinochet — prometia reformar a complicada Previdência brasileira, Bolsonaro saiu do script para sugerir uma idade mínima para a aposentadoria muito inferior ao que preconiza sua equipe econômica.
Ele também alarmou muitos eleitores quando, desdizendo compromissos de campanha, falou de aumentar impostos, ou quando sugeriu rever a venda da Embraer à Boeing e cogitou permitir a instalação de uma base militar americana em território brasileiro.
O ministro da Casa Civil declarou que o presidente “se enganou” sobre o aumento de impostos, as ações da Embraer despencaram na Bolsa e os generais se mostraram claramente descontentes.
Bolsonaro está apenas no começo. Enquanto ele ganha impulso, com a memória da ditadura militar ainda presente, muito vai depender da capacidade das instituições brasileiras de resistirem a seu assalto autocrático.
Muito, também, vai depender da capacidade de Bolsonaro de executar as reclamadas reformas econômicas. Esse teste começa em fevereiro, com a posse do novo Congresso. O presidente comanda uma coalizão instável de vários partidos e está fadado a enfrentar uma forte oposição a suas reformas.
O Brasil está diante de um ano decisivo.
Antes fosse apenas um ano, mas serão quatro. Quatro anos de enfrentamento. Não vai ser fácil…
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