O endereço da paixão

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Por Osvaldo Coimbra

Num dia de junho de 1927, Mário de Andrade decidiu escrever para Manuel Bandeira, seu companheiro na grande aventura intelectual de sua vida: a da introdução do ideário estético do Modernismo na já mofada produção literária brasileira.

O paulistano Mário queria falar da paixão que estava experimentando em outra aventura intelectual. Nela mergulhara desde o mês anterior e ainda a estenderia por mais de 60 dias. Estava imerso na cultura da Amazônia, região da qual ele iria extrair seu maior personagem, Macunaíma. Naquela carta, que depois foi publicado em “O turista aprendiz”, Mário começa mencionando seu futuro próximo. Escreveu: “Por esse mundo de águas, junho, 27. Manu, amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas”. Mas, logo, ele se ocupou com aquilo que queria realmente contar.

Prosseguiu: “Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa milhor do que isso, Manu (…) Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra.

Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…Um abraço do Mário”.

Ao endereço no qual Mário queria “passar uns meses morando”, chegou nove anos depois, a maior cantora lírica nacional, Bidu Sayão. Acompanhava-a sua mãe, Maria José de Oliveira Sayão. No diário que escrevia, Maria anotou, em 2 de dezembro de 1936: “Chegamos a Belém do Pará, ficando hospedadas no Grande Hotel. Que é magnífico”. Veio, depois disto, o atormentado período da Grande Guerra. Mas, mesmo naquela década, a de 1940, se hospedou ali o gênio do cinema, Orson Welles. Que se preparava-se para filmar “É tudo verdade”, no Brasil.

Numa noite, Welles foi ao Amazon Room, o salão dançante do hotel. E – registra Pedro Veriano, em “Cinema Tucupi” – formou um par, para dançar, com a jovem Nieli Llopis, filha de Joaquin Llopis, dono do “Politheama” e do “Odeon”, os primeiros cinemas de Belém, inaugurados cerca de 40 anos antes.

O Grande Hotel atingia, àquela altura, sua plenitude. Era o abrigo das tripulações dos aviões da Pan American Airways, que pousavam regularmente em Belém. Em 1946, um grupo de hoteleiros britânicos ligados à empresa de aviação o comprou. Tornaram-no o primeiro daquela empresa, fora de Londres. E, mais tarde, fizeram dele o marco inaugural da gigantesca rede de hotelaria InterContinental Hotels Group, hoje, presente, em 104 países.

Na década seguinte, a dos Anos Dourados, foi no Cine-teatro Pálace – no interior do Grande Hotel -, que ocorreram os grandes bailes de gala da Amazônia. Neles, adolescentes exibiam seus ombros, enquanto cobriam os braços com longas luvas e portavam saias compridas estufadas por anáguas que lhes chegavam quase aos pés.
Depois, veio a noite escura que, por duas décadas, cobriu o País com o Golpe Militar de 1964. O hotel já não rendia o suficiente para aplacar a ganância dos hoteleiros ingleses. E eles o venderam. Em 1974, quando já pertencia à rede hoteleira norte-americana Hilton, o Grande Hotel foi demolido. Para, no lugar dele, se erguer espigão inexpressivo, supostamente moderno.

Em 2008, o hotel parecia apagado na lembrança dos profissionais de sua área no Brasil. Porém, naquele ano, a ABIH – Associação Brasileira da Indústria de Hotéis divulgou uma pesquisa sobre os 15 hotéis mais importantes para a História daquele setor da economia do País, no livro “História da Hotelaria do Brasil”. O Grande Hotel, de Belém, ocupou 10 páginas da obra, logo depois dos espaços semelhantes dedicados ao Copacabana e ao Glória – cariocas -, e, ao Esplanada – paulistano.

Ao analisar o livro, num ensaio publicado pela Revista Arquiteturismo, a pesquisadora da Universidade de São Paulo, Ana Spolon disse que há quem considere o São Paulo Hilton como o primeiro hotel internacional do País. Mas – ela corrigiu – na verdade, “o Grande Hotel de Belém é que detém o título”.

Lavanderia press

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Por Leandro Fortes

É de uma ironia cruel o fato de que, iniciado circo fascista dos Bolsonaros, a turba de jornalistas que mentiu, manipulou, inventou, deturpou e, no limite, se omitiu antes e durante o golpe que derrubou Dilma Rousseff, em 2016, esteja sendo chamada, agora, de esquerdista.

Tudo bem que a designação, usada como adjetivo pejorativo, venha dessa tropa de débeis mentais que dá suporte digital às sandices do Bozo, mas, ainda assim, é uma injustiça que desanda para uma malandragem antiga: a lavagem de biografia.

Na última década, assistimos, não sem alguma estupefação, dezenas de jornalistas brasileiros se alinharem ao antipetismo primário e à manipulação rasteira de informações para achincalhar os governos do Partido dos Trabalhadores, demonizar ações da esquerda e, mais grave, criminalizar os movimentos sociais. A maioria se alistou nesse exército de bajuladores de patrões apenas por sabujismo, puro e simples, certos de que não teriam que se preocupar com o futuro.

Em todas as redações, o sinal verde para atacar e tripudiar o petismo gerou um fenômeno bifurcado: de um lado, jornalistas experientes aderiram à loucura anti-petista de olho na sobrevivência e na possibilidade de ascensão, em meio à fulminante decadência do jornalismo impresso e analógico; e, de outro, o surgimento de uma nova geração de monstrinhos competitivos, lapidados nos cursinhos de trainee das velhas marcas de imprensa, adestrados para fazer, literalmente, qualquer coisa que seus chefes mandarem.

O resultado foi a consolidação de um sub-jornalismo, baseado numa visão unificada e burra da reportagem, ditado pelo baronato de mídia, voltado basicamente para uma classe média historicamente iletrada e apavorada, e para um lumpesinato urbano que começava a migrar para o WhatsApp – terreno fértil para a propagação de mentiras facilmente absorvidas pelas alminhas pequenas que inundam as redes sociais, na internet.

Ao anunciar uma mudança no eixo de alimentação de verbas para o SBT e a Record, desprezando o Grupo Globo, e ignorar completamente os jornalões remanescentes, Jair Bolsonaro forçou os patrões da velha mídia a liberar suas hordas para pressionar o novo governo, de modo a, como de costume, forçá-lo a se submeter a seus habituais caprichos. Mas era tarde demais.

Essa perda de timing, aliada à perda de credibilidade dos veículos de comunicação, ao longo dos últimos 15 anos, tornou ainda mais bizarra essa virada de opinião de certos jornalistas, nas redes sociais. O que antes era naturalizado sem nenhum pudor – o estado policial, as perseguições políticas, as prisões arbitrárias, as condenações sem prova, a corrupção dos amigos – passou a causar horror e indignação.

Gente que babava de ódio contra o PT, jornalistas subalternos que apoiaram o processo criminoso de impeachment contra Dilma para, em seguida, participarem daquela entrevista patética com Michel Temer, no Roda Viva, estão agora no Twitter e no Facebook fazendo textões contra o tratamento que a imprensa teve na posse do Bozo, como se não tivessem culpa direta por tudo que está acontecendo.

Eu, de minha parte, não vou deixar essas madalenas caírem no esquecimento, impunemente.