O renascimento da Estrela

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POR GERSON NOGUEIRA

Há coisas que só acontecem ao Botafogo. Cresci ouvindo a máxima cunhada lá nos primórdios pelos primeiros abnegados e baluartes da Estrela Solitária. De vez em quando, ela volta à cena, lembrada por motivos quase sempre pouco lisonjeiros, como alguns tropeços incríveis diante de adversários menos qualificados.

Desta vez, porém, o chiste se aplica perfeitamente à grande arrancada que o time deu nas últimas 12 rodadas da Série A. Olhado com certa pena até a metade do Brasileiro, posicionando-se sempre na parte inferior da tabela de classificação, o Botafogo capengava e parecia destinado a novo rebaixamento.

unnamedO time era praticamente o mesmo da disputa da Série B de 2015. Sem grana para contratações de vulto, o clube só conseguiu como reforços o zagueiro argentino Joel Carli, o goleiro Sidão e o meia-armador Camilo. Para piorar, o ídolo Jefferson se lesionou e ficou fora da competição.

Ricardo Gomes, mantido no comando técnico depois do título da Segunda Divisão, encontrava dificuldades para manter o nível de competitividade exigido pela Série A. Cada novo insucesso fazia com que o time afundasse mais, abatendo os jogadores e desmotivando a torcida.

Uma mudança que não dependeu da vontade dos dirigentes do Botafogo acabou precipitando a reação. Naquele tipo de combinação feliz que o futebol por vezes permite, Ricardo Gomes se encantou com proposta salarial do São Paulo e deixou o clube.

A solução encontrada foi promover o auxiliar Jair Ventura. A medida, de ordem prática e financeira, acabou se encaixando como luva na situação do Botafogo. Jair, filho do mito Jairzinho, Furacão da Copa, é profundo conhecedor das entranhas do clube e tem especial ligação com as divisões de base.

Em poucos jogos, mostrou que a inexperiência podia ser superada pelo olhar mais próximo da realidade do clube. Promoveu jogadores que estavam esquecidos no elenco, fortaleceu a marcação e passou a escalar o time com jogadores oriundos do sub-20 (campeão brasileiro da temporada).

O que parecia miragem tornou-se meta viável. O primeiro passo da gestão de Jair Ventura foi se distanciar da zona da degola. Para isso, conquistou cinco vitórias seguidas e um empate. Perdeu depois para o Santos, num descuido da zaga, mas se recuperou em seguida com triunfos convincentes, incluindo Grêmio e Cruzeiro, este fora de casa.

De repente, o time foi subindo e abriu até a possibilidade de brigar por uma vaga na Libertadores. Na verdade, a meta é permanecer entre os dez primeiros (é o oitavo neste momento), fato que já permite ao Botafogo ser olhado com mais respeito. O esforço da equipe e a competência do técnico foram decisivos para deixar o fundo do poço.

Parece pouco, mas representa um renascimento, principalmente para um clube que luta com tantas dificuldades financeiras.

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Trajano: fim de um ciclo ou retrato da intolerância?

Os programas esportivos na TV ficam mais monótonos a partir de agora. O telespectador não verá por algum tempo o destemor temperado de mau humor e a transparência nos posicionamentos de José Trajano. Ele foi desligado da ESPN na última sexta-feira, oficialmente por “contenção de despesas”.

O estranho da história é que medida de ordem econômica atinge justamente o fundador e primeiro gestor do canal esportivo no Brasil. Era também seu nome mais marcante, atraindo uma legião de fiéis assinantes há mais de duas décadas.

Goste-se ou não do estilo de Trajano, famoso pelas carraspanas no ar, é forçoso reconhecer que ele significava um oásis de opinião séria em meio a tantos pernas de pau que povoam o cenário esportivo na televisão, quase sempre boleiros aposentados.

Trajano não tem papas na língua e ousou manifestar até suas posições políticas, claramente de esquerda. Talvez tenha sido este o pecado que levou à sua demissão. Até porque há no Brasil a mania de achar que cronistas esportivos só devem falar de esportes. Como mestre João Saldanha, Trajano sempre se opôs a isso. Desafiou o coro dos contentes ou o riso das hienas.

Não importa, continua digno do respeito daqueles que admiram a exposição livre de ideias, sem medos ou barreiras. Que volte logo ao trabalho. A TV brasileira precisa de gente assim.

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Mais dois clubes nacionais na Libertadores 2017

A grande notícia de ontem, via Twitter, foi o anúncio pela CBF de que o Brasil terá mais duas vagas na Copa Libertadores de 2017. Com isso, o Campeonato Brasileiro deste ano já terá um G6 classificatório para o torneio continental.

Apesar de abrir oportunidades para mais clubes, a modificação no sistema de disputa da Libertadores deve ocasionar uma série de problemas (inclusive de logística) que a Conmebol precisa resolver a tempo.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 03)

4 comentários em “O renascimento da Estrela

  1. Botafogo sempre foi isso. Uma surpresa , tanto a favor quanto contra. É bom viver esse momento novamente, pois o cube estava no caminho certo. Lutou pelo Brasileirão de 2007 , 2011 e 2013, foi pra libertadores de 2014, mas uma péssima administração quase estragou tudo levando-nos a um novo rebaixamento. Mas com uma diretoria série e sem promessas as coisas estão entrando na sua órbita natural. Vamos conseguir essas vaga da libertadores e ano que vem será mais um passo do nosso alívio financeiro, e em breve voltaremos mais fortes.

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  2. O Botafogo é ruim? Era. Com a ascensão de Jair Ventura ao comando o Fogão deixou de ser aposta de 9 entre 10 pitonisas que teimam em sentenciar quem vai cair desde a primeira rodada.
    Quantos craques foram contratados pra essa arrancada fantástica? A rigor nenhum. Tirando o Camilo, ídolo do mediano Chapecoense, o elenco é praticamente o mesmo do início do campeonato.
    Enfim, tudo se resume à dedicação, assimilação e espírito de equipe, algo curiosamente estranho no Brasil, onde o personalismo vai do comportamento no trânsito até o desempenho no futebol.
    Seria bom se a atitude do Botafogo fosse copiada, principalmente para quem não dispõe dos milhões pra formar times milionários. Com efeito, em um futebol que sempre espera salvadores da pátria, congratulemo-nos com uma equipe operária, solidária e apologista da virtude coletiva.

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