Cinel, o empresário polêmico por trás de Dória

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POR LUIS NASSIF, no Jornal GGN

Não foi uma simples derrota do PT, a de Fernando Haddad não indo sequer para o segundo turno das eleições municipais. Foi a derrota do mais relevante gestor da cidade desde Prestes Maia, o prefeito que jogou São Paulo no século 21 enfrentando tabus, dando o primeiro corte da civilização do automóvel.

Assume um empresário jejuno em política, João Dória Jr., que se tornou especialista em grandes negócios através de sua empresa de eventos e lobby, a LIDE – Liderança Empresarial..

A vitória de Dória se deveu ao bom uso do tempo de televisão, por um tarimbado animador de eventos, e o maior tempo entre os candidatos. O segundo fator foi a abundância de recursos para a campanha.

Nenhum dos demais candidatos tinha os recursos financeiros que Doria dispôs. Conhecido por sua fama de sovina, esses recursos não vieram dele, mas de uma rede capitaneada por Washington Cinel, figura controvertida, dono da Gocil, empresa terceirizadora de serviços que se tornou parceira permanente de Doria.

Trata-se de uma parceria milionária. Cinel tornou-se presidente da LIDE Segurança, o braço da LIDE de Dória voltado para o setor, passando a cuidar da terceirização de serviços dos clientes de Dória. Por conta dessa parceria, tonaram-se carne e unha.

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Foi Washington quem bancou o grande evento que recepcionou o juiz Sérgio Moro. O juiz saiu engrandecido, aparecendo em fotos ao lado de Doria, Cinel e do deputado Fernando Capez, envolvido no caso conhecido como “a máfia da merenda”.

Graças a esse relacionamento com Doria, na gestão Alckmin a Gocil conseguiu os melhores contratos de terceirização do estado, tornando-se o grande fornecedor de mão de obra para companhias estaduais, especialmente o Metrô. Cinel substituiu Antônio Dias Felipe, compadre de Mário Covas e que, no seu governo, dominava a terceirização do Estado através de sua empresa, a Tejofran, que chegou a ter 40 mil funcionários trabalhando para o estado.

Quem opera os contratos da Gocil no Estado é seu executivo Helder Peçanha, a partir do QG da Gocil na Vila Olímpia, um prédio enorme, novo, todo negro de 11 andares, com a segurança maior que o Forte Apache, o Comando do Exercito em Brasília.

Cinel reservou para si uma sala imensa no ultimo andar onde oferece lautos almoços servidos por garçons de luxo. Os comensais são geralmente autoridades-clientes.

O crescimento extraordinário da fortuna de Cinel não tem explicação plausível por capacidade empresarial. Ele comprou a casa do maior industrial do Brasil, José Ermírio de Moraes e depois adquiriu casas vizinhas. Hoje sua propriedade vai da Rua Costa Rica até a rua Groenlândia, compondo um triângulo curioso: mora em frente da casa de Paulo Maluf e ao lado da casa de J. Hawila.

Além de sua monumental casa em São Paulo, uma das 10 maiores do Brasil, Cinel tem muitas fazendas na região de Bauru, sua terra, em Mato Grosso, casa de praia em Tabatinga e uma mega mansão em Miami, onde passa seis meses por ano, além de sociedade em muitos outros negócios.

Sua coleção de obras de arte, móveis antigos e antiguidades raras é toda comprada em Londres, para onde manda seus agentes arrematarem em leilões do Sotheby e Christie, sem jamais ter sido incomodado pela Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) ou outros órgãos de fiscalização financeira.

Cinel deve a Doria o incremento de suas ligações com o Estado, são sócios ligados por objetivos comuns, a grande habilidade de Cinel e se fazer desapercebido, mesmo enfrentando problemas imensos com o fisco e sabendo-se que suas empresas não resistem a um pente fino. Por problemas fiscais durante algum tempo chegou a ficar sem documentação em São Paulo, precisando usar a de uma filial no Paraná para fechar os contratos com a área pública.

Sua imagem no setor de segurança não é boa. Costuma avançar com ferocidade sobre clientes de outras empresas.

Recentemente perdeu seu maior cliente privado, Casas Bahia, mas nem se abalou porque o Estado lhe garante o faturamento e recebe em dia. No momento de um apogeu da Lava Jato é surreal como esses novos-velhos “esquemões” brotem nas barbas de investigadores que parecem saber de tudo.

Papão 5, Vasco 1

POR GERSON NOGUEIRA

Com autoridade e confiança, o Papão conseguiu em 45 minutos salvar um jogo que quase se transformou em outro tropeço dentro de casa. Depois de perder o primeiro tempo por 1 a 0 e se atrapalhar com a marcação imposta pelo Vasco, o time de Dado Cavalcanti achou um gol logo no começo da etapa final e partiu para a virada com postura determinada, equilibrando as ações e tendo frieza para liquidar a fatura.

Curiosamente, o panorama da primeira etapa não permitia prever um bom desfecho para o Papão na partida. O time se comportava com os mesmos vícios de sempre, principalmente quanto à fraca participação dos laterais e a fragilidade no setor de criação. Atento a isso, o Vasco adiantou seus marcadores para obstruir a saída de bola.

A estratégia deu certo, dificultando as ações do Papão e anulando jogadores importantes, como Tiago Luís e Jonathan. A única escapada era pelo lado direito, mas Ratinho insistia nos cruzamentos, mas sem direção.

Depois do golaço de Ederson, em sensacional voleio, aos 14 minutos, a situação ficou ainda mais favorável aos visitantes. Bem fechado quando sofria pressão, o Vasco saía rapidamente em contra-ataques perigosos com até quatro homens na frente. Não ampliou o marcador por excesso de preciosismo em alguns lances.

Nervoso e errando passes, o Papão não ameaçava porque Tiago Luís ficava preso no caixote de marcação montado pelo Vasco e porque Leandro Cearense recebia bolas rifadas, sempre sob forte cerco dos zagueiros.

No intervalo, Dado substituiu Lucas por João Lucas para aumentar as subidas pelo lado esquerdo. Apesar disso, os méritos da virada devem ser atribuídos a Tiago Luís e Gilvan. O primeiro pelo chute sinuoso, que forçou o rebote do goleiro Martin Silva bem nos pés de Gilvan, que estufou o barbante, logo aos 3 minutos.

Com o empate, a torcida teve motivos para vibrar e incentivar ainda mais, eletrizando a partida. Mais organizado, o Papão partiu para buscar a vitória. O segundo gol nasceria aos 18 minutos de inspirada jogada de Cearense, que lançou a bola para Bruno Veiga na área. O atacante, que havia acabado de entrar (substituiu a Jobinho), escorou de cabeça no canto esquerdo da trave cruzmaltina.

A virada trouxe ainda mais confiança ao Papão, que passou a insistir mais com as jogadas pelos lados e saindo com mais qualidade de seu campo. O bloqueio vascaíno já não era tão eficiente, além do visível impacto com o gol de Bruno Veiga.

Mesmo sem a segurança que exibia no primeiro tempo, o Vasco continuava agressivo. Andrezinho acionava Ederson e Thales, que levavam perigo com a movimentação dentro da área do Papão. Entre os 20 e os 40 minutos, o confronto ficou aberto, com possibilidades para os dois lados, embora o recuo alviceleste tenha deixado o Vasco mais próximo do gol. Chegou até a fazer, mas a arbitragem apontou impedimento.

Já no final, quando o Vasco ainda perseguia o empate, João Lucas invadiu a área e bateu cruzado, vencendo o goleiro Martin Silva e estabelecendo o placar final de 3 a 1. Por coincidência, tanto Bruno Veiga quanto João Lucas saíram do banco para assegurar a vitória.

A atuação do segundo tempo confirma a boa performance do Papão no Mangueirão, onde está invicto há mais de um ano. Mais que isso: o triunfo deixa o time mais tranquilo para as nove rodadas finais da Série B, nas quais precisará de nove pontos para garantir permanência.

Dado ganhou também uma nova alternativa para o ataque, que vivia exclusivamente do esforço de Cearense (novamente muito bem ontem): Bruno Veiga, recuperado, volta com faro aguçado de gol.

E, de quebra, foi a segunda vitória do Papão sobre o Vasco na competição, impondo a vantagem insofismável de 5 a 1 no placar agregado.

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A competência dos empresários da bola

Há jogadores com indiscutível competência para arranjar bons empresários. Leandrão, que passou pelo Remo sem deixar grandes lembranças, é um deles. É a primeira alternativa de substituição para o ataque do Vasco, sendo lançado sempre pelo técnico Jorginho, mesmo sem ter mostrado qualquer mérito para desfrutar dessa condição.

Lento e sem pontaria, não convence nem mesmo entrando no final das partidas para lutar contra zagueiros cansados.Ontem não foi diferente. Perdia o tempo da bola nos cruzamentos e só teve participação em dois lances, sem maior perigo para o gol de Emerson.

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A timidez de Pikachu no reencontro com a Fiel

Alvo do carinho da torcida do Papão no Mangueirão, Yago Pikachu parecia encabulado e pouco rendeu de produtivo para o seu time. Não faltou empenho e disposição, mas não se viu a conhecida habilidade para aproveitar lances junto à área. Do jogador que liderava o Papão até o ano passado só foi possível ver alguns lampejos.

Pode-se dizer que o retorno ao Mangueirão inibiu o ala ofensivo vascaíno. Um dos destaques do time nesta Série B, mostrou-se pouco à vontade, quase encabulado e acabou substituído mais cedo. De certa forma, o coração alviceleste parece ter falado mais alto.

(Coluna publicada no Bola desta quarta-feira, 05)

Trajano: “O macarthismo está no ar”

O jornalista José Trajano foi demitido da ESPN depois de 21 anos de casa na semana passada.Um dos comentaristas esportivos mais conhecidos do país, uma das principais presenças do “Linha de Passe” (às segundas e sextas-feiras), ele tem como marca registrada adjacente a militância política.

Brizolista, Trajano se manifestou em diversas ocasiões contra a escalada da direita, especialmente depois do golpe. Gravou vídeos chamando para manifestações, falando o que precisava ser dito, e chegou a discursar num caminhão no Largo da Batata, em São Paulo.

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Sua dispensa aconteceu após uma participação num ato de apoio a Fernando Haddad na Casa de Portugal, no centro da capital paulista. A direção do canal alega que foi por contenção de custos, mas você precisa ser um inocente para não juntar os pontinhos.

“O macartismo está no ar”, disse ele ao DCM do Rio de Janeiro, onde está descansando (ele é um orgulhoso filho da Tijuca). Seu depoimento:

“Eles dizem que não foi retaliação política, mas não é possível que não tenha sido isso também. Falaram em contenção de despesas.

“Quando deixei a direção da ESPN, cinco anos atrás, eu ganhava pela CLT e um plus como comentarista.Fizeram um novo contrato, que incluía a função de consultor. Passei a receber por participação nas atrações.

“Toda semana, dois programas. Se fosse para fazer economia, podia fazer só o da segunda. No início, ganhava 3.500 reais por participação, mais 4.500 reais no Linha de Passe (onde era titular).

“Nos últimos anos, me chamaram umas três vezes por causa de coisas como vídeos que gravei conclamando as pessoas a ir a manifestações. O diretor, German Von Hartenstein, me falava que isso é chato para nós etc.

“Antes da Olimpíada, me deram um papel para assinar, segundo o qual que os talents‘ da ESPN não devem se envolver em questões políticas etc. Diretrizes da matriz nos EUA.

“Eles me diziam, nesses encontros, que eu era a cara da ESPN etc. Bom, então mandaram embora a cara da ESPN. Não assinei o documento. Nem sei mais onde está.

“Acabou a Olimpíada e eu fui pra Portugal. Eu podia tirar férias, de acordo com o contrato. Voltei numa segunda-feira e já fui fazer o programa. Estava de jet lag. Me chamaram na quinta. Esse período é complicado na empresa. O ano fiscal é o americano, que vai até 31 de setembro. Por isso tem muita demissão nessa época.

“O German começou de maneira amistosa. Viu a lanchonete nova?, perguntou. Depois de um tempo, soltou:Tenho uma notícia ruim pra você. Estamos em contenção de despesas e temos de dispensar você. Nossa advogada já está ali e nós vamos pagar a multa.

Basicamente, foi assim.

Me impressionou muito a solidariedade. No Facebook, pelo WhatsApp, na imprensa… Não sei o que vou fazer, mas agora não tem mais ninguém pra me encher o saco.

Depois de 21 anos no mesmo lugar, eu fui pego de surpresa. A relação com a ESPN era diferente da que eu tinha em outros lugares porque que sou criador do canal. É forte.

Fica claro que eles não gostavam do que eu fazia. Incomodava, inclusive, a direção nos Estados Unidos. Soube disso internamente. Mandaram um vídeo meu para lá.

A briga com o Gentili também foi decisiva (Trajano criticou a presença do ex-comediante no “Bate-Bola Debate’’, referindo-se a ele como “um personagem engraçadinho que se posta como se fosse um sujeito que faz apologia do estupro, em nome do humor”).

A direção tomou como uma coisa desagradável. Minha saída foi a soma disso tudo. Eu era monitorado. Numa dessas reuniões com o German, ele comentou o discurso que fiz no caminhão durante um protesto no Largo da Batata.

Você falou da união das esquerdas, ele me disse. Foi mais um pontinho na minha ficha. Dois dias antes da minha demissão, fui à Casa de Portugal num ato em solidariedade a Haddad. Tinha foto minha do lado do Lula. Na manhã seguinte marcaram a conversa com o German.

O episódio do Sidney Rezende não tem a ver com o meu, mas são perseguições diferentes (Sidney foi dispensado da GloboNews em novembro de 2015 após chamar a atenção para a “demonização” do governo Dilma).

Cada caso é um caso, mas todos têm ligação entre si. Eu não me arrependo. Lembro do Niemeyer num Roda Viva, quando ele fez 80 anos. Numa certa altura, ele falou: No Brasil, só o paredón pode resolver. Quando cobraram dele essa declaração, ele devolveu que já tinha 80 e podia falar o que quisessem porque iam chamá-lo de gagá.

Eu faço 70 esse mês. A ESPN me deu esse presente. O Juca citou o Darcy Ribeiro, meu mestre, num artigo. O Darcy se orgulhava de suas derrotas.

O macartismo está no ar, em situações diferentes.”