Nas Grandes Apostas quem menos entende é quem mais sofre

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POR CARLOS LIRA, especial para o blog
 
A grata surpresa nos cinemas de Belém esta semana se chama “A Grande Aposta” (2015), longa-metragem dirigido por Adam MacKay baseado no livro homônimo de Michel Lewis.
“A Grande Aposta” narra à história de três grupos de investidores – um formado por Michael Burry (Christian Bale), outro formado por Jared Vennet (Ryan Gosling) e Mark Baum (Steve Carell em excelente atuação) e outro constituído por dois jovens investidores que pedem ajuda para Ben Rickert (Brad Pitt) – que no ano de 2006 anteciparam a crise imobiliária nos EUA, apostando todas as suas moedas no colapso do sistema hipotecário.
A primeira coisa que chama atenção no filme é a escolha do diretor Adam MacKay em manter as expressões linguísticas utilizadas pelos homens que trabalham no hermético mercado financeiro. Ao fazer esta opção, o diretor torna o filme muito difícil para o espectador não habituado com as expressões (incluo-me entre eles). Não por acaso, na sessão que frequentei duas pessoas retiraram-se no meio da sessão. No entanto, dentro da narrativa fílmica, esta é uma escolha importante, pois objetiva mostrar a plateia o quanto somos analfabetos funcionais dentro dessa estrutura hermética, porém, que nos afeta diretamente todos os dias.
Outro aspecto que chamou atenção no filme e que funciona muito bem para a composição da narrativa foi à escolha de Adam MacKay por fazer uma montagem e enquadramentos que se mantêm nervosos na tela grande. Tal opção produziu, a partir das imagens em movimento, a ideia de que o mercado financeiro é um mundo instável/caótico.
Além desses aspectos ligados diretamente a linguagem cinematográfica, “A Grande Aposta” serve como aprendizado histórico sobre a crise econômica de 2008 que começou nos EUA e depois ganhou conotação mundial.
Isto por que, o filme faz questão de colocar todas as instituições financeiras dos Estados Unidos em suspeição. Inclusive as agências de avaliação de confiabilidade, como a Stand & Poor’s, acusadas de fraudar as notas dos bancos para que estes não tivessem perdas significativas ou mesmo quebrassem.
Infelizmente, ao final da exibição do filme “A Grande Aposta”, o espectador sai com a ideia de que estamos muito mais amarrados a este sistema financeiro, que hoje impera nos países do novo e velho continente, do que imaginamos, uma vez que, em cada crise fabricada pelos bancos são os pobres, imigrantes e professores – como colocou o filme nos letreiros finais – que perdem suas casas, carros, empregos e outras coisas, com o intuito de recuperar os bancos da crise fabricada por eles.

14 comentários em “Nas Grandes Apostas quem menos entende é quem mais sofre

  1. Verdade amigo. Só esqueceu de dizer que também numa crise fabricada pelos bancos no Brasil o Lula também ajudou a reergue-los onde um bom comentarista aqui do blog postou que ele até imitou o Silvio santos dizendo aos banqueiros: ‘quem quer dinheiro???, quem quer dinheiro,?????rsrsrsrsrsrsrsrsr`
    Isto é serio e não tem como negar vejam: o Massacre dos bancos e instituições financeiras hoje contra as pessoas já chega a ser criminoso, mesmo levando em conta que vc não é obrigado a tomar um empréstimo. Se vc colocar um dinheiro numa caderneta ou qualquer tipo de investimento bancário, o juros para vc não passa de 0,3 % ao mês. Aí seu dinheiro fica lá com esse “RENDIMENTO”””
    Aí o banco empresta esse seu dinheiro para outra pessoa e sapeca um juro de cerca de mais de 10% ao mês , fora taxas de adesão e seguro. Um roubo aprovado contra o consumidor. Eu ontem fui numa agência bancária da cidade onde conversei com a gerente sobre isso e perguntei qual o motivo de tanta massacre de juros ao consumidor. Ela primeiro me respondeu que banco vive de juros e toma dinheiro emprestado quem quer ou preciso porque os juros são pré – fixados. Concordei até certo ponto com ela e insisti um pouco mais onde disse que sabia disso, mas no Tempo do Plano Real tinha diminuído muito essa farra de juros contra as pessoas. Aí Ela me respondeu o que eu temia e disse que essas taxas de juros altas(infernais) é determinação do Banco Central do Brasil. Aí caiu a ficha: quem é que manda no Banco Central do Brasil?????? ora, quem?, Ministério da Economia, Dilma, PT é evidente.

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  2. Amigo Nelio,

    Apesar de entender que todos os governos se curvaram aos bancos, alguns mais outros menos, sou obrigado a lembrá-lobque o Banco Central tem liberdade de estabelecer as taxas (Selic). Por sinal, no
    melhor período do governo, as taxas baixaram bastante (não o suficiente), mas, diante do crescimento da inflação, elas voltaram a subir.

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  3. Interessante a questão da falta de credibilidade das agências de avaliação de confiabilidade. Aí vem a pergunta que não quer calar porque agora que o Brasil teve a confiabilidade rebaixada se questiona a credibilidade da agência?

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  4. Amigo Antônio,

    O filme (A Grande Aposta) que questiona (em vários momentos, por sinal) foi produzido nos EUA.

    Eles, melhor do que ninguém, para saber das agências e suas supostas cegueiras.

    Sugiro que assista ao filme.

    Por sinal, a falta de credibilidade dos bancos e das agências são apenas um dos aspectos levantado pelo filme.

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  5. Outro dia alguém aqui da rua observou que os juros da poupança são baixíssimos e os dos empréstimos, muito altos. E as duas coisas estão relacionadas. É que os juros são a remuneração do capital conforme o risco. A poupança oferece um risco (baixíssimo) de você levar um calote, de não ter seu dinheiro de volta. Uma conta corrente é o que mais parece com um cofre, onde o dinheiro não rende nada, e você ainda paga pelo serviço de manter o dinheiro lá guardado. A poupança é uma forma de investimento como tantas outras, como ouro, fundos, CDBs, imóveis, commodities e ações. E ainda há mais que isso para investir, mas só como exemplo, está bom, porque o que quero deixar claro é que todos esses investimentos podem, mas nem sempre, render mais que a poupança porque são mais arriscados, ou seja, o risco de você não ter o seu dinheiro de volta e corrigido nesses investimentos é maior do que se tivesse aplicado na poupança.

    Isso tudo, veja bem, é que tirando a produção de bens e serviços, o jeito de ganhar dinheiro é com empréstimos, que possui várias modalidades. Todas as aplicações bancárias, ou quase todas, podem ser vistas como empréstimos feitos ao banco. Por exemplo, quando você emprega seu dinheiro na poupança, está, na verdade, emprestando ao banco que, por sua vez, empresta o capital a juros maiores a outros clientes, se responsabilizando totalmente pela devolução do seu dinheiro, com os juros prometidos pela poupança. O banco lucra mais porque ele é quem assume o risco de emprestar o capital e de devolvê-lo mesmo em caso de calote. Por isso, em cenários de crise e inadimplência alta, o banco paga menos juros à poupança, porque não pagará a mais pelo risco que corre na outra ponta do processo, quando o banco empresta o dinheiro a outros clientes e, por isso mesmo, fica mais difícil obter empréstimo bancário, mesmo quando o salário não é ão baixo. Deu para entender?

    Já no mercado de ações, você pode adquirir papéis que valem dinheiro. Uns papéis valem mais e outros menos e, conforme o tempo, alguns desses papéis desvalorizam e outros valorizam bastante. Mas os fatores que impactam nesse comportamento de valorização ou não, são um tanto imprevisíveis. As ações são papéis que dão direito a quem os adquire de obter alguma remuneração após algum tempo, se as coisas saírem bem com a empresa que as vendeu. Empresas lançam papéis, ou ações, no mercado de ações esperando arrecadar com a venda deles algum capital para investir em algum projeto próprio, como aumento de produção, aumento das exportações, etc. Por exemplo, quem comprou ações da Petrobras na época do anúncio do pré-sal, com barril a mais de 100 dólares, com direito a participação nos lucros, acreditou que o preço do petróleo se manteria por mais tempo em alta e que ganharia mais por mais tempo e, por isso, o valor da empresa atingiu patamares estratosféricos. Com a queda do preço para menos de 30 dólares atualmente, ninguém mais acredita nisso, ao menos por enquanto. As ações são uma forma de empréstimo em que o risco de perdas são grandes e as garantias são mínimas ou inexistentes.

    continua —>

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  6. Portanto, uma boa maneira de você ganhar dinheiro é investir em negócios de maior risco, certo? Errado. Uma boa maneira de ganhar dinheiro é investir em aplicações de risco mais baixo, ou então, abrir o próprio negócio. Por exemplo, entre colocar dinheiro na poupança e construir a casa própria, num cenário onde vendas a prazo são mais caras e a poupança paga pouco, não há dúvida, construir logo a casa é a melhor alternativa, porque o dinheiro tende a desvalorizar rapidamente com a inflação. Quando o cenário mostra que a poupança paga boa remuneração e as vendas a prazo não são mais caras, isso quer dizer que pode valer a pena poupar por mais tempo e só então construir o imóvel, porque o tempo que o dinheiro rende na poupança compensa a espera e permite comprar mais material de construção para a casa, porque a inflação não é significativa.

    Uma outra maneira possível, provável até, de aumentar os ganhos em investimentos é aumentar artificialmente o risco do negócio. As agências de risco podem rebaixar a nota desse ou daquele país, ou dessa ou daquela empresa, apenas para atender interesses econômicos de algum grupo de investidores (bancos, grandes fundos, especuladores bilionários). Daí o esforço do governo em pagar as contas de 2015, para que o mercado não tenha em tão alta consideração o rebaixamento do Brasil pelas agências de risco. Esse rebaixamento interessa diretamente os credores do país que podem ganhar mais com a desconfiança de que o Brasil pode se tornar um mau pagador. Daí a afirmação de que o governo vai honrar os compromissos com os investidores, uma vez que o Brasil toma empréstimos na bolsa e emite papéis do tesouro no mercado, taxados pela SELIC. Então, sem o anúncio da intenção de honrar compromissos, a percepção do risco de investir no país tende a piorar e a aumentar a SELIC também, obrigando o governo a pagar mais juros na bolsa e a fazer mais contenção nas despesas, com cortes nos gastos públicos. Por isso se diz que a economia do governo, o superávit, é o esforço para pagar dívidas e o ponto em que os analistas se baseiam para medir a intenção de pagar ou dar calote é esse superávit das contas públicas.

    Portanto, a desconfiança para com bancos e agências põe em dúvida exatamente a independência e a imparcialidade da análise de risco das agências, posto que os bancos, como principais clientes, devem interferir (e acho que interferem mesmo) no resultado da análise. Não parece haver toda essa independência e imparcialidade das agências de risco sobre o Brasil, principalmente porque os bancos, desejosos do retorno das políticas neoliberais que elevaram a SELIC até a estratosfera, apostem mesmo não só no prolongamento da recessão, mas também no recrudescimento da crise para aumentar juros e limitar empréstimos, colocando o povo novamente a viver sem crédito, e o país, a uma inflação de quase zero, porque é isso o que significa inflação zero no Brasil, ausência de crédito que, por sua vez, indica dinheiro em ações que, por sua vez, levam o investidor a investir nos melhores papéis que há, nos papéis do Tesouro Nacional.

    continua —>

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  7. Um banco e uma agência de risco, agindo em parceria, podem aumentar bastante a rentabilidade de um negócio, ou prejudica-la, no mercado de ações apenas com a perspectiva dada pela nota, porque muitos investidores são grupos de trabalhadores, pequenos fundos e pessoas mesmo que buscam por índices que signifiquem um pouco mais proteção ao capital a ser investido. Muitos dos investidores são pessoas físicas, não especialistas, como eu, que não estão satisfeitos com os rendimentos de poupanças e outras aplicações.

    É preciso ter bastante cuidado com essas análises, elas podem mesmo induzir você ao erro. Isso não é porque elas queiram te prejudicar, mas porque podem querer simplesmente favorecer alguém.

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  8. Amigo Celira, nós que vivíamos no Brasil na época em que as tais agências elevaram seu nível de confiabilidade e experimentávamos sua autêntica realidade sabíamos que elas, as agências, tem a credibilidade e os objetivos de um candidato em campanha eleitoral. A pergunta que fiz foi mais para enfatizar o componente político partidário habilmente veiculado na aparentemente despretensiosa “resenha” do filme.

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  9. Quanto ao filme, vou assisti-lo, sim. Mas, como fiz no caso do “A que horas ela volta”, somente quando ele for disponibilizado no Now da Net.

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  10. Habilmente foi ótimo, amigo Antônio.

    Na verdade, confesso que não tive a intenção de fazer este debate, tanto que concentrei o texto em torno das estratégias do diretor para o desenvolvimento da narrativa.

    Mas, não posso negar que o filme me chamou a atenção para este aspecto que estamos conversando.

    Além disso, o filme despertou minha atenção para a desconfiança com que o investidor olha para o mercado e suas instituições.

    Ver como eles tratam as instituições, me faz pensar que muitas vezes as valorizamos demais tais instituições, dando lhes valor que inexiste (o filme, apesar de abordar pouco, indica que notas são compradas).

    Mais que isso, me faz pensar que se a agência avaliativa fosse da América do Sul, os EUA fariam questão de desqualificar sua legitimidade como instituição.

    Mas, como ela fica no norte, nós, diferentemente deles, fazemos questão de reverenciá-las, para o bem ou para o mal.

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  11. Habilmente foi ótimo, amigo Antônio.

    Na verdade, confesso que não tive a intenção de fazer este debate, tanto que concentrei o texto em torno das estratégias do diretor para o desenvolvimento da narrativa.

    Mas, não posso negar que o filme me chamou a atenção para este aspecto que estamos conversando.

    É interessante como eles veem com desconfiança o mercado e suas instituições.

    Por sinal, ver como eles tratam as instituições, me faz pensar que muitas vezes as valorizamos demais, dando lhes valor demais )o filme, apesar de abordar pouco, indica que notas são compradas).

    Mais que isso, o filme me faz pensar que se as agências avaliativas fossem da América do Sul, os EUA fariam questão de desqualificá-las, retirando sua legitimidade como instituição financeira.

    No entanto, como ela fica no norte, nós, diferentemente deles, fazemos questão de reverenciá-las, para o bem ou para o mal.

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  12. Mas, amigo Celira, com ou sem a intenção de travar este debate, o certo é que a questão foi colocada, e que não diminuiu em nada o valor da resenha, muito ao contrário. Como, certa vez, muito bem disse o Titular do Blog, tudo é uma questão de tom.

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