Protestos de rua: ode à baderna!

Por Leandro Fortes

Um dos discursos mais comuns à direita brasileira é esse: peçam o que quiserem, digam o que quiserem, mas não façam baderna. E, sobretudo, não atrapalhem o trânsito. Não por outra razão, qualquer cobertura da mídia nacional sobre passeatas, manifestações e grandes movimentações de massa acabam, sempre, em manchetes de trânsito. Os camponeses foram a Brasília pedir reforma agrária? Atrapalharam o trânsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram as Esplanada dos Ministérios para pedir saúde e educação no campo? Provocaram engarrafamentos. A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele está na escola. Mas como chegar para pegá-lo a tempo, se os bárbaros impedem o trânsito?
Quando, além de parar o trânsito, os manifestantes fazem baderna, aí não! Aí já é demais! Não pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atlântica, copos-de-leite às mãos, o trânsito compreensivelmente parado para a procissão de cidadãos contritos. A polícia, claro, à distância, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifestação do mundo ideal.
Pena que para quem pega quatro conduções por dia e gasta em média quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte público não tem hakuna matata. O pau come no ponto, no ônibus lotado, nas estações de trem e metrô diariamente conflagradas. Para o usuário de transporte coletivo, todo dia tem confusão e baderna, mas é difícil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe média bem motorizada, as demandas do transporte coletivo são subterrâneas, confinadas a um universo específico sobre o qual só se tem notícia quando motoristas e cobradores entram em greve. É o dia em que a patroa de Higienópolis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almoço? E os petizes, sob a guarda de quem ficarão no playground?
E, de repente, vem a baderna.
Multidões de cidadãos, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram ônibus, depredam vidraças, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.

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O horror, o horror!

Então, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, não atrapalhem o trânsito. Políticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, não! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento histórico as barricadas de Paris, em 1968, estão, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquetéis molotov, é preciso conter os bárbaros e acabar com a baderna. Não interessa se eles vivem em panelas de pressão, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma miséria e, agora, terão que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento diário. O que importa é que eles, baderneiros, estão atrapalhando o trânsito.
Então, a solução é descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polonês.
Que a violência policial contra os manifestantes venha do governo de São Paulo, não causa espécie a ninguém. O PSDB é um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin é um numerário da Opus Dei, organização católica de extrema-direita, e a PM de São Paulo é um substrato intocável do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas são os cães de guarda desse sistema. Não há disfunção alguma no que estão fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higienópolis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas próximas eleições, o povo de São Paulo.
Mas, onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro.
Nessa vergonhosa escalada de violência tocada pelo governo tucano de São Paulo, não podia faltar, claro, o apoio da mídia. Não há manifestantes para a ela, mas só baderneiros. Manifestantes são franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, são vândalos e desocupados interessados em depredar o patrimônio público, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a segurança física dos ônibus usados pelos pobres.
Perdão, gente indignada com os vândalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.

16 comentários em “Protestos de rua: ode à baderna!

  1. IDIOTA é isso que tu és lendro fortes. Incitar ou fazer apologia à violencia mais do que ja temos nem merece comentário. Mas infelsimente não podemos calar diante de tanta asneira falada por ti. Dizer que essa guerra era de mobilização social, de interesse coletivo, em beneficio da maioria e hipocrisia mas da tua parte camarada. aquilo era vandalismo puro mesmo praticada por macanheiros, partidarios politicos, desordeiros e uma minoria de estudantes e pessoas de bem que se deixaram influenciar. O obetivo não reduzir passagem nada, o objetivo oculto era politicagem tendenciosa de uma minoria. Os maiores prejudicados foram as pessoas que nada tinham a ver, agredidas, patrimonio depredado, logradouros publicos e particulares destruidos. Se a moda pegar o Brasil vai ter uma guerra civil de proporçoes incalculaveis, porque produtos e serviçoes sobem todos os dias, preço de alimentos estão pela hora da morte ou da fome. combustivel e remedio aumenta sem controle e nem por isso vejo esses vandalos quebrarem supermercado, posto de combustivel, farmacias, nada. mas a passagem de onibus que fica congelada por doze meses, não pode aumentar porque ocorre essa guerra. hipocrisia mesmo é ver esse leandro fortes incitando violencia e depois com camisa branca numa avenida desse pais fazendo campanha pela paz. durma com um barulho desses.

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  2. Gerson, o Jabor já fez sua mea culpa sobre os movimentos de rua nas metrópoles brasileiras… todo cuidado é pouco, caros “vândalos”. A direita hidrófoba já está querendo pular de paraquedas…

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  3. Políticos
    É hora de se colocar toda a sociedade na roda. Mas não ficar apenas na discussão das tarifas dos ônibus. Os políticos estão tremendo de medo de um basta rotundo para todas as mazelas. Escrevi sobre isso também em meu blog: nairoalmeri.blogspot.com.br.

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  4. Os jovens estão desnorteados. Mas não sao baderneiros. no passado havia toda uma estrutura para apoiar o ativismo.
    Muita gente “boa” mudou de status e vira as costas para tudo aquilo que possa lhe causar determinadas perdas.
    Eram 1.500, já se fala em 100 mil nas principais capitais . Não da para falar que logo todos irão ficar quietinhos e se assim acontecer, não será uma sumida. Vão voltar e espero que com mais intensidade e que não estejam tão solitários como hoje.

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  5. Em Belém os prtestos acontecem na Almirante barroso, saiu de S.Braz e ruma ao Entrocamento, de forma pacifica e com a PM atenta a tudo.

    Estima-se que talvez 10 mil pessoas estão no movimento.

    Corrupção e inflação, crimes e impunidade.
    Saúde fracassada e um certo descaso.

    Issó não é um problema da Dilma, é um problema do Brasil, pois nossos estados são governados por partidos diferentes. E em todos, existem esse problemas, sejam eles governados pelo PT ou PSDB, ou seja lá quem for.

    Vale o protesto, desde que seja pacifico e que não seja um partido oportunista que esteja por trás e sim o POVO.

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  6. Estou profundamente decepcionado!!! Como pode alguém escrever coisas do jaez da postagem nº 1? Hoje (agora há pouco) ficou provada e comprovada a instisfação do povo brasileiro frente à atitude de políticos calhordas.

    Como pode alguém, em são consciência, após ver as manifestações pacíficas e ordeiras em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém, e outras cidades pelo país afora. Os acontecimentos em Belo Horizonte podemos levar à conta da exceção da regra e à beligerância da Polícia, cujos componentes ainda não enfiaram na “cachola” que ELES MESMOS e seus ascendentes, descendentes, parentes, aderentes, vizinhos, etc…
    também são …..POVO.

    Talvez Maquiavel tivesse alguma razão ao dizer que o povo quer pão e circo mas os nossos políticos não estão dando nem pão nem circo, pelo contrário, estão abusando, e demais.

    Talvez no início alguns partidos políticos radicais tenham tentado liderar o movimento popular mas o nosso povo deu-lhes uma lição de civilidade ao negar-lhes essa liderança. Uma das palavras de ordem me chamou a atenção e provou que, mesmo sem uma educação que valha a pena o nosso povo aprendeu muito. O POVO UNIDO, SEM PARTIDO.

    Fico muito satisfeito ao ver nosso povo ir às ruas ordeiramente, ao contrário dos “civilizados” europeus, para exigir seus direitos.

    Vi num twite que me foi gentilmente enviado, um discurso inflamado de um norte americano incitando o povo brasileiro à revolta. É isso que eles querem, que façamos baderna e anarquia, já que para eles não passamos de selvagens anarquistas e baderneiros, poderem ter motivos e se meter aqui (principalmente na Amazônia), eles que são os paladinos dos direitos humanos e da justiça (ver Güantânamo, Cuba: Vietcong: Afganistão, etc…).

    As imagens mostradas na TV após as 17 horas lhe mostraram alguma coisa, Sr Edilson Costa?

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  7. Juan Arias ( El Pais)

    Está generando perplejidad, dentro y fuera del país, la crisis creada repentinamente en Brasil por el surgir de las protestas callejeras, primero en las ricas urbes de São Paulo y Río, y ahora extendiéndose a todo el país e incluso a los brasileños en el exterior.

    Por el momento son más las preguntas para entender lo que está aconteciendo que las respuestas a las mismas. Existe solo un cierto consenso en que Brasil, envidiado hasta ahora internacionalmente, vive una especie de esquizofrenia o paradoja que aún debe ser analizada y explicada.

    Empecemos por algunas de las preguntas:

    ¿Por qué surge ahora un movimiento de protesta como los que ya están casi de vuelta en otros países del mundo, cuando durante diez años Brasil vivió como anestesiado por su éxito compartido y aplaudido mundialmente? ¿Brasil está peor hoy que hace diez años? No, está mejor. Por lo menos es más rico, tiene menos pobres y crecen los millonarios. Es más democrático y menos desigual.

    ¿Cómo se explica, entonces, que la presidenta Dilma Rousseff, con un consenso popular de un 75%, -un récord que llegó a superar al del popular Lula da Silva-, pueda ser abucheada repetidamente en la inauguración de la Copa de las Confederaciones, en Brasilia, por casi 80.000 aficionados de clase media que pudieron darse el lujo de pagar hasta 400 dólares por una entrada?

    ¿Por qué salen a la calle a protestar por la subida de precios de los transportes públicos jóvenes que normalmente no usan esos medios porque ya tienen coche, algo impensable hace diez años?

    ¿Por qué protestan estudiantes de familias que hasta hace poco no hubiesen soñado con ver a sus hijos pisar una universidad?

    ¿Por qué aplaude a los manifestantes la clase media C, llegada de la pobreza y que por vez primera en su vida han podido comprar una nevera, una lavadora, una televisión y hasta una moto o un coche de segunda mano?

    ¿Por qué Brasil, siempre orgulloso de su fútbol, parece estar ahora contra el Mundial, llegando a empañar la inauguración de la Copa de las Confederaciones con una manifestación que produjo heridos, detenciones y miedo en los aficionados que acudían al estadio?

    ¿Por qué esas protestas, incluso violentas, en un país envidiado hasta por Europa y Estados Unidos por su casi nulo desempleo?

    ¿Por qué se protesta en las favelas donde sus habitantes han visto duplicada su renta y recobrada la paz que les había robado el narcotráfico?

    ¿Por qué, de repente, se han levantado en pie de guerra los indígenas que poseen ya el 13% del territorio nacional y tienen al Supremo siempre al lado de sus reivindicaciones?

    ¿Es que los brasileños son desagradecidos a quiénes les han hecho mejorar?

    Las respuestas a todas esas preguntas que producen en tantos, empezando por los políticos, una especie de perplejidad y asombro, podrían resumirse en pocas cuestiones.

    En primer lugar se podría decir que, paradójicamente, la culpa es de quien les dio a los pobres un mínimo de dignidad: una renta no miserable, la posibilidad de tener una cuenta en el banco y acceso al crédito para poder adquirir lo que fue siempre un sueño para ellos (electrodomésticos, una moto o un coche).

    Quizás la paradoja se deba a eso: al haber colocado a los hijos de los pobres en la escuela, de la que no gozaron sus padres y abuelos; al haber permitido a los jóvenes, a todos, blancos, negros, indígenas, pobres o no, ingresar en la universidad; al haber dado para todos accesos gratuito a la sanidad; al haber librado a los brasileños del complejo antaño de culpa de “perros callejeros”; al haber conseguido todo aquello que convirtió a Brasil en solo 20 años en un país casi del primer mundo.

    Los pobres llegados a la nueva clase media han tomado conciencia de haber dado un salto cualitativo en la esfera del consumo y ahora quieren más. Quieren, por ejemplo, unos servicios públicos de primer mundo, que no lo son; quieren una escuela que además de acogerles les enseñe con calidad, que no existe; quieren una universidad no politizada, ideologizada o burocrática. La quieren moderna, viva, que les prepare para el trabajo futuro.

    Quieren hospitales con dignidad, sin meses de espera, sin colas inhumanas, donde sean tratados como personas. Quieren que no mueren 25 recién nacidos en 15 días en un hospital de Belem, en el Estado de Pará.

    Y quieren sobre todo lo que aún les falta políticamente: una democracia más madura, en la que la policía no siga actuando como en la dictadura; quieren partidos que no sean, en expresión de Lula, un “negocio” para enriquecerse; quieren una democracia donde exista una oposición capaz de vigilar al poder.

    Quieren políticos con menor carga de corrupción; quieren menos despilfarro en obras que consideran inútiles cuando aún faltan viviendas para ocho millones de familias; quieren una justicia con menor impunidad; quieren una sociedad menos abismal en sus diferencias sociales. Quieren ver en la cárcel a los políticos corruptos.

    ¿Quieren lo imposible? No. Al revés de los movimientos del 68, que querían cambiar el mundo, los brasileños insatisfechos con lo ya alcanzado quieren que los servicios públicos sean como los del primer mundo. Quieren un Brasil mejor. Nada más.

    Quieren en definitiva lo que se les ha enseñado a desear para ser más felices o menos infelices de lo que lo fueron en el pasado.

    He escuchado a algunos decir: “¿Pero qué más quiere esta gente?” La pregunta me recuerda la de algunas familias en las que después de dar todo a los hijos, según ellos, estos se rebelan igualmente.

    Se olvidan a veces los padres de que a ese todo le faltó algo que para el joven es esencial: atención, preocupación por lo que él desea y no por lo que a veces se le ofrece. Necesitan no solo ser ayudados y protegidos, llevados de la mano, quieren aprender a ser ellos protagonistas.

    Y a los jóvenes brasileños, que han crecido y tomado conciencia no solo de lo que tienen ya, sino de lo que aún pueden alcanzar, les está faltando justamente que les dejen ser más protagonistas de su propia historia, más aún cuando demuestran ser tremendamente creativos.

    Que lo hagan, eso sí, sin violencia añadida, que violencia ya le sobra a este maravilloso país que siempre prefirió la paz a la guerra. Y que no se dejen coptar por políticos que intentarán montarse sobre su caballo de protesta, para vaciarla de contenido

    En una pancarta se leía ayer: “País mudo es un país que no muda”. Y también, dirigido a la policía: “No disparéis contra mis sueños”. ¿Alguien puede negar a un joven el derecho a soñar?.

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  8. BOMBA! Rocildo e companheiros vistos na Almirante Barroso. Pararam em frente ao Baenão gritando palavras de ordem – Fora Cabeça! Fora Pirão! Eu quero divisão! Não é mole, não, passar o ano secando o Papão!
    Democracia é isso, cada um protesta contra o que quiser.

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  9. Sério agora. Muito mais impactante a multidão caminhando pacificamente por esse país afora e a polícia com os coldres vazios, sem explosões ou fumaças, exceto em raras ocasiões. Protesto sim, vandalismo e destruição não.

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  10. Acabei de ler que o presidente da CBF reprova as manifestações principalmente nas capitais onde está ocorrendo a copa das confederações e disse que o futebol deve abafar esses problemas. Interessante este senhor que acha que o futebol, por maior paixão que seja, seria capaz de abafar o anseio e a vontade popular. Dia 1º de julho teremos a manifestação pela maior e mais vergonhosa obra já realizada para não dar em nada em Belém, o grande elefante branco chamado BRT. Só um detalhe, os bens do ex-prefeito de Belém, o Sr. Duciomar Costa devem ser cassados. Acorda Belém.

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