POR GERSON NOGUEIRA

Pressão por resultados, estresse pós-quarentena, queda de braço com outras áreas, insatisfação com a política de contratações, fadiga pela convivência prolongada. Todas essas razões – ou, pelo menos, metade delas – explicam a saída de Hélio dos Anjos do comando técnico do PSC, anunciada ontem, após exatos 472 dias no cargo. Demissões de técnicos são corriqueiras, mas a de Hélio causou abalos profundos.
De personalidade forte, Hélio ficou magoado com a avaliação pesada que a diretoria fez da derrota em casa contra a Jacuipense. Entendia que o título estadual conquistado frente ao maior rival deveria servir como salvo-conduto temporário, capaz de afastar questionamentos sobre resultados fortuitos. Ledo engano.
O veterano treinador revelou a amigos o desconforto ante o que considerou críticas injustas ao seu trabalho, principalmente após bater uma das metas da temporada: a conquista do Parazão. Além disso, ressentia-se da demora na contratação de um zagueiro, fato atribuído às divergências com o diretor de futebol Felipe Albuquerque.
Os conflitos com Felipe parecem remontar a arengas antigas, relacionadas ao futebol goiano, mas se aprofundaram nos últimos meses, a ponto de não haver mais diálogo entre ambos. A coisa explodiu de vez no incidente envolvendo o atacante Nicolas, no último sábado.
Antes do jogo com o Imperatriz, o Departamento de Saúde recomendou que Nicolas fosse poupado, a fim de evitar o agravamento de uma lesão muscular branda. O jogador insistia em ser escalado. Conversou com os médicos e com Hélio. Por fim, teve ligeiro papo com Felipe. O técnico soube e entendeu como interferência do diretor.
Depois da goleada de 6 a 1, Hélio nem parecia feliz com o resultado. Na entrevista, foi logo falando de sua insatisfação com as cobranças e os problemas internos. Citou o caso Nicolas, dizendo que até momentos antes do jogo o atacante teve a escalação ameaçada.
Ontem, em meio à repercussão de sua saída, Hélio disse não aceitar interferência em seu trabalho, confirmando as afirmações de sábado: “Acabou a confiança nas pessoas de comando do clube. Respeito só o Maurício (Ettinger, vice-presidente do clube)”.
Diante da reação da torcida, que protestou nas redes e na frente da sede em Nazaré, Ricardo Gluck Paul explicou que o técnico foi de fato muito cobrado durante as semifinais do Parazão e no início da Série C. Destacou que a cobrança é constante e abrange todos os profissionais do clube.
Um caso clássico de choque de ideias e de disputa por espaço de poder. Acontece nas melhores famílias e, por óbvio, em ambientes de trabalho. Hélio, apesar da boa avaliação e números respeitáveis, não era intocável. Aliás, ninguém é. Ao bater de frente com o diretor de futebol, mais forte dentro da engrenagem, perdeu a guerra e pegou o beco.
Em termos práticos, quem perde mais é o PSC. Não só pela descontinuidade de um trabalho que já durava um ano e meio, mas, acima de tudo, pela adaptação de Hélio ao clube e suas particularidades. A mudança de comando pode causar turbulências em uma campanha que ainda não se estabilizou no Brasileiro.
Por outro lado, se a troca era inevitável, melhor que aconteça agora, ainda no começo da Série C e com tempo suficiente para que o novo comandante possa implantar nova sistemática de trabalho.
Quanto ao festival de fofocas que assola as redes sociais desde ontem, é preciso compreender a realidade atual do clube, já imerso em trepidante campanha eleitoral, com os prós e contras típicos desse tipo de disputa fratricida, onde o fair play é furiosamente pisoteado. (Foto: Jorge Luiz/Ascom PSC)
Rejeição a executivo pode respingar no novo comandante
A demissão de Hélio repercutiu porque ele mantinha sólida identificação com a torcida. Não por acaso: só em 2020, foram 22 partidas, com 13 vitórias, quatro derrotas e cinco empates, com um título estadual pelo meio. Ciente dessa popularidade, o técnico usou o Twitter para dizer que não abre mão de seus princípios. O discurso, populista e certeiro, teve efeito devastador entre os torcedores, que imediatamente se voltaram contra o “vilão” Felipe Albuquerque.
A consequência mais provável é que, se o executivo for mantido, a ira da torcida se estenda ao novo treinador. Itamar Schulle, ex-Santa Cruz, e Marquinho Santos (que já passou pela Curuzu), são os nomes especulados.
O escolhido precisará ter perfil cascudo, pois as cobranças serão terríveis, sempre com a inevitável comparação com Hélio. É fundamental que o time dê respostas imediatas. Detalhe: o próximo compromisso é contra o Ferroviário, melhor time do grupo A, em Fortaleza.
Kalou: reforço que pode devolver o brilho à Estrela Solitária
O marfinense de 35 anos, que teve grandes momentos no futebol europeu, chegou como segunda opção ao Botafogo, depois da inútil e cansativa luta pela contratação de Yaya Touré logo no início da pandemia. Para manter a estratégia de buscar astros ainda em bom nível técnico, Salomon Kalou foi contratado.
Chegou ao Rio e levou apenas duas semanas para se condicionar. Estreou e foi muito bem contra Corinthians e Vasco, atuando pela beirada esquerda e finalizando bem. Apesar disso, sente os efeitos da fase técnica ruim e da sequência de erros de arbitragem que castigam o time no Brasileiro.
Deixa, porém, a certeza de que é um reforço à espera de um encaixe. Kalou precisa que o Botafogo cresça em conjunto e volume de jogo para que sua contribuição técnica seja realmente notada e frutifique.