A vanguarda do atraso

Por Fernando Brito, no Tijolaço

A manchete da Folha, hoje, bem poderia ser Bolsonaro impulsiona retrocessos civilizatórios, em lugar do “Bolsonaro tenta emplacar pautas de costumes no Congresso” que o jornal estampa em sua capa.

Os dois projetos que o jornal destaca (há outros, sim) são dois ícones do atraso e da brutalidade.

O primeiro é liberação do porte de armas para uma lista imensa de pessoas, militares, policiais, agentes penitenciários, advogados, guardas municipais, segurança de casas legislativas, entre outros, que poderão comprar até dez armas de fogo de uso permitido ou restrito, até agora, às Forças Armadas, e portá-los quase que à vontade.

Há algum tempo, eu acreditaria que o absurdo monstruoso que isso representaria, a certeza de que seria um retrocesso de mais um século e uma jaguncização do Brasil nem precisaria de argumentos para ser visto. Agora, porém, que o número de armas vendidas no varejo vai caminhando para 150 mil por ano e que a pistola Glock tornou-se o símbolo de afirmação da mediocridade dos marombados, sinto-me desanimado a fazê-lo, de tão doloroso imaginar que possamos passar a viver com medo desta inflação de homens-pistola nas ruas.

O segundo, aparentemente inocente e o cume da “liberdade da família” é o tal “homeschooling”, o direito de que os pais não matriculem seus filhos numa escola regular, pública ou privada, e optem por “educá-los em casa”.

Este é retrocesso de quase dois séculos, ao tempo dos preceptores, que os nobres e ricos, em geral, colocavam como criados cult a ensinarem seus filhos. Nada mais de socialização das crianças – parece que socializar e sociedade viraram, na cabeça deste gente, “comunismo” – , nada de convívio, nada de regras comuns a todos, nada de liberdade de cátedra (porque serão os pais ricos que escolherão o que deve ou não ser ensinado).

Que pai ou mãe não viu a angústia de seus filhos, nesta pandemia, de serem postos em isolamento doméstico, longe dos colegas, privados da irreprimível vocação de “bando” que as crianças sadias têm?

Claro, haverá logo explicações de que isso poderá ser suprido pelos pais, como se estes, hoje, não passassem dez ou doze ou mais horas por dia trabalhando e que, é obvio, não têm meios de pagar quatro ou cinco horas de um professor particular e muito menos ainda conhecimento e paciência para transmitir conteúdos.

Vamos nos aproximando da lei da selva, onde prevalecem os mais fortes, seja com canos de pistola ou sacos de dinheiro.

Os estúpidos, os brutos, os ignorantes vaidosos de sua ignorância estão prevalecendo e talvez não vejamos exemplo mais gritante disso que os precoces gritos de que não se tomará – por não ser “bundão” ou ter “histórico de atleta” a futura vacina anti-Covid.

Nós? Ah, nós estamos ocupados com a onipresença do “lugar de fala”, negando, em nome da identidade tribal a identidade social que a humanidade vem construindo ao longo dos séculos, com dores, sofrimentos, mas também generosidade, fraternidade e a ideia de que o bem coletivo importa tanto ou mais que o individual e que este, se não estiver mergulhado na felicidade coletiva soa como escárnio ou hipocrisia.

Toda a minha formação política foi sofrer a discriminação por querer que todos, sem diferença na pele, no sexo ou no bolso, fossem igualmente respeitados, porque não há outra forma digna de viver.

O verso de Tom Jobim não entrou pelos ouvidos de muitos: “é impossível ser feliz sozinho”.

Não há segurança com armamento geral, não há educação sem escola, não há saúde sem vacinação em massa, não há democracia quando nos discriminamos e achamos que a política pode ser praticada quando se é capaz de ser de todos.

Estamos, porém, imobilizando-nos em nossos labirintos, de forma a não ir a lugar nenhum no futuro.

Enquanto o passado, sem a menor cerimônia, avança a passos largos e cruéis.

Os números estão com Mazola

POR GERSON NOGUEIRA

O torcedor esbraveja e cospe fogo, inconformado com o conservadorismo tático que o Remo exibe em campo, mas os números estão em conformidade com o resultadismo pregado por Mazola Junior. Na régua fria da tabulação matemática, goste-se ou não, o técnico tem um aproveitamento pleno de 62% em 14 partidas no comando do Leão.

A estatística é contundente, sem paixão. No total de partidas na temporada, incluindo Parazão (9) e Série C (5), Mazola venceu sete, empatou cinco e perdeu apenas duas, perfazendo 62% de rendimento.

Mazola Junior vai estrear no Remo com três desfalques para o Parazão -  Diário Online - Portal de Notícias

Quando é tabulado apenas a campanha no Campeonato Estadual, foram cinco vitórias, dois empates e duas derrotas, totalizando 27 pontos disputados e 17 ganhos, com 63% de aproveitamento.

No pós-quarentena, pela Série C e Estadual, Mazola dirigiu o Remo em 11 jogos. Venceu seis, empatou três e perdeu dois, justamente na decisão contra o PSC. Disputou 33 pontos e conquistou 21, com 63,6% de aproveitamento técnico.

Quando se calcula somente os resultados na Série C, são cinco partidas (duas em casa, três fora), com duas vitórias e três empates. De 15 pontos em disputa, o time ganhou nove. O aproveitamento é de 60%.

Portanto, mesmo que Mazola não esteja entregando um futebol bonito de ver, longe disso, é inegável que o time está obtendo resultados interessantes. A matemática só não explica (e justifica) o fracasso na busca pelo tricampeonato, ponto mais questionado pela massa azulina.

A estatística (compilada pelo amigo Guilherme Guerreiro) mostra que a trajetória do Remo na Série C é no mínimo razoável. O time tem sérios problemas de organização, erra muitos passes e ataca Menos do que deveria, mas os números – sempre eles – respaldam o trabalho e a lógica de Mazola.

As lembranças de Assis, um zagueiro clássico e técnico

Assis, ex-jogador de Remo e Fluminense, partiu no meio da semana e as homenagens prestadas a ele, apesar de expressivas, não ficaram à altura do que representou no exercício da profissão. Ele foi simplesmente um dos maiores zagueiros da história do futebol paraense e um dos expoentes da posição nos anos 60-70 no país.

Integrou no Remo uma linha defensiva fortíssima. Foi lançado no time de cima ainda jovem, mas a maturidade técnica fez com que assumisse a titularidade por oito temporadas. Ganhou respeito e projeção, apesar da pouca visibilidade que o futebol nortista tinha à época.

Não vi Assis em ação no Remo. Só pude acompanhá-lo nas transmissões de jogos do Fluminense, mas colegas do período dele no Remo contam que Assis aliava técnica e força, tendo na regularidade sua maior virtude.

Foram essas qualidades que o conduziram ao Fluminense, no final dos anos 60, quando os times do Rio eram sonho de consumo de todos os boleiros.

Nas Laranjeiras, desfrutando dos encantos da Cidade Maravilhosa, Assis jogou de 1968 a 1975. Deixou currículo impecável: 424 partidas vestindo a camisa tricolor e cinco títulos conquistados, quatro pelo Carioca e o Brasileiro de 1970. Sem perder jamais o jeito humilde e discreto.

Quando Francisco Horta criou a Máquina Tricolor, lá estava Assis, ao lado dos campeões mundiais Félix, Marco Antonio, Paulo César Caju e Rivellino. Não era qualquer um que conseguia vaga naquela constelação de grandes jogadores, mas Assis foi titular até deixar o clube.

Antes de pendurar as chuteiras, voltando a morar no Pará, precisamente em Mosqueiro, o zagueirão ainda emprestou sua segurança e competência ao Sport-PE, ao Ceará – foi campeão estadual em 1978 – e ao ASA de Arapiraca, onde fechou a carreira.

Assis construiu uma bonita e digna história de dedicação ao futebol bem jogado. Merece todo o nosso respeito.

Reentrada do SBT no futebol tem forte “incentivo” governista

Para surpresa geral, o SBT deu um lance ousado e comprou os direitos de transmissão da Libertadores. Sem tradição no segmento esportivo, a emissora de Sílvio Santos de posiciona no competitivo mercado dos eventos mais caros do futebol. Apesar do festejado tino empresarial de SS, o fato é que a negociação com a Conmebol dificilmente teria sido bem sucedida se não houvesse o apoio do governo Bolsonaro por trás.

Desde 2019, a liberação das verbas publicitárias federais contemplou com maior quinhão as emissoras “amigas”, Record e SBT. Números da Secretaria de Comunicação da Presidência, subordinada ao Ministério das Comunicações, mostram que a Globo recebeu R$ 2,65 milhões em 2019. O SBT ganhou R$ 6,62 milhões, mais que o dobro.

De 2017 a 2020, a participação do SBT pulou de 24,8% para 41,01%. Apesar das observações de auditoria do Tribunal de Contas da União, que questionou os critérios de distribuição da verba, a priorização continuou.

Para tornar tudo mais favorável aos interesses de SS, o vínculo do SBT com o governo ficou mais forte com a escolha de Fábio Faria, genro do empresário, para o recriado Ministério das Comunicações.

A edição da MP 984 completou o serviço, ao dar aos mandantes de jogos o direito de comercializar os direitos de exibição. Amparado pela MP, o SBT exibiu a decisão do Carioca e sacramentou acordo com o Flamengo. A conquista do maior torneio das Américas é o coroamento do processo.  

Bola na Torre

O programa começa às 22h15, na RBATV, com Guilherme Guerreiro no comando e a participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Direção é de Toninho Costa. Em debate, as campanhas da dupla Re-Pa na Série C. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 13)

A crise do arroz e a cegueira do ultraliberalismo do governo Bolsonaro

Por Luis Nassif

As altas do arroz têm uma explicação óbvia. Mas tão óbvia que é inacreditável a maneira como a mídia cobriu o episódio, aceitando acriticamente os argumentos do Secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, e da Ministra da Agricultura Tereza Cristina. O mantra do livre mercado tornou-se uma praga que obscurece qualquer raciocínio.

Do lado de Sachsida a explicação simplista de que o governo colocou muito dinheiro nas mãos do pobre, que passou a comer mais. Do lado de Tereza Cristina, a explicação de que o produtor de arroz sofreu muito nos últimos anos e, agora, está tendo a oportunidade de se recuperar.

E os analistas se mostram solidários com os agricultores, enaltecem o livre mercado, dizendo que é assim mesmo. Não há o menor conhecimento sobre instrumentos clássicos de política de abastecimento.

O que ocorreu é simples

Com a pandemia, países que pensam em seus cidadãos seguraram as exportações, para garantir o abastecimento interno. Com isso, houve redução na oferta mundial, elevando os preços do arroz.
Ao mesmo tempo, houve uma grande desvalorização do real, tornando os preços do arroz, em reais, muito mais atraentes, quando exportados. O resultado óbvio é a elevação do preço interno do produto, para se alinhar com os preços internacionais.

Nesses momentos, o instrumento óbvio do governo são os estoques reguladores, mantidos pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Acontece que do impeachment para cá, o ultraliberalismo dos governos Temer e Bolsonaro levaram à redução drástica dos estoques.

Ao mesmo tempo, permitiu-se a exportação indiscriminada de arroz. O resultado foi a redução da oferta e a explosão dos preços.
Há uma lógica política nisso tudo. Ruralistas fazem parte da base política desse ultraliberalismo. Estoques reguladores atrapalham os preços, especialmente quando explodem.

É evidente que uma política pública responsável deveria ter enfrentado os problemas dos plantadores de arroz na crise, adquirido a produção para montar estoques, impedindo prejuízos maiores. Mesmo porque a produção é essencial na mesa do brasileiro. Nada foi feito, e nada se cobrou. Porque, para o discurso atual do ultraliberalismo brasileiro, cada um por si e o país que exploda.

Agora, que ocorrem os problemas, deixa-se de lado qualquer solidariedade com o consumidor e passa-se a entender com complacência os movimentos de alta.

Finalmente, para completar o ciclo, o inacreditável Ministro da Justiça, André Mendonça, manda intimar supermercados a explicar a especulação. Não tem a menor noção sobre o mercado. Os supermercados são moderadores de preços, porque interessa o volume. E preços altos de compra, significam margens menores de venda e quantidades menores.

Agora, cria-se esse círculo de prejuízos. Numa ponta, permite-se a continuidade das exportações de arroz, sem estoques reguladores. Na outra, garante a compra de arroz menos competitivo que o brasileiro.

O arroz no IPCA

Vamos entender melhor o IPCA e o peso do arroz no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) divulgado nesta quarta. No acumulado até agosto, o maior peso foi o do Grupo de Habitação, seguido por Alimentos e Bebidas e por Despesas Pessoais.

Calculou-se o peso pegando a variação acumulada no ano pelo peso do setor no último mês. Focando nos subgrupos de alimentos, percebe-se que o aumento de Tubérculos, Raízes e Legumes foi o mais expressivo.

Quando se concentra em Leguminosas, nota-se que as maiores altas não foram do arroz, mas do feijão fradinho e mulatinho. Embora o mais consumido, o carioca, tenha registrado queda.