A Fifa e o efeito Chacrinha

POR GERSON NOGUEIRA

Começou muito mal a experiência com a análise de vídeo em jogos de futebol. A Fifa teve a boa ideia de experimentar a novidade no Mundial de Clubes, que se iniciou ontem. Mas, logo de cara, no jogo entre Kashima Antlers e Atlético Nacional, veio a lambança.

unnamedO árbitro levou alguns preciosos minutos vendo e revendo as imagens do lance reclamado pelo Kashima de um suposto pênalti cometido pela zaga colombiana. A infração, duvidosa, se originou de um flagrante impedimento duplo.

O japonês Daigo estava pela direita do ataque em posição de impedimento passivo. Tentou voltar para sair do off-side e trombou com o zagueiro Mosquera, que corria em direção à bola cruzada. Em resumo, Daigo, impedido, cometeu outra infração e por isso não poderia ter sido marcada a falta no instante seguinte.

A penalidade aconteceu depois de uma ilegalidade, explicou didaticamente Arnaldo Cézar Coelho, em análise feita num programa do Sportv na tarde de ontem. Está certíssimo.

O que chama atenção é que, pelo menos nesse teste inicial, o recurso do vídeo serviu mais para confundir do que para esclarecer. É, por assim dizer, um efeito Chacrinha a invadir a praia do futebol. Todos sabem que o Velho Guerreiro costumava dizer que não veio para explicar e, sim, para confundir.

Depois de toda a polêmica decorrente da decisão equivocada do árbitro, que no primeiro momento (antes de ser alertado pelos analistas de vídeo através de comunicação por rádio) deixou o jogo seguir normalmente, a Fifa certamente vai sair com mil argumentos em defesa do sistema que tenta implantar. Aliás, tamanho interesse – em se tratando de tal entidade – já inspira temores outros.

Na verdade, seguindo o secular critério do olhômetro, o árbitro acertou em cheio. O lance realmente não configurou a falta máxima contra o Alético. Sob o peso da nova instrução, válida para o Mundial, o apitador foi obrigado a reconsiderar e acabou induzido ao erro pelo mecanismo criado para evitar erros. É puro Kafka.

Não só o árbitro caiu na esparrela. A discussão invadiu redes sociais, bares e esquinas do mundo. Há quem jure que houve o pênalti e que o sistema foi providencial. A maioria, porém, percebeu que a situação faltosa inicial do atacante do Kashima invalida completamente o que viria a ocorrer depois.

Portanto, além de confundir o árbitro, o sistema de monitoramento também instaurou a discórdia fora de campo, o que por si só já justifica botar o pé atrás em relação à pretensa modernidade.

O recurso do vídeo deveria ser utilizado apenas em último caso, diante de lances realmente duvidosos ou que implicassem em falhas graves por parte do árbitro. Por exemplo, como naquele célebre gol com a mão de Maradona contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986.

Lances razoavelmente claros, como o da partida Kashima x Atlético Nacional, nem deveriam ser considerados. Isto leva, ainda, a outro questionamento importante: quem está à frente das telas de monitoramento e avalia a necessidade de alertar o árbitro¿ Porque esse primeiro passo pode ser guiado por interesses externos.

No Brasil, se essa ideia de jerico vingar, teremos comissões de analistas formadas à moda do STJD, onde os auditores são conhecidos pelas bandeiras clubísticas. Pensemos na balbúrdia que isso pode vir a acarretar.

Outro aspecto tem a ver com os meios tecnológicos disponíveis, reconhecidamente caros para serem implantados em todas as competições oficiais. Num país como o nosso, onde boa parte dos clubes de Série B para baixo ainda tem estádios precários e acanhados, fico a imaginar o preço a ser pago pela adoção do sistema de vídeo para auxiliar a arbitragem.

Que o Mundial de Clubes sirva para sepultar, no nascedouro, essa ideia bizarra de implantar no futebol a teoria do Big Brother. O futebol é simples e deixa de ser maravilhoso quando alguém cisma de complicar as coisas.

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Conquista merecida reafirma força do basquete  

O Remo conquistou, de forma brilhante e incontestável, o título estadual de basquete adulto, com vitória de 71 a 58 pontos sobre o Papão, ontem à noite, no ginásio Serra Freire. Além dos méritos azulinos pelo triunfo, a festa nos jogos decisivos confirma que ainda há um público sedento pelo bom basquete. Reafirma, ainda, a importância da dupla Re-Pa para o resgate do esporte entre nós.

As influências externas, como a violência proporcionada pelas gangues de torcedores, acabam por roubar do espetáculo a alegria e a emoção que uma final de campeonato podia proporcionar. Por medidas de segurança, a Polícia determinou que os jogos fossem realizados com torcida única. Grosso modo, seria algo como uma festa em que as mulheres só poderiam dançar com os irmãos.

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Leão perde, mais uma vez, dinheiro com Roni

Diretorias recentes do Remo devem explicações sobre a ausência de registro legal que garantisse ao clube a condição de formador do atleta Roni, que foi vendido a preço de banana pelo então presidente Pedro Minowa a um empresário e acaba de ser negociado pelo Cruzeiro com o futebol japonês por R$ 4 milhões. Como não se documentou, o Leão perderá algo em torno de R$ 280 mil.

Neste caso, como em tantos outros similares, o esquecimento (ou a ignorância) não serve como atenuante. A responsabilização do gestor deveria ser automática, caso o Conselho Fiscal do clube tivesse sempre a mesma fúria legalista que demonstra em véspera de eleição.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 16)

19 comentários em “A Fifa e o efeito Chacrinha

  1. Com todo o respeito tenho opinião diferente da opinião exposta na Coluna.

    Em primeiro lugar porque acho de todo indicado o uso da tecnologia nos jogos de futebol. Tal ferramenta tem potencial para ajudar em muito a justiça nos resultados das partidas no esporte. É o tempo demandado para resolver as questões não é fator de contraindicação. Afinal, é frequente o consumo de muito tempo para solucionar lances polêmicos pelos meios convencionais e no mais das vezes ainda se resolve em contradição com os fatos. Exemplo emblemático desta verdade foi o jogo da última copa médica, no qual o Brasil foi eliminado com um absurdo gol de mão, oportunidade em que o jogo ficou parado quase meia hora, para no final, o árbitro, contando só com os órgãos do sentido e equivocadissimamente validar o gol de mão.
    (…)

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    1. Oliveira, o tempo demandado seria o menor dos problemas, além de esfriar o jogo, evidentemente. O problema é o tempo perdido para instaurar uma confusão maior. No mínimo, não é a forma mais inteligente de dirimir dúvidas.

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  2. Depois, porque considerei muito oportuno que os testes iniciais sejam feitos em jogos importantes. Afinal, é nestes jogos que a pressão é maior, e onde se verificam as ocorrências polêmicas, capazes de verdadeiramente testar o uso da ferramenta é qualificar a implantação definitiva.

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  3. De outra parte, não me parece que a dupla posição de impedimento fosse merecedora de punição. A uma porque o atacante destinatário da bola cruzada não era nenhum dos dois que se estavam em posição de impedimento, pelo que não participavam da jogada propriamente dita. Ademais, não se pode esquecer que a antiga determinação da fiifa é que a paralisação do jogo quando se trata de posição de impedimento só tem lugar quando a bola chegar no atleta em posição de impedimento. E no caso, a bola não chegou a nenhum dos dois. Aliás, o destinatário da bola era um terceiro jogador que se encontrava em posição legal e se infiltrou entre os zagueiros para receber a bola, e, de fato, a recebeu.

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  4. Aliás, tanto a dupla posição de impedimento não era punível, que o auxiliar que trabalhava por aquele lado, e estava perfeitamente colocado não a puniu. Não assinalou impedimento.

    Por outro lado, não considerei que houve falta do atacante no zagueiro colombiano. Não, o que houve ali foi um inadvertido contato próprio do futebol, decorrente da disputa normal de espaço. Na realidade, eles reciprocamente não se perceberam, concentrados na bola, acabaram tocando colidindo sem maior carga, tanto que não chegaram sequer a cair.

    É o pênalti deu-se no momento seguinte à está ligeira colisão. Foi quando, dentro da área, deliberadamente, o atacante esticou a perna e fez forte carga na perna do atacante, à altura do joelho, derrubando-o. Falta clara. E como foi dentro da área foi pênalti, cuja obrigação de assinalar é do árbitro central, o qual não assinalou porque estava encoberto.

    Em suma, a tecnologia foi “desafiada” para checar o pênalti e não o impedimento, já que quanto a este (o impedimento) não estava em questão, pois já fora julgado como inexistente pelo árbitro encarregado desta tarefa.

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  5. Com o tempo a ferramenta vai ter sua utilização aperfeiçoada e estas experiências iniciais vão servir exatamente para isso. É um ajuste que me parece necessário diz respeito exatamente ao estabelecimento de quem vai partir a iniciativa para Pleitear o desafio da ferramenta tecnológica: se a algum jogador que esteja participando da partida; ao técnico; ou a algum funcionário do Clube que fique posicionado no espaço dos monitores de vídeo acompanhando a disputa por dito meio; ou mesmo uma outra alternativa.

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  6. Agora um aspecto que me parece não poder ser um motivo a desencorajar o uso da tecnologia é a eventual passionalidade, seja clubística, seja de outra índole, dos agentes operadores do sistema tecnológico, eis que no sistema convencional o processo fica sujeito à interferência muito semelhante ou até pior, já que o meio esportivo de um modo geral, e o futebolístico especificamente, se desenvolve numa cena onde os principais atores, inclusive da mídia, tem a sua paixão clubística, ou mesmo de outra natureza.

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  7. Quanto ao respeito ao meu ponto de vista, não precisava nem dizer. O que me anima a externá-lo aqui é justamente é o respeito que ele tem merecido desde sempre.

    Sobre o objetivo de esclarecimento, a mim, me pareceu, cumprido. Digo isso porque na transmissão normal eu não havia visto o fato, qual seja, a falta cometida pelo zagueiro no atacante.

    Também não tinha visto a dupla posição de impedimento dos japoneses, tampouco o detalhe que referi relativo ao choque ocorrido entre o zagueiro e o atacante.

    Outro aspecto relevante é que entre os jogadores do Nacional não me pareceu haver revolta ou irresignação. Eles não ficaram satisfeitos logicamente de ver um pênalti assinalado contra si, mas assimilaram o bem o fato.

    Mas, repito, é o uso frequente da ferramenta que vai aperfeiçoá-la. Não demora ela estará perfeitamente integrada e adaptada às peculiaridades do futebol ( e o futebol, e seus atores, a ela) como já está no Volei e no Tênis.

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  8. Creio que a tecnologia não deveria ser usada nessa situação de jogo, mas sim ao contrário quando houvesse um gol, onde há tempo de parada para festejos. Também quando o árbitro marcasse penalidade máxima.

    Nesses dois casos, há tempo hábil para, diante das prováveis reclamações da parte contrária, dirigir-se à tal comissão de vídeo e então confirmar ou não.

    O futebol envolve paixões, porém, mais que isso, corre muito dinheiro e interesses. Em 50 anos já vi muitas equipes serem prejudicadas por arbitragem mal intencionada, de má vontade ou incompetente. E geralmente a incompetência penaliza mais a equipe de menor expressão.

    Portanto, nem tanto ao mar e nem tanto à terra.

    Quanto ao Remo, o profissionalismo está longe de ocorrer. Começa que seus dirigentes não são remunerados, como ocorre em qualquer entidade, daí não ter como se cobrar nada.
    Infelizmente.

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  9. Meu medo é que queiram aperfeiçoar a tal tecnologia reparando erros históricos. Aí o Brasil seria punido pela falta de Nilton Santos contra a Espanha, na Copa de 1962, cometida dentro da área, mas marcada fora por um juiz mal colocado. E o jogo estava 1X0 pra Espanha, um lance que poderia mudar a história do jogo e daquela Copa.
    O outro, o gol de Maradona contra a Inglaterra, na Copa de 1986, feito com a mão e validado. Tomara que não.

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  10. Essa tecnologia vai criar auxiliares e árbitros medrosos, ainda mais se continuar a haver esse efeito retroativo, ou seja, voltar um lance que passou batido e o jogo ser modificado, como se dessem pausa e reeditassem o ocorrido. Os auxiliares simplesmente não vão levantar o instrumento sabendo que tem gente de fora confortavelmente instalada e analisando de forma calma e tranquila um lance que eles têm que marcar no calor e na velocidade do tempo real. Outra, se mudam o modo como o jogo aconteceu há segundos ou vários minutos atrás, estão abrindo precedente para mudar o jogo fora das quatro linhas também, ou seja, em jogos em que não houver o recurso ou em que for mal utilizado, os clubes poderão recorrer reanalisando as imagens de TV, já que elas oficialmente passam a fazer parte do jogo, ou não? Correto mesmo é no vôlei, onde o jogo é parado e a decisão tomada imediatamente em poucos segundos.

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  11. Sobre Tecnologia…

    Ela funcionou maravilhosamente bem no tênis e razoavelmente no vôlei (ainda que não goste muito desse esporte, gosto mais das belas mulheres… rs…).

    Por que deu certo no tênis?

    Por que funciona como desafio.

    No tênis a dúvida parte do jogador, que tem o direito a três desafios. Esta dúvida nunca parte do juiz. Tal fato, mantêm a responsabilidade sobre o árbitro do jogo (que continua errando e acertando, como deve ser o esporte) e limita o número de paralisações no jogo.

    Penso que no futebol, poderia funcionar de forma similar. Com os técnicos tendo a responsabilidade de solicitar a paralisação do jogo em dois lances polêmicos (faltas na área, penais mal marcado ou gols mal anulados ou gol ilegal) por tempo de jogo.

    Enfim, a única tecnologia que vejo como indispensável no futebol é se a bola ultrapassou a linha do gol.

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  12. Concordo com o último parágrafo do comentário 17. Acredito que o recurso eletrônico deve ser usado no futebol apenas para se verificar se a bola ultrapassou a linha de gol, porque é um lance capital, que decide o placar da partida. Os outros lances precisam ficar no olhômetro do trio de arbitragem.

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  13. Amigo Celira, tenho outro ponto de vista sobre a questão, o qual já expus detalhadamente nos comentários “1” a “6” deste post. Mas, como sempre, respeito a sua opinião.

    Aliás, no comentário “5” eu abordo parte da temática da qual você trata no “17”. Neste particular, devo lhe dizer que que no vôlei e no tênis eé mais simples a aplicação da tecnologia porque é mais simples o trabalho da arbitragem. As dimensões, a proximidade da arbitragem e a própria natureza do esporte facilitam deveras.

    Todavia, mesmo com suas peculiaridades, o futebol, como de resto a maioria das coisas da vida, para melhorar, admite perfeitamente o uso da tecnologia, basta que sejam respeitadas tais peculiaridades.

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