Desaba outro gigante

960_a5b69b23-1051-35ce-968c-7c4178f70413

POR GERSON NOGUEIRA

Quando um grande clube cai, a plebe se diverte, afinal todo mundo torce mesmo pela queda dos maiorais. Quando esse gigante é o Internacional, um dos clubes mais modernos do país e com gestão elogiada por todos, cabe refletir sobre a melhor receita para lidar com o futebol nos dias de hoje.

Para o torcedor de arquibancada – principalmente o gremista, arquirrival do Colorado –, a desdita do Inter é motivo para gozações sem fim. Para os que entendem que clubes devem seguir o modelo europeu, com planejamento de longo curso e administração cuidadosa, o rebaixamento mostra que ainda há muito a ser feito na gestão do futebol.

Mesmo com salários em dia, contas em ordem e programa sócio-torcedor sempre em alta, o Internacional não resistiu a algumas decisões infelizes em relação ao elenco e à escolha de treinadores. A prioridade por jogadores caros, nem sempre de qualidade, enfraqueceu o elenco e não deu chance ao surgimento de jovens valores.

O clube fez no Brasileiro tudo o que o manual do rebaixamento prevê para que um time desça para a Segunda Divisão. Começou com um técnico jovem, mas ainda não suficientemente testado, como Argel Fucks. Em seguida, trouxe o ídolo Paulo Roberto Falcão, em clara tentativa de reconciliar diretoria e torcida. Não deu certo.

Já em franco desespero de causa foi contratado Celso Roth, famoso técnico-bombeiro, que costuma salvar times em situação de risco. O elenco não entendeu as orientações de Roth e a campanha piorou ainda mais, levando à demissão do terceiro treinador.

A poucas rodadas do final do campeonato, em total descompasso com a lógica, o clube optou por Lisca, de campanhas irregulares na Série B e de perfil parecido ao de Roth. Apesar dos pulos desengonçados ao lado do campo e do estilo folclórico, Lisca não deu jeito.

Por justiça, deve-se dizer que ninguém conseguiria salvar o tradicional Colorado do rebaixamento ao cabo de uma campanha que teve somente duas vitórias fora de casa. A pálida atuação do time contra o Fluminense, ontem à tarde, prova que não havia entusiasmo entre os jogadores.

Nem eles acreditavam mais no milagre da salvação. A queda só seria evitada em caso de vitória do Figueirense sobre o Sport no Recife e derrota do Vitória (por goleada) para o Palmeiras em Salvador. Isto, obviamente, se o Inter fizesse a sua parte, goleando o Fluminense no Rio. Nada disso aconteceu e a queda se consumou.

Aos poucos clubes que ainda não tiveram o dissabor de serem rebaixados resta por as barbas de molho e encarar a Série A com disciplina e método. Vencer em casa é obrigatório, pois permite acumular uma quantidade de pontos que distancia o time da zona da degola.

O critério de contratações também influi muito nos destinos de um time na competição. O elenco precisa mesclar juventude e maturidade, com pelo menos um grande jogador para servir de referência. É fundamental que o técnico tenha participação na formação do grupo. Feito isso, o resto vai depender dos desígnios da sorte e dos caprichos dos deuses da bola.

——————————————————-

Artilharia magra confirma nível ruim da Série A

O Brasileiro deste ano confirma o que a coluna vem pregando desde o primeiro turno. O nível técnico foi sofrível, abaixo até das mais modestas expectativas. Um retrato disso é a tábua de artilheiros. Fred (Atlético-MG), Diego Costa (Sport) e William (Ponte) dividem a liderança, com 14 gols marcados. Poucas vezes a Série A teve produção tão minguada por parte dos goleadores. Com técnicos sempre ameaçados de demissão, os times jogam cada vez mais fechados e o futebol sai perdendo.

——————————————————

Uma conquista e tanto do renovado Botafogo

O Botafogo festeja a volta a Libertadores depois de garantir o quinto lugar no Brasileiro, posição improvável quando o campeonato começou. No caso da Estrela Solitária tudo se resume à montagem de um elenco bom e barato, que ganhou a partir da 19ª rodada o comando de um técnico identificado com o clube. Jair Ventura superou a inexperiência com o conhecimento que tinha do grupo e das coisas do Botafogo. Uma combinação rara e feliz.

——————————————————

Sócio bicolor fica sem votar e cobra explicações

O publicitário Haroldo Valente, depois de ter sido impedido de votar na recente eleição do Papão, ficou desconfiado quanto à organização administrativa do clube. Como sócio, ele avalia que nem tudo está como deveria ser.

Segundo ele, ao chegar para votar, soube que seu nome não constava da lista de votantes. Surpreso com o fato, ele decidiu checar os comprovantes de pagamento.

Confirmou que está em dia com as obrigações e ficou ainda mais chateado com o episódio, pois sentiu-se lesado em seu legítimo direito de escolher o novo presidente alviceleste e com a ausência de explicações para o erro do sistema eleitoral do clube.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 12)

Causa & efeito

POR GERSON NOGUEIRA

Diante do futebol de baixa qualidade, exposto na Série A que hoje se encerra, é natural que surjam preocupações quanto ao futuro da Seleção Brasileira. Afinal, sempre houve uma relação de causa e efeito entre as duas coisas. Depois de um campeonato sofrível, repleto de jogos desinteressantes e tecnicamente ruins, qualquer projeção quanto ao escrete passa a ser no mínimo temerária.

unnamedUm fator inesperado, porém, reduz bastante os riscos de um naufrágio imediato. Trata-se do comando técnico. Tite representa hoje a garantia de um projeto minimamente equilibrado na Seleção. Não há nada de revolucionário em seus métodos, mas é justo reconhecer que com ele o critério de escolha dos jogadores voltou a ser racional.

Quando a Seleção penava nas mãos de Dunga, até mesmo jogadores que atuam em centros tecnicamente evoluídos rendiam pouco e se nivelavam aos nativos convocados. Até Neymar e Phillipe Coutinho sofriam com a filosofia imposta por Dunga. Criou-se então um círculo vicioso. O escrete jogava mal, a torcida se exasperava e os jogadores perdiam motivação.

A partir da chegada de Tite, as coisas mudaram por completo. Os jogadores readquiriram o prazer de estar na Seleção, a equipe passou a atuar bem e recuperou a credibilidade junto ao torcedor. Cabe dizer que Tite aproveita, comparativamente, aproveita mais atletas caseiros em suas convocações, ainda que o time titular aproveite um ou dois “nativos”.

Muitos relativizam a má qualidade do futebol praticado no Brasil, entendendo que isso não se reflete na Seleção, formada em sua maioria por atletas que jogam no exterior, mesmo que alguns sejam oriundos de campeonatos periféricos e pouco representativos.

É uma visão imediatista, pois não leva em conta a evolução do futebol a médio e longo prazo. Os atletas “importados” hoje aproveitados na Seleção foram negociados com o futebol internacional porque se destacaram em competições nacionais. Por óbvio, o mesmo ocorrerá nos próximos anos, com jogadores exportados para Europa e Ásia, principalmente.

A tendência é que jogadores acostumados a competições tecnicamente fracas no Brasil tenham dificuldades para se firmar em países do primeiro mundo do futebol, como Inglaterra, Espanha e Itália. O mercado continuará a buscar pé-de-obra aqui nos trópicos, mas a qualidade será cada vez mais sofrível. E serão esses mesmos jogadores que irão engrossar as convocações futuras para a Seleção – pelo questionável critério de participação em grandes torneios.

Portanto, é melhor prevenir que remediar. Só a melhoria do nível técnico dos campeonatos no Brasil permitirá, no futuro, o surgimento de bons jogadores. Para isso será necessário investir em fórmulas mais interessantes de disputa, reciclar técnicos e priorizar as competições de alto padrão, sem descuidar dos torneios de juniores, que constituem a base de tudo.

—————————————————–

Bola na Torre

Sérgio Serra, presidente do Papão, é o entrevistado de hoje no Bola na Torre. Guilherme Guerreiro apresenta, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Começa logo depois do Pânico, por volta de 00h20, na RBATV.

—————————————————–

Leão perde a chance de reeditar time cabano

Será neste final de semana a apresentação à torcida do novo elenco do Remo, formado por alguns repatriados (Val Barreto, Zé Antonio, Fininho), poucos remanescentes de 2016 (Flamel) e muitas caras novas, quase todas recrutadas na Segundinha de acesso ao Parazão.

Para o certame estadual, o técnico Josué Teixeira não deverá ter maiores problemas. As dificuldades irão aparecer no momento de encarar competições regionais (Copa Verde) e nacionais, Copa do Brasil e Série C.

A tomar por base os nomes divulgados até sexta-feira, a diretoria do clube está perdendo a chance de reeditar o “esquadrão cabano” dos tempos de Ubirajara Salgado, cuja mística permanece de pé até hoje. Naquela ocasião, como agora, o Remo não tinha dinheiro. Precisou recorrer ao almoxarifado e teve a felicidade de contar com uma boa safra de jogadores.

O time campeão estadual sub-20 poderia ser o ponto de partida para a montagem de um elenco prata-da-casa, de custo baixo e com grandes possibilidades de cativar o torcedor. A notícia de que goleiro, volantes e atacantes estão sendo buscados lá fora indica que o projeto se encaminha para um novo “catadão”, como se viu em temporadas recentes.

—————————————————

Um estranho no ninho do Parazão

Na relação dos dez técnicos contratados pelos times que irão disputar o Parazão 2017, Junior Amorim é honrosa exceção. O treinador do estreante Pinheirense é o único paraense da gema a integrar a lista.

Nordeste e Sudeste são as regiões predominantes. Nordestinos são: João Galvão (PB), Marcelo Chamusca (BA) e Pedro Manta (CE). Já Samuel Cândido e  Josué Teixeira (RJ) e Lecheva (SP) representam o Sudeste.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 11)