Mês: junho 2013
Capa do DIÁRIO, edição de sexta-feira, 21
A chegada dos bárbaros
Por Tereza Cruvinel
Até aqui, todas as vozes, a começar da presidente da República, reconheceram como legítimo e democrático o movimento social insólito que ontem chegou a seu clímax, em número de manifestantes nas ruas e na amplitude geográfica. Ontem, porém, dois traços preocupantes ficaram evidentes: a intolerância dos que protestam e a completa perda de controle por parte de suas vanguardas, permitindo que a violência e o vandalismo chegassem ao paroxismo. Dezenas de feridos e um morto por atropelamento na confusão, em Ribeirão Preto. Quando a barbárie chega, os poderes democraticamente constituídos precisam dizer algo mais que
palavras de compreensão. É hora de uma palavra da presidente Dilma Rousseff.
Por mais que compreendamos as insatisfações difusas, seja com os serviços públicos ou com os políticos e com as instituições, não podemos transigir com a intolerância, que não combina com a democracia. Ela vem se manifestando no veto à presenças de partidos e organizações e na agressão a jornalistas e a participantes com outras vinculações.
O movimento é “horizontal”, como dizem, mas tem uma vanguarda, liderada pelo Movimento Passe Livre. Até agora, não deram uma palavra condenando o vandalismo. Depois dos excessos que cometeu em, São Paulo, na quinta-feira, a polícia passou a ser por todos satanizada. Mas eu vi ontem, na frente do Congresso, as provocações injuriosas e as agressões físicas, como a cometida contra um PM com o mastro metálico da bandeira arrancada. As depredações do patrimônio, ontem, tiveram como símbolo doloroso a tentativa de incendiar o Itamaraty, joia da arquitetura que Oscar Niemeyer nos legou. A invasão não foi obra de “minoria exaltada” mas da multidão tomada por instintos primitivos. Estes jovens não tinham nascido quando a ditadura acabou mas têm educação para saber que a democracia nos custou muito. A classe política tem suas culpas em tudo isso mas é dentro do jogo democrático, através de suas instituições, que as coisas poderão ser resolvidas. E para isso, é preciso negociar. Incendiar não resolve.
O pêndulo
Os estacionamentos dos anexos dos ministérios nunca estiveram tão lotados de carros durante a noite como ontem. Aqui em Brasília, não há dúvida de que se trata de uma reação da classe média, e não das camadas mais pobres. Os governos do PT, em dez anos, implementaram políticas focadas nos mais pobres e alcançaram resultados na redução das desigualdades. Mas a classe média-média mesmo, não a classe C emergente, acumulou ressentimentos com os serviços públicos ruins e
com as práticas políticas nefastas. A classe média é o pêndulo do sistema, escreveu Helio Jaguaribe em texto clássico. Nos últimos dez anos, foi a maioria mais pobre do eleitorado que decidiu as disputas políticas. A classe média recupera agora seu protagonismo, com bandeiras que expressam anseios muitos amplos e juros. Mas agora, é preciso dar consequência ao movimento. Negociar e conquistar. É para isso, e não para vandalizar, que os movimentos acumulam força.
Uma evidência de que, pelo menos aqui, o movimento é de classe média, foi personificada pelos dois manifestantes que foram ao gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros. Acabaram não sendo recebidos porque o núcleo de estudantes e outros subgrupos da manifestação se recusaram a participar. Renan decidiu aguardar por encontro mais representativo. Francisco Paraíso Ribeiro de Paiva tem 25 anos e é advogado. Kayo José de Miranda Leite, da mesma idade, também é
advogado e professor em duas instituições de ensino superior. Bem vestidos, falam com sotaque jurídico . Perguntei se tinham delegação do movimento. Disseram representar um dos muitos “subgrupos”. Deram-me copia do documento que, no dizer deles, “protocolizaram” no Congresso e no Palácio do Planalto, com a lista de reivindicações: mais investimentos em saúde, educação, segurança pública, transparência nos gastos com os estádios, reforma política e outras tantas. Que venham, mas sem nos aproximar da guerra civil. Este “subgrupo”, pelo menos, procurou a negociação. À elite política, cabe também sair da defensiva. Ontem tivemos os Congresso e o Planalto sitiados.
Papão vence no STJD e volta à Copa do Brasil
O Papão finalmente conseguiu voltar à Copa do Brasil. Depois de duas derrotas nos julgamentos pelas Câmaras Técnicas, o clube obteve vitória no recurso julgado nesta quinta-feira pelo Pleno do STJD. A ação do Papão apontava irregularidade na escalação do jogador Luiz Cláudio Bahia pelo Naviraiense (MS). O clube sul-matogrossense, que eliminou o Paissandu da Copa do Brasil, utilizou o jogador sem registrá-lo no BID. Depois do julgamento, realizado em Fortaleza, o advogado Alberto Maia ressaltou o triunfo bicolor. “O recurso foi julgado e vencemos por 8 a 1 e não cabe mais possibilidade de recorrer a decisão do pleno, não tem mais como o Naviraiense recorrer a decisão”, disse Maia, que integra o departamento jurídico do clube.
Com o resultado, o Papão volta para a competição nacional, aonde vai encarar o Atlético (PR), na terceira fase da competição nacional. Os confrontos já estão marcados. O primeiro será no dia 18/07 , às 21h50, no estádio Jornalista Edgar Proença, em Belém. O segundo acontece no dia 25/07, às 21h, no estádio Durival de Brito, em Curitiba (PR). A volta à Copa do Brasil garante de imediato ao Paissandu a cota automática de R$ 400 mil. (Com informações da Rádio Clube)
Pela Copa BR, Papão pode ir à Justiça comum
O departamento jurídico do Paissandu, representado pelo advogado Alberto Maia, tenta hoje uma última cartada para reconquistar a vaga na Copa do Brasil. O clube se fará representar no julgamento da ação contra o Naviraiense pelo Pleno do STDJ, às 14h desta quinta-feira, em Fortaleza. O Paissandu, assim como a CBF, argumenta que o Naviraiense utilizou irregularmente o jogador Luiz Cláudio Bahia na partida de ida, em Naviraí, vencida pelo Papão por 1 a 0 (na volta, o Naviraiense reverteu com vitória por 2 a 0 na Curuzu). Bahia atuou sem contrato e sem registro no BID. Nos dois julgamentos na Comissão Disciplinar do tribunal, o Naviraiense foi mantido na competição. A comissão entendeu que o clube estava amparado pelo Regulamento Geral das Competições, contrariando normas do regulamento específico da Copa do Brasil. Desta vez, o julgamento envolve auditores que não participaram das sessões anteriores. Em caso de derrota hoje, o clube analisa a possibilidade de recorrer à Justiça Comum, levando em conta que esgotou os recursos na Justiça Esportiva. (Foto: MÁRIO QUADROS/Bola)
Sobre teimosia e dependência
Por Gerson Nogueira
Até quando Felipão insistirá com o capricho de manter Hulk como titular da Seleção Brasileira? Essa preferência do técnico explica, em parte, os entraves que impedem o time de engrenar. A vitória sobre o México, mesmo festejadíssima por todos, não esconde dificuldades crônicas de organização e ausência de alternativas para superar as dificuldades normais (e até previsíveis) que qualquer adversário cria para o Brasil.
Acima de todas as imperfeições, reina sobre a Seleção a sombra da dependência excessiva em relação a Neymar. Problema sério se considerarmos que Neymar não é gênio e, portanto, tem lá seus dias ruins, o que obriga o time a se virar sozinho, entregue à própria sorte.
É compreensível que Felipão resolva direcionar todas as suas jogadas para Neymar, começo e fim de praticamente tudo que o ataque brasileiro faz em campo. A questão é que, com algum esforço e experimentação, seria possível ter um esquema mais ágil e rotativo no ataque, juntando de uma só tacada Neymar, Oscar, Lucas e Jô.
Seria o melhor dos cenários para driblar o entrosamento ainda em construção e as duras marcações sobre Neymar. Com Oscar e Lucas por perto e Jô mais à frente, Neymar teria como se esquivar do confronto permanente contra zagas violentas e ainda ganharia a companhia de jogadores igualmente habilidosos.
Um lance do começo do segundo tempo retrata bem a solidão que castiga Neymar no esquema atual, ao lado de Hulk e Fred. Depois de aplicar dribles sobre dois marcadores, ele botou Hulk na cara do gol e o resultado foi digno de comédia. O atacante recebeu a bola, matou na canela e perdeu o ponto para o arremate. Por essas e outras, saiu de campo (novamente) vaiado quando foi substituído por Lucas a 15 minutos do apito final.
O Brasil avança, apresenta algumas melhoras, mas fica a certeza de que Felipão teria um conjunto mais afiado caso botasse Hernanes e Lucas no time. Suas preferências históricas indicam, porém, que a Seleção continuará a conviver com problemas de passe no meio-de-campo e de criatividade no ataque. A vida poderia ser mais simples, mas Felipão talvez prefira trilhar os caminhos da emoção. (Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM)
———————————————————–
Futebol intenso e emocionante
Sete gols, quatro bolas na trave, uma coleção de lances emocionantes, jogadas de habilidade em alta velocidade. Isto foi, em resumo, o espetacular Itália 4, Japão 3, ontem à noite, na Arena Pernambuco. A vitória sorriu para os italianos, mas em muitos momentos pendia claramente para os japoneses, que fizeram por merecer destino menos desafortunado.
O primeiro tempo foi todo oriental, com dois gols logo no começo e um incrível predomínio técnico no meio-de-campo. Nem parecia aquele Japão intimidado e pouco agressivo do confronto com o Brasil. Transformado, o time partiu para cima da Itália como kamikaze. E deu certo. Depois de estabelecer a vantagem, controlou a partida com sabedoria e só se abalou quando sofreu o primeiro gol italiano quase no fim da etapa inicial.
Na retomada do jogo, a Itália chegou ao empate em cobrança de pênalti por Balotelli. Empolgado, a Azzurra pressionou e conseguiu a virada, aproveitando-se de um apagão da zaga nipônica. Quando tudo indicava que se assistiria a um passeio italiano, confirmando o favoritismo, veio a surpresa.
Sem desistir jamais, o Japão foi à frente, envolveu a marcação forte dos italianos, mandou duas bolas na trave e finalmente cravou o empate. Foi, então, que pela primeira vez na noite a Itália se reconciliou com o seu passado: matreira, organizou um rápido contra-ataque e marcou o gol decisivo.
As emoções não cessariam aí, pois o tinhoso Japão ainda teve a chance de chegar a novo empate, mas a jogada foi anulada por impedimento. Nunca havia visto uma seleção japonesa atuar com tanta confiança, chegando a fazer até gol de cabeça na forte e alta defesa italiana.
Pela incrível entrega japonesa, foi a melhor partida da Copa das Confederações até aqui. Um jogaço. Pela quantidade de gols e, acima de tudo, pela intensidade com que foi disputada. Jogadores e técnico lamentaram pelo infortúnio de sofrer o quarto gol em momento tão crucial da partida, mas resta o consolo de terem feito o melhor jogo de suas vidas.
———————————————————-
Avaliações e apostas de Givanildo
O Paissandu vai a Macapá realizar mini-temporada e dois amistosos. Givanildo Oliveira deve aproveitar a viagem para observar alguns jogadores do time sub-20. Estranhamente, os jogadores vindos da base que integram o elenco podem não ter a mesma atenção do técnico. Quase todos estão na lista de prováveis dispensas.
De positivo, o declarado propósito de Givanildo de apostar em Iarley e Marcelo Nicácio para o ataque, baseando-se na excelente participação de ambos nos instantes finais do jogo contra a Chapecoense. Pelas características de bom passe e facilidade para o chute, Iarley pode vir a ser o parceiro ideal para Nicácio, cujo perfil é de jogador mais centralizado na área. Pode dar certo.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 20)
Capa do Bola, edição de quinta-feira, 20
Som na madrugada – Zé Ramalho, Garoto de Aluguel
Tony Soprano sai de cena
O ator James Gandolfini, imortalizado como o mafioso Tony Soprano na série “Família Soprano”, morreu nesta quarta-feira (19), em Roma, na Itália, aos 51 anos. De acordo com o site “TMZ”, Gandolfini provavelmente sofreu um ataque cardíaco, embora a causa da morte ainda não tenha sido oficialmente confirmada. Gandolfini estava na Itália para o Festival de Cinema de Taormina, na Sicília, e ele participaria de um evento no festival neste final de semana, ao lado do cineasta italiano Gabriele Muccino.
Em 1999, quando ficou conhecido no mundo todo pelo papel de Tony em “Família Soprano”, James Gandolfini já era um veterano do cinema e do teatro. No cinema, havia trabalhado com diretores conhecidos, como Clint Eastwood, Sidney Lumet, Joel Schumacher, Tony Scott, Barry Sonnenfeld e Alex De La Iglesia. Nos palcos, atuava havia quase dez anos e se destacara em uma montagem de “Sindicato de Ladrões” na Broadway.
Até o estouro de “Família Soprano”, Gandolfini se especializou em roubar cenas, sempre no papel de coadjuvante. Conhecido por personagens truculentos -interpretou bandidos e mafiosos – tinha um dos rostos mais marcantes do cinema. Seu estilo contido de atuação caiu como uma luva no personagem Tony Soprano, um mafioso existencialista, que frequentemente questiona sua própria vida e decisões, inclusive em sessões de análise.
Tony é um assassino sádico que ama os filhos e os animais. É um pai carinhoso e um marido nem tanto, constantemente enganando a esposa. É um líder mafioso que decide a vida ou morte de muitos, mas que sofre ataques de pânico desde criança. Gandolfini interpretou o personagem com a mistura perfeita de força bruta e fragilidade emocional, e talvez por isso Tony Soprano tenha se destacado tanto.
É um dos personagens mais interessantes e bem escritos da TV em muito tempo – talvez de todos os tempos – e teve a sorte de contar com um ator excepcional.
De olho nos oportunistas
Por Silvio Almeida (*)
Aos que irão à manifestação, em especial aos meus alunos:
Os conservadores (ou o que chamamos de direita) querem sequestrar a pauta das manifestações em prol de seus interesses. Isso ficou claro na mudança brusca de opinião de jornais, de revistas e de figuras notoriamente reacionárias que antes criticavam as manifestações, e agora as apoiam. Ficou mais evidente ainda quando vi a foto de “artistas” com o olho pintado de roxo, em protesto contra a violência policial. Não me consta que esses mesmos “artistas” se pintem de “vermelho sangue” quando a mesma polícia mata os jovens pobres e pretos da periferia. Por isso, digo com todas as letras: a causa de Datena, Arnaldo Jabor, Marcelo Tas, Pondé e esses “artistas” não é a causa pela qual lutamos. Eles apenas mudaram de posição porque viram que a manipulação ideológica tem limite e que as pessoas não ficariam apenas na petição online. Pense: eles se dizem contra a corrupção dos políticos, mas se calam quanto à corrupção de empresas privadas; eles reclamam da má qualidade do serviço público, mas são favoráveis à privatização e contra o aumento dos impostos dos mais ricos; eles estão “cansados da violência”, mas nada dizem sobre a violência cotidiana a que a população pobre – em especial negros, mulheres e gays – estão expostos; eles são contra a “gastança de dinheiro público” apenas quando se trata dos programas sociais, mas não veem problemas quando o BNDES financia empresas privadas a juros baixos; eles se dizem contrários ao aumento da passagem, mas acham absurdo falar de “tarifa zero” – mesmo sendo algo juridicamente possível. Então, meu caro, não seja idiota: essas pessoas não querem o mesmo que você. Elas não PODEM querer o mesmo que você, pois os privilégios que têm dependem de quão ruim a sua vida continuará a ser. Conservadores , por óbvio, querem conservar e não transformar. Por isso, não é por vinte centavos. É pela construção de um horizonte político que estas pessoas não querem, mas que você precisa acreditar ser possível. Elas não são nossas aliadas. Definitivamente, não são.
(*) Silvio Almeida é professor.






