Da natureza das coisas

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POR GERSON NOGUEIRA

Há quem ainda se surpreenda com certas coisas que se repetem periodicamente no Remo. Pura perda de tempo. O clube tem cultura e natureza próprias, sustentada por sua elite dirigente – mandatários e conselheiros. A torcida fica na base da pirâmide e não influi nas decisões, mesmo sendo maioria absoluta.

Daí a aceitação tácita, quase frouxa e sem protestos, da mais recente novidade anunciada lá pelas bandas do Evandro Almeida. O clube teve a pachorra de confirmar negociação para a volta de Pimentinha, de pouco proveitosa passagem pelo clube no ano passado.

Nas últimas horas, a transação empacou, o que não elimina o fato de que o clube decidiu abrir as portas para Pimentinha, que abandonou o time no final da Série C 2017, virando as costas ao técnico Léo Goiano e diretores, dando uma banana à torcida. Alegou uma dorzinha na perna e pulou do barco antes da partida decisiva contra o Salgueiro.

Infelizmente, atitudes como essa são recorrentes nas decisões internas dos clubes. Ao invés de adotar procedimentos administrativos adequados, os cartolas agem de maneira primária e priorizam sempre resultados de campo. Cria-se então uma situação curiosa: as agremiações se comportam como amadoras no trato com atletas profissionais.

A recontratação de Pimentinha visaria suprir a possível perda de Felipe Marques, como se não houvesse outro jogador no mercado com as mesmas características e como se Pimentinha estivesse em excelente fase, capaz de resolver todos os problemas do ataque.

Há ainda quem avalie que a simples presença de um técnico disciplinador como Givanildo Oliveira seja capaz de controlar boleiros problemáticos.

A máxima bíblica de que perdoar é divino costuma ser usada de acordo com as conveniências futebolísticas – e aqui é justo dizer que não se aplica apenas ao Leão de Antonio Baena.

Na década de 70, Alcino, um dos maiores ídolos da história remista, foi contratado pelo PSC, que engoliu o orgulho e ignorou solenemente até os  gestos obscenos que o Negão Motora havia dirigido à torcida alviceleste quando defendia o Remo.

Pimentinha não chegou a tanto no Remo, mas mostrou-se pouco confiável como empregado do clube. Quando abandonou a concentração, agiu como os boleiros da era amadorista, que sumiam de circulação horas antes de um jogo sem dar maiores explicações.

É esse profissional que o Remo ainda luta para recontratar, sem exibir o menor sinal de constrangimento. O lado positivo é que desta vez, caso o jogador venha a ser contratado, resolvendo depois sair à francesa, ninguém poderá alegar surpresa ou desconhecimento.

Por outro lado, o súbito afrouxamento em relação a Pimentinha soa até banal diante da condescendência com figuras tão nocivas ao clube, como os gestores responsáveis pela perda do posto de gasolina; pela negociata da sede campestre; desastrosa tentativa de venda da área do Evandro Almeida, com direito a picaretadas no pórtico; pelo assalto tabajara à sede social; e pela semidestruição do Baenão.

Perto dessa turma, Pimenta é refresco.

Em tempo: a volta de Pimentinha não conta com o aval de Givanildo, que confirma a admirável capacidade de antever problemas.

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Um jogo para confirmar o renascimento do Papão

O Papão tem hoje a chance de confirmar a boa estreia na Série B. Em caso de vitória sobre o Londrina, pode alcançar a liderança isolada da competição. Algo mais ou menos impensável quando o Campeonato Estadual terminou e o time inspirava descrença generalizada.

Bastaram duas vitórias fora de Belém para restituir a confiança perdida com as quatro derrotas para o maior rival. O primeiro triunfo, sobre o Manaus, valeu classificação para a decisão da Copa Verde. O segundo, mais surpreendente, sobre a Ponte Preta em Campinas, reabriu esperanças quanto ao sonhado acesso.

Sim, ainda é muito cedo para pensar nisso. O acesso dependerá de uma campanha impecável, centrada na regularidade, virtude que o PSC ainda não mostrou na temporada. Ocorre que a boa largada no Brasileiro, competição mais importante do ano, permite crer que a fase ruim está passando.

O principal reflexo desta nova fase é o ambiente de paz vivido pelo elenco e pelo técnico Dado Cavalcanti, que teve tempo e tranquilidade para montar a equipe para receber os paranaenses na Curuzu.

Satisfeito com o desempenho no formato 3-4-3, usado contra a Ponte, Dado tende a manter a formação com os três zagueiros e a participação de Moisés e Mike pelos lados, escoltados pelos laterais Mateus Silva e Miller.

A vantagem é que o sistema é teoricamente mais ofensivo, como exige a condição de mandante. Carmona será o organizador e Carandina o único marcador de ofício no meio. Isso permite acreditar que o PSC vai buscar pressionar o Londrina tanto pelos lados quanto explorando a centralização de Cassiano, seu principal artilheiro na temporada.

Como o visitante é treinado pelo ex-bicolor Marquinhos Santos, conhecido pela cautela excessiva, Dado tem nas mãos a chance de explorar ao máximo o potencial ofensivo do time, com ênfase nas ações pelos lados.

Outra boa notícia é a confirmação de que Allan e Paulo Ricardo estão integrados ao elenco profissional, juntamente com os reforços Claudinho (atacante) e Thomaz (meia) que foram anunciados anteontem. Pela boa campanha no Parazão, defendendo o Bragantino, tanto Allan quanto Paulo Ricardo têm plenas condições de disputar a titularidade.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 20)

2 comentários em “Da natureza das coisas

  1. Texto ferino, amigo Gerson.
    Em contraste ao mar de comentaristas que ganham suas vidas em cima do muro, você sempre nadou contra essas águas.
    Parabens!

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