“País vive tragédia grega do século 21”

POR ELEONORA DE LUCENA E RODOLFO LUCENA

O golpe iniciado em 2016 é “uma tsunami política que tem um objetivo muito claro: remover qualquer traço de potencial soberania do Brasil, eliminar o Brasil do cenário geopolítico mundial como uma voz dissidente nas Américas e sabotar os Brics”. A avaliação é do neurocientista Miguel Nicolelis em entrevista ao TUTAMÉIA.

Para ele, a situação atual é muito pior do que a vivida nos idos de 1964: agora o golpe “carrega dentro dele a semente da destruição, a obliteração total de qualquer vestígio de soberania brasileira”.

“É trágico. Se estivéssemos no século quinto Antes de Cristo aqui, um dos grandes poetas gregos ele iria escrever uma tragédia grega sobre a história brasileira. Nós somos a manifestação, no século 21, de uma tragédia grega do século quinto Antes de Cristo. Temos provavelmente um dos comportamentos mais peculiares do mundo, que é essa contínua tentativa de autossabotagem ao próprio país, essa autofagia brasileira, esse tiro no pé crônico é único”, afirma.

Nicolelis é um dos mais importantes cientistas do mundo. Membro das Academias de Ciência brasileira, francesa e do Vaticano, doutor em Medicina pela USP, ele recebeu mais de 30 prêmios internacionais. Desde 1994, é professor da Duke University, nos EUA. Ficou mais conhecido do grande público quando, na abertura da Copa de 2014, Juliano Pinto, paraplégico havia dez anos, deu o chute de abertura dos jogos. Três metros atrás de Juliano estava Nicolelis, idealizador (com John Chapin) do paradigma cérebro-máquina que proporcionou a realização do inédito e revolucionário movimento.

Entusiasta da ciência e do Brasil, Nicolelis idealizou o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Relatou a saga de criação do Campus do Cérebro no Rio Grande do Norte em “Made in Macaíba” (Planeta, 2016). Seu primeiro livro, “Muito Além do Nosso Eu” (2011, Companhia das Letras), foi traduzido em dez línguas.

INÍCIO DO FIM DO BRASIL

Com toda essa trajetória, Nicolelis fala de um turbilhão de temas nessa entrevista de duas horas ao TUTAMÉIA (vídeo acima). Trata de política, de ciência, do futuro do mundo e da humanidade, de redes sociais, fake news. Dá sua opinião sobre a série “Perdidos no Espaço” e conta sobre o livro de acabou de finalizar.

Dois anos depois do impeachment de Dilma, o neurocientista ainda lembra da dor aguda que sentiu enquanto acompanhava, desde o seu escritório nos EUA, a vergonhosa sessão da Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016. Uma votação com aquela, diz, jamais aconteceria no congresso norte-americano ou em outro país.

“Nunca haveria de uma votação cujo motivo subliminar é a entrega do país. Não era o jogo de tirar a presidente, que era jogo de cartas marcadas. Em jogo ali era o primeiro capítulo dessa tragédia que um dia pode ser escrita com o seguinte título: ‘O Começo do Fim do Estado Brasileiro’. É isso que eu temo deixar para os meus netos”, declara. E emenda: “Pode parecer exagero, eu estou muito tranquilo nessa análise. Acho não demos a devida dimensão do que está havendo aqui”.

QUINTA COLUNA

“Tem interesses externos geopolíticos gigantescos, que não passam nem por governos, mas por interesses corporativos”, ressalta. Mas acrescenta: “O Brasil é muito proeminente na geração de uma quinta coluna tão efetiva. Não conheço nenhum outro país que seja tão fácil arregimentar pessoas nativas desse país para destruir a viabilidade do próprio país. Isso é muito proeminente nesse país. Tivemos a França de Vichy [governo francês fantoche dos nazistas, entre 1940-1944], mas aqui salta aos olhos. O Brasil é um país dividido profundamente hoje. Em outros tempos, teria muito receio em imaginar se esse país continuaria a ser um país só”.

Em 1964, observa, “a correlação de forças jogou o Brasil numa ditadura militar, mas onde os militares tinham um plano de Brasil. Não concordo [com o que o regime fez], mas não havia dentro do movimento militar o desejo de destruir a soberania brasileira, entregar a Amazônia, a nossa fronteira marítima –que era muito menor do que é hoje. Os militares foram atrás das 200 milhas, preservar a Amazônia, [criaram] a Embraer, o computador brasileiro, universidades federais. Não existia naquele golpe a estratégia de destruir o brasil como player mundial –e nesse existe. Desde a concepção, nesse golpe o mantra central é alijar o Brasil de ser um player mundial. Em todas as esferas”.

SABOTAGEM

E desenvolve o argumento: “Não é à toa que a ciência brasileira está sendo sucateada. As universidades federais estão sendo atacadas a ponto de se discutir a possibilidade de algumas delas desaparecerem. O orçamento científico foi cortado em mais de 60%. A Embraer está sendo dada. O programa espacial brasileiro eu visitei na Base de Alcântara….”

Nicolelis conta que essa visita foi um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. “Chegar lá e ver a base de lançamento brasileira, que também foi sabotada. Ninguém esclareceu direito o que aconteceu naquele acidente, anos atrás, quando o Brasil estava no limiar para entrar no clube restrito de países que são capazes de colocar objetos em órbita”.

E afirma: “Eu vejo tudo isso encadeado: a entrega do pré-sal, os abusos que nós todos temos testemunhado. Eu sou filho de juiz do Tribunal de Justiça, conservador, que nunca deu uma entrevista na vida, um juiz garantista”. Hoje, na sua visão, “nossas garantias jurídicas estão evaporando. Tudo isso é parte de um enredo completo, facetado, multidirecional, que tem um objetivo central muito bem edificado muito bem construído –que é a evaporação da soberania do Brasil como país que importa. Alguns anos atrás estávamos a ponto de passar –por algumas centenas de milhões de dólares não passamos– a economia da França e da Inglaterra. De repente, parecia que o Brasil ia dar certo”.

PEDRA NO SAPATO

Nicolelis relata que encontrou todas as pistas para o roteiro do golpe no último livro de Moniz Bandeira [“A Desordem Mundial”, 2016, Civilização Brasileira]. Desde que os governos do PT chegaram ao governo, lembra o neurocientista, “o Brasil votou na ONU sistematicamente contra os interesses norte-americanos. Israel, Iraque, Líbia, todas as questões geopolíticas essenciais que foram colocadas diante da ONU o Brasil foi contra. O Brasil era uma pedra no sapato, não há a mínima dúvida”.

Ele enfatiza que o Brasil, naqueles anos, era “um pais emergente com uma ascensão dramática, que começa a desfiar economias poderosas, cria uma outra esfera econômica, política e cultural que são os Brics, passa a participar de um modelo alternativo de governança global, afirma uma posição e cria uma identidade –vamos combater a fome, a miséria, vamos criar uma sociedade mais justa”.

MENINOS DO ACRE

Nicolelis diz que, entre 2004 e 2010, “o Brasil era a esperança do mundo”, diferente da “mesmice da comunidade europeia, do liberalismo predominante norte-americano, nós vamos ter no Brasil uma sociedade utópica. Eu consegui recrutar cientistas do mundo para vir trabalhar aqui, porque os caras queriam estar aqui. Hoje, não”.

Ele cita um dado revelador. Durante os governos petistas, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência de apoio e financiamento à ciência e tecnologia no país, chegou a ter um orçamento superior ao da Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency), a agência norte-americana responsável por pesquisa na área militar e responsável, por exemplo, pelo embrião da internet.

“O Brasil é tão fenomenal do ponte de vista potencial que pequenos sopros de lucidez e de visão fazem o troço explodir. Os governos do PT fizeram uma pequena abertura do que é necessário fazer para evoluir. E veja o que aconteceu”.

Ele mesmo responde: “Foram 14 anos de prosperidade intelectual, humanística, cultural e científica. Teve erros? Um monte.  Mas foi um pequeno sopro e isso aqui decolou. Veja, por exemplo, o projeto Ciência Sem Fronteiras. Dei uma aula em Harvard que foi a coisa mais emocionante da minha carreira. Tinha 150 pessoas no auditório, e havia 30 brasileiros. Moleques do Acre fazendo astrofísica!”

Lembra que o programa envolveu mais de cem mil jovens, “foi o maior projeto do planeta”. Por isso mesmo fica indignado ao ver o que considera silencia da intelectualidade sobre o ataque a Lula e ao governo eleito.

“Cadê a reação da comunidade científica contra o golpe? As universidades estão sendo sucateadas. Cadê a inteligência brasileira para discutir isso?”, pergunta Nicolelis.

ELEFANTE NA SALA

Para enfrentar todo esse desastre em curso, Nicolelis considera fundamental a discussão de um projeto de nação. Um projeto fundamentalmente político, em torno de pontos mínimos: nação, democracia, distribuição de renda, alinhamento com os Brics, educação pública de qualidade. “O país precisa fazer uma discussão profunda sobre o ethos nacional, do que é aceitável e do que tem que ser expurgado. Racismo, a forma como se trata as minorias, como se trata qualquer comportamento que foge a um padrão, violência contra mulher, homossexual, ser tratado na porrada, no tiro, na violência final”.

O passado escravocrata conta?, perguntamos.

“É mistura de muita coisa que nunca foi trazida para fora, posta na sala. Colegas alemães da minha idade contam que até os anos 1960 era muito parecido na Alemanha. Ninguém falava do passado nazista nas escolas. Era o elefante. E, de repente, em 68 aquilo veio para fora. A nova geração alemã pôs para fora e expurgou aquilo do âmago da nação”, responde.

Nesse processo, o sistema educacional, contando a história do país sob Hitler, foi fundamental. Aqui, é preciso debater muito a história para a elaboração de saídas consistentes. Nicolelis diz sentir falta aqui de um relato da nossa história do ponto de vista dos oprimidos. Algo como o historiador Howard Zinn fez em “A People History of the United States” (1980, Harper &Row; Harper Collins).

ERRO ESTRATÉGICO

Nicolelis não está otimista com os desdobramentos da situação atual. Considera que a esquerda cometeu erros estratégicos na condução da resposta ao golpe.

Um deles foi, nas eleições para prefeito em 2016 priorizar a disputa das vagas como se fosse momento normal, em vez de usar a campanha para continuar e aprofundar a denúncia do golpe.

Isso, na opinião dele, “tirou o fôlego do movimento contra o golpe, foi um erro estratégico dramático. Porque essa eleição municipal não mudou nada. Todos os caras em quem se apostou para ganhar perderam de maneira catastrófica; foi um horror o que aconteceu em São Paulo”.

“O país foi praticamente jogado num abismo. Dizia-se nos anos 1980 que o Brasil não podia cair no abismo porque que era maior do que o abismo. Lamento informar que o abismo está ficando maior do que o Brasil”, afirma.

SEM PACIFICAÇÃO

Da mesma forma com que erros foram cometidos em 2016, agora Nicolelis diz que há repetição de equívocos.

“Vejo gente dizendo que as eleições vão pacificar o Brasil. Pacificar nada. As eleições norte-americanas não pacificaram os EUA. Essa polarização nos EUA tem um paralelo aqui. Aqui a polarização é mais grave. Não se vê alternativa, uma saída a curto prazo. Esse golpe pode ser muito mais longo do que foi o de 1964. No de 1964 houve uma reação. Agora não vejo visão estratégica, um projeto de nação claro. Meu medo é que, se não houver uma clara aglutinação em torno de um projeto de nação, hoje é possível imaginar a obliteração da nação. Sem um projeto interno que aglutine o maior número de brasileiros em torno de uma visão de país, a coisa é séria. A autofagia passa a ser um processo de autoaniquilação da identidade nacional. Eu acho que o risco que estamos vendo é o fio da meada de um processo que pode levar a isso. Como eu achava que 2013 foi o fio da meada do que aconteceu”.

LULA, O JUSCELINO DO SÉCULO 21

Nicolelis faz paralelo da situação atual com a presidencial de 1965 –que não houve. Como agora, Juscelino (então favorito) foi acusado de ser beneficiário de um apartamento. “A história do Brasil não se repete como farsa, mas como plágio. A eleição foi cancelada e entramos num hiato de 20 anos. Acho que agora a eleição não vai ser cancelada, mas ninguém sabe o que vai acontecer. No momento, se remove o Juscelino do século 21, que é o Lula, que claramente está na frente”.

Na análise do neurocientista, Lula “talvez seja um dos poucos seres humanos no Brasil que tenha alguma chance de criar alguma zona de pacificação. Ele não é de forma alguma um extremista; é um negociador. Quando se remove essa voz conciliadora de forma traumática, dramática e injustificável do ponto de vista legal, se abre um vácuo que qualquer coisa pode acontecer”.

TIRO NA CONSTITUIÇÃO

Em suas frequentes viagens pelo mundo, fazendo pesquisas, dando aulas e palestras, Nicolelis nota a perplexidade de seus interlocutores. Conta ouvir: ‘O Brasil era nosso parceiro estratégico. O Brasil era o celeiro da China. De repente, vocês estão dando um tiro na cabeça’. Ninguém entende nada. Somos um enigma geopolítico. Os caras não entendem. A prisão do Lula é incompreensível. Um processo igualzinho ao Kafka, com inconsistências, abusos, tudo que não faz parte da tradição no mundo Ocidental”.

“Quem respeita a Constituição? Quando se rejeitam conceitos pétreos, a presunção da inocência? Quando se passa por cima [da Constituição] se dá um tiro no coração. O pessoal diz que o que aconteceu no Brasil não é igual ao que aconteceu com Getúlio em 54. Eu discordo. O tiro só não foi dado no coração de um indivíduo, o tiro foi dado no coração da Constituição do Brasil. O paralelo é muito mais profundo, é pior de 1964. É a pior crise institucional da história do Brasil. Porque o tiro não foi dado numa pessoa. O tiro foi dado no coração da norma máxima de um país que é a Constituição. Você atirou no ventrículo da Constituição. Como você repara o ventrículo? Não é uma cirurgia simples, há risco de morte”. (Transcrito do blog Tutaméia)

Voo da Chapecoense teve indicação de emergência 40 minutos antes de cair

A Aeronáutica Civil da Colômbia apresentou nesta sexta-feira (27) as conclusões do relatório final do desastre do avião da Chapecoense, apontando que, 40 minutos antes do acidente, a aeronave já estava em emergência e a tripulação nada fez, mesmo tendo indicação na cabine, como luz vermelha e avisos sonoros. Os investigadores chegaram a essa conclusão ao analisar a caixa-preta, que contém gravadores de dados de voz e de voo.

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A investigação concluiu que o avião tinha 2.303 quilos de combustível a menos do que deveria levar para uma viagem. Segundo as normas internacionais, um voo deve ter combustível para chegar ao aeroporto de destino, mais o suficiente para um aeroporto alternativo, caso haja problemas, e ainda mais 30 minutos de reserva.

O mínimo para cumprir os regulamentos internacionais naquele voo era um total de 11.603 quilos de combustível, segundo a investigação. Mas a aeronave da Lamia tinha apenas 9.300 quilos de combustível.

Sem escala
O avião da empresa Lamia caiu levando a delegação do time catarinense no dia 28 de novembro de 2016, deixando 71 mortos. A investigação confirma que o combustível do avião era insuficiente para o voo entre Santa Cruz, na Bolívia, e Medellín, na Colômbia.

O acidente ocorreu por esgotamento de combustível como consequência da falta de gestão de risco apropriada pela Lamia, afirmou a autoridade de aviação civil colombiana, que classificou a situação como algo “inconcebível de acontecer”.

Sem o combustível, os motores pararam de funcionar e o avião planou até bater.

Entre as principais conclusões apresentadas na Colômbia estão:

  • 40 minutos antes do acidente, o avião já estava em emergência e a tripulação nada fez. Houve indicação, luz vermelha e avisos sonoros, na cabine.
  • o controle de tráfego aéreo desconhecia a “situação gravíssima” do avião.
  • a tripulação era experiente, com exames médicos em dia.
  • o contrato previa escala entre Santa Cruz e o aeroporto de Medellín, mas a empresa planejou voo direto.
  • a Lamia estava em situação financeira precária e atrasava salários aos funcionários. A empresa sofria de desorganização administrativa.
  • a Lamia não cumpria determinações das autoridades de aviação civil em relação ao abastecimento de combustível. Quando foi apresentado o relatório preliminar, já havia sido destacado que o piloto estava consciente de que o combustível que tinha não era suficiente. O piloto, Miguel Quiroga, “decidiu parar em Bogotá, mas mais adiante mudou de ideia e foi direto para Rionegro”, onde o avião caiu.
  • A Colômbia deve melhorar controles sobre voos fretados.

A Aeronáutica Civil colombiana reforçou que o relatório final não se destina a apontar culpados para que sejam punidos, mas esclarecer as circuntâncias do acidente para permitir que sejam adotadas medidas preventivas que evitem novos acontecimentos como o da tragédia da Chape. O relatório final conta com dados que o preliminar não tinha, como a análise das caixas pretas e documentos relativos à situação da empresa. Veja as conclusões do relatório preliminar apresentado em dezembro de 2016. (Do G1)

Fifa suspende Del Nero em definitivo e aplica multa milionária

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A Fifa aplicou uma suspensão vitalícia ao ex-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, além de uma multa de 1 milhão de francos suíços (R$ 3,5 milhões). Ele foi punido por corrupção, por aceitar presentes de forma indevida e gestão desleal. A informação é do repórter Jamil Chade, do Estadão.

Esta punição tira de Del Nero o direito até de entrar na CBF para eventos sociais, nem presidir clubes ou fazer parte da organização de torneios.Del Nero foi iniciado pela Justiça americana em 2015. Mas, desde então, passou a evitar sair do Brasil para não ser preso. Em 2017, Del Nero já havia sido suspenso temporariamente, após a Fifa receber evidências dos procuradores dos EUA sobre a participação do dirigentes em esquemas de corrupção da CBF.

Antes disso, Del Nero ainda trabalhou para que o aliado Rogério Caboclo fosse eleito o novo presidente da CBF, que nem sequer teve oposição na eleição. Um dos principais aliados de Del Nero na entidade é o paraense Antonio Carlos Nunes, ex-presidente da FPF, e reeleito para a vice-presidência da CBF na gestão de Caboclo. (Do Portal Terra)

Procurador da Lava Jato ameaça o STF e prevê “inferno para os réus”

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o popular “Boquinha”, ao sentir que os caprichos da Lava Jato começam a ser contidos, soltou uma declaração que mais pareceu uma ameaça miliciana direta ao Supremo Tribunal Federal, em especial à 2ª Turma. A reação revela a vaidade e a prepotência que marcam a conduta de figuras ligadas à força-tarefa da operação concentrada em Curitiba.

Como o próprio Carlos Fernando é acostumado a fazer declarações e depois apagar, a tela foi devidamente printada.

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O comentário do procurador força algumas perguntas óbvias. Primeiro: o que seria essa tal “velha ordem”? Seria a ordem democrática, na qual o Judiciário tem como dever respeitar os princípios constitucionais e o réu deveria ser inocente até prova em contrário? Segundo: como Boquinha vai promover o tal “inferno” na vida dos réus? Cumprindo a ameaça ao STF?

No fundo, Carlos Fernando expressa o que vai pela cabeça de Sérgio Moro e sua turma, que formam hoje um bolsão de resistência ao Direito usando e abusando de atos que contrariam o bom senso, como a recente recusa em cumprir a decisão do STF de transferir processos de Lula que nada têm a ver com a Petrobras.

Quando fala em inferno, o procurador parece estar admitindo que a força-tarefa se considera com poder suficiente para promover um autêntico inferno jurídico no país, colocando-se acima da própria Suprema Corte. Falou como miliciano curitibano, dando voz ao que Moro não verbaliza: a Lava Jato se considera acima da Lei.

Nesse sentido, o procurador inverte as coisas. Quem deveria observar que a Justiça deve ser cega é o próprio grupo encastelado na chamada “república de Curitiba”, cuja parceria íntima e promíscua com veículos da velha mídia – Globo à frente – configura hoje um poder paralelo no Brasil.

O triunfo de uma ideia

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POR GERSON NOGUEIRA

Dado Cavalcanti foi diplomático e evitou festejos antecipados, como convém ao bom vencedor, mas o fato é que nem as pedras do cais duvidam mais da conquista da Copa Verde pelo Papão no próximo dia 16 de maio. E isso se deve à meritória vitória de anteontem, em Cariacica, quando o time paraense mostrou dinamismo e competência para transformar em gols as poucas oportunidades criadas.

A vantagem estabelecida na decisão é ainda maior se levada em conta a diferença técnica entre os times. O Papão se impôs em Cariacica porque soube controlar as ações e, mesmo sem sinal de criatividade no meio-campo, teve forças para buscar os gols que precisava. Nada faz supor que esse panorama mude até o jogo de volta. Por isso, os dois gols não constituem o motivo maior para cravar o favoritismo absoluto do PSC.

O Atlético-ES até se esforçou para jogar bonitinho, tocando a bola de um lado a outro, fazendo o jogo girar, como adoram falar os novos técnicos de futebol. Só que esse giro não pode ser inútil e , sob pena de facilitar a recomposição defensiva do oponente.

E foi justamente o que aconteceu. O Atlético saía com a bola e, ante o bloqueio na intermediária do PSC, via-se forçado a abusar dos passes laterais improdutivos. Quando os bicolores, principalmente os incansáveis Moisés e Mike, avançavam ao campo inimigo para adiantar a marcação, aí tudo ficava mais difícil para os mandantes.

Aliás, foi assim que a porteira se abriu. Em jogada que se repetia desde o primeiro tempo, os zagueiros ficaram trocando aqueles passes sonolentos, aparentemente esperando abrir uma brecha lá na frente. Cassiano deve ter observado essa arrumação e ficou esperando o primeiro descuido para roubar a bolar e tocar na saída do goleiro Bambu.

Longe de se reorganizar e buscar alinhar os setores, o Atlético seguiu na mesma toada, tocando umas 400 vezes na bola sem finalizar a gol. Só chegava com mais força nos escanteios e cobranças de falta.

A proposta tática da equipe teoricamente é até interessante, mas peca pela falta de funcionalidade, pois os homens de frente não têm a qualidade necessária para superar um forte sistema defensivo como o montado pelo PSC.

Lá pelos 30 minutos, com o Papão vencendo e jogando sem maiores sustos, ficou evidente que a parada estava decidida. O próprio Atlético começou a dar sinais de desânimo, queimando ataques seguidos com a precipitação nos lançamentos.

O segundo gol veio quase naturalmente. Bola recuperada na intermediária bicolor por Mike se transformou num inspirado lançamento para Cassiano, que venceu seus marcadores na corrida e disparou um foguete em direção às redes.

Um golaço, tanto na construção como na definição, que foi comemorado efusivamente pelo maior artilheiro bicolor na temporada (15 gols), vivendo a melhor fase de sua carreira, conforme admitiria depois da partida.

A vitória inquestionável abre caminho para a conquista do bicampeonato da CV, garante gorda bonificação em dinheiro e classifica o Papão para as oitavas da Copa do Brasil 2019. Um final de semestre que se desenha alvissareiro, compensando a frustração pelos maus passos no Parazão.

Ao mesmo tempo, ao botar a mão na taça, Dado Cavalcanti ganha ainda mais musculatura para a Série B, pois sua aposta no sistema de três zagueiros mostra-se plenamente vitoriosa. São quatro vitórias consecutivas, sem esquecer que empregou com êxito a mesma arquitetura defensiva na semifinal do Estadual contra o Bragantino.

Acima de tudo, o técnico vê triunfar a ideia que nasceu da mais absoluta necessidade. Sem alas criativos para apoiar o ataque e com a carência de um meia-armador clássico, optou pelo sistema 3-4-3, que oculta imperfeições e – pelo menos por enquanto – vai dando certo.

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Baixo rendimento ofensivo faz Givanildo mexer no time

Interessante ver a humildade do veterano Givanildo Oliveira em mudar de planos ao ver que o Remo precisa de ajustes ofensivos urgentes. Agiu em conformidade com a expectativa do torcedor, que vinha demonstrando crescente insatisfação com a produção do time, que joga com três atacantes e é obrigado a se contentar com uma artilharia extremamente econômica.

Para quem observa futebol com atenção, o Remo padece de um mal crônico: a falta de um jogador que organize o meio-campo e cuide da transição entre zaga, meio e ataque. Adenilson ocupou essa função até por exclusão, pois o técnico não tinha alternativa melhor no elenco.

Com a chegada de Everton, Givanildo providencia a imediata alteração, a partir da boa movimentação do estreante no segundo tempo diante do Globo-RN, sábado passado. Por vício de origem, Everton cai mais pelo lado esquerdo e tem como característica conduzir a bola, buscando tabelas e passes curtos em velocidade.

Pode ser uma excelente companhia para os pontas Felipe Marques e Elielton, mas há o risco de que o meio continue despovoado e sem qualidade. Os treinos desta semana têm mostrado que Givanildo quer um time bem mais ágil nos avanços, a fim de explorar as virtudes de seus dois atacantes de lado.

Para o confronto de amanhã contra o Juazeirense, além da efetivação de Everton, o time deverá ter Gustavo na lateral direita e a volta de Bruno Maia à defesa. É improvável que as mudanças tenham efeito imediato, mas pelo menos indicam que Givanildo – como os torcedores – também não está inteiramente satisfeito com a produção do time na Série C.

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Copa perde um astro de primeira grandeza

E Ibrahimovic não vai mesmo à Copa.

Para tristeza de quem aprecia futebol de qualidade, o atacante sueco confirmou na terça-feira sua aposentadoria da seleção, segundo o presidente da Federação Sueca de Futebol. Pode-se dizer então que, além das ausências de Holanda e Itália, o mundial russo estará desfalcado de uma de suas maiores atrações. Ibra é um atacante como poucos no futebol de hoje, capaz de jogadas espetaculares e gols surpreendentes.

Uma pena.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 27)