Por Gerson Nogueira
Deficitário desde sempre, tecnicamente sofrível e fraco em emoções, o Campeonato Paraense deste ano tem conseguido superar até os dois recentes, igualmente esquecidos pela própria inexpressividade. A fórmula de disputa, com oito clubes participantes, não consegue seduzir o público, que prefere qualquer outra atração a ter que comparecer aos estádios.
Vários outros fatores podem ser arrolados como determinantes da fuga progressiva de público dos estádios. Além do regulamento que mantém teimosamente dois jogos nas semifinais de turnos, tornando ainda mais arrastado um torneio que já é monótono por natureza, há também a baixíssima qualidade dos competidores.
Com exceção de Remo, Paissandu e mais um ou dois participantes, o Parazão é um desfile de equipes medíocres, com jogadores refugados pelos grandes de Belém e sem mercado fora do Pará. Não se tem notícia, nas últimas cinco temporadas, em plena vigência da incensada estadualização do campeonato, de jovens jogadores revelados pelas equipes interioranas.
Um indicador natural do nível de excelência de uma competição é a quantidade de novos jogadores que revela. No Parazão, novidades como Pikachu, Leandro Carvalho, Bartola, Betinho, Billy, Rony, Rodrigo, Djalma, Alex Ruan, Paulo Rafael e Guilherme entram como exemplos de que a renovação é um fato. Nada mais falso.
Todos os citados têm em comum o fato de que foram formados nas divisões de base de Remo e Paissandu. Nenhum saiu do futebol interiorano, como era corriqueiro em outros tempos. A honrosa exceção, que só confirma a triste realidade, é Danilo Galvão, surgido no ano passado no Águia de Marabá – que, aliás, ficou fora do Parazão deste ano.
Um futebol que se fecha cada vez mais em torno de seus dois clubes tradicionais não pode estar em marcha evolutiva, muito pelo contrário. Na verdade, desenvolve-se um processo de volta ao passado, no sentido mais negativo possível.
Remo e Paissandu tendem a cuidar de seus próprios mundos e o Pará torna-se um feudo de dois senhores centenários. Os novos clubes surgem na esteira da dupla Re-Pa, mas copiam apenas seus muitos erros. Contratam além do necessário, não equilibram receita e despesa e dispensam técnicos com a sem-cerimônia dos clubes mais velhos.
Nem Independente e Cametá, campeões estaduais, conseguem manter funcionamento regular. Montam times para uma disputa de três meses. Depois, endividados, fecham as portas à espera da próxima temporada.
Pois, para espanto geral, mesmo com tantas vicissitudes expostas, floresce nos bastidores uma proposta marota de ampliar – eliminando uma das etapas de acesso – o número de participantes de oito para dez clubes. É mais ou menos como receitar uma dosagem excessiva de remédio para matar o paciente.
Não há público, nem nível técnico, muito menos calendário, para sustentar um torneio inchado artificialmente. Insistir nessa irresponsabilidade signifa condenar de vez o Parazão à irrelevância e à falência.
Somente a paixão cega por Remo e Paissandu segura a competição, mas o torcedor cada vez mais prefere acompanhar da poltrona de sua casa, fugindo de tantos jogos sem importância ou emoção.
A cartolagem precisa parar de brincar com o futebol.
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Violência, insanidade e surrealismo
A violência nos estádios brasileiros há muito que tomou rumos absolutamente insanos. Mas, desta vez, a coisa extrapolou qualquer limite. Quando a gente pensa que já viu quase tudo, eis que a realidade vem e nos surpreende. Um torcedor foi atingido em cheio por um vaso sanitário, sexta-feira à noite, no Recife, quando passava em frente ao portão do estádio do Arruda. Morreu no ato.
O vaso foi atirado das arquibancadas, do lado onde costumam ficar as “organizadas” do Santa Cruz. Segundo testemunhas, uma briga irrompeu nas arquibancadas e uma das armas usadas foi o vaso sanitário. Acabou acertando quem nada tinha com a história.
O episódio ocorreu depois do jogo entre Santa e Paraná, pela Série B, e a notícia vai rodar o mundo, confirmando a inequívoca vocação nacional para transformar festa em velório nos estádios de futebol.
Pergunta óbvia: como a polícia conseguiu não ver alguém carregando um vaso sanitário até as arquibancadas?
Incrível, mas o Brasil consegue banalizar até o surrealismo.
Até quando?
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 4)










