Dez coisas que toda mãe de jornalista deveria saber

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Por Duda Rangel (*), do blog Desilusões Perdidas

Esse jeito meio estranho do seu filho é normal. Jornalista é um povo esquisito. Não é o caso de a senhora começar a rezar ou procurar um psiquiatra. Ao menos, por enquanto.

Sim, blog não é emprego e não dá dinheiro, mas não há mal algum em deixar sua filha ter um blog. Praticar a nobre arte de escrever é sempre louvável.

O filho da vizinha que é advogado não é melhor do que o seu filho por mais que a desgraçada da vizinha tente te convencer disso.

Não é por sacanagem que sua filha não estará presente no almoço do Dia das Mães. Tem um negócio no nosso ramo chamado plantão e geralmente cai em datas festivas.

0-0-0-saudade_andretoma.0Não é por sacanagem que ela também não vai lhe dar um presente decente no Dia das Mães. É falta de grana mesmo. Mas olha: este porta-retratos de segunda mão até que é bonito, hein?

Seu filho ficará feliz se a senhora disser que assistiu à reportagem dele e que ficou tudo maravilhoso. Vale mentir. Ah, a senhora não sabe mentir? Ok, peça então ajuda ao filho da vizinha, o advogado.

Se sua filha não quer prestar concurso público como a senhora tanto sonha, não force a barra. Sim, eu sei que é para o futuro dela. Sim, eu sei que a senhora só quer o bem dela. Sim, minha senhora, eu sei. Porra, eu não falei pra senhora não forçar a barra?

Essa coisa de ele passar o dia (e a noite) em frente ao computador também é normal. Mas é o caso de mandá-lo a um ortopedista com urgência, porque a coluna dele já deve estar toda ferrada.

Essa coisa de sua filha ficar horas sem comer não é greve de fome por uma grande causa. É falta de tempo. Deixe sempre uma maçã perto da bolsa dela. Ela vai te achar a melhor mãe do mundo.

A gente não escolhe as paixões dos nossos filhos. Se eles amam o jornalismo, só resta apoiá-los, por mais que o Banco do Brasil dê mais futuro. Eles vão te achar a melhor mãe do mundo e de todas as galáxias de todos os tempos.

(*) Personagem criado pelos gêmeos Anderson e Emerson Couto, o jornalista Duda Rangel é autor do blog Desilusões Perdidas e da fan page Jornalismo com bom humor. O blog originou o livro “A vida de jornalista como ela é”, à venda pela web aqui. Texto publicado, no Comunique-se, em setembro de 2013.

Pensar fora da caixa?

Por Janu Schwab

Se todos os males do mundo da publicidade, do marketing promocional ou coisa que o valha pudessem ser resumidos em uma única frase, minha escolha, sem titubear, seria a tal “é preciso pensar fora da caixa”.

Dentro desse universo, não há nada mais petulante e angustiante do que esse apanhado de palavras de significado duvidoso. Nada mais representa com fidelidade a pantomima que põe publicitários como doutos moradores de um Monte Olimpo da criatividade universal, distantes dos reles mortais e suas vidas de folha de ponto, carimbos e crachás.

Pensar fora da caixa? Pfff… Passei a primeira metade da minha vida tendo um milhão de mantras pós-modernos empurrados ouvidos adentro numa tentativa de interagir e construir o arcabouço que, sempre disseram, me faria estar a frente dos outros. “O mundo é uma selva”, diziam enquanto eu assistia à Tv Colosso.

A humanidade é viciada em dogmas. Faça isso, não faça aquilo, pense assim, não pense assado, obladi-obladá e toda a infinidade de máximas que a imaginação e a programação neurolinguística podem formular passaram por aqui. Mas nenhuma, nenhuma frase foi repetida tantas vezes e tantas vezes me deixou mais angustiado quanto “é preciso pensar fora da caixa”.

Nunca tive problemas em distinguir literalidades, figuras de linguagem, eufemismos e afins. Mas essa frase enigmática, esse comando que não diz a que veio, esse joguete charmoso que apenas lhe incita a algo e encerra-se em silêncio sempre me foi mais tensão do que estímulo. Mais lágrima do que suor.

Pensar fora da caixa. Sei bem do que se trata: enxergar além do que se vê, entregar muito mais do que esperam, “se o mundo zig, você zag” e fazer valer o título de doutor honoris causa em criatividade que carregamos por sobre nossas cabeças; afinal, na indústria criativa, somos todos criativos.

Porém, a frase “é preciso pensar fora da caixa” sempre me vem como um “te vira” cheio de floreios, enquanto o tempo, essa máquina de mofar sonhos, escorre por entre os dedos e o mercado, de dentes arreganhados, espera por nossos erros.

“Pensar fora da caixa” sempre me soou uma desculpa para ignorar briefings mal escritos (e desmerecer a importância do mesmo no processo) ou pedidos de clientes que sempre foram feitos em cima da hora. “Pensar fora da caixa” passou a ser uma forma rebuscada de jogar uma pedra quente no colo de quem esteve esperando uma batata. Alguém consegue fazer purê de granito?

Figura de linguagem por figura de linguagem, se a caixa é a realidade do brief, do pedido do cliente ou do prazo da tarefa, não posso pensar fora dela sem antes conhecer – e entender – o que há dentro dela, certo? Nunca me responderam sim, não ou talvez. E meu anseio por informações que iam além de “nosso público alvo é todo mundo” ficou no ar como um capricho.

A frase virou um dogma. Um dogma que faz com que a gente se preocupe mais em surpreender do que pensar. Em tempos onde qualquer um é mais do que realmente é, mesmo fazendo menos do que poderia, não faz o menor sentido ser um forasteiro de uma terra que é sua enquanto durar o contrato.

Sejamos francos, poucos de nós têm interesse em conhecer o cliente a fundo, seus anseios, seus propósitos não só como marca, mas também como gestor da mesma. Queremos empurrar nossas ideias, porque é com elas que fazemos portfólio, fama e dinheiro. “Quero meu milhão antes dos trinta”, alguém sussurrou.

Poucos de nós entendem que o papel de um profissional de publicidade, de marketing promocional ou coisa que o valha não é ser um varejista de fórmulas sensacionais, “pagou, levou”, mas um concierge de soluções feitas sob medida, “pois não, como posso ajudá-lo?”.

Demorei um pouco para enxergar que era isso que fazia com que eu me sentisse uma fraude diante das inúmeras oportunidades que se disfarçavam de obstáculos intransponíveis e dificuldades insolúveis. Quando tive esse estalo e alguém voltou a dizer “é preciso pensar fora da caixa”, respondi de pronto: agora não, obrigado.

Janu Schwab é diretor de Planejamento da Fermento Promo

O passado é uma parada…

Foto rara e histórica de um Pará que não existe mais. O ano era 1898. Hospedaria dos Imigrantes, na Ilha de Outeiro. A imagem captura olhares e expressões de visitantes diante de um mundo novo. Eram homens e mulheres vindos da Europa. Os imigrantes chegaram estimulados pela promessa de progresso e riqueza, a partir da criação de uma colônia agrícola. Em 1902, o governo declararia o núcleo modelo de Outeiro extinto. Por lá haviam passado pelo menos 47 famílias, a maioria da Itália, Espanha e Portugal.

Como nas melhores famílias

Por Gerson Nogueira

unnamed (57)Quando o Brasil pisar no gramado da Arena São Paulo para enfrentar a Croácia, às 17h da quinta-feira, 12 de junho, abrindo a Copa do Mundo, é impensável que a escalação tenha Henrique, Maxwell, Fernandinho e Bernard entre os titulares. São jogadores da chamada confraria de confiança do técnico Felipão, chamados muito mais pelas afinidades pessoais do que pelo rendimento técnico atual.
Henrique é um zagueiro que se transferiu para o futebol italiano nesta temporada, jogando pouco mais de 10 partidas pelo Nápoli, nem sempre como titular. Nos tempos de Palmeiras, era um beque não mais que razoável, de altos e baixos, como na noite em que foi totalmente envolvido pelos dribles de Pikachu no Mangueirão em partida válida pela Série B do ano passado. Terminaria até expulso de campo no final do jogo.
Antes, sob as ordens de Felipão, é presumível que tenha se destacado internamente pela liderança e capacidade de agregar o grupo. Qualidades sempre ressaltadas pelos técnicos, embora insuficientes para ganhar Copa do Mundo.
Tais virtudes talvez tenha convencido Felipão a premiá-lo com a convocação, preterindo zagueiros melhores, como Miranda, finalista da Liga dos Campeões e do certame espanhol com o Atlético de Madri, e Dedé, campeão brasileiro pelo Cruzeiro.
Quanto a Bernard, dotado de “alegria nas pernas”, segundo o próprio técnico, a dúvida é se um esquema centrado na força física e na intensidade de jogo aceitará a presença de mais um jogador franzino no ataque, levando em conta que Neymar é titular absoluto e maior astro do escrete.
No Atlético, o avante se destacou pela capacidade de puxar contragolpes em velocidade, mas jamais foi visto como indispensável. Negociado com a Ucrânia, sumiu de vista e só foi lembrado pelas atuações na Libertadores 2013.
Como Henrique, Bernard deverá acompanhar a Copa do banco de reservas ou terá alguns minutos para exibir sua alegria em partidas eventualmente já definidas. Maxwell, cuja inclusão também surpreendeu, é a típica escolha por exclusão. Foi chamado porque não havia ninguém melhor.
Depois de pintar como um fenômeno da lateral esquerda pela habilidade ambidestra, perdeu visibilidade nos últimos quatro anos, mas ressurgiu no novo PSG, habilitando-se a ser o suplente de Marcelo. Só vai jogar em caso de contusão do titular.
Fernandinho começou a ser chamado para a Seleção por Mano Menezes há três anos. Graças às convocações, transferiu-se para o Manchester City e convenceu Felipão pela versatilidade e alguns disparos certeiros em direção ao gol. Não é um novo Fernando Redondo, mas pode ser útil, embora seja a última das opções entre os volantes para entrar no time.
Há algum tempo, principalmente a partir da era Parreira na Seleção, o conceito de “família de boleiros” adquiriu conotações menos republicanas. Juntamente com Zagallo, Parreira foi pioneiro no processo de valorização de atletas convocados para vestir a amarelinha. Quase todas as listas incluíam um ou dois desconhecidos, que quase nunca jogavam, mas subiam de cotação nas milionárias negociações do futebol europeu.
A prática se manteve com Mano Menezes e parece refreada na Seleção atual. O fato é que o exemplo vitorioso de 2002, de união em torno de um objetivo, empresta ao conceito da “família Scolari” uma aura simpática. Condição bem diferente da carrancuda e ressentida panelinha em torno de Dunga e Jorginho, em 2010.

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O volante raçudo e o mestre sanguíneo

Volante de estilo bate-estaca, o mineiro Elzo foi o Henrique de Telê Santana na convocação para a Copa de 1986. A surpreendente escolha representava um tremendo contraste com o próprio perfil do técnico. Chamado para ser mero coadjuvante, Elzo surpreendeu ganhando a titularidade. Mais que isso, transformou-se no jogador mais regular do Brasil naquele Mundial.
Em entrevista recente, Elzo revelou o trauma causado por uma duríssima conversa de vestiário com Telê. Dias antes da viagem para o México, o técnico o interpelou, acusando-o de mau caráter, covarde e indigno de confiança. Ainda sentenciou que ele jamais teria chance entre os titulares.
Mesmo depois de aquinhoado com a titularidade, Elzo jamais assimilou as pancadas verbais proferidas do comandante. Tempos depois, já em fim de carreira, esbarrou em Telê num evento e este fez questão de explicar o inusitado diálogo: era um truque para motivá-lo e evitar que se encabulasse diante de craques consagrados, como Sócrates, Zico e Careca.
Elzo agradeceu e aceitou a explicação, mas jamais esqueceu a mágoa com a rispidez do velho professor, a quem sempre admirou como um mestre.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 11)