Radicalização nas ruas, nas redes e até no palco

POR RICARDO KOTSCHO

Multiplicaram-se nos últimos dias os casos de intolerância e violência na crescente onda de radicalização que se alastra pelo País. Nas ruas, nas redes sociais e até no palco e na platéia de um teatro em Belo Horizonte, agressões verbais são seguidas de ameaças físicas. Não preciso nem ir longe: é só ver os comentários que recebo aqui no Balaio enviados por leitores dos dois lados envolvidos na guerra política, igualmente ofensivos e grosseiros, em que argumentos há muito foram trocados por xingamentos.

O que era para ser o espaço democrático de um debate de ideias, generosamente oferecido pela internet, acabou se transformando num dos principais instrumentos desta radicalização política estúpida e perigosa, que já passou de todos os limites da civilidade. É o caso de se pensar se vale a pena manter aberta esta área de comentários, já que em nada contribui para pacificar os ânimos exaltados, muito ao contrário.

Os fatos não importam: o que se quer é simplesmente destruir quem pensa diferente. Nestes meus mais de 50 anos ganhando a vida como jornalista, nunca vi nada parecido.

Para se ter uma ideia de a que ponto chegamos, durante a apresentação do espetáculo “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, no teatro Sesc Palladium, em Belo Horizonte, no sábado à noite, o ator Claúdio Botelho entrou em conflito com a platéia, após insultar Dilma e Lula, que chamou de ladrões. A platéia reagiu aos gritos de “Não vai ter golpe”. Botelho chamou os espectadores que o vaiavam de “bandidos”, “neofascistas” e “filhos da (*). A sessão acabou no meio, com a platéia esvaziada e o ator blasfemando no camarim.

Cláudio Botelho deixou o teatro protestando: “Comecei a ficar com medo. Tive que sair escoltado pela polícia. Eu corria o risco de linchamento”. Ao ficar sabendo do que aconteceu, Chico Buarque retirou os direitos de suas músicas que havia cedido ao ator e vetou nova exibição do espetáculo. A vida real está superando a ficção mais inverosímel.

Sob o título “Ânimos exaltados no Rio”, a coluna de Ancelmo Gois, em “O Globo”,  registra outro episódio emblemático dos tempos que estamos vivendo.

“Ontem, um jornaleiro de Ipanema, da banca que fica ali entre as ruas Aníbal de Mendonça e Barão da Torre, disse para uma cliente: “Bolsonaro para presidente”. Indignada, ela se negou a comprar o jornal. Ele quis bater boca: “Lula é um ladrão”. Ela retrucou: “Você é um fascista”. E o barraco estava feito. Calma, gente”. Na véspera, o mesmo colunista já havia contado a história da senhora que foi hostilizada numa praça porque levava na coleira seu cachorrinho com lenço vermelho no pescoço.

“Políticos que presenciam a história desde os anos 50 afirmam que só se pode comparar estes dias com o período que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. O pau quebrou”, lembrou em sua coluna no domingo o comentarista político Ilimar Franco.

Vida que segue.

Um comentário em “Radicalização nas ruas, nas redes e até no palco

  1. É, a coisa tá feia. Aqui mesmo no Blog é possível verificar este comportamento. Sendo importante lembrar que, no Brasil, e no Blog, logicamente, tal exaperação acontece de parte a parte. No mais das vezes a agressão e a ofensa são gratuitas, independentemente de qualquer agressão e ofensa anterior. A só manifestação de um posicionamento contrário, muita vez já é suficiente para uma manifestação, na melhor das hipóteses, desqualificadora da sanidade, inteligência, e nível de conhecimento e informação do outro.

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