Esporte Interativo já fechou com 15 clubes

POR RODRIGO MATTOS

Série A, sete da Série B, e um da Série C. Com isso, o canal atingiu o número mínimo de times para realizar seu projeto de transmitir o Nacional.  A informação está em processo do Cade (Conselho de Administração do Direito Econômico).

O organismo investiga a negociação de direitos do Brasileiro-2019 e mandou questionamentos para a Globo, o Esporte Interativo e um grupo em torno de 16 clubes.

Ao responder seu questionário, a Turner listou os times com os quais já fechou contrato. Da Série A, foram Atlético-PR, Coritiba, Internacional, Santos, Santa Cruz, Figueirense e Ponte Preta. Da Série B, assinaram Bahia, Ceará, Sampaio Corrêa, Criciúma, Joinville, Paysandu e Paraná. E há o Fortaleza da Série C.

As condições da proposta são mantidas em sigilo por meio de tarjas prestas no processo. Mas o valor da oferta do Esporte Interativo é de R$ 550 milhões considerados os 20 clubes, montante que cai proporcionalmente com o número de times que tiver sob contrato. Por exemplo, com sete equipes da Série A, o canal pagaria um valor próximo de R$ 200 milhões, pouco menos R$ 30 milhões para cada um.

Os clubes que estão na Série A, além do Bahia e Ceará, assinaram um contrato coletivo segundo informação do Esporte Interativo.  A divisão se dará por meio de fórmula igual a da Premier League, 50% igual, 25% por premiação e 25% por audiência.

Os outros clubes que estão na Série B assinaram compromissos individuais que só serão válidos caso estejam na primeira divisão. Ao assinar com 15 times, o Esporte Interativo tem a estratégia de sempre ter um número entre sete e nove equipes na Série A, o que pode variar de ano a ano. Assim, consegue ter 76 partidas por Brasileiro.

Ao falar sobre como irá funcionar dividir direitos de TV Fechada com a Globo, o Esporte Interativo afirmou que há duas possibilidades: um acordo entre o Sportv e o canal; ou que cada um fique apenas com seus clubes. “Mas mesmo que as empresas não entrem em um acordo, isso não afetaria os direitos de transmissões de jogos via pay-per-view”, afirmou o canal.

Na visão do canal da Turner, a concorrência aumentará o número de partidas na TV Fechada porque será transmitido em dois canais, e poderá gerar mais renda no pay-per-view já que nem todos os jogos estarão disponíveis.

“A entrada do Esporte Interativo na competição pelos direitos do campeonato impacta positivamente, do ponto de vista concorrencial, em um mercado que tem sido basicamente dominado por um grupo monopolista”, afirmou o Esporte Interativo ao Cade. A Globo pediu um prazo maior ao Cade para responder.

Para quebrar o jejum

POR GERSON NOGUEIRA

O Papão, ganhador do primeiro turno, convive com uma situação curiosa no Campeonato Paraense. Está sem vencer há três partidas. No aspecto prático, isso não impediu que o time levantasse a Taça Cidade de Belém, mas o jejum é bastante incômodo, principalmente para os jogadores de ataque, que têm a responsabilidade final pela definição das partidas.

Para o confronto de hoje com o Parauapebas, no estádio Rosenão, a abstinência forçada de vitórias levou o técnico Dado Cavalcanti a cultivar dúvidas no meio-de-campo e no ataque. Pelas últimas apresentações, ninguém pode ser considerado titular na linha de frente.

Leandro Cearense, Betinho, Wanderson e Bruno Veiga têm apresentado rendimento abaixo das expectativas, abusando do desperdício de chances de gol. Pode-se dizer mesmo que o setor é o ponto destoante na vitoriosa campanha do turno.

Ao mesmo tempo, Fabinho Alves tem sido o mais regular dos atacantes, sempre participativo e atento às possibilidades criadas pelos homens de meio-campo. Acrescente-se a isso a notável capacidade de impor um ritmo forte nas jogadas pelas extremas, como há muito não se via no Papão.

Já o meio-campo, cujo filão de criatividade se concentra nos pés de Celsinho, não terá hoje a participação dinâmica e vertical de Rafael Luz, que funciona como opção de manobras em velocidade sobre a área adversária a partir da linha de meia-cancha.

A perda é significativa porque Rafael Luz também aparece bastante nas cobranças de falta de Celsinho. É o homem que sobe para se antecipar aos zagueiros para o cabeceio discreto, a chamada raspadinha, quase sempre fatal neste Parazão.

Na verdade, o próprio Celsinho não repetiu ao longo dos jogos mais recentes a eficiência nas bolas paradas de média distância. Talvez isso se deva à vigilância cada vez maior que as zagas passaram a ter em relação sabendo que é um especialista neste tipo de lance.

A saída precoce (por expulsão) na semifinal contra o Águia e a consequente ausência no Re-Pa decisivo do turno também contribuem para o déficit de rendimento do jogador e repercute na produção geral do time.

Para substituir Luz, Dado fez mistério até ontem, mas é provável que se defina por Paulinho, meia-atacante que treinou na posição durante a semana e que sabe executar as funções que o titular costuma desempenhar.

Não deixa de ser surpreendente que Marcelo Costa, veterano meia contratado para ser o camisa 10 (foi até inscrito com essa numeração), tenha sido deixado de lado. Jogou contra o Remo, mas a participação burocrática – mesmo tendo cobrado a falta que resultou em gol – parece não ter agradado ao técnico.

É este Papão, ainda buscando descobrir seus melhores recursos, que sobe a serra para se defrontar com um adversário fragilizado. O Parauapebas tem campanha pífia até aqui (4 pontos, penúltimo colocado na classificação geral) e abatido pela derrota em casa para o misto do Londrina, no meio da semana, pela Copa do Brasil.

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Regra da quarta substituição sob testes

A notícia de que a Fifa pretende fazer na Olimpíada do Rio de Janeiro experiências com a quarta substituição confirma a tendência reformista adotada pela International Board desde a posse de Gianni Infantino na presidência da entidade.

Há duas semanas, o conselho técnico responsável pelas regras do futebol já havia concordado em implantar câmeras para esclarecer dúvidas em lances polêmicos.

Apesar de restrita às prorrogações, a quarta substituição dará aos técnicos mais alternativas táticas durante jogos decisivos, pois permitirá mexidas pontuais nas equipes com a garantia de que ainda haverá uma outra alternativa de mudança no período extra.

É uma medida que, se implantada, contribuirá também para a evolução técnica do jogo, ao mesmo tempo em que atenderá reivindicações de sindicatos de atletas, sempre críticos em relação à sobrecarga extenuante representada por prorrogações.

Além dos Jogos do Rio, a experiência com a quarta substituição está prevista para o Mundial de Clubes deste ano e para o Mundial sub-20.

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Ainda é cedo para comemorar

Saudado com entusiasmo pela atual cúpula dirigente da CBF, o recuo da Fifa na cobrança de R$ 6,3 milhões de Marco Polo Del Nero a título de ressarcimento por propinas recebidas deveria ser visto apenas como uma ligeira inflexão no roteiro de caça aos cartolas mais corruptos do planeta.

Em carta divulgada pelo presidente interino, coronel Antonio Carlos Nunes, a Fifa diz que por enquanto não cobrará o valor destinado a Del Nero por entender que não existem provas conclusivas contra ele. Não indicou – e nem precisava – a firme disposição de continuar coletando provas sobre o manda-chuva da CBF.

O ex-presidente Ricardo Teixeira, porém, terá que devolver R$ 13 milhões aos cofres da entidade em função de maracutaias diversas envolvendo contratos de publicidade e de transmissão de jogos. José Maria Marin, que está em prisão domiciliar nos Estados Unidos, terá que se coçar em R$ 431 mil.

A Justiça americana, que auxilia a Fifa no resgate de aproximadamente 50 milhões de dólares, já indiciou 41 cartolas de todos os continentes, mas continua desapontada com a extrema lentidão das autoridades federais brasileiras em fornecer dados e informações sobre as estripulias entre CBF, cartolagem e empresas, incluindo aí a Globo, principal detentora dos direitos de transmissão de torneios oficiais da Fifa.

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Bola na Torre

Fernando Henrique, goleiro do Remo, é o convidado do Bola na Torre deste domingo. Guilherme Guerreiro apresenta, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião.

O programa começa logo depois do Pânico, na RBATV, por volta de 00h20.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 20)

Gilmar e Moro afrontam a democracia e o golpe avança; Lula precisa ir a uma embaixada e denunciar o golpe jurídico-midiático

POR RODRIGO VIANNA, no blog Escrevinhador

Foi estranho ir para a Paulista, e não ver ninguém gritando: “morre, fulano”; “fechem o partido XX”; “deem um tiro na cabeça de YY”. Foi isso que eu havia visto nas manifestações dos chamados “coxinhas”, desde março de 2015.

Nesse dia 18 de março de 2016, ao contrário, não houve ódio. Na rua, mostrou-se a firme disposição de defender a Democracia e as conquistas dos últimos 13 anos. Houve também a denúncia da ação de um juiz – Sérgio Moro – que rompeu com a lei e se transformou num baderneiro da Justiça. E houve o ataque firme ao golpismo descarado da Globo.

Lula falou ao povo, que se mostrou em sua diversidade: negros, brancos, mestiços; mulheres e negros; gays, travestis; funcionários, estudantes classe média, operários e agricultores. Tudo junto e misturado. Havia muito mais do que 100 mil pessoas na Paulista. Pelo menos o dobro disso.

Muita gente com quem conversei na Paulista se sentiu aliviada porque,Brasil afora, milhares de pessoas se manifestaram contra o golpe. Isso, avaliam alguns, será um freio para os golpistas.

Hum… Tenho o dever de ser realista. E dizer: não!

Em 13 de março de 1964, Jango foi à Central do Brasil e mostrou força num comício diante de milhares de operários/trabalhadores, além de militantes trabalhistas e da esquerda. Três semanas depois, Jango foi derrubado.

A ação de Gilmar Mendes na noite de 18 de março de 2016, suspendendo a posse de Lula como ministro, foi tomada exatamente no momento em que as manifestações se dispersavam, e não deixa dúvidas: o golpe não vai parar.

Lula no governo não é importante para escapar da Justiça. Isso é uma mentira. Gilmar sabe disso. Impedir a posse é estratégico para impedir que Lula aglutine a base de centro, e barre o impeachment. É disso que se trata.

A Justiça coloca-se então a serviço da oposição, de forma descarada. O jogo político está irreversivelmente desequilibrado. O juiz torce para um dos times, e apita penaltis sem parar.

Gilmar e Moro são dois baderneiros. Não teriam condições, em nenhuma democracia de verdade, de exercer a magistratura. Mas lembremos que na Itália fascista também havia gente que formalmente exercia o cargo de “juiz”. Sob a ditadura de 64, havia “juízes” aplicando as leis da ditadura.

O fato é que as instituições cercaram o projeto que se saiu vitorioso nas urnas, nas últimas 4 eleições. No Judiciário, no Congresso, na PF e na mídia: há um cerco absoluto. E sem volta.

Há vários meses, Moro testa os limites da institucionalidade. Prendeu várias pessoas de forma ilegal. Viu que não seria detido, e seguiu adiante.

Desde o dia 4 de março, a rigor, assistimos a um golpe em câmera lenta: 1) a condução coercitiva de Lula, precedida de intensa manipulação midiática produzida pela Globo; 2) a invasão de sindicatos pela PM paulista; 3), a queima de sedes de partidos e sindicatos Brasil afora; 4) os ataques  fascistas no meio da rua, intimidando homens e mulheres; 5) a divulgação ilegal de grampos da presidenta da República; 6) a violação do sigilo telefônico de 25 advogados, por parte do “juiz” Moro.

A escalada está clara. Só não enxerga quem não quer.

O STF, ao invés de dar um freio em Moro, preferiu “responder” às falas de Lula extraídas de conversas informais. Não há qualquer dúvida de que o STF não vai parar Moro, não vai parar a escalada de arbitrariedades. Vivemos, definitivamente, um golpe paraguaio. Um golpe promovido pelas instituições, com ampla agitação midiática.

De outro lado, sem convocação pela Globo, sem apoio institucional, cercados por todos os lados, e contando apenas com blogs e ativismo digital, os democratas desse país foram capazes de produzir grandes atos populares dia 18.

Sim! Isso foi importante, para levantar o moral, e para sinalizar que esse projeto pode ser retomado logo adiante.  Mas isso, apenas, não deterá o golpe agora.

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A decisão de Gilmar (tomada numa sexta, às vésperas de período de recesso no STF) mostra que há uma inteligência operando entre Judiciário/Globo/PSDB. A foto ao lado  mostra quem são os operadores do golpe.

Mas há outros: os irmãos Marinho, Temer, Moro com suas camisas negras e a embaixada dos EUA promovem uma tabelinha. Não podemos ter mais dúvidas. Lula pode ser preso nos próximos dias. Juristas acham que não, que Moro não poderia agir antes de uma decisão do pleno do STF. Mas não estamos mais dentro da normalidade institucional.

E o STF é sim, hoje, um tribunal acovardado e ajoelhado diante do avanço midiático. A Constituição de 88 está sendo pisada, a institucionalidade destruída. Os votos de 54 milhões de pessoas, jogados no lixo.

É um ataque frontal à Democracia.

Na sequência, viria um governo Temer/Serra/Cunha, vendido como “governo de “união nacional”. A esquerda e os movimentos iriam para a rua?

Sim. Mas lhes faltaria um símbolo. E lhes sobraria a pecha de “corruptos” que estão simbolicamente liderados por um “ladrão preso em Curitiba”.

Caminhamos para um regime em estilo colombiano: aparência de democracia, com a esquerda e os movimentos expurgados do sistema político. Essa é a tragédia que nos aguarda, e que pode durar 5, 10 ou 20 anos – a depender de nossa capacidade de reação.

Lula, a essa altura, faria bem se pedisse apoio ostensivo no campo internacional: deveria entrar numa embaixada estrangeira, e repetir o papel de Julian Assange: denunciar o consórcio midiático-conservador que tentar tomar de assalto o Estado brasileiro.

Reparem que a mídia estrangeira (inclusive jornais e revistas conservadoras) é a única que faz a denúncia desse processo. Precisamos de símbolos vigorosos! 200 mil, 1 milhão de pessoas na rua. Isso é importante, mas não basta. Lula numa embaixada seria o símbolo de que o Brasil já não é mais uma democracia. E essa – sim – seria uma imagem simbólica desmoralizadora para os golpistas.

Não há exagero nem dramatismo nessa análise. Estamos a um passo de um novo 1964 – mas muito mais grave. Porque será desfechado por aqueles que deveriam ter a obrigação de cumprir as leis. Dessa vez, pessoas não vão sumir. Muito pior: serão destruídas moralmente, terão sua vida revirada e exposta à execração pública. Em 3 ou 4 anos, parte da classe média vai se arrepender de ter gerado esse monstro. Mas será tarde.

O monstro está aí, à nossa frente. Lula é o último símbolo a ser destruído, antes do ataque final. Lula precisa ser preservado, para ser uma voz de denúncia. E o Estado brasileiro não é mais um lugar seguro para oferecer essa segurança a Lula. É preciso buscar a proteção de outros estados, em que a lei ainda vale e a democracia não foi pisoteada.

No Brasil, já vivemos num estado de exceção jurídico e midiático.

É essa a realidade que vejo.

Penso da mesma forma. Os acontecimentos estão se encaixando e configurando um atentado às normas constitucionais, a serviço de uma grande conspiração. 

O crime de Lula foi reduzir a pobreza. Elites brasileiras jamais irão perdoá-lo

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POR EDUARDO GUIMARÃES, no Blog da Cidadania

Muitos alegam certeza de que Lula será preso na semana que entra. Teorias conspiratórias afirmam ser uma “farsa” o “sorteio” no STF que colocou nas mãos de Gilmar Mendes processo pedindo cassação da posse de Lula como ministro e o envio de seu processo para o juiz Sergio Moro. Funcionaria assim: na semana que entra, o STF não irá se reunir por ser “semana santa” – sim, a Constituição diz que o Estado brasileiro seria “laico”.

Como na sexta-feira passada Gilmar Mendes concedeu liminar cassando a posse de Lula e mantendo o processo dele com Moro, este pode determinar a prisão do ex-presidente e só na semana seguinte o plenário do STF analisaria o caso. Com Lula preso, seria muito difícil o STF suspender a prisão dele, oriunda da decisão de Mendes.

Sim, o plano pode funcionar. Uma chicana jurídica pode encarcerar o ex-presidente da República nos próximos dias. Não se saberá direito por que Lula está sendo preso. Alegarão que ele tenta atrapalhar as investigações contra si, por certo. Essa tem sido a desculpa para a Lava Jato manter pessoas presas sem provas e sem julgamento.

Para o Brasil, a possível prisão de Lula é uma das maiores tragédias de sua história. Ele foi o único presidente que reduziu a pobreza e a desigualdade de forma consistente e rápida. Colocou negros nas universidades, criou uma classe média emergente da pobreza.

A elite começou a ter que compartilhar espaços com gente desdentada e usando chinelo de dedo. Negros começaram a “se achar”, querendo “até” o impensável: “fazer faculdade”.

A manifestação da última sexta-feira na avenida Paulista reuniu uma maré humana avassaladora. Este blogueiro esteve no local. Participei de todas as manifestações anteriores em defesa do governo Dilma. Nenhuma se compara a essa. Por várias vezes temi ser pisoteado ou esmagado. Perdi a câmera com todas as imagens no meio da confusão. As pessoas estavam ensandecidas.

Classes A, B, C e D misturavam-se. A maioria dos manifestantes, como acontece em média no Brasil, era negra ou mestiça. Nada que lembrasse as manifestações monocromáticas da direita, com aquelas madames de caras deformadas pelo excesso de botox e os indefectíveis cabelos aloirados em salões de beleza que cobram preços ridiculamente extorsivos

A pobreza estava lá, o povão que não tem Facebook, que não tem como comprar kits antipetistas que picaretas vendem na internet, mas que sabe quanto a sua vida melhorou.

São essas pessoas que não vão se conformar com a arbitrariedade que está prestes a ser praticada. Muita gente está quieta, só olhando o que está acontecendo. Mas quem acha que o povo é cego ou estúpido, vai quebrar a cara.

Na sexta, voltava para casa pela avenida Paulista junto de uma marcha de outras pessoas que também deixava o local. Ocupávamos as duas pistas – sentido bairro-centro e centro-bairro. E entoávamos palavras de ordem, tais como “Não vai ter golpe” e “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.

Para minha surpresa, pessoas começaram a sair às janelas dos prédios residenciais da avenida e apoiaram os manifestantes. Isso, na avenida Paulista. Quem estava lá, viu. Fiquei surpreso. Pessoas começaram a colocar panos vermelhos nas janelas.

Quem disse que nessa região só tem “coxinhas”? O que deduzi é que grande parte das pessoas que discordam não abre a boca, não se manifesta a fim de “evitar confusão”. Contudo, a possível prisão de Lula fará a situação política no Brasil mudar de patamar. Muita gente vai entender que uma linha-limite foi cruzada.

Muita gente irá entender que Lula não estará sendo preso por, hipoteticamente, ter um apartamento de 200 metros quadrados no Guarujá e um sitiozinho em Atiba, propriedades modestíssimas em um país em que qualquer vereadorzinho tem fazendas que valem centenas de milhões de reais.

E toda essa gente sabe que Lula não enriqueceu na política, apesar de até hoje ser o político mais popular do país – que outro político colocaria centenas de milhares nas ruas em sua defesa? Se essa conspiração infame vingar, nunca mais um governante tentará ajudar o povo de verdade. Os políticos terão sempre presente o seguinte ensinamento: o único político que tentou de fato melhorar a vida do povo, acabou encarcerado.

Greenwald denuncia golpismo da mídia brasileira

POR MIGUEL DO ROSÁRIO, do blog O Cafezinho

Glenn Greenwald, conhecido mundialmente por ter sido o jornalista escolhido por Edgar Snowden para revelar ao mundo a espionagem em massa do governo americano, via NSA, publicou ontem à noite uma fortíssima denúncia contra o golpe midiático no Brasil.

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Trecho:

“Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) do Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, esses são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que combate a pobreza.

A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação de escuta telefônica de uma conversa entre Dila me Lula vazous essa semana, o programas jornalístico mais influente da Globo, Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma novela distante de um jornal, causando ridicularização generalizada nas redes. Durante meses, as quatro principais revistas jornalísticas do Brasil dedicaram capa após acapa a ataques inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou de outro, sempre com uma narrativa impactantemente unificada.

Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos.

Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirma Stephanie Nolen, correspondente no Rio para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições do país estão alinhadas contra a presidente”.

De forma simples, essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas, marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.”

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Abaixo, o texto completo, para registro histórico.

No Intercept

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O BRASIL ESTÁ SENDO ENGOLIDO PELA CORRUPÇÃO — E POR UMA PERIGOSA SUBVERSÃO DA DEMOCRACIA

Por Glenn Greenwald, Andrew Fishman, David Miranda

Mar. 18 2016, 9:59 p.m.

(This is a Portuguese translation of an article published earlier today. For the English version, click here.)

AS MÚLTIPLAS E IMPRESSIONANTES crises que assombram o Brasil agora atraem substancialmente a atenção da mídia internacional. O que é compreensível, já que o Brasil é o quinto mais populoso do mundo e a oitava economia do mundo. Sua segunda maior cidade, o Rio de Janeiro, é a sede das Olimpíadas deste ano. Porém, boa parte dessa cobertura internacional é repetidora do discurso que vem das fontes midiáticas homogeneizadas, anti-democráticas e mantidas por oligarquias no Brasil e, como tal, essa informação é enviesada, pouco precisa e incompleta, especialmente quando vem daqueles profissionais com pouca familiaridade com o país (mas há vários repórteres internacionais que trabalham no Brasil fazendo um ótimo trabalho).

Seria difícil exagerar quando se afirma a gravidade da situação no Brasil em várias esferas. O trecho a seguir, publicado ontem por Simon Romero, o correspondente do The New York Times no Brasil, evidencia o nível de calamidade da situação:

O Brasil está enfrentando sua pior crise econômica das últimas décadas. Um enorme esquema de corrupção tem prejudicado a empresa pública petrolífera nacional. A epidemia de Zika espalha desespero ao longo da região Nordeste. E, pouco antes de hordas de estrangeiros vierem ao país para as Olimpíadas, o governo luta pela sobrevivência com quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo.

A extraordinária crise política brasileira apresenta algumas semelhanças com o caos liderado por Trump nos EUA: um circo sui-generis, fora de controle, gerando instabilidade e libertando forças sombrias, com um resultado positivo quase impossível de se imaginar. A antes remota possibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff parece, agora, provável.

Porém, uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se limita a apenas um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta: “quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo”. O que inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidenta – atravessado por casos sérios de corrupção – mas também a grande maioria dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir o PT, que estão afundando em uma quantidade ao menos igual de criminalidade. Em outras palavras, o PT é, sim, profundamente corrupto e banhado em escândalos, mas, virtualmente, assim também são todos os grupos políticos trabalhando para minar o partido e obter o poder que foi democraticamente entregue a ele.

Quando a mídia internacional fala sobre o Brasil, ela tem focado nos crescentes protestos de rua que pedem o impeachment de Rousseff. Essas fontes midiáticas tipicamente mostram os protestos de forma idealizada, com uma certa adoração: como movimentos de massa inspiradores que se levantam contra um regime corrupto. Ontem, Chuck Todd, da NBC News, retuitou Ian Bremmer (do Eurasia Group) descrevendo os protestos anti-Dilma Rousseff como “O Povo contra A Presidente” – um tema fabricado, condizente com o que é noticiado por grupos mídiáticos brasileiros anti-governo, como a Globo:

Essa narrativa é, no mínimo, uma simplificação radical do que está acontecendo e, mais provavelmente, uma propaganda feita para minar um partido de esquerda há muito mal visto pelas elites políticas dos EUA. A caracterização dos protestos ignora o contexto histórico da política no Brasil e, mais importante, uma série de questões críticas: quem está por trás dos protestos, quão representativos eles são em relação à população brasileira e quais são seus verdadeiros interesses?

A atual versão de democracia no Brasil é bastante jovem. Em 1964, o governo de esquerda democraticamente eleito foi derrubado por um golpe militar. Oficiais norte-americanos negaram envolvimento tanto publicamente quanto perante o Congresso, mas – nem precisaria ser dito – documentos e registros posteriormente revelados provaram que os EUA apoiaram diretamente o golpe e ajudaram em seu planejamento.
Os 21 anos de ditadura militar de direita pró-EUA que se seguiram foram brutais e tirânicos, especializando-se em técnicas de tortura usadas contra dissidentes políticos que eram ensinadas pelos EUA e pelo Reino Unido. Um relatório compreensível da Comissão da Verdade, em 2014, informou que ambos os países “treinaram interrogadores brasileiros em técnicas de tortura”. Dentre as vítimas, estava Rousseff, então guerrilheira da esquerda democrata, presa e torturada pelo regime militar nos anos 70.

O golpe em si e a ditadura que se seguiu foram apoiados pelas oligarquias regionais e por suas grandes redes midiáticas, lideradas pela Globo, a qual – de forma notável – apresentou o golpe de 1964 como uma nobre derrota de um governo esquerdista corrupto (soa familiar?). Tanto o golpe quanto o regime ditatorial foram apoiados também pela extravagante (e absurdamente branca) elite econômica do país, além de sua pequena classe média. Como opositores da democracia geralmente fazem, as classes altas viam a ditadura como uma proteção contra as massas de população pobre, composta majoritariamente por pessoas negras e pardas. Conforme o jornal The Guardian publicou sobre informações da Comissão da Verdade: “Assim como em toda a América Latina dos anos 60 e 70, a elite e a classe média se alinharam como o regime militar para afastar o que elas viam como uma ameaça comunista”.

Essas divisões severas de classe e raça no Brasil continuam como dinâmica dominante. Segundo a BBC, em 2014, baseada em vários estudos: “o Brasil apresenta uma das maiores níveis de desigualdade de renda do mundo”. O editor-chefe do Americas Quarterly, Brian Winter, em reportagem sobre os protestos, escreveu nessa semana: “O abismo entre os ricos e pobres continua sendo o fato central da vida no Brasil – e nesses protestos, isso não é diferente”. Se você quiser entender qualquer coisa sobre a atual crise política no Brasil, é crucial entender também o que Winter quer dizer com essa afirmação.

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O partido de Dilma, PT, foi formado em 1980 como um partido socialista de esquerda clássica. A fim de melhorar seu apelo nacional, o partido moderou seus dogmas socialistas e se tornou, gradualmente, mais próximo dos chamados social-democratas da Europa. Agora, existem partidos populares à sua esquerda; de fato, Dilma, por vontade própria ou não, defendeu medidas de austeridade para resolver problemas econômicos e passar confiança aos mercados estrangeiros, e justamente nessa semana assinou uma draconiana lei “anti-terrorismo”. Ainda assim, o PT se mantém na centro-esquerda do espectro político brasileiro, e seus apoiadores são, surpreendentemente, as minorias raciais e classes pobres. Enquanto no poder, o partido promoveu reformas sociais e econômicas que levaram benefícios governamentais e oportunidades para tirar milhões de brasileiros da pobreza.

O Partido dos Trabalhadores está na presidência há 14 anos: desde 2002. Sua popularidade foi um subproduto do antecessor carismático de Dilma, Luis Inácio Lula da Silva (universalmente referido como “Lula”). A ascensão de Lula à presidência foi um símbolo poderoso da luta da classe pobre no Brasil durante a democracia: um trabalhador e líder sindical, de uma família pobre, que deixou a escola na segunda série e não sabia ler até os 10 anos, preso pela ditadura por atividade na luta sindical. O ex-presidente foi motivo de riso para elites brasileiras por meio de um tom classista no discurso sobre seu jargão trabalhista e sua forma de falar.

Lula and Dilma campaign together in 2010 election

Depois de três tentativas infrutíferas de chegar à presidência, Lula provou ser uma força política imbatível. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, ele deixou o cargo com taxas de aprovação tão altas que foi capaz de garantir a eleição de Dilma, sua sucessora, antes desconhecida pela população, e que foi reeleita em 2014.

Há muito tempo se cogita que Lula – um político que se opõe publicamente a medidas de austeridade – pretende concorrer novamente para a presidência em 2018 depois de completo o segundo mandato de Dilma, e forças anti-PT se sentem petrificadas com a ideia de que Lula vença novamente.

Embora a classe oligárquica da nação tenha usado o PSDB, partido de centro-direita, de forma bem sucedida como um contrapeso, o partido foi impotente para derrotar o PT em quatro eleições presidenciais consecutivas. O voto é obrigatório, e os cidadãos de baixa renda garantiram as vitórias do PT.

A corrupção entre a classe política Brasileira – incluindo o alto escalão do PT – é real e substancial. Mas os plutocratas brasileiros, a mídia, e as classes altas e médias estão explorando essa corrupção para atingir o que eles não conseguiram por anos de forma democrática: remover o PT do poder.

Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) do Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, esses são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que combate a pobreza.

A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação de escuta telefônica de uma conversa entre Dilma e Lula vazou essa semana, o programas jornalístico mais influente da Globo, Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma novela distante de um jornal, causando ridicularização generalizada nas redes. Durante meses, as quatro principais revistas jornalísticas do Brasil dedicaram capa após acapa a ataques inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou de outro, sempre com uma narrativa impactantemente unificada.

Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos.

Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirma Stephanie Nolen, correspondente no Rio para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições do país estão alinhadas contra a presidente”.

De forma simples, essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas, marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.

Nada aqui é uma defesa do PT. Tanto por causa da corrupção generalizada quanto pelas dificuldades econômicas, Dilma e PT estão intensamente impopulares entre todas as classes e grupos, mesmo incluindo a base trabalhadora do partido. Mas os protestos de rua – como inegavelmente grandes e energizados – são direcionados por aqueles que tradicionalmente apresentam hostilidade contra o PT. O número de pessoas participando desses protestos – enquanto milhões – é muito pequeno em relação aos votos que reelegeram Dilma (54 milhões). Em uma democracia, governos são eleitos pelo voto, não por demonstrações de oposição na rua – particularmente quando os manifestantes vem de um segmento social relativamente limitado.

Como Winter informou: “No ultimo domingo, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas, pesquisas de opinião indicaram que mais uma vez a multidão era significantemente mais rica, mais branca e com maior educação formal do que a média dos brasileiros”. Nolen afirmou algo similar: “A meia-dúzia de grandes demonstrações de movimentos anti-corrupção no passado foram dominadas por manifestantes brancos e de classes altas, que tendem a apoiar a oposição representada pelo PSDB e a ter pouca apreciação pelo partido trabalhista de Rousseff”.

No último final de semana, quando uma grande massa de protestos anti-Dilma tomou diversas cidades brasileiras, uma fotografia de uma família se tornou viral, um símbolo do que esses protestos realmente são. Mostrava um casal branco e rico vestidos com adereços anti-Dilma que caminhava com seu cachorro de raça, acompanhados pela babá negra – vestindo o uniforme branco que muitas famílias brasileiras ricas exigem que suas empregadas domésticas usem – empurrando um carrinho de bebê com os dois filhos do casal.

Como Nolen apontou, essa foto se tornou uma verdadeira síntese, da essência altamente ideológica desses protestos: “Brasileiros, que são hábeis e rápidos com memes, repostaram a foto com centenas de legendas sarcásticas, como ‘Apressa o passo aí, Maria, nós temos que ir ao protesto contra o governo que nos fez pagar um salário mínimo para você'”.

Acreditar que as figuras políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância. Para começar, as partes que seriam favorecidas pelo impeachment da Dilma estão pelo menos tão envolvidas quanto ela por escândalos de corrupção. Na maioria dos casos, até mais.

Cinco dos membros da comissão de impeachment estão sendo também investigados por estarem envolvidos no escândalo político. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um mandato de prisão da Interpol e não pode sair do país há anos; ele foi sentenciado na França três anos atrás por lavagem de dinheiro. Dos 65 membros do comitê de impeachment do congresso, 36 atualmente enfrentam processos judiciais.

No congresso, o líder do movimento pelo impeachment, o líder extremista evangélico Eduardo Cunha, foi descoberto que possuía múltiplas contas secretas em bancos na Suíça, onde ele guardava milhões de dólares que os promotores acreditam ser dinheiro recebidos como suborno. Ele também é alvo de múltiplas investigações criminais em andamento.

Enquanto isso, o senador Aécio Neves, o líder da oposição brasileira que foi derrotado por muito pouco na eleição contra Dilma em 2014, teve pelo menos 5 denúncias diferentes de envolvimento com o escândalo de corrupção. Uma das mais recentes testemunhas favoritas dos promotores acusou-o de aceitar suborno. Essa testemunha também implicou que o vice-presidente do país, Michel Temer, da oposição do PMDB iria substituir a Dilma caso ela fosse cassada.

E ainda tem o recente comportamento do juiz chefe que está supervisionando a investigação de corrupção e tornou-se um herói popular por sua atuação agressiva durante as investigações de algumas das maiores e mais poderosas figuras políticas do país. O juiz, Sérgio Moro, essa semana efetivamente divulgou para a mídia uma conversa gravada, extremamente vaga, entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras forças anti-PT imediatamente retrataram como criminosas. Moro divulgou a gravação da conversa apenas algumas horas depois de ter sido feita.

Mas a conversa gravada foi liberada pelo juíz Moro sem nenhum processo e, pior, com claras intenções políticas, não judiciais: ele estava furioso de que sua investigação sobre Lula seria finalizada pela nomeação dele ao gabinete de ministro feita por Dilma (ministros só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal). O vazamento planejava humilhar Dilma e Lula e dar vazão para protestos nas ruas, e, no entanto, acabou recebendo críticas, incluindo dos seus próprios fãs, de que estava abusando de seu poder tornando-se uma figura política. Pior, a gravação em si parece ter sido ilegalmente obtida porque foi feita depois da expiração do mandato feita pelo juiz Moro. O chefe da Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro, Felipe Santa Cruz, chamou a ação de Moro de “um nauseante constrangimento”.

Tudo isso deixa claro o perigo de que a investigação criminal e o processo de impeachment não são exercícios legais para punir líderes criminosos, mas mais uma arma anti-democrática usada por adversários políticos para remover uma presidenta democraticamente eleita. Esse perigo ficou nitidamente em destaque ontem, quando foi revelado que um juiz que emitiu uma ordem de bloqueio a nomeação de Lula ao gabinete feita pela Dilma tinha postado mais cedo no seu Facebook inúmeras selfies dele marchando num protesto contra o governo no final de semana. Como Winter escreveu, “Convencer o público de que o judiciário brasileiro está ‘em guerra’ com o Partido dos Trabalhadores é uma tarefa mais fácil agora do que duas semanas atrás”.

Não há dúvida de que o PT é repleto de corrupção. Existem sérios indícios envolvendo o Lula que merecem ser investigados de maneira imparcial e justa. E o impeachment é um processo legítimo em uma democracia quando provado que o suspeito é culpado de vários crimes e a lei deve ser seguida claramente quando o impeachment é efetuado.

Mas o retrato emergindo no Brasil em volta do impeachment e os protestos nas ruas são bem mais complicadas, e muito mais ambíguas, do que vem sendo dito. O esforço para remover Dilma e seu partido do poder lembram mais uma clara luta anti-democrática por poder do que um movimento genuíno contra a corrupção. E pior, foi armado, projetado e alimentado por várias forças que estão enfiadas até o pescoço em escândalos políticos, e que representam os interesses dos mais ricos e mais poderosos segmentos sociais e sua frustração pela falta de habilidade em derrotar o PT democraticamente.

Em outras palavras, tudo isso parece historicamente familiar, particularmente para a América Latina, onde governos de esquerda democraticamente eleitos tem sido repetidamente removidos por meios não legais ou democráticos. De muitas maneiras, o PT e Dilma não são vítimas que despertam simpatia. Grandes segmentos da população estão genuinamente irritados com ambos por várias razões legítimas. Mas os pecados deles não justificam os pecados dos seus antigos inimigos políticos, e certamente não tornam a subversão da democracia brasileira algo a ser celebrado.