Qual é a graça, democracia?

POR JOÃO LOPES JR. 

A programação midiática do judiciário mostrou que não se busca apenas inovar na interpretação da constituição e de outras leis, ou nos meios e modos de realizar um golpe de estado. Vemos que há esforços também no sentido de entreter as massas, desviando a atenção da sisudez dos tribunais e convidando o cidadão a se divertir com as tiradas cômicas dos promotores do MP-SP. Não digo que só a troca de Engels por Hegel seja a única coisa risível nesse pedido de prisão preventiva de Lula. Os argumentos, também são. Não li o pedido de prisão escrito por eles, vi as explicações dadas por eles mesmos na coletiva de imprensa. Elas não são só ridículas, são também indignas de credibilidade.

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Embora o judiciário seja um dos três poderes da nação, o que o torna muito, mais muito sério mesmo, ocorre que está perdendo credibilidade, e também um pouco da seriedade, porque não refreia, ou perde oportunidades de refrear, os abusos e parcialidades contra integrantes do PT e do governo, e, em especial, contra o ex-presidente Lula. Ora, os processos da Lava-Jato que estão em andamento na justiça lá estão por escolhas políticas, e não por razões jurídicas, porque o vício está na decisão do que investigar e do que não investigar, do que vazar e do que não vazar à imprensa, do que levar à justiça e do que não levar até ela. Isso aponta a que as investigações, as delações e os vazamentos não sejam apenas maliciosamente seletivos, mas políticos. Capitou? Aliás, a seletividade serve apenas a interesses políticos. E cada uma dessas coisas é de conhecimento de todos, inclusive do STF.

Contra a possível e plausível candidatura de Lula em 2018, e ainda contra a bastante provável reeleição dele para um terceiro mandato, se insurgem forças convictas de que isso seria nocivo ao país. Por quê? Já houve conselho de FHC, sugerindo que não é elegante a um ex-presidente tentar um terceiro mandato. Houve quem propusesse limitar a dois o número de mandatos ao executivo, e só ao executivo. E há quem defenda a alternância de poder no governo federal, e só no governo federal. Os remédios sugeridos politicamente não atacam onde parece ser o nascedouro da maioria dos problemas políticos, o Congresso Nacional e as câmaras municipais e assembleias legislativas.

Levando a sério todo esse papo de alternância de poder, considere que há boa razão nessa ideia, e imagine também que se limitasse a dois mandatos também as legislaturas. Por que não há princípio de alternância na constituição, mesmo que implicitamente, corrobore com a tese da benesse que traz supostamente a alternância do poder para o povo? É dizer, em que pese que a alternância do poder seja benéfica, deveria existir a proibição de que esse ou aquele político não mais fosse empossado para esse ou aquele cargo mais que duas vezes em qualquer cargo. Por exemplo, a alguém que fosse prefeito por duas vezes não mais seria permitido ser prefeito novamente, havendo a possibilidade de obter outro cargo eletivo, no legislativo e no executivo ao mesmo cidadão. A lei de hoje restringe mandatos consecutivos, limitando a dois, e somente ao executivo e à consecutividade. Uma nova lei ampliaria a noção de limitação de mandatos para dois, consecutivos ou não (aqui uma novidade), e para mais agentes públicos, para além de chefes de executivo, alcançando também os mandatos parlamentares. A alternância como princípio político e democrático pode ser posto legalmente e pode ser além de uma solução política, uma solução democrática para ajudar no combate à corrupção.

Os parlamentares aprovariam essa lei? Provavelmente não. Por quê? Por que o discurso da alternância na boca dos políticos é só o inverso de dizer que o que está bom deve continuar.

Independente da resposta àquela questão, vemos que há arbitrariedade com o que se tem conduzido pela Lava-Jato e pelo que foi intentado ontem contra Lula pelos promotores de São Paulo, bem como nas opiniões dos parlamentares que apoiam o golpe midiático. A seletividade jornalística, política e judiciária não pode continuar, sob pena de que, em breve, o judiciário sairá dessa ainda mais desacreditado perante o público do que entrou. Afinal, nem antes e nem agora na história desse país houve percepção diferente por parte do povo de que há uma justiça para ricos e outra para pobres. E aí está a última piada encenada ontem, da qual poucos riram, de que essa é uma realidade que, no Brasil, não mudou.

Tempos de redenção

POR GERSON NOGUEIRA

Quando sentei para escrever, veio à mente uma velha canção de Bob Marley que fala de redenção e liberdade. Um dos versos é particularmente expressivo em Redemption Song: ‘emancipem-se da escravidão mental, ninguém além de nós mesmos pode libertar nossa mente’, diz o poeta-músico jamaicano.

A coincidência de ouvir Marley na sexta-feira à noite é particularmente feliz. Primeiro, porque a canção é linda e fácil de cantarolar. Segundo, porque fala de emancipação, algo tão caro e nem sempre fácil de lidar em pleno século XXI num país que ainda busca libertar-se em diversas áreas.

Podia estar tratando de mil outros temas a partir do eixo da música de Marley, mas a questão que interessa aqui é a realidade do futebol, manifestação de talento popular tão adorada como pouco cuidada no Brasil.

Refiro-me a questões básicas, como o aprendizado do jogo. Quase todo moleque já nasce sabendo os significados do futebol. Organizar-se coletivamente é o princípio número um. Procurar os caminhos e atalhos para chegar ao gol é consequência e fim.

A vantagem de conhecer animicamente tudo que se refere ao futebol, através da genética de nossos tataravós índios e negros, é dos bens mais preciosos do país pentacampeão mundial na modalidade. Um patrimônio que, como quase todos os demais, é vilipendiado a todo instante.

Por isso, o que seria a nossa redenção – lá vem Marley de novo – tornou-se um fardo do qual não conseguimos cuidar adequadamente. A rica herança de habilidades naturais para o drible, o domínio e o arremate está a se perder pelos desvios do tempo.

As novas gerações não revelam mais a mesma facilidade para as jogadas que antes nos tornavam únicos no planeta. Foi aqui que alguém inventou a folha seca nas cobranças de falta. Nasceu também em solo pátrio o drible da vaca. Como vem da picardia tropical a bicicleta e o elástico (ou carrapeta). Até o toque de trivela tem patente nacional.

Tudo isso compunha um fabuloso acervo, que saía das cabeças iluminadas para se espraiar pelos campos em lances práticos e geniais na simplicidade da execução. Representava ao mesmo tempo propriedade autoral e libertação, na medida em que tínhamos a primazia e os benefícios desses atalhos que a bola proporcionava.

Como não cuidamos direito dessa herança, alguns piratas (como na música de Marley) se apoderaram espertamente e espalharam o que era exclusividade nossa em patrimônio de todos. As cópias se disseminaram pelo mundo. No começo, repetiam muito mal as acrobacias de Pelé, Garrincha, Didi, Tostão e Riva. Depois, foram aperfeiçoando e observando até chegar à quase perfeição a partir dos anos 80.

Hoje, os garotos que se encantam com Messi e Cristiano Ronaldo ignoram que os originais eram brasileiros. Alguns, por desinformação, até duvidam que um dia o Brasil gerou boleiros muito melhores que os dois astros atuais.

A redenção só virá quando a essência for novamente valorizada e a maravilhosa técnica deixada por nossos antepassados foi revisitada. Talvez ainda haja tempo e condição de estabelecer essa conexão entre gerações.

Com um mínimo de interesse, seria possível estabelecer laboratórios de excelência, onde os meninos pudessem jogar à brasileira de novo, como Pep Guardiola tanto aprecia reproduzir em seus times.

A matéria-prima está aqui, mas os que mandam ainda preferem dormir o sono dos acomodados. Até quando?

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Leão inicia as decisões do returno

O Remo vai a Paragominas com a missão de vencer para manter vivo o sonho do tricampeonato, que foi seriamente prejudicado pela perda do primeiro turno. Com quase o mesmo time que derrotou o Náutico de Roraima na quinta-feira, sem fazer muito esforço, Leston Junior terá o desafio de superar um adversário angustiado pela ameaça de rebaixamento, consciente de que o returno será uma sucessão de decisões para o time.

O Paragominas trocou de técnico (Mariozinho por Samuel Cândido), mas não reforçou o elenco, que continua a ser um dos mais limitados do atual Parazão. Só conquistou três pontos na competição e é o oitavo na classificação geral. Em casa, porém, é uma equipe tradicionalmente aguerrida. Aleílson é o principal nome do time e tem o hábito de jogar bem contra a dupla Re-Pa.

O Remo, que venceu uma (Cametá) e perdeu outra (São Francisco) como visitante no Parazão, é um time em busca de afirmação. Precisa acreditar em sua própria força. Em determinados jogos, o excesso de preocupação defensiva compromete a movimentação de um ataque que tem peças qualificadas, como Ciro e Léo Paraíba.

Leston gosta de jogar com três volantes – fez isso até contra o modesto Náutico – e deve manter essa configuração hoje. A novidade pode ser o retorno de Chicão, o mais qualificado na marcação. Outra cara nova é Potita, que jogou em Boa Vista, mas ainda não estreou no Parazão. E há o garoto Marcinho, meia apontado como uma das joias da base remista.

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Protestos para pressionar liberação de grana

Os clubes que disputam o campeonato se movimentam para pressionar a Federação Paraense de Futebol quanto aos repasses do dinheiro do convênio com o governo do Estado.

Muitos já estão chiando, aperreados e com contas a pagar, como Independente, São Raimundo e Paragominas. A dupla Re-Pa foi convidada a participar dos protestos antes dos jogos, mas se mantém em silêncio.

Apesar de contarem com elencos mais caros, Leão e Papão contam com a bilheteria dos jogos e a receita dos programas de sócio-torcedor, já os interioranos dependem dramaticamente desse patrocínio para sobreviver.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa, com Giuseppe Tommaso, Valmir Rodrigues e este escriba de Baião na bancada. Começa logo depois do Pânico, na RBATV, por volta de 00h20.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 13)