A história de um insulto

Por James Bradley

A maioria de nós sabe que chamar alguém de macaco é racismo, mas poucos de nós sabem por que macacos são associados na imaginação europeia com indígenas e, principalmente, afrodescendentes. Para entender o poder e o escopo do xingamento de macaco, precisamos de uma dose de história. Quando eu era aluno de graduação na universidade, eu aprendi sobre racismo e colonialismo, particularmente sobre a influência de Charles Darwin (1809-1882), dos quais as ideias pareciam fazer o racismo ainda pior. Na verdade, isto é fácil de inferir. A teoria da seleção natural de Darwin (1859) mostrou que os ancestrais mais próximos dos seres humanos foram os grandes macacos. E a ideia de que os homo sapiens descendiam de macacos se tornou rapidamente parte do teatro da evolução. O próprio Darwin foi muitas vezes representado como meio-homem, meio-macaco.

Além disso, enquanto a maior parte dos evolucionistas acreditava que todas as raças humanas descendiam do mesmo grupo, eles também notaram que a migração e a seleção natural e sexual tinham criado variedades humanas que – aos seus olhos – pareciam superiores a africanos ou aborígenes. Ambos estes grupos tardios foram frequentemente representados como sendo os mais próximos evolutivamente dos humanos originais e, portanto, dos macacos.

O papel do pensamento evolucionista

No começo do século XX, o aumento da popularidade da genética mendeliana (nomeada em referência a Gregor Johann Mendel, 1822-1884) não fez nada para destituir esta maneira de pensar. Se é que ainda não piorou as coisas. Ela sugeria que as raças haviam se tornado raças separadas e que os africanos, em particular, estavam muito mais próximos em termos evolutivos dos grandes macacos do que estavam, digamos, os europeus. E ainda assim, durante este mesmo período, sempre houve uma corrente da ciência evolutiva que rejeitou este modelo. Ela enfatizava as profundas semelhanças entre diferentes raças e que as diferenças de comportamento eram produto da cultura e não da biologia. Os horrores do Nazismo deveram muito ao namoro da ciência com o racismo biológico.

O genocídio de Adolf Hitler, apoiado de bom grado por cientistas e médicos alemães, mostrou onde o mau uso da ciência pode levar. Isto deixou o racismo científico nas mãos de grupos de extrema direita que só estavam interessados em ignorar as descobertas da biologia evolutiva do pós-guerra em benefício de suas variantes pré-guerra. Claramente o pensamento evolucionista teve algo a ver com a longevidade do xingamento de macaco. Mas a associação europeia entre macacos e africanos tem um pedigree cultural e científico muito mais extenso.

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Pego no meio

No século 18, uma nova maneira de pensar sobre as espécies emergiu. Anteriormente, a vasta maioria dos europeus acreditava que Deus havia criado as espécies (incluindo o homem), e que estas espécies eram imutáveis. Muitos acreditavam na unidade das espécies humanas, mas alguns acreditavam que Deus havia criado espécies humanas separadas. Neste esquema, os europeus brancos eram descritos como próximos aos anjos, enquanto africanos negros e aborígenes estavam mais próximos aos macacos.

Muitos cientistas do século XVIII tentaram atacar o modelo criacionista. Mas, ao fazê-lo, acabaram dando mais poder para o xingamento de macaco. No meio do século XVIII, o grande naturalista francês, matemático e cosmólogo Comte de Buffon (Georges-Luis Leclerc, 1707-1788) deu continuidade à ideia de que todas as espécies de animais descendiam de um pequeno número de tipos gerados espontaneamente. Espécies felinas, por exemplo, supostamente descendiam de um único ancestral gato. Ao migrarem do seu ponto de geração espontânea, os gatos degeneraram em diferentes espécies sob influência do clima.

Em 1770, o cientista holandês Petrus Camper (1722-1789) pegou o modelo de Buffon e aplicou-o ao homem. Para Camper, o homem original era o grego antigo. À medida que este homem original se moveu do seu ponto de criação ao redor do mundo, ele também degenerou sob influência do clima. Na visão de Camper, macacos, símios e orangotangos, eram todos versões degeneradas do homem original. Então, em 1809, o ancestral intelectual de Darwin, Lamarck (Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck, 1744-1829) propôs um modelo de evolução que via todos os organismos como descendentes de um único ponto de criação espontânea.

Larvas evoluíram em peixes, peixes em mamíferos e mamíferos em homens. Isto aconteceu não através da seleção darwinista, mas através de uma força vital interna que levava organismos simples a se tornarem mais complexos, trabalhando em combinação com a influência do meio ambiente. Deste ponto de vista, humanos não compartilhavam um ancestral comum com macacos; eles eram descendentes diretos deles. E africanos então se tornaram a ligação entre macacos e europeus. A imagem popular comumente associada com a evolução darwinista da transformação de estágios do macaco ao homem deveria ser propriamente chamada de lamarckiana.

O poder do racismo

Cada uma dessas maneiras de pensar o relacionamento entre humanos e macacos reforçou a conexão feita por europeus entre africanos e macacos. E fazendo parecer que pessoas de origem não-europeia eram mais como macacos do que como humanos, estas diferentes teorias foram usadas para justificar a escravidão nas fazendas das Américas e o colonialismo no resto do mundo. Todas estas diferentes teorias científicas e religiosas trabalharam na mesma direção: para reforçar o direito europeu de controlar grandes porções do mundo.

O xingamento de macaco, na verdade, tem a ver com a maneira com a qual os europeus, eles mesmos, se diferenciaram, biológica e culturalmente, em um esforço de manter superioridade sobre outros povos. A coisa importante a se lembrar é que aqueles “outros” povos estão muito mais cientes daquela história do que os europeus brancos. Invocar a imagem de um macaco é utilizar o poder que levou à desapropriação indígena e a outros legados do colonialismo. Claramente, o sistema educacional não faz o bastante para nos educar sobre ciência ou história da humanidade. Por que se fizesse, nós veríamos o desaparecimento do xingamento de macaco.

8 comentários em “A história de um insulto

  1. Se é para deixar comentário, eu deixo o comentário que acho tudo isso melindres sem necessidade, para não dizer outra coisa. Agora tá virando moda qualquer pessoa acusar outra de racismo. No último domingo o faustão foi tirar uma bricadeira ao vivo no programa com um pessoa negra falando do cabelo dela e la veio a acusação a ele de racismo. Pelo amor de Deus parem com isso. Se ocorrer de verdade a ofensa, o caso deve ser denunciado e encaminhado às esferas policiais e judiciais por é crime a discriminação racial, classe , cor ou religião. Mas repito: So se ocorrer mesmo a gressão e se tiver provas contundentes, tesmunhais e documentais pois caso de achismo e melindre não cola. Ka com meus botões, ficop imaginando o que está pensando aquele cantor baiano da MPB antigo chamado de LUIZ Caldas que ficou rico e mundiamente famoso com a musica ” Fricote” a qual tinha nas letras:
    ” negra do cabelo duro, que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo, o negao começa a gritar, pega ela aí pega ela aí
    pra que? pra passar batom
    que cor ? é de violeta na boca e na buchecha””” Lembram??/

    acho que se fosse hoje, esse cantor em vez de ficar rico e famoso com a música, seria preso, acusado de racismo e condenado. por causa dos melindrosos

    kakakakakakakakakakakakakakakakakakaka

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  2. Concordo em parte com você Nelip. Hoje, no Brasil, existe um puritanismo exacerbado que está fazendo o nosso país se transformar em país careta.

    Tem duas coisas que questiono nessas práticas de “tudo é racismo!”.
    1) Ao invés de diminuir o racismo, estes discursos não estariam reforçando a suposta diferença de raças?
    2) Tais práticas supostamente anti-racionais não funcionariam como mecanismo de controle e estabelecimento do racismo?

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    1. Repito, amigos, racismo é um crime abominável, venha da forma que vier. Num país de muro baixo como o nosso, os cuidados devem ser redobrados. A tendência a entender tudo como algo menor, sem maldade, é o maior risco e o maior incentivo à impunidade.

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  3. Eis uma questão polemissíssima: os limites daquilo que ode ser considerado racismo. Monteiro Lobato que o diga. Para me posicionar melhor o jeito é pesquisar. É o que eu digo, o BGN é um estímulo à cultura.

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  4. Porem Gerson o verso da moeda também é perigoso, capaz de penalizar quem não praticou o ato. Melhor mesmo é cada um cuidar da sua vida e não olhar para o lado, pois partindo dessa premissa chegaremos ao ponto que um olhar ofende e discrimina.

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