O combate à palavra golpe

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POR TEREZA CRUVINEL

Os defensores do  impeachment estão incomodados com a ressonância  adquirida pela palavra golpe.  Esta preocupação pautou os jornais e a mídia política em geral neste domingo de Páscoa, através de condenações variadas, e por diferentes atores,  à percepção de que se trata de um golpe parlamentar-judicial-midiático para derrubar a presidente Dilma Rousseff e empossar seu vice Michel Temer.  Está em curso a guerra da narrativa antes  do fato, no pressuposto de que a História é sempre escrita pelos vencedores. Quando George Orwell disse isso, entretanto,  era mais simples controlar  a verdade.  Não havia, por exemplo, a Internet.

Estão preocupados porque, mesmo que sejam vencedores, não escaparão do registro da História. Depois do golpe de 1964, estes mesmos jornais escreveram editoriais louvando a derrubada do presidente constitucional João Goular como se tivesse sido uma vitória da democracia contra o risco de uma ditadura comunista. “Ressurge a democracia”, bradou O Globo. “Mais uma vez as Forças Armadas deram provas de sua intransigência democrática”, disse o editorial da Folha. Muitos anos e atrocidades depois, fizeram uma autocrítica envergonhada.

Estão preocupados, os atores do impeachment,  com as repercussões internacionais do que se passa no Brasil e por isso condenaram com veemência a entrevista da presidente aos correspondentes estrangeiros. A OEA e a Unasul já  se pronunciaram contra e não será pelo tamanho e peso do Brasil que o Mercosul deixará de invocar a cláusula democrática para suspender o pais, tal como foi feito em relação ao Paraguai. Lá também o impeachment sofrido por Lugo estava previsto na Constituição mas foi aplicado com inobservância das regras. Por isso foi um golpe paraguaio.

Na batalha contra a palavra golpe, neste domingo, a Folha de São Paulo protestou em editorial. Endossou as declarações do ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto e dos atuais ministros  Carmem Lucia e Dias Toffoli, lembrando que o impeachment é um instrumento previsto na Constituição. “A frenética tática defensiva do governo está aí –e por isso convém reduzir ao mínimo os pretextos que possam ser utilizados pela militância na guerra retórica”, disse a Folha.

Previsto o impeachment é, tanto que já foi até aplicado. Mas  como disse também na Folha o insuspeito de esquerdismo-petismo Delfim Netto:  ”(o impeachment) está no Congresso, está na Constituição. Quando acontece uma violação de função. …Vai ter que provar no Congresso se realmente houve a violação de função.” Os dois ministros, bem como o ex-ministro do STF, sabem disso mais que todo mundo. Não se está questionando a constitucionalidade da figura do impeachment mas a forma de sua aplicação.

Eis que também o decano do STF, ministro Celso de Mello, aparece num vídeo,  que teria sido feito num shopping de São Paulo na quarta-feira, dia 24, e foi postado por uma ativista dizendo: “A figura do impeachment não pode ser reduzida à condição de mero golpe de estado porque o impeachment é um instrumento previsto na Constituição Brasileira e estabelece regras básicas”. E lá do vale do esquecimento ressurge em Paris o ex-ministro Eros Grau citando numa carta aberta os dois artigos da Constituição que prevêm o impeachment para condenar os que o condenam pela forma como está sendo conduzido: na ausência de um crime de responsabilidade indiscutível. Grau diz-se ainda surpreso com as manifestações contra o impeachment ocorridas na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde estudou. Haverá outra.

No Estadão, o destaque é para o presidente da OAB, Claudio Lamachia, que amanhã, segunda-feira, vai entregar à Câmara um novo pedido de impeachment contra Dilma, agora valendo-se da conversa entre ela e Lula, ilegalmente divulgada Evitará um encontro com Eduardo Cunha, deixando o pacote no protocolo geral da Casa.  . Sorrateiro, finge tomar as dores do STF.  “Essa afirmação do governo, com tanta frequência, de que há um golpe em curso me parece ofensiva ao próprio Supremo Tribunal Federal. Se dizem que é golpe, então o Supremo, há poucos dias, regulamentou o golpe. Ou seja, tanto não é golpe que a instância máxima da Justiça, numa sessão histórica, regulamentou o procedimento de impeachment. Isso acaba com a ladainha de golpe.”

O STF não regulamentou golpe nenhum. Provocado pelo PC do B, depois que Eduardo Cunha baixou um rito diferente do que foi adotado por Ibsen Pinheiro em 1992 contra Collor, esclareceu como deve ser o ritual de um processo de impeachment em qualquer tempo, contra qualquer presidente. Era seu papel. E novamente provocado, pelo recurso de Cunha, manteve o seu entendimento quanto ao rito.  Como Dilma já disse que fará uso de todos os recursos legais para resistir ao golpe, é possível que em algum momento peça ao STF que diga se houve ou não crime de responsabilidade. Aí, sim, os ministros vão ter que separar o alho do bugalho.

Em O Globo, Merval Pereira chama de “narrativa ridícula” as crescentes condenações ao impeachment que será golpe se consumado nas atuais circunstâncis: sem a devida prova de transgressões que configurem o crime de responsabilidade.

Esta é uma batalha que parece menor mas é importante no curso do jogo. Agora ele está sendo decidido apenas entre as cúpulas partidárias. As manifestações de apoio estão dispensadas. Conturbam. Vai que resolvem cobrar a apuração da lista da Odebrecht…

O que você nunca soube sobre a escravidão moderna e jamais ficaria sabendo

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POR SEBASTIÃO NUNES, no Jornal GGN

Ivanildes Pereira da Silva mora nos cafundós da periferia e pula da cama às 5 horas para chegar ao trabalho às 7. Chega, bota avental, varre o chão da lanchonete, abre as portas e começa a fritar pastéis, coxinhas e quibes. Cartazetes anunciam: “6 pastéis por R$3,00”. “1 refresco e 3 pastéis por R$3,00”. Etc. Até 11 horas, quando almoça no “a quilo” em frente, fritou mais ou menos 350 pastéis, 280 coxinhas e 120 quibes. Recomeça às 12 e vai até às 16. Como muitos fregueses almoçam mesmo é salgado com refresco, o movimento aumenta bastante entre meio-dia e uma da tarde. Quando vai embora, depois de ceder o lugar a Francisca Oliveira dos Santos, terá fritado uma média de 700 pastéis, 560 coxinhas e 240 quibes. Trabalhando cerca de 26 dias por mês (folga às quartas-feiras), sua produção mensal de frituras é aproximadamente a seguinte:

Pastéis: 18.200 unidades

Coxinhas: 14.560 unidades

Quibes: 6.240 unidades

Total: 39.000 frituras/mês

Se não brigar com o patrão, não for suspensa por atraso, não perder o emprego por doença, terá totalizado depois de um ano a produção das seguintes frituras:

Pastéis: 218.400 unidades

Coxinhas: 174.720 unidades

Quibes: 74.880 unidades

Total: 468.000 frituras/ano

UMA VIDA DE DEDICAÇÃO

Quase certamente Ivanildes morrerá antes de se aposentar. Mas vamos supor que, por um desses acasos improváveis, consiga aguentar os anos de serviço exigidos das mulheres. Pulando de lanchonete em lanchonete, ganhando sempre o mesmo salário de empregada sem qualificação, perderá os dentes, a saúde e a beleza – se é que teve alguma –, mas não perderá o trabalho. E então, depois de 30 anos fritando pastel, coxinha e quibe, chegará o dia tão sonhado em que poderá ir para casa, sem horário, sem patrão e sem fedor de gordura queimada nos cabelos, na pele e nas roupas.

Estará encerrada sua vida produtiva. Não importa se casou, se teve filhos. Suas doenças não contam, nem suas opiniões, ideias, palpites. Quase certamente não teve tempo de pensar. Quando precisou votar, votou em quem era mais bonito ou ria com mais dentes. Namorou com certeza, foi talvez um bicho saudável na cama, quem sabe amou e foi amada. Algumas vezes, foi feliz; outras, infeliz. Até que certo dia, como acontece na vida de pobres e de ricos, aquela dorzinha persistente aumentou, aumentou – e não teve santo que desse jeito. Parentes e amigos no velório? Dois ou três gatos-pingados. Enterro miserável, poucas flores, meia dúzia de lágrimas, nenhuma saudade.

LOUVOR DE IVANILDES

Batalhadora incansável, Ivanildes Pereira da Silva foi exemplo de esforço, tenacidade e amor ao trabalho. Durante 30 longos anos, matou a fome de milhões, incontáveis milhões, que degustavam seus pastéis, suas coxinhas e seus quibes. Quantas vezes, olhando de esguelha, não surrupiou disfarçadamente um pastel para contentar aquele pivetinho que olhava faminto a vitrine embaçada? E quantas outras vezes não empurrou um copo de refresco para a velhinha que, escorando-se na porta, suava e tremia? Assim foi Ivanildes. Humilde exemplo de estoicismo, tão grande como as maiores heroínas antigas ou modernas, é um exemplo para todas as mulheres e – por que não? – para todos os homens. Não fez sucesso na TV, não gravou discos, não pintou quadros, não escreveu livros. Muito menos pintou discos, escreveu quadros, gravou livros. No entanto, ao cabo de 30 anos, sua vida representa – aos olhos de quem sabe ver – uma admirável carreira, digna dos maiores heróis antigos ou modernos, de Alexandre a Napoleão, de Anita Garibaldi a Teresa de Calcutá, de Tiradentes a Gandhi.

Na ponta do lápis, tim-tim por tim-tim, qual dos colossos acima seria capaz de igualar sua vastíssima produção de bens comestíveis e baratos, que abaixo revelo, perplexo com tanta grandeza e tenacidade?

LEGADO IMATERIAL DE IVANILDES

Pastéis: 6.552.000 unidades

Coxinhas: 5.241.600 unidades

Quibes: 2.246.400 unidades

Total: 14.040.000 unidades, ou seja, mais de 14 milhões de pastéis, coxinhas e quibes fritos em lanchonetes vagabundas, em 30 longos anos de pobreza e escravidão, nestes magníficos tempos de riqueza, biologia molecular e shoppings maravilhosos.

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Ilustração: colagem sobre “Negra com turbante”, foto de Alberto Henschel (1827-1882) 

 

Stones encantam cubanos em noite histórica

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ANA KREPP, de Havana – OPERA MUNDI

A plateia dividida entre cubanos e estrangeiros começou a chegar ao local do show ainda na madrugada do dia anterior. A maioria, no entanto, chegou depois das 17h, lotando complemente o espaço às 19h desta sexta-feira (25/03).

“Saímos de Sancti Spiritus às 5h, o ônibus quebrou no meio do caminho e só conseguimos chegar agora [nove horas depois]”, conta o artista plástico Raul Gonzalez, explicando que uma viagem normal teria levado apenas quatro horas.

Também vindo do interior de Cuba, um outro ônibus saiu de Matanzas na madrugada de quinta para sexta com 15 pessoas. “A gente transformou um caminhão em ônibus”, conta Yander Diaz, referindo-se a um uso parecido com o de um pau-de-arara.

Apesar de todo o esforço que fizeram, vindos do interior especialmente para o show, Raul e Yander tiveram acesso apenas a pista comum, que ficava a cerca de 30 metros do palco. Parte da plateia havia recebido um “convite especial”, que dava acesso a uma espécie de pista premium, a frente da pista normal.

Professores e alunos de todas as universidades de Cuba eram parte do público que recebeu o convite especial. Convidados do governo também assistiram ao show desde a área VIP.

Um pouco chateada com a distancia com que veria o show, separada pela pista premium, estava Nadia Cruz, moradora de Havana que conseguira um lugar colada a grade que separava as duas pistas.

“Esperei a minha vida toda por este show, mas estou um pouco triste por ficar longe mesmo tendo chegado as 7h da manhã.”

Entre os que dividiam a grade uma grande quantidade de argentinos chamava atenção. Vestidos com a camiseta da seleção da Argentina, eles também se destacavam pelas faixas e cartazes que explicitavam a devoção pela banda de rock.

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O argentino Ivan usava uma camiseta com a boca de língua de fora e dentro da língua uma foto de Karl Marx. “Eu mesmo fiz a camiseta, acho maravilhoso poder brincar com estes símbolos e fazer parte da historia”, diz ele que viajou de San Juan, Noroeste da Argentina, a Cuba especialmente para o show.

Marcado para as 20h30, o show atrasou cerca de 10 minutos e durou aproximadamente duas horas.

“Nos sabemos como era difícil pra voces ouvirem a nossa musica alguns anos atras. Mas este show é sinal de alguma coisa finalmente esta mudando”, disse Mick Jagger ovacionado em seguida pela plateia. Todas as vezes em que se referiu ao publico, Jagger falou em espanhol. O mesmo fez Keith Richards. “Tocar em Havana é incrível”, disse o guitarrista.

“Essa é para os românticos”, anunciou Jagger em um dos pontos altos do show, quando tocaram Angie. O publico, que não cantava todas as musicas, desta vez, acompanhou com mais facilidade.

Brasileiros, Argentinos, Chilenos, Canadenses, Ingleses e dezenas de outras nacionalidades que se misturavam aos cubanos, se emocionaram no fim do show, com “Satisfaction” estendida por alguns minutos além do normal.

A noite terminou sem incidentes, além das pedras que rolaram e marcaram definitivamente a história da musica em Cuba. Agora há um antes e um depois dos Rolling Stones.

Leão vence o Rai-Fran e assume liderança da chave A1

O São Francisco venceu o clássico santareno diante do São Raimundo por 2 a 1, neste sábado (26), assumindo a liderança do grupo A1 do Parazão 2016. O jogo foi realizado no estádio Barbalhão, em Santarém. Com um grande público (mais de 6 mil torcedores), o torcedor santareno viu o São Raimundo tomar a iniciativa das ações, porém o time azulino teve uma oportunidade e não desperdiçou. Aos 18 minutos, o meia Samuel abriu o placar para o time azulino após confusão na área do Pantera.

O gol despertou o São Raimundo, que passou a buscar mais o ataque. O esforço deu resultado. Aos 38 minutos, o atacante Jefferson Monte Alegre fez o gol de empate e se isolou na artilharia do campeonato, com sete gols.

No segundo tempo, o São Francisco voltou mais decidido e conseguiu desempatar logo aos 5 minutos. Samuel disparou da entrada da área, botando o Leão santareno em vantagem. O São Raimundo não esmoreceu, continuou atacando e criou várias oportunidades, mas não conseguiu chegar ao gol de empate.

O atacante Balotelli acabou expulso de campo depois de confusão envolvendo vários jogadores no final da partida.

O São Francisco assumiu a ponta da tabela do Grupo A1 com 4 pontos, enquanto o São Raimundo continuou com seis pontos no Grupo A2, ainda na liderança. Na próxima rodada, o São Francisco enfrenta outro time da cidade de Santarém, o Tapajós e o São Raimundo enfrenta o Parauapebas, fora de casa.

São Francisco – Paulo Rafael; Andrey, Carlinhos Rocha, Perema e Andrelino (Mocajuba); Rodrigo Santarém, Juninho, Guilherme Neves e Samuel; Elielton e Balotelli (Fabinho). Técnico: Valter Lima

São Raimundo – Evandro; Rodrigo Rocha, Wanderlan, Martony e Negueba; Dedeco (Sandro), Marcos Costa, Caçula (Manoel) e Cristian (Patrick); Bilau e Jefferson Monte Alegre. Técnico: Everton Goiano

Árbitro – Joelson Silva dos Santos. Auxiliares – Silvério Ferreira Pinto e Vanaldo Nascimento dos Santos. Cartões amarelos – Rodrigo Santarém e Balotelli (SFA) ;  Martony (SRA)

Renda – R$ 95.230,00. Público pagante – 5.021. Credenciados – 1.009. Público total – 6.030.

 

Ao mestre, com carinho

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POR GERSON NOGUEIRA

Uma das grandes referências no futebol para a minha geração nos deixou na Quinta-Feira Santa. Ainda está fincada na memória a imagem épica e até assustadora do cerco que Johan Cruyff e seus companheiros de Laranja Mecânica aplicaram a um solitário argentino em jogo válido pela Copa de 74 no qual a Holanda massacrou os hermanos.

Na aristocracia da bola, Cruyff vem ali pertinho, logo abaixo do panteão das chuteiras imortais – Pelé, Garrincha, Didi, Nilton. Colocaria o craque holandês na mesma galeria simbólica de astros como Rivelino, Gerson, Tostão, Maradona, Ronaldo Fenômeno e, sim, Messi. No meu eterno álbum de figurinhas, é presença de destaque, envergando a mítica camisa 14. De camiseta laranja, é claro.

Apreciava a elegante movimentação de Cruyff. Verdadeiro outsider do nobre esporte bretão, ele contrariou as regras vigentes para fazer o jogo ficar à sua maneira, rápido e prático. Além de tudo isso, pontificava pela capacidade de pensar e verbalizar suas ideias.

Esguio e ágil, de cabeça erguida, foi ele seguramente o primeiro grande jogador a se valer do potencial físico para encantar plateias com a bola nos pés – ou sem ela. Antecipou em algumas décadas a importância do condicionamento atlético para a excelência técnica.

Deslocava-se sempre para o lado certo do jogo. Hábil e dono de passadas largas, liderou o excepcional exército boleiro da Laranja Mecânica com rigor, método e arte. Driblava no limite exato da necessidade, mas era indomável nas arrancadas. Ah, fazia muitos gols também.

Fiquei surpreso quando há alguns anos, lendo sobre sua história, soube que havia sido um menino raquítico, que sofria com graves problemas de saúde. Generoso, o futebol funcionou para ele como redenção e glória.

Para assombro geral, Cruyff dominou a cena no Mundial de 1974, capitaneando o Carrossel idealizado por Rinus Michels e eclipsando cracaços como Beckenbauer, Breitner e o nosso Rivelino.

Desembarcou na Alemanha ainda sem status de astro. Era apenas um badalado jogador europeu oriundo de um país sem tradição no esporte. A consagração veio a partir da performance da seleção holandesa. Michels e seus comandados levaram à potência máxima o conceito de aproximação em campo. Cruyff era cérebro e motor daquela máquina de jogar bola.

O time era regido por uma filosofia muito simples: mais jogadores em torno da bola garantem mais controle do jogo. Sempre que estava com a bola, a Holanda se lançava vigorosamente ao ataque. Sem a bola, armava o bote com até oito atletas para retomá-la, como na cena que descrevi na abertura da coluna. Era irresistível, implacável e incrivelmente moderno.

É claro que defender e atacar com a mesma volúpia exigia esforço redobrado. O preço seria cobrado na final diante dos alemães. Sem o mesmo vigor dos primeiros confrontos, a esquadra acabou vencida pela austeridade germânica, fisicamente mais inteira.

Além dos excepcionais feitos como boleiro, Cruyff foi também um técnico de sucesso e um teórico respeitado. Fora dos gramados, manteve o mesmo espírito altivo e contundente dos tempos de atleta. É célebre a história com Romário, boêmio desde sempre, cujas farras eram toleradas pelo então técnico do Barcelona se não deixasse de cumprir seu papel em campo.

Ergueu-se nos últimos anos como voz intransigente em defesa do futebol bonito, bem jogado. Cometeu alguns deslizes – como aquele papo de que Neymar e Messi eram incompatíveis –, mas acertou na maioria das vezes, como nas críticas ferinas às anêmicas seleções brasileiras de 2006, 2010 e 2014, para desconforto de Parreira, Dunga e Felipão.

No fundo, Cruyff viveu como jogou: no ataque, sempre. Gente assim faz muita falta.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. O convidado da noite é o amigo Edson Matoso. O programa começa depois do Pânico, na RBATV, por volta de 00h20.

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Sem Ramos, Leão desafia o Boto

Depois do empate com o Nacional, em Manaus, o Remo de Leston Junior tenta hoje iniciar uma arrancada vitoriosa rumo à semifinal do segundo turno do Campeonato Paraense. Mesmo encarando o pior time da competição, as últimas atuações azulinas não permitem projeções muito otimistas e o jogo adquiriu caráter decisivo. Se não vencer, o Leão põe a classificação (e o sonho do tri) em risco.

O Tapajós se encontra em situação desesperadora na classificação. Não pode pensar sequer em empate, sob pena de ficar a um passo do rebaixamento. No momento, é o último colocado, com apenas dois pontos. Caio Simões, quarto técnico a dirigir o Tapajós na temporada, deve repetir  time que empatou com o Águia em 0 a 0 na rodada passada. Tiago Costa, ex-bicolor, Adriano Miranda e Tsunami, ex-azulinos, são os destaques.

No Remo, a escalação deve sofrer alterações em relação ao time que atuou contra o Nacional na sexta-feira. O Remo não terá seu principal jogador, Eduardo Ramos, suspenso por ter recebido o terceiro cartão amarelo contra o Independente.

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Papão precisa de remédio contra apatia

O Papão decide passagem à semifinal da Copa Verde, hoje, contra o Fast Clube. Precisa de um empate em 0 a 0 para seguir em frente. Poderia ser uma tarefa relativamente simples, mas o futebol que a equipe vem apresentando não inspira confiança. Até o modesto representante amazonense representa perigo real e imediato dentro da Curuzu.

Há cinco jogos sem vencer, o Papão sofre com a crise no setor de ataque que começou a se esboçar ainda no primeiro turno do Parazão. Leandro Cearense, Betinho, Bruno Veiga, Fabinho e Wanderson não encontram o caminho das redes. Com isso, o time passou a depender da perícia de Celsinho em bolas paradas para vencer.

Mais do que o Fast, o Papão deve ficar atento à ausência de identidade da equipe e à surpreendente apatia exibida nos últimos jogos.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 27)

EI faz proposta tentadora à CBF pela Copa BR

POR RODRIGO MATTOS

O Esporte Interativo formalizou proposta à CBF pelos direitos de transmissão de TV Fechada da  Copa do Brasil a partir de 2018. Sua oferta é de R$ 180 milhões, seis vezes o que a Globo paga atualmente pela competição. O blog não conseguiu confirmar se a emissora carioca já fez oferta.

A proposta é mais um passo agressivo do canal da Turner para tentar ganhar espaço no mercado nacional. O Esporte Interativo entrou forte na disputa dos direitos de TV Fechada do Brasileiro a partir de 2019 e conseguiu fechar com 15 clubes, sendo sete da Série A.

Foi o suficiente para incomodar a Globo e ter um pacote de jogos no futuro para transmitir o Nacional. Mas a emissora carioca conseguiu atrair a maior parte dos grandes clubes nacionais, como Corinthians, São Paulo, Grêmio, Atlético-MG, Cruzeiro, Fluminense, Vasco. O Esporte Interativo ficou com Santos, Internacional, Coritiba e Atlético-PR, entre outros.

No caso da Copa do Brasil, a negociação do Esporte Interativo é apenas com a CBF, sem participação dos clubes. A confederação apenas distribui cotas por participação dos times no campeonato. Os valores não são altos até se chegar às fases finais da competição.

A ideia do Esporte Interativo é sinalizar que, com seis vezes mais dinheiro para a TV Fechada, a CBF teria mais recursos para distribuir para os clubes. Sua proposta é de um contrato longo, embora não tenha sido possível obter a informação de qual o período desejado.

Lembre-se: foi na negociação de direitos de marketing da Copa do Brasil que o FBI encontrou provas de pagamento de propinas para os ex-presidentes da CBF José Maria Marin, Ricardo Teixeira e para o atual comandante afastado Marco Polo Del Nero, substituído interinamente pelo coronel Antonio Carlos Nunes (foto).

Uruguai tinha o Mestre. Brasil tinha o Dunga

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DO BLOG DO MENON

Faltou pouco para o Uruguai acrescentar mais um feito em seu olimpo de conquistas. Depois do Maracanazo de 50, quase tivemos o Recifazo de 2016. E, se acontecesse a virada, não teria nada de heroica. Seria apenas a consequência natural de dois fatores que se fizeram notar intensamente: a superioridade de Tabarez sobre Dunga e a imensa diferença de caráter das duas equipes. Antes de continuar, uma digressão. Para mim, o título uruguaio de 50 tem a ver, sim, com heroísmo, mas pode ser explicado também por questões táticas e técnicas. Mas esta é outra história.

O Brasil fez uma boa partida até marcar o segundo gol. Havia inversão de jogadas e Neymar havia encontrado um bom espaço entre as duas linhas de quatro da seleção uruguaia. Flutuava por ali, leve e solto. E tudo foi facilitado pelo gol de Douglas Costa aos 40 segundos. William, na direita, foi marcado pelo alto e fraco Coates. Vitorino errou e não interrompeu o cruzamento. Nova digressão. Lembremos que Maxi Pereira, Josema Gimenez, Diego Godin e Martin Caceres, a zaga titular não estava em campo.

Depois do segundo gol – lindo gol – brasileiro, o Uruguai foi à frente impulsionado pelo profissionalismo e vontade de jogar. Alvaro Pereira cruzou da esquerda, Carlos Sanchez cabeceou para trás e Cavani acertou um lindo chute. David Luiz estava a alguns metros dele, dentro da área, com as mãos para trás para impedir um pênalti que não houve.

E aí, antes da intervenção de Tabarez, veio algo que eu não gosto de reconhecer, que considero até primário, mas que se fez notar. O DNA de cada futebol. O milionário futebol brasileiro se encolheu na dificuldade. O sofrido futebol uruguaio cresceu. E foi atrás de seu passado, de sua história. Foi atrás do empate.

No segundo tempo, Tabarez fez a substituição que mudou o jogo. Trocou o 4-4-2 pelo 4-1-4-1, Recuou Arevalo Rios para ser uma espécie de terceiro zagueiro, mais adiantado. Passou a marcar duramente Neymar. O craque brasileiro não conseguia flutuar mais. Tabarez tirou Cebolla Rodriguez e colocou Tata Gonzalez. Ele, com muito esforço e raça, passou a ajudar Alvaro Pereira. Cavani passou a jogar pela esquerda, de área a área.

Suárez era o único atacante. E que atacante!!!! Empatou o jogo logo a cinco minutos, deixando David Luiz na saudade. Como sempre, aliás. E o Brasil murchou. E o Uruguai cresceu. Os brasileiros começaram a bater muito e as dificuldades técnicas de David Luiz vieram à tona novamente. Não tem noção de espaço, não marca bem, não tem velocidade. No final do jogo, cabeceou uma bola para trás e Allison conseguiu defender o chute de Suárez.

A situação estava tão favorável que Tabarez resolveu arriscar. Tirou o meia Carlos Sanchez e colocou o atacante Christian Stuani. Correu riscos, sim, pois Fucille teve dificuldades para marcar Neymar, que foi para a ponta esquerda.

O Brasil sofre com a falta de um armador. Não tem um centroavante. Neymar deveria ter jogado como Messi, fora da área para receber a bola, mas dentro dela após um curto pique. Não foi assim. David Luiz foi muito mal novamente. Filipe Luiz é limitado. Fernandinho e Luis Gustavo são fracos.

Mas a maior diferença estava em campo. Eles tinham um Maestro (Mestre). E nós, um Dunga