A mãe de todas as batalhas

POR GERSON NOGUEIRA

Decisões são sempre difíceis, mesmo quando um dos lados entra com alguma vantagem. No caso, o Remo tem três gols de diferença, fato que lhe permite perder até por 2 a 0. Em jogo, a conquista da II Copa Verde. O Cuiabá mostrou muito pouco no primeiro confronto, em Belém. Levou um gol de pênalti aos 20 minutos e perdeu um zagueiro em consequência disso. Com um a menos, ficou mais vulnerável à pressão remista, terminando por ser goleado (4 a 1).

unnamed (69)Supõe-se que nesta noite a equipe mato-grossense entre mais resoluta e cometa menos erros. Para reverter a diferença, terá que operar um milagre, visto que na atual Copa Verde sempre venceu por escores apertados.

Ainda assim, que ninguém se engane. A final será tensa, dramática e sujeita a muitos sustos para os azulinos. A boa vantagem não pode se tornar uma armadilha. É comum ver equipes que se agarram a um escore parcial fechando-se na defesa e abdicando de atacar. Agir assim é quase sempre fatal contra adversário do mesmo porte.

As palavras do técnico Cacaio e de seus jogadores indicam que o Remo parece vacinado contra arroubos retranqueiros. Sob a nova direção, o time tem mostrado produção ofensiva satisfatória. Desde a estreia de Cacaio, contra o Atlético-PR em Belém, o Remo só deixou de balançar as redes inimigas no clássico contra o Paissandu válido pela primeira partida da semifinal da Copa Verde. No total, o Remo de Cacaio marcou 14 gols e sofreu 6.

Caso mantenha a média, tem boas possibilidades de marcar na Arena Pantanal. Seria um gol valioso e decisivo para as pretensões azulinas, pois dificultaria ainda mais a tarefa dos donos da casa, obrigados a marcar cinco vezes.

É claro que esse cenário deve ter sido aventado por Cacaio e, neste caso, um jogador pode ter papel fundamental: Sílvio, principal velocista da equipe depois da saída de Roni. Talhado para as ações de contra-ataque, pode ser o trunfo para explorar as subidas do Cuiabá ao ataque. Caso seja lançado nas costas dos laterais, Sílvio pode se consagrar.

Mas o arsenal remista não se resume ao arisco ponteiro. Bismarck também é rápido e já mostrou utilidade como segundo atacante, fazendo dupla com Rafael Paty. Este, aliás, é peça-chave na atual configuração do Remo. Oportunista, fez gols nos últimos quatro jogos e vive fase abençoada. Depois do que aprontou no Mangueirão, Ratinho também deve atrair marcação forte, bem como Eduardo Ramos, o organizador do time.

Rafael, Maninho e Nino Guerreiro são os jogadores mais perigosos do Cuiabá. Hábil e rápido, Rafael articula os avanços e finaliza muito bem. Nino Guerreiro joga entre os zagueiros e Maninho é um ala que raramente recua. O time também explora muito o jogo aéreo, aproveitando a envergadura de seus zagueiros e atacantes. Este é o maior risco a ser enfrentado (e, se possível, evitado) pelo Leão.

A importância da conquista da Copa Verde é óbvia e justifica todo o clima de ansiedade e expectativa entre os torcedores. Além do título do torneio, o Remo ganhará o direito de finalmente disputar uma competição internacional. Para um clube que ficou dez anos sem festejar grandes feitos, a noite promete ser histórica e intensa.

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É impossível parar La Pulga

Eu vi no Maracanã, em julho do ano passado, Lionel Messi receber o prêmio de craque da Copa e era visível seu constrangimento com a escolha da Fifa. Como craque que é, sabia que não merecia a honraria. Ontem, diante de 95 mil pessoas no Camp Nou e milhões de fãs espalhados pelo mundo, ele não deixou margem a dúvidas. Os gols, os passes, as inversões e a pontaria infalível atestam quem é o melhor jogador da atualidade.

O jogo contra o Bayern se arrastava em meio a trocas táticas de golpes. Raros lances agudos, embora o embate fosse movimentado. Muita marcação e vigilância sobre os que podem desequilibrar – Neymar, Müller, Suarez e ele, Messi.

Em certos momentos, a partida lembrava a morna luta entre Mayweather e Pacquiao no sábado passado. Muitos jabs e esquivas, poucos diretos. Caminhava para um 0 a 0 quando, de repente, eis que o talento se ergue e derrama luzes sobre a escuridão.

Messi, lançado por Daniel Alves, invade a área corta o beque para a direita e bate no canto esquerdo de Neuer, aos 32’. Três minutos depois,  com o Bayern ainda tonto, outro passe em profundidade encontra La Pulga quase no mesmo lugar de antes. Ele avança, finta Boateng e chuta, de cavadinha, para o fundo das redes. Um golaço.

Nos acréscimos, quando as comemorações estavam em andamento, Messi, infatigável, apanha bola no meio-campo, sobrevive a uma sarrafada e enxerga Neymar entre os zagueiros em linha. O passe sai milimétrico. Nem curto nem longo. Preciso.

O brasileiro arranca com a bola e, na saída do goleiro, bate rasteiro. Barça 3 a 0, num espaço de tempo inferior a 15 minutos. Incrível como o poderoso Bayern ruiu de maneira tão rápida depois de resistir por 77 minutos.

A façanha do time azul-grená só foi possível porque há um fora-de-série para estabelecer a diferença. O Bayern de Pep Guardiola é um timaço, difícil de ser vencido e cheio de alternativas. Mesmo sem Ribery e Robben, é um esquadrão temível.

Os 15 minutos de futebol em altíssimo nível que Messi impôs no segundo tempo demoliram as barreiras e fizeram o Bayern parecer um time como outro qualquer. Prova insofismável de que não há tática capaz de deter um grande craque.

Por tudo que tem feito em tão curto tempo, Messi está no patamar dos jogadores muito especiais. Há debates sem fim sobre as comparações, mas é razoável colocá-lo hoje ao lado de Platini, Ronaldo, Rivelino, Cruyff, Beckenbauer e Cristiano Ronaldo.

Precisa ainda lustrar esse portfólio com uma campanha irrepreensível em mundiais para poder se ombrear a Romário, Zidane e Maradona, todos heróis e vencedores de Copas. Alcançar Garrincha já é mais complicado, visto que Mané foi um anjo torto genial. Pelé, então, nem se fala…

Mas, por mais duro que seja para muitos, cabe reconhecer que esse argentino joga muita bola. Que tremendo privilégio é vê-lo em ação.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 07)

Timão perde pro Guarani e pro goleiro mão-de-alface

Depressão cívica: qual é a utopia, o que faremos?

luz

POR RICARDO KOTSCHO

“O que nós, eu e você, sem utopias, podemos fazer para realmente começar a mudar este cenário?”

Quem me mandou esta pergunta foi o jovem leitor Thiago André, de 20 anos, em comentário publicado às 14h01 de terça-feira, a respeito do post anterior “Aonde isso vai parar?”, pergunta mestre de Dilma”.

Como muita gente está se fazendo as mesmas perguntas neste momento difícil e nebuloso que estamos vivendo, repasso-as aos demais leitores para que, pensando juntos, possamos encontrar as respostas, em vez de ficarmos aqui só fazendo sempre os mesmos diagnósticos assustadores sobre a crise, sem sair do lugar, sem apontar caminhos, sem buscar novas utopias.

Alguns amigos já estão fazendo isso. Em artigo divulgado no mesmo dia, sob o título “Depressão cívica”, Frei Betto levantou algumas questões:

“Perante o desgaste dos partidos, surgem propostas de formar frentes suprapartidárias, congregando militantes de diferentes partidos e movimentos sociais. Rumo a quê? Qual a proposta capaz de aglutinar distintos segmentos da nação? Apenas evitar a retomada do poder central pela direita?”

E arriscou apontar possíveis caminhos:

“Ora, isso já se fez na reeleição de Dilma. Sem um projeto histórico capaz de encarnar princípios éticos inquestionáveis, reorganizar a esperança das bases populares e sinalizar efetivas mudanças estruturais, não creio que haveremos de enxergar luz no fim do túnel”.

Já fizemos isso juntos no passado, ao nos mobilizarmos nos movimentos pela Anistia, pelas eleições diretas e pela Constituinte, quando estes projetos históricos também não passavam de utopias, em que no início poucos acreditavam.

A grande diferença é que, naquele tempo, nos estertores da ditadura militar, tínhamos no país grandes lideranças, mais à esquerda ou à direita do espectro político, no Congresso Nacional e na sociedade civil, todas empenhadas na luta comum pela redemocratização do país.

No debate que o artigo provocou, concordei com os caminhos levantados por Frei Betto para enxergarmos uma luz no final do túnel, mas em resposta a ele levantei outras questões:

“Só uma pergunta: quem vai liderar este processo? Por onde recomeçar, se não temos mais líderes nem liderados, e os partidos faliram? Quem tem as respostas, os caminhos?”

Outro amigo, o jovem Thomas Ferreira Jensen, ativista dos movimentos sociais e colega dos nossos Grupos de Oração, me respondeu:

“A luz no fim do túnel será a soma dos milhares de vaga-lumes que piscam país afora. Em associações de bairro, grupos de jovens, cooperativas, inclusive em coletivos dentro de partidos políticos de esquerda. É uma turma que já não busca um líder, mas que vive formas autogestionárias de organização e assim constrói formas novas de trabalho de base, de formação, de resistência, algo na linha do Podemos da Espanha”.

Tinha ouvido pela primeira vez a expressão “depressão cívica”, empregada pela escritora Adélia Bezerra de Menezes,  no domingo, ao resumir o que estava sentindo, durante um jantar do nosso grupo no qual só se falou de crise.

É a mesma coisa que senti ao ler o dramático depoimento que me foi enviado no final da tarde de ontem pelo pequeno empresário Robson Oliveira, um antigo participante do Balaio, que desistiu de escrever comentários para o blog diante do clima de beligerância criado na disputa eleitoral. Escreveu ele:

“Boa noite Ricardo, desculpe te incomodar novamente, mas tenho visto como a situação está ficando a cada dia mais preocupante. Visto e sentido isso. Recentemente, minha filha mais velha perdeu o emprego e eu, depois de 15 anos, finalmente tive que fechar minha pequena fábrica.

A situação está terrível, meu amigo, só não aparece por causa dos acordos sindicais que ainda seguram mesmo as taxas de emprego. O que importa agora, Ricardo, não é essa guerra estúpida nas redes. O que importa é: o que faremos?

Quem tem algum plano que ao menos sinalize alguma melhora ou um retrato mais confortante dessa piora? Ninguém assume os erros, ninguém se prontifica a reconhecer que cometeu falhas, ninguém quer saber de, antes de apontar os paralelepípedos nos olhos alheios, verifique os pneus velhos nos seus.

Quando a situação era, de certa forma, confortável, o que vimos foi uma prepotência sem tamanho que agora se volta contra seus próprios criadores.

A continuar dessa forma, sem qualquer plano, sem qualquer esperança de sair do atoleiro que se aproxima, vai começar a “faltar pão nessa casa”… e o ditado, mais uma vez, se fará verdadeiro”.

Como ninguém é dono da verdade nem da última palavra, o único caminho que vejo é exatamente esse aberto pela fantástica oportunidade que a internet nos dá: procurarmos juntos as formas de sairmos dessa depressão cívica e realimentarmos nossas vidas de fé e de esperança. Uma hora, as crises sempre acabam passando. Já atravessamos muitas outras e sobrevivemos.

Por isso, peço à turma boa do Balaio que participe dessa busca, mas não envie mensagens para meu e-mail pessoal. É importante que todos saibam o que os outros estão pensando, utilizando a área de comentários. Com a palavra, vocês.

Vida que segue.