

Por Gerson Nogueira
Foi um jogo empolgante, talvez o mais equilibrado de todos os clássicos da temporada. Não faltou alma, sangue e vontade. De um lado, um Paissandu senhor da vantagem na decisão e com suas principais peças descansadas exclusivamente para o jogo. De outro, um Remo que ficou 22 jogadores sem jogar à espera das finais do returno. Tanto esmero dos rivais em se preparar para o confronto se evidenciou nas ações em campo. Duas forças antagônicas, com arrumações táticas diferentes e ênfase no esforço coletivo. Nas arquibancadas, porém, o público destoou em relação à qualidade do clássico – presença de pouco mais de 6 mil pagantes.
O começo foi claramente dos azulinos, que, pela urgência em reverter a desvantagem na decisão, partiram resolutos em busca do gol. Construíram boas jogadas, puxadas principalmente pelo ponta Roni, mas não conseguiram transformar essa presença ofensiva em situações claras de gol. Estabeleceram uma sensação de perigo que não se materializou em lances agudos na área.
A predominância remista durou exatos 15 minutos. A inversão de atitudes começou por força das circunstâncias, com as substituições de Pablo (lesionado) por Ricardo Capanema e de Zé Antonio por Billy. Capanema foi escalado para vigiar Roni e se entregou à tarefa com gosto, o que diminuiu a intensidade do Remo pelo lado direito do ataque. Em combate direto aos remistas Dadá e Ilaílson, Billy assumiu no meio-campo um papel de condutor de bola que Zé Antonio não chegava nem perto de executar. Penso que o jovem volante ganhou em definitivo a titularidade ontem à noite.

Foi através de Billy que o Papão começou a inverter as coisas no Re-Pa, tirando seu meio-campo do imobilismo inicial. Aos 17 minutos, surgiu o primeiro ataque bem organizado pelos bicolores. Lima recebeu bola no bico esquerdo da grande área e cruzou alto em direção ao segundo pau. Djalma cabeceou em direção à pequena área, mas a bola resvalou no braço do lateral Alex Ruan. Dewson Freitas assinalou pênalti, que Augusto Recife converteu.
Atordoado pelo gol, o Remo saiu em busca do empate e teve duas boas chances, ambas em cobranças de escanteio. Mas foi o Papão que voltou a balançar as redes. Aos 30 minutos, em cobrança de falta bem ensaiada, Pikachu foi lançado na área azulina pelo lado direito e, sem marcação, bateu forte e rasteiro, estabelecendo 2 a 0. O Papão se valia, novamente, de sua objetividade nos lances de área.
O Remo, tentando juntar os cacos, partiu para a reação, mas esbarrava num bloqueio mais firme e técnico no meio-de-campo. A necessidade de chegar ao gol levou Eduardo Ramos a se aproximar da linha de ataque, invertendo posicionamento com Leandro Cearense pelo lado esquerdo. A fim de fugir à marcação de Capanema, Roni passou a correr pela esquerda depois que Alex Ruan foi substituído por Val Barreto. E foi por essa via que acabou nascendo o primeiro gol azulino.

Lépido, Roni enfileirou marcadores na entrada da área do Papão e passou para Eduardo Ramos arrematar de fora da área, sem chances de defesa para Paulo Rafael, aos 39 minutos. O Remo ainda teria, com o próprio Roni, outra grande oportunidade, aos 44, mas Paulo Rafael e Charles impediram o gol.
Depois do intervalo, o Papão surpreendeu logo aos 2 minutos em escanteio que foi desviado por Charles para as redes. Dewson assinalou falta sobre Fabiano, em marcação contestada pelos bicolores, mas o árbitro havia invalidado o lance antes da definição, observando infração cometida pelo centroavante Lima.
O jogo ganhou outra dinâmica com o avanço do Remo em busca do empate. Com quatro atacantes (Potiguar, Cearense, Val Barreto e Roni), o time se mantinha no campo de ataque e explorava melhor os contra-ataques. Aos 17 minutos, depois de cruzamento da direita, Barreto cabeceou e a bola foi nas mãos do zagueiro Charles. Dewson apontou o penal, que o próprio Barreto converteu.
Aos 35, outra grande chance para o Remo em cabeceio de Barreto, mas a bola passou sobre o travessão. O último lance de área pertenceu ao Paissandu. Cruzamento de Pikachu da direita alcançou Marcos Paraná entrando livre pela direita, quase na pequena área. O chute saiu rasteiro e cruzado, mas Fabiano se redimiu na falha do primeiro tempo e espalmou a bola.

Arbitragem sob ataque
Ao contrário de outras jornadas, quando se destacou pela segurança e rigor nas marcações, Dewson Freitas acabou vitimado pela tolerância excessiva com o jogo violento. Logo a um minuto, deixou de punir Bruninho, que acertou pontapé em Roni junto à lateral. Depois, evitou expulsar Max após falta em Lima – o zagueiro já tinha cartão amarelo. Não expulsou Tiago Potiguar, que deu pisão em Ricardo Capanema, e anistiou Billy, que deu carrinho por trás em Roni. Permitiu ainda que os jogadores tomassem conta do jogo. Djalma chegou a peitá-lo várias vezes, reclamando acintosamente de marcações.

Como efeito direto disso, o técnico Mazola Junior dominou o pós-jogo com declarações graves e aparentemente destinadas a colocar a arbitragem sob pressão. Afirmou que estaria “tudo armado para beneficiar o Remo”, apontando um impreciso “sistema” como responsável pelo suposto esquema, não sem antes registrar que quando chegou ao Paissandu o clube se encontrava “no lixo, destroçado”.
Seria apenas mais um capítulo a engrossar o alentado histórico de polêmicas do clássico mais disputado no Brasil, apimentado por pinceladas marqueteiras, mas as acusações do técnico se revestem de gravidade por colocar sob suspeita o campeonato estadual, sem definir com clareza responsabilidades pelo tal esquema de favorecimento. Antes de Mazola, ainda no final do primeiro tempo, o diretor Roger Aguillera também fustigou a arbitragem, invadindo o campo para reclamar de marcações de Dewson Freitas. Detalhe: nesse momento, o Papão vencia por 2 a 1. (Fotos: MÁRIO QUADROS/Bola)