Por Jorge Furtado
Há muitos bons jornalistas no Brasil, em todos os veículos, em muitos blogs e sites. Sem os bons jornalistas nós, leitores, não temos como saber o que está acontecendo no mundo lá fora, esse lugar que vai do Guarujá até a Croácia, e além. Se você quiser saber o que realmente está acontecendo por aí e por aqui, precisa procurar os bons jornalistas, sem aceitar as facilidades das manchetes e dos comentários de encomenda, e sem a irresponsabilidade dos boatos da internet.
Os bons jornalistas tem uma tarefa bem simples e indispensável, vital para a sobrevivência da humanidade: a tarefa de buscar a verdade. Se ela existe ou não, a tal verdade, é questão menor, realmente não interessa. Existe, sem dúvida – no jornalismo, na ciência, na filosofia e também na arte – , a vontade de buscá-la, existe a necessidade de distinguir o que é verdadeiro e o que é falso e assim melhorar as chances de sobrevivência neste planeta inóspito, a necessidade de distinguir o que é certo e o que é errado, para tomar as decisões certas e não se deixar levar por instintos primitivos e exclamações da turba, ou a coisa acaba em linchamento.
Na internet, você pode facilmente organizar a sua própria lista de jornalistas, colunistas, blogs e sites favoritos, só anda mal informado quem quer, ou tem preguiça.
Quando o assunto é política, minha lista pessoal, no momento, está aqui: http://www.omercadodenoticias.com.br/pesquisa/
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Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.
Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.
Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?
Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa “voltar ao ‘normal ‘”, como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se ”normal” fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?
A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.
A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?
(*) Jorge Furtado é diretor e roteirista de cinema e TV.
O Jorge Furtado reclama da suposta má informação dos artistas, como o Ney Matogrosso, por exemplo. Com sarcasmo diz que eles com as agendas lotadas eles não teriam tempo para buscar fontes alternativas confiáveis e acabam reproduzindo inverdades produzidas por péssimos jornalistas.
De minha parte, depois de assistir detidamente tudo o que disse o Ney, considero que ali não houve qualquer inverdade. Até mesmo quanto a tão valorizada alusão ao anos 50 não contém afirmativa que possa ser compatível com qualquer ideia de mentira, no máximo o que há é alguma imprecisão típica de quem fala informalmente sem dispor da autoridade dos elementos estatísticos e técnicos especializados.
Enfim, me parece que o Jorge Furtado, em se tratando de política, pensa que pode fazer o mesmo que faz na sua vida profissional. Isto é, dirigir filmes e fazer roteiros, os quais me parece que tendem para a ficçao, dado o teor do que escreve.
Diferentemente do “roteiro” do Jorge Furtado, especialistas mostram formal e tecnicamente, que a vida é mais ou menos do jeito coloquialmente descrito pelo artista Ney Matogrosso.
E, para provar o que digo, transcrevo abaixo, trecho de declarações de profissional técnico especializado, colhida em fonte que presumo o Jorge Furtado diria ser um bom jornalismo. Falo de entrevista sobre o Bolsa Família, e outras ações do governo, concedida por Lena Lavínias, professora de economia em universidade carioca, e publicada no Viomundo, conhecida mídia chapa branca:
(…)
“VIOMUNDO – Você está falando dos programas de transferência de renda ou das políticas que visam garantir um salário mínimo mais decente? No artigo, você mostra que a elevação do salário mínimo teve um impacto bem maior na redução da pobreza do que o Bolsa Família.
“LENA LAVINAS – São duas coisas distintas. Primeiramente: estou falando dos sistemas de proteção dos quais o salário mínimo faz parte. Veja que os conservadores já contestam a regra de seu reajuste anual do salário mínimo, que contribuiu significativamente para reduzir a desigualdade no Brasil.
“Em segundo lugar, temos as políticas de garantia de renda que visam responder a problemas de falhas de mercado e não propriamente promover um processo de equidade do ponto-de-vista de redução permanente e constante e de longo prazo das desigualdades.
“Antes de mais nada, é incorporação ao mercado. Se você se preocupa com equidade, não adianta só dar renda às pessoas, você tem que dar equidade de acesso a serviços que equalizam oportunidades. As pessoas têm que ter acesso à educação, saúde, política habitacional, segurança, várias coisas que elas não têm hoje. Por isso é que eu não preciso mais de políticas universais.
“Dentro dessa visão de apenas incorporação ao mercado de quem vive quase no nível da subsistência, eu preciso muito mais de políticas focalizadas (todos os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, têm público-alvo e critérios de elegibilidade, além de condicionalidades).
“Primeiro, porque elas custam muito barato, meio por cento do PIB em cada país da América Latina, mais ou menos, é uma coisa muito barata e tem um impacto importante.
“Na América Latina, se você tem 145 milhões de pobres, segundo a CEPAL, você imagina que hoje tem mais de 100 milhões inseridos no mercado. Mais de 120 milhões que eu consegui inserir no mercado. Você imagina a escala que isso tem? Tem um efeito escala que é muito importante.
“A coisa do salário mínimo é uma outra dimensão. O salário mínimo é uma política social muito importante, que regula o piso de remuneração do trabalho. Ela tem um efeito distributivo muito importante, sem dúvida nenhuma, e foi o que mais contribuiu para a redução da desigualdade e da pobreza no Brasil.
“Quando você consegue elevar esse piso de remuneração, isso é extremamente importante. Só que o que a gente tem no Brasil hoje é um processo de convergência dos salários para baixo.
“Dos mais de 18 milhões de empregos criados nos governos Lula e Dilma, eu tenho aí 90% que são de menos de três salários mínimos.
“Então, a gente também não está resolvendo os problemas que a gente tem no mercado de trabalho brasileiro, de rotatividade de mão-de- obra, precarização do emprego e a gente ainda tem problemas muito graves porque houve, no Brasil, uma redução da produtividade do setor industrial entre 2002 e 2012 e idem no setor de serviços. A produtividade teve crescimento negativo nesse período nesses dois setores, segundo dados do IBGE.
“VIOMUNDO – Por que essa queda?
“LENA LAVINAS – Essa é uma longa conversa. O setor de serviços, que é o que mais concentra mão-de-obra no Brasil, foi o que registrou o maior crescimento negativo da produtividade. Lá está concentrada a maioria da mão-de-obra não qualificada.
“São várias coisas. Falta de investimento privado, falta de mão-de-obra qualificada, ausência de inovação. O Brasil não está conseguindo superar esse obstáculo que a gente tem de ter capacidade de manter um processo de inovação permanente.
“Mas, voltando para a questão da política social, o que a gente constata e é isso que deve nos levar a uma reflexão: onde existe apenas política voltada para dar renda às pessoas, essa renda é suficiente para incorporá-los ao mercado marginalmente, mas não é suficiente para criar uma sociedade mais igualitária.
“O fato de a gente ter um gasto social que está muito focado, muito concentrado na renda e não em prover serviços — porque isso custa infinitamente mais caro — mostra que o Estado brasileiro e outros Estados latino-americanos estão deixando para o mercado essa provisão.
“É aí que o setor financeiro entra. Quem vai prover isso é o setor financeiro, vendendo essa multitude de seguros que a gente tem hoje no Brasil. Tem seguro para funeral, seguro isso, seguro aquilo, tem seguro que custa cinco reais por mês, tem seguro que custa quatro mil reais por mês.
Você tem uma variedade de seguros de saúde. Evidentemente que nem todos são dignos de confiança, são eficientes, etc. Mas tem.
“O mercado oferece e depois cada um que se vire. Ao mesmo tempo, você tem toda essa coisa do crédito. As pessoas passam a ter acesso ao consumo via crédito. Tem uma polarização social que está se formando numa sociedade que é muito desigual, porque hoje, para você ter uma ideia, o nível de endividamento médio das famílias brasileiras, segundo o Banco Central, é de 45%.
“Ou seja, 45% da renda das famílias brasileiras estão comprometidos com empréstimos. Num país onde os salários ainda são baixos, onde os juros que as pessoas pagam são muito altos, você vê que há uma lógica financeira por trás disso tudo, para a qual a gente não está alerta. Acho que essa é a questão importante.
“VIOMUNDO – O Brasil é o país que tem o maior programa de transferência de renda, em volume de dinheiro e em número de pessoas atendidas. Ele tem alguma característica que o diferencia dos demais programas da América Latina?
“LENA LAVINAS – A diferença é só a escala. De resto é tudo parecido. O Bolsa Família não é um direito, ao contrário do salário mínimo e de outros benefícios. Ele não é indexado todo ano, a linha de pobreza no Brasil não é indexada há cinco anos, o que é uma vergonha.
“Se você tem uma inflação de 5% ao ano, você tem que calcular em quanto aumentou a linha de pobreza. Se você não fizer nada, a pobreza cai, no automático.
“VIOMUNDO – É uma falácia.
“LENA LAVINAS – Pois é. Tem que pensar nisso e pensar porque o governo não está fazendo isso que deveria estar fazendo. Ele tem regras para atualizar os benefícios em geral, os salários, etc, com base na inflação passada. No caso do pobres, o governo não atualiza anualmente, desde 2009, o valor da linha da pobreza, nem os benefícios pagos ao pessoal do bolsa Família. Isso difere das outras regras e revela uma quebra de institucionalidade. Não é correto. No limite, é ilegal.
“VIOMUNDO – Boa parte das pessoas que ingressaram no mercado de consumo através do Bolsa Família hoje tem televisão, geladeira, e em alguns casos, telefone celular. Mas muitos continuam sem acesso a água potável e coleta de esgoto.
“LENA LAVINAS – Esse é o meu ponto. O Estado não está gastando naquilo que devia. Está dando renda e aí as pessoas podem comprar aquilo que o governo brasileiro acha importante que elas comprem para expandir o mercado doméstico e criar uma sociedade de consumo de massa que não tínhamos antes.
“Isso realmente existe hoje no Brasil. Com a China ajudando e o câmbio supervalorizado, entraram produtos industriais muito baratos aqui. Porém, essas pessoas que tiveram acesso a bens de consumo durável e salário, muitas vezes continuam sem ter água tratada nas torneiras, sem ter saneamento, sem creche de qualidade para seus filhos. Morando em favela. Isso parece não preocupar ninguém. Então, esse é o modelo de desenvolvimento que a gente adotou no Brasil.
“VIOMUNDO – No longo prazo, o que acontece?
“LENA LAVINAS – Como dizia o Keynes, no longo prazo estamos todos mortos. É uma sociedade onde essa pequena inflexão que observamos nos níveis de desigualdade não tende a progredir de forma sustentada e rápida.
“A gente precisa fazer uma reforma tributária que não foi feita, mudar o perfil dos impostos no Brasil, mudar os impostos que incidem sobre o consumo, isso tudo tinha que mudar e nada está mudando.
“Então, a gente fez uma pequena mudança na margem, ampliou o consumo das classes populares, o que é muito bom, mas é amplamente insuficiente para a gente ter uma sociedade democratizada e igualitária.
“VIOMUNDO – Mas foram governos de centro e de centro-esquerda, na América Latina, que tornaram possível a adoção de programas de transferência de renda, não?
LENA LAVINAS – Isso começou no Chile, na época do Pinochet, com o Chile Solidário. Isso é tudo pensamento liberal. A ideologia é uma coisa poderosa. As pessoas acham que inventaram tudo, que tudo foi criado agora. Isso tudo é ideologia.
“A gente que faz pesquisa científica tenta mostrar que não é assim. Nós estamos em uma guerra ideológica entre os setores conservadores e os progressistas e a gente precisa entender como mudar isso. Tá difícil. Como a gente vai evoluir a gente não sabe. Veja o governo Obama, a expectativa que se tinha e o que aconteceu.
“VIOMUNDO – Com relação ao governo Lula, também havia muitas expectativas que não se realizaram?
“LENA LAVINAS – No Brasil houve mudanças. Importantes e positivas. São suficientes? Nem de longe. O problema não é só a mudança, mas a direção das mudanças. As classes médias foram para a rua em 2013 pela primeira vez pedir aquilo que só renda não permite alcançar: educação pública de qualidade, saúde pública de qualidade, segurança efetiva, respeito. Sua renda sobe um pouco e você se diz que não vai chegar lá! Acho que pela primeira vez, temos alguma chance de construir uma agenda que reúne interesses populares com os da classe média. Resta saber quem vai nos representar nesse processo. E essa é outra incógnita!”
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O que o Ney Matogrosso falou não tem nada a ver com as opiniões da entrevistada. A clareza da opinião de Furtado incomoda…
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Antônio Oliveira falou tudo amigo estamos cansados desse desgoverno e dessa máfia chamada Pt. Brasil maldita invenção de Portugal.
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Como não tem nada a ver? Por exemplo, o que foi dito pelo Nei Matogrosso sobre o bolsa familia coloquialmente à perplexa mídia portuguesa, foi confirmado tecnicamente pela professora de economia para um nem tão perplexo Viomundo.
Se você não identifica esta pertinência é porque ou você não assistiu ao video do Ney ou você não leu a parte da entrevista que transcrevo.
Sugiro então que você verifique o que está pendente (Se assistir ao video ou fazer a leitura). Tenho certeza que depois de resolvido es pequeno problema, você vai comparar as duas produções e constatar que tem tudo a ver.
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