Compartilhar sem ler – reflexão sobre o jornalismo atual

POR DANIELLE CHEVRAND (*)

O assunto do momento para quem trabalha com comunicação é como o jornalismo pode se reinventar para sobreviver aos ‘novos tempos’. Com as recentes demissões em massa nas principais redações do país, jornalistas têm comparado o processo que ocorre com os veículos de comunicação, especialmente os impressos, ao que ocorreu com os cavalos, quando substituídos pelos carros, ou com as máquinas de escrever, quando substituídas pelos computadores. Alguns dizem que temos de aceitar a derrota, que os veículos impressos serão eliminados, cedo ou tarde, em detrimento dos ‘online’. Não é possível prever isso. Quando os computadores foram lançados, falava-se na extinção dos livros impressos. Hoje, mesmo com os computadores e tablets feitos para leitura, os livros impressos continuam sendo comercializados em larga escala.

Será que a solução para o jornalismo impresso é ouvir o que leitor quer? Henry Ford, o fundador da indústria automobilística, diria que não. Em uma de suas frases mais famosas disse “Se eu perguntasse a meus compradores o que eles queriam, teriam dito que era um cavalo mais rápido”. O fundador da Apple, Steve Jobs, corroborava com esse pensamento: “As pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas”. Hoje grande parte da população mundial não vive mais sem as invenções de Ford e Jobs. Os dois nos deram boas lições de como criar valor oferecendo um produto novo sem que haja necessariamente uma demanda por ele. Então, em vez de perguntar ao leitor o que ele quer, que tal mostrar a ele algo novo? Que tal surpreende-lo?

Muitos veículos impressos no Brasil e no exterior têm optado por um jornalismo mais analítico e aprofundado, em contraste com  a superficialidade comum da internet. Mas, hoje, mesmo no ambiente online, encontramos matérias aprofundadas, incrementadas com os recursos da rede: vídeos, animações e infográficos. Um ótimo exemplo é o especial “Desperate Crossing“, da The New York Times Magazine, sobre os refugiados que chegam à Europa todos os dias. É o bom e velho jornalismo, com uma roupagem multimídia. Uma questão que não sai da cabeça dos empresários da comunicação, no entanto, é como ganhar dinheiro com a internet. O retorno publicitário de um banner não se compara ao lucro gerado por um anúncio impresso ou veiculado na televisão. Como manter toda a gama de recursos e os bons profissionais sem uma fonte de renda que garanta a sustentabilidade do veículo?

Usar as redes sociais para divulgar e disseminar um conteúdo é uma alternativa irresistível para os meios de comunicação, porém há uma lógica torta aí. O número de curtidas ou compartilhamentos de uma matéria em uma rede social como o Facebook, por exemplo, é muito superior ao número de cliques que a mesma matéria tem no portal em que foi publicada. Ou seja: o leitor curte e compartilha sem ler. Inúmeras pesquisas demonstraram isso. O internauta é um ser impaciente, que gasta no máximo 90 segundos com qualquer conteúdo, como mostra este artigo da revista Galileu.

O internauta que compartilha sem ler gera audiência e lucro apenas para os provedores das redes sociais e não para os veículos que produzem conteúdo. E o pior: somos leitores de títulos. Quantas vezes você já fez isso: leu apenas o título de uma matéria, gostou da foto, curtiu e compartilhou, mas sequer leu a matéria inteira? E tem quem ainda faça comentários sem sequer ter lido até o final. Estamos nos tornando pessoas com conhecimento superficial sobre os assuntos e ainda saímos por aí falando sobre as manchetes sem o conhecimento completo do que foi abordado. Ficamos com uma visão limitada, uma vez que o título é apenas um chamariz e, na maioria dos casos, não representa exatamente o conteúdo apresentado.

Bom, se você chegou até aqui e não parou no título ou no primeiro parágrafo, está de parabéns. Mas não espere uma conclusão inédita sobre o futuro do jornalismo. Há muitas perguntas ainda sem resposta. Se os jornais e revistas em papel vão acabar, só o futuro dirá. O jornalismo, por si só, não vai morrer. A imprensa é um dos mais fortes pilares da sociedade atual. Prova disso é a foto que rodou o mundo do menino sírio morto na praia, focando a atenção do planeta na crise migratória da Europa. O jornalismo continua sendo a melhor janela para a sociedade. E, não sejamos ingênuos, também pode ser usado para o mal – basta lembrarmos dos vídeos do Estado Islâmico, que ganham dimensões globais graças aos meios de comunicação (eles teriam sido feitos se a mídia não os divulgasse? – é uma questão). Acima de tudo, a imprensa serve como uma terapia de grupo, pois graças a ela refletimos sobre muitas questões pertinentes à sociedade. O grande desafio dos provedores de conteúdo para o futuro, sem dúvida, é conseguir prender a atenção do leitor. E que ele queira ler cada matéria até o fim. Por mais que não consigamos enxergar agora, deve haver uma solução. Os carros e Iphones que o digam.

(*) Danielle Chevrand é jornalista.

Um comentário em “Compartilhar sem ler – reflexão sobre o jornalismo atual

  1. Acabar não vai acabar, o carro não acabou com o uso do Cavalo, mas diminuiu muito, e pensar que pouco antes do carro havia gente preocupada com o fedor insuportável das ruas por conta da fezes dos animais! os livros não morrem por que a leitura existirá enquanto existir o leitor, o formato do livro mudou, e somente um desatendo ao processo histórico para achar que o formato digital é o derradeiro, há uma coisa de positivo para a sociedade, que é o fim do monopólio da informação outrora detido pelos grandes grupos de comunicação, antigamente uma mente privilegiada e um bom texto davam outros contornos a realidade, hoje em dia um clique, uma foto ou um vídeo de um João ninguém pode destruir qualquer retórica. Sempre haverão mudanças e nem todos os profissionais estão preparados para elas, e não é só por que a maioria é acomodada, mas por que ao longo do tempo a energia necessária para nossa evolução profissional é gasta de maneira as vezes equilibrada e as vezes não, com família, relacionamentos, ócio, diversões, etc. ser jornalista exigirá cada vez mais do profissional, ainda há tempo para as adaptações, cedo ou tarde os grandes anunciantes vão colocar o grosso do dinheiro na internet e ai sim será o apocalipse, por hora um número significativo de pessoas com poder aquisitivo, ainda se mantém fiel ao jornal escrito e a televisão, esse numero é cada vez menor e eu suponho que daqui a alguns anos estaremos falando dos filhos destes que ainda são fieis ao modelo multimídia.

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