Cobrança

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol. (…) Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles. (…) Sou o Cobrador!”.

Trecho do conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca.

Militante anticorrupção ganha pensão vitalícia

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O governador Robinson Faria regulamentou o pagamento das pensões vitalícias pagas aos ex-governadores José Agripino e Lavoisier Maia, equiparando os vencimentos aos dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, que são de R$ 30.471,00. Porém, segundo a assessoria de imprensa do Governo do Estado, como a Constituição Federal determina que proventos de aposentadoria e pensões não podem exceder a remuneração de quem está em atividade no mesmo cargo, os dois ex-chefes do Executivo Estadual terão a mesma remuneração que o governador Robinson Faria, de R$ 21.914,76.

Além da regulamentação, o governador determinou o pagamento retroativo aos dois da diferença entre os salários de governador e desembargador desde 1987. Segundo o Executivo, a publicação foi necessária devido ao extravio do processo que concedeu o benefício aos ex-governadores. Por baixo, só em valores retroativos, Agripino deve embolsar perto de R$ 14 milhões.

Ativo “militante anticorrupção”, líder da bancada conservadora no Congresso e defensor do impeachment da presidente Dilma, Agripino responde a processo no Supremo Tribunal Federal pelo desvio de valor superior a R$ 1 milhão. (Com informações da Tribuna do Norte)

Te dizer…

Sapateado de catita

POR GERSON NOGUEIRA

Ex-companheiro de quarto do Baixinho na Copa do Mundo de 1994, Dunga pegou firme em resposta a Romário, que havia criticado o critério de convocações da Seleção Brasileira. O técnico exige que o senador prove as acusações sobre tráfico de influências em torno da escolha de jogadores. Aproveita para tecer loas ao supervisor de Seleções, Gilmar Rinaldi, dizendo que o conhece há muito tempo, como se isso fosse prova absoluta de lisura.

Em nota, Dunga renega as ligações com Romário. “Amizade pressupõe respeito, lealdade e estrita confiança na integridade de quem (sic) dedicamos aquele sentimento. Por isso, o senador Romário nunca esteve no meu rol de amigos e ele fica na obrigação, sobre o que disse, de apresentar fatos”, afirma, tomando as dores de Gilmar.
A presença de Gilmar no cargo é dessas excrescências próprias da CBF. Depois de encerrar a carreira de jogador, dedicou-se a agenciar atletas. Adriano Imperador foi um de seus mais notórios clientes. Na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, entrevistei Gilmar à beira do campinho de treinos de Köningstein.

Declarou na ocasião que levava fé no sucesso de Adriano naquele mundial, formando com Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Kaká o chamado quarteto mágico do Brasil. Dias depois, a Seleção seria eliminada pela França de Zidane e o centroavante iniciando ali sua derrocada. A atividade de empresariar jogadores representa um flagrante conflito de interesses com a de supervisor da Seleção. Isso deveria ter impedido a indicação de Gilmar para a função.

Grosso modo, é como botar a raposa para vigiar o galinheiro.

O fato é que as convocações se tornaram um prato cheio para especulações e suspeitas. Tudo começou com a dupla Zagallo e Parreira, responsável por lembrar de atletas que ninguém conhecia ou por outros que eram bem conhecidos pelo futebol limitado – casos de Amaral, Viola, Paulo Sérgio e outros.

Desde então, as chamadas de jogadores para o escrete se transformaram em sinônimo de balcão de negócios, envolvendo empresários, agentes de atletas e clubes. Essa promiscuidade tem sido combatida à meia força, com evidente má vontade.

CBF e autoridades não têm interesse em enfrentar a situação, talvez pelo próprio grau de comprometimento. Nenhuma apuração a respeito teve caráter conclusivo. Na prática, persiste blindagem poderosa, que impede avanços e ignora denúncias.

A CPI do Futebol, que Romário ora preside no Senado, tornou-se um palco dos mais privilegiados para que o assunto volte a ser investigado e discutido a sério. O jornalista inglês Andrew Jennings participou de audiência no mês passado, afirmando com todas as letras que o esquema de corrupção que domina a Fifa teve início pelo Brasil.

Não se ouviu qualquer resposta por parte da CBF, diretamente acusada pelo repórter. Ao contrário, o presidente Marco Polo Del Nero faz questão de fingir o tempo todo que não ouve, não lê e não sabe nada sobre os escândalos que levaram à prisão de seu antecessor no cargo, José Maria Marin.

Por enquanto, Romário brada sozinho, bem ao estilo justiceiro que o levou à câmara mais alta do parlamento brasileiro, mas com resultados até aqui muito parecidos às tentativas anteriores de revirar no lixo produzido pelo futebol e seus donos no país.

Dunga se abespinhou com as críticas do ex-parceiro, advogou por Gilmar, mas não abriu mão de nomes controvertidos nas últimas convocações. Por seu turno, o Baixinho até agora fez firulas, mas não invadiu a área dos grandes latifúndios do futebol no Brasil, a começar pela detentora dos direitos de transmissão e dona dos campeonatos. Enquanto não encarar isso de frente, tudo não passará do nosso conhecido sapateado de catita.

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Tio Sam investe para virar potência

Considerado o novo eldorado do futebol, a liga norte-americana (MLS) terá investimento total de US$ 168 milhões. Os 20 clubes torraram essa fortuna contratando 574 atletas nesta temporada. O curioso é que a maioria desses atletas já está remando pra beira, para usar uma expressão do amigo Valmireko.

O brasileiro Kaká lidera o ranking, com US$ 7,16 milhões/ano. O craque italiano Pirlo vem logo abaixo, faturando em torno de US$ 6 milhões.

Os EUA seguem a receita inaugurada nos anos 80 pelos japoneses. A criação da J-League foi a alavanca que faltava para popularizar e rentabilizar o futebol no Japão, com forte importação de atletas veteranos e alguma sucata de países do primeiro mundo da bola.

O Brasil cedeu muitos atletas, contribuindo para a evolução do futebol como negócio no país do sol nascente. Com muito dinheiro e austeridade gerencial, o programa foi bem executado e o Japão começou a revelar seus próprios jogadores. Hoje, merecidamente, ocupa posição honrosa no mapa do futebol.

A ambição americana vai além. O objetivo é ingressar na elite do esporte mais popular do planeta nas próximas décadas.

Alguém duvida de que chegarão lá?

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E se o futebol pudesse imitar o rock?

O futebol, que tem tanto em comum com o rock (alegria, vibração, irreverência, rebeldia), infelizmente não consegue ter a capacidade de se manter eternamente jovem como o gênero que é a trilha sonora de minha geração. Vi ontem o show no Rock in Rio do projeto-curtição de Alice Cooper, Hollywood Vampires, arrebentando em performances caprichadas de grandes clássicos de bandas legendárias.

No time, Joe Perry, Zak Starkey, Duff McKagan e vários outros cobras, além de Johnny Depp, o capitão Sparrow, brincando de guitarrista. Pura diversão, elemento essencial no rock.

Seria mais ou menos como se numa Copa do Mundo um dos times fosse convidado exclusivamente para divertir a massa, mesclando cobras do passado, como Zidane e Platini, e alguns mais recentes, como Henry e Ronaldo. Cabia até incluir ex-jogadores ainda em atividade, como Ronaldinho Gaúcho. A galera ia vibrar com os dribles e lances de efeito, como nas viradas de guitarra de Perry ontem à noite.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 25)