Facilidade e risco

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POR GERSON NOGUEIRA

O jogo Remo x Vilhena, tão aguardado pela torcida azulina, tem toda pinta daquelas cascas de banana tão ao gosto dos caprichos do futebol. Atentem para os sinais. Depois de ameaçar reiteradamente não vir a Belém fazer a última partida da fase de classificação, o time rondoniense chega completamente estropiado para o confronto.

O técnico Marcos Birigui talvez só tenha três atletas para compor o banco de suplentes. Já vimos inúmeras vezes equipes combalidas se transformarem repentinamente em verdadeiras carnes de cabeça aqui dentro. Cacaio que se acautele.

Completamente desinteressado depois de ter sido eliminado da competição na rodada passada, o VEC entrará em campo sem nenhuma pressão sobre os ombros.

Se você não ganhou nada, não tem nada pra perder, diz aquela velha canção do Camisa de Vênus. O conceito se aplica perfeitamente à situação do Vilhena.

O representante rondoniense vem apenas cumprir tabela, mas de repente pode se entusiasmar e criar dificuldades para o mandante. Com estádio cheio e a expectativa de um feliz reencontro da torcida com seu time, o risco de um revertério não pode ser descartado.

Um exemplo bem parecido com o cenário atual se registrou na abertura do Campeonato Paraense desta temporada. O estreante Parauapebas veio cheio de problemas para desafiar o Remo no Mangueirão. Com poucos reservas, o time havia treinado apenas duas vezes, mas conseguiu derrotar os azulinos por 2 a 1. Um resultado inesperado, sem explicações ou justificativas, como toda zebra que se preze.

Da parte do Remo, o time foi montado de maneira a não permitir que o sobrenatural de Almeida entre em campo. Cacaio repete praticamente a mesma equipe que empatou com o Rio Branco. A única mudança é na zaga, onde Igor João deve substituir a Max, suspenso.

O sistema 4-4-2, de inspiração ofensiva, está mantido. O segredo está nas duplas montadas para pressionar o adversário. No meio, Eduardo Ramos e Edcléber. Na frente, Rafael Paty e Léo Paraíba. Não funcionou em Rio Branco, mas pode deslanchar neste domingo, desde que os laterais Levy e Alex Ruan tenham liberdade para avançar.

Ramos, cabeça pensante do esquema, tem o papel crucial de tornar as ações ofensivas mais claras, trabalhando na organização de jogadas e chutando a gol. Bom finalizador, nos últimos jogos permaneceu na intermediária, longe demais da zona de tiro. O time perde força quando isso acontece. (Foto: MÁRIO QUADROS)

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Papão volta com saldo positivo

O bicolor juramentado Pedro Nelito Jr. foi cirúrgico: “Uma odisseia”, disse nas redes sociais, ainda sob a emoção do empate arrancado a fórceps no Durival de Brito na noite fria de sexta-feira. Nelito estava certo. O jogo foi duríssimo para o Papão. Ninguém esperava moleza, é verdade, mas o Paraná foi mais forte do que se imaginava.

Agredindo sempre e concentrando suas ações ofensivas pelo meio, baseado na qualidade de passe de seus armadores e atacantes, o Paraná mandou no primeiro tempo e em boa parte do segundo. Fez um gol, tinha o jogo nas mãos e se mantinha sempre rondando a área do Papão, criando várias oportunidades.

A equipe paraense sofria com atuações fracas de vários jogadores e de uma confusa movimentação entre meio-campo e ataque. Pikachu permanecia atrás, anulado pela marcação adversária, enquanto que os homens de frente raramente tinham chance de finalização. Como ocorreu diante do Santa, o Papão esperava que o adversário cometesse um erro para tentar chegar ao gol.

O problema é que o Paraná custou a cometer esse erro. Na verdade, só facilitou as coisas depois que Dado Cavalcanti resolveu sair pro jogo, ali por volta dos 20 minutos da etapa final. Com Welinton Jr. enfiado entre os atacantes, confundindo a marcação, o Papão se preparou para um bote certeiro.

Ele foi dado aos 32 minutos. Pikachu recuperou bola no campo de defesa do Papão e fez um lançamento de 30 metros para Welinton, no chamado ponto futuro, por trás da linha de zagueiros. O atacante recebeu e tocou na saída do goleiro. Um gol que foi metade de Pikachu, metade de Welinton.

O empate serviu para apagar em parte a má performance ao longo da noite, assegurando a conquista de quatro pontos em dois jogos longe de casa. Foi a sexta partida invicta no returno. O Papão segue como vice. Joga na conta do chá e capricha na objetividade. Cria pouco, mas aproveita todas as chances que surgem. Vai dando certo.

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Bola na Torre

Giuseppe Tommaso comanda a atração, a partir de 00h15 na RBATV. Na bancada, Valmir Rodrigues, Alex Ferreira e este escriba de Baião.

Em pauta, a participação dos clubes paraenses nas competições nacionais e os principais assuntos da semana esportiva.

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Natal com música e futebol

Amigo da coluna, Marcos Maderito, cantor e compositor da Gang do Eletro, avisa que está em campanha de mobilização de músicos e atletas para um grande evento beneficente no próximo Natal. Pikachu é um dos boleiros que aderiu à iniciativa. Outros já estão sendo contatados.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 13)

Domingo de caminhada e coleta de Emaús

Neste domingo, 13, o Movimento de Emaús realizará a Grande Caminhada Juventude Marcada Para Viver, com o objetivo de visibilizar o protagonismo de crianças e adolescentes na defesa de seus direitos e debater com a sociedade a visibilidade da criança e do adolescente nos meios de comunicação. A organização pretende reunir centenas de crianças e adolescentes de diversos bairros da periferia de Belém que atuam em projetos sociais – como o próprio Movimento de Emaús – associações de bairros e entidades do movimento estudantil para mostrar uma face dessa juventude que não tem encontrado espaço nos noticiários, que constrói alternativas de socialização, aprendizagem, trocas culturais e reflexão sobre a realidade, apesar da fragilidade e até da ausência do estado.

A Caminhada faz parte do calendário de atividades da 42ª Grande Coleta de Emaús, atividade anual de coleta de donativos e de debate com a sociedade, que objetiva promover uma sensibilização da sociedade para a necessidade de iniciativas que visem a proteção da criança e do adolescente e cobrem do estado o cumprimento de suas obrigações com este segmento da sociedade. A programação da coleta de terá culminância no dia 27 de outubro, quando dezenas de caminhões e centenas de voluntários a serviço do Movimento de Emaús recolherão doações em diversos bairros de Belém.

Serviço:

Dia: 13 de setembro

Concentração: 8h, no Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN)

Trajeto: Do CAN até a Praça da República

Realização: Movimento de Emaús

Apoio: UNIPOP, JUNTOS, FASE, PJ, PAMEN, ENECOS

Contatos: 98260 1045, Francisco / 99111 2398 – Geogina kalife, coordenadora do Movimento de Emaus

De Masi: “O trabalho é um dever, não é felicidade”

POR MARCOS BEDENDO, no Linkedin

No último dia 18 de agosto tive a oportunidade de ter uma ótima conversa com Domenico De Masi, o sociólogo italiano que tem seu trabalho voltado para as mudanças nas relações sociais de nossa época, a qual ele denomina de “pós-industrialismo”. Domenico de Masi ficou conhecido no Brasil especialmente por seu livro “O ócio criativo”, mas é autor de outros já traduzidos para o português, nos quais retrata a sua perspectiva sobre as mudanças que a sociedade vem passando e as que ainda terá que passar para se adaptar a essa nova era. Alguns deles são: “Desenvolvimento Sem Trabalho”, “A Emoção e a Regra”, “O Futuro do Trabalho” e “O Futuro Chegou”.

Neste papo de pouco mais de uma hora, conversamos sobre o futuro do trabalho, o consumo na era pós-industrial, o Brasil, e as transformações que o mundo passará para se adaptar à esta nova fase na qual a produção cultural será cada vez maior e mais importante do que a produção industrial.

Em 3 diferentes posts aqui no blog, abordarei um pouco da visão de Domenico, agrupada em 3 assuntos que foram temas da nossa conversa: 1) O trabalho no século XXI, 2) o declínio da perspectiva industrial na economia e sociedade, e 3) o consumo e o Brasil na era pós-industrial. Neste primeiro texto irei trazer as opiniões de De Masi sobre a evolução do conceito do trabalho, e do papel que ele imagina que o trabalho ocupará nos próximos anos.

A evolução do conceito de trabalho

Domenico faz um paralelo sobre a nossa relação com o trabalho e com a orientação cristã de alguns países. Segundo ele, existe hoje uma “adoração” pelo trabalho, como se só aqueles que trabalham fossem dignos das recompensas materiais e imateriais. Com isso, o “trabalhar”, mais do que uma obrigação, é algo que é percebido como eticamente e socialmente necessário, ao ponto daquele que “não trabalha”, ou “não produz”, ser subjugado como alguém que não contribui para a sociedade e deve ser discriminado.

Domenico relaciona essa origem ao catolicismo, ao protestantismo e sobretudo ao calvinismo. Mesmo na sociedade pré-industrial já se tinha essa perspectiva dotrabalho como a possibilidade de expurgar o pecado original. E isso passa a criar, mesmo na época rural, a ascensão do conceito do trabalho como algo essencial ao ser humano. Como consequência, o ócio é subjugado apenas àqueles que não tem interesse de serem perdoados do pecado original.

Avançando em sua história, De Masi diz que o capitalismo chega com o protestantismo, principalmente com Calvino, com a teoria que nós somos premiados por Deus não quando morremos, mas sim em vida. E esse prêmio tem sua origem na virtude do trabalho. Se você não for virtuoso na sua profissão, você é um pecador. O trabalho, no capitalismo, passa a ter duas vertentes que o suportam: a religião e o consumo. Além de graça divina, o trabalho dá acesso às benesses do consumo.

Com isso, apesar da origem religiosa, a conexão entre a virtude e o trabalho se suporta pelas relações de consumo que são estabelecidas atualmente, já que aquele que tem trabalho pode ter acesso ao que o capitalismo tem de melhor – o conforto e a diversão proporcionados pelo consumo. É sob este estereótipo do passado que até hoje estamos vivendo.

O papel dos gerentes e dos cursos de gestão

Segundo Domenico, a ideia do trabalho como um privilégio foi impregnada em toda a sociedade, mas ainda de maneira mais intensa nos cursos de gestão, como administração, economia, ou engenharia de produção, ou qualquer um que tem como princípio formar gestores.

Os gestores acabam propagando a cultura do “trabalhar mais é melhor”, e entendem que se há ainda trabalho a ser feito, deve-se continuar trabalhando, estendendo-se a jornada normal. Isso acontece, segundo Domenico, especialmente nos países católicos. Ele diz que um gerente na Alemanha, por exemplo, não tem nenhum problema em sair do trabalho às 5 da tarde. Mas os gerentes de países católicos como os EUA, Brasil, Espanha, Itália, acham que devem ficar até mais tarde, como uma espécie de penitência necessária para aquele que tem o privilégio do trabalho.

Mas em função dos métodos de gestão dominantes no mundo serem americanos, isso também acaba se tornando verdade para países não católicos, como a Coréia, a China e a Índia. De acordo com Domenico, “na Índia e na China o gerente não é indiano, não é chinês, não é brasileiro, ele é americano. Porque o gerente estuda no livro americano, ele estudo na ‘Business School’ americana. Se você vai numa livraria de aeroporto são todos livros para gerentes, e de autores americanos. Os livros dos brasileiros, dos europeus, são todos copiados de livros americanos. E no capitalismo americano o gerente é visto como a igreja católica vê um missionário, um jesuíta”.

A perspectiva de um gerente americano como um missionário é, no mínimo, intrigante. Segundo esta lógica, a expansão pelo mundo das empresas multinacionais fez se espalhar este conceito de trabalho como sendo a única atividade em que o homem é valoroso por realizar, e o trabalho que importa é aquele que leva à produção de produtos. Ou seja, é mais importante aquele que trabalha na fábrica, ou para que a fábrica produza, do que aquele que trabalha em qualquer outro ramo de atividade, como a educação, o entretenimento, ou as artes.

Desta maneira, o trabalho das fábricas, ou para a fábrica, ganhou, historicamente, uma simbologia extremamente positiva e que ainda afeta muito as relações entre os indivíduos, mesmo no século XXI e com a emergência da ideia de “economia criativa”.  Mesmo que haja uma evolução neste sentido, é possível perceber que algumas escolhas profissionais ainda são vistas como menos valiosas do que outras.

Essa perspectiva de trabalho, e a contraposição do conceito de trabalho com o conceito de diversão e ócio, ainda é realidade. Nas palavras de De Masi: “Quando falamos ‘trabalho’, isso está muito relacionado ao trabalho operário. Quando Marx escreve O Capital, Manchester era a cidade mais avançada do mundo e 97% de todos os trabalhadores eram operários. Hoje na Itália são apenas 33% de operários. O restante são analistas, ou gerentes, ou criativos. Mas ainda estamos muito baseados no trabalho operário”. Enquanto os gestores e as escolas de gestão não mudarem esta perspectiva do que de fato é “trabalho”, este conceito que vem dos anos 1930 continuará presente na simbologia da sociedade contemporânea.

O trabalho e a felicidade

O trabalho sempre esteve desassociado da felicidade. Segundo De Masi, “A felicidade começa no trabalho, mas não como felicidade, como dever,que é uma coisa diferente da felicidade. O trabalho é um dever, não é felicidade. A felicidade é o fruto do trabalho. Taylor, Ford, fazem a linha de montagem mas isso não é felicidade, me permite ganhar o dinheiro, que é o fruto do trabalho, que deve me trazer felicidade.”

A perspectiva industrial é que a felicidade era resultado do trabalho, mas diferente dele. Já na sociedade pós-industrial, este tipo de ideia está fadada a mudar, o que seria no entender de De Masi uma “grande mudança”.

A alteração do trabalho industrial para um trabalho pós-industrial, ou criativo, traz a perspectiva conjunta de trabalho e felicidade. “Um mineiro não consegue trabalhar e ao mesmo tempo ser feliz. Se o minerador é feliz trabalhando, ele é um alienado, é um louco”, diz Domenico. No entanto, um criativo pode trabalhar e ser feliz ao mesmo tempo.

Mas e as empresas como Google, Microsoft, ou outras, que colocam no ambiente de trabalho pequenas ilhas de “diversão”, como videogames, pebolim, salas de descompressão, entre outras atividades “divertidas”? É possível ser feliz nessas empresas, enquanto se trabalha?

Domenico é taxativo: “Google, Microsoft, estão no limite extremo da visão do gerente americano. É um infantilismo. Não como um fato adulto, da pessoa que se realiza (ao trabalhar), mas como um bando de crianças, com o seu pebolim. É uma ofensa à inteligência humana. Eles estão no limite da delinquência”.

Segundo De Masi, o comportamento deste tipo de empresa é limítrofe – eles operam sob a lógica do industrialismo, com as pessoas tendo que trabalhar longas horas e produzir muito, mas com a tentativa de incutir nos seus colaboradores uma visão de trabalho criativo do pós-industrialismo e, portanto, de felicidade enquanto se trabalha.

Para Domenico, estas grandes empresas devem sofrer ainda muito no futuro, em especial pela busca por mão de obra especializada e de qualidade para trabalhar dentro delas num mundo cada vez mais pautado no desenvolvimento de novas ideias, da criatividade, da pequena empresa ágil e que pode subjugar as grandes empresas.

De Masi entende que as grandes ideias não são produzidas nas grandes empresas, mas especialmente fora delas, e cita o Facebook como exemplo, que surge dentro da Universidade, e não dentro de uma empresa. Com este tópico, começaremos nosso próximo post, na próxima semana.

Post publicado originalmente no blog “Branding, Consumo e Negócios” da Exame.com: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/branding-consumo-negocios/2015/09/10/domenico-di-masi-fala-sobre-o-trabalho-no-seculo-xxi/

A opinião do jornalista é importante?

POR JOSÉ CARLOS ARAGÃO, no Observatório da Imprensa

Outro dia, numa rede social, alguém postou: “Quando leio um jornal, não quero saber a opinião do jornalista: só quero saber da notícia.” Rebati no ato: “Ao contrário, eu quero, sim, saber a opinião do jornalista!” E de outras pessoas. E a notícia também, por que não?

É que a minha opinião só se forma a partir do fato noticiado e da ponderação de todas as opiniões a respeito dele a que eu tiver acesso. E isso não significa que tenho que concordar necessariamente com a opinião de nenhum jornalista ou de quem quer que emita sua opinião. Como ninguém precisa concordar com o meu ponto de vista. Basta respeitar.

Está na essência da democracia, da tolerância e da convivência a pluralidade de ideias e o respeito à diversidade. Cada cabeça, uma sentença, diz a sabedoria popular. E somos cerca de sete bilhões de cabeças no mundo – 204 milhões delas só no Brasil. Por que deveria achar que a minha opinião é mais importante ou a única correta e que deveria ser seguida por todos?

Muita presunção.

Como é presunçoso e arrogante achar que a opinião alheia também seria irrelevante ou descartável. Como é injusto e antidemocrático vetar ao jornalista o direito de emitir juízo próprio. Como é ingênuo imaginar que toda notícia é isenta de manipulação por quem a publica.

Telefone sem fio

Sim, nenhuma notícia é a total expressão da verdade sobre um fato. Os livros de História estão aí, para comprovar isso. Entre o fato acontecido, o testemunho do fato, seu registro ou relato e sua chegada ao conhecimento do leitor ou espectador final, muita coisa é editada e se transforma, como aquela clássica brincadeira de telefone sem fio. Vamos a exemplos:

– Um repórter de TV grava meia hora de entrevista com uma personalidade qualquer. No telejornal da noite, a entrevista que vai ao ar não dura mais que 15 segundos.

– Um fotógrafo faz mais de 100 fotos durante a cobertura de uma partida de futebol. Na manhã seguinte, o jornal publica uma.

– Um portal de notícias publica em sua capa cerca de 80 chamadas para notícias diversas, de política, esporte, cultura, comportamento, finanças, tecnologia etc. Entre elas, uma chamada com foto dizendo que a pseudocelebridade Tal foi flagrada exibindo seu corpão na praia, no dia anterior.

– O depoimento do ex-ministro sobre a crise econômica – que levou um dia inteiro para ser negociada pela produção do telejornal e incluída em sua apertada agenda – foi resumido a uma única frase, pinçada de meia hora de gravação bruta. Além disso, foi inserido em uma matéria de 48 segundos, na qual o repórter incluiu ainda uma fala do ministro atual, de um economista independente e de uma dona de casa num supermercado.

Para o leitor que buscava apenas saber os detalhes do gol da vitória do seu time no jogo da véspera, o que ele viu, ao abrir o jornal, foi a foto da briga entre torcidas nas arquibancadas do estádio, em que morreu um inocente torcedor atingido na cabeça por um vaso sanitário e que, para o editor de esportes do jornal, foi o fato mais importante da partida.

O corpão exposto da ex-BBB na praia – como se “corpão” não fosse arroz de festa em qualquer praia brasileira – foi considerado pelo editor como algo digno de nota e chamada no portal, ainda que isso não tenha a menor relevância para milhões de leitores que, como eu, não curtem corpões ou celebridades instantâneas. (Mas o editor gosta e sabe que há outros milhões que pensam como ele e irão clicar no link só para ver a peladona famosa.)

O que há em comum em tudo isso? Todas essas informações foram, em alguma medida, editadas – ou manipuladas – antes de serem publicadas, segundo conveniências, gostos e convicções pessoais, limitações de tempo ou espaço e, mesmo, interesses insabidos.

Então – tirando-se a suposta ingenuidade de quem possa julgar que toda notícia publicada é isenta por si própria –, o que move alguém a querer desancar a legítima opinião de um jornalista?

Educação, diversidade e pluralidade de ideias

De uns tempos para cá – mais precisamente com a profusão das redes sociais – muita gente achou confortável e oportuno culpar a chamada “grande mídia” pela mazelas do mundo. Cada um, com seu smartphone e pau de selfie na mão, julgando-se a única e confiável “testemunha ocular da História”, passou a divulgar pela internet a sua “isenta” versão dos acontecimentos.

“Pau que dá em Chico, dá em Francisco”, entretanto.

Nada é isento, nas redes sociais. Se a grande mídia é acusada de conivência com governos (a quem deve impostos), subserviência ao poder econômico (que a patrocina) ou de favorecer este ou aquele partido político (visando a possíveis benesses pós-eleitorais), não se pode acreditar que as mídias chamadas “livres” também não tenham rabo preso, quer seja com ideologias e projetos próprios de poder, ou com grupos econômicos que as financiam subrepticiamente.

Num passado não muito distante, tivemos no país um fenômeno similar, embora guarde muitas diferenças. Na década de 1970, tivemos no país o surgimento de vários jornais independentes, de clara oposição à ditadura em que vivíamos. A maior parte deles era em formato tabloide, o que os destacava dos jornalões tradicionais e que os levou a serem conhecidos como “imprensa nanica”.

Naquele tempo, contudo, mesmo os jornalões, em sua maioria, eram contrários ao governo militar e eram recorrentemente perseguidos pela censura e pela prisão, tortura e morte de seus jornalistas. Havia também pressão e intimidação contra anunciantes, para que não veiculassem publicidade nesses veículos. Os “nanicos”, por seu lado, sobreviviam à custa de exemplares vendidos, não dependiam de anunciantes (não que não o desejassem, claro), ou teriam sido financiados pelo fabuloso “ouro de Moscou”. O fato é que a maioria se autopublicava na marra, sob risco de morte de seus editores e colaboradores, de apreensão de tiragens antes de chegarem às bancas, e de empastelamento de suas gráficas e redações. Tempos de coragem e medo, muito medo.

Mas hoje, a coragem de quem ataca a “grande mídia” reside no território sem lei das redes sociais, em que qualquer um se julga o herói da notícia e o dono da verdade. Abrigados no conforto e segurança do mundo virtual, franco-atiradores miram em quem não compartilha sua opinião e interesses próprios e, nessa batalha insana e míope, elegeram jornais e redes de TV como alvo principal – quando não, sua própria razão de viver.

Ao contrário do que pensam (pensam?), essa demonização da mídia tira o foco dos nossos reais problemas e canaliza para uma questão menor (não desprezível, porém) a energia e os esforços necessários para se mudar verdadeiramente o país. Mudança que só virá com a priorização de uma educação de qualidade, que forme cidadão críticos, tolerantes com a diversidade e pluralidade de ideias, e impossíveis de serem manipulados pela mídia – seja ela de que tamanho for.

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José Carlos Aragão é escritor, dramaturgo e cartunista