Um sopro de renovação no rock dos Titãs

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Por Jamari França

Acabei de ouvir o novo disco dos Titãs no site Tenho Mais Discos Que Amigos. Nheengatu podia ter o subtítulo de Cabeça Dinossauro 2. Uma porrada nos que dizem que os Titãs não estão mais com nada.Política e comportamento nas letras, guitarras esmerilhadas nas bases, vocais virulentos de Sergio Britto e Paulo Miklos. 13 faixas próprias e um cover de Canalha, de Walter Franco, entregue a Branco Mello, que não tem o punch vocal que a música exige. O berro raivoso “Canalha” ficou fraco, Sergio e Miklos deviam ter entrado pelo menos nessa hora.
Disco impecável, arranjos criativos e diferenciados para cada música. Na produção um cara com roquenrol nas veias, Rafael Ramos. Quando postei o release do disco há semanas houve comentários duvidosos sobre o resultado e comentei que bandas veteranas muitas vezes surpreendem com ótimos discos, mesmo que a produção média anterior seja fraca. Sacos Plásticos (2009) descaracterizou a banda pelas mãos de Rick Bonadio. Agora o bicho tá pegando. A banda raivosa que a gente vê ao vivo está inteira no disco.
Fardado fala da violência policial. Mensageiro da Desgraça dá palavra a um morador de rua (“Cansei da fome e do crack, da miséria e da cachaça. Cansei de ser humilhado, sou mensageiro da desgraça”). Cadáver sobre Cadáver dos dilemas da morte (“Morre quem merece e quem não merecia, quem viveu bem e quem sobrevivia, morre de fome, morre de anorexia!”). Quem São Os Animais fala de preconceito (“Te julgam pela cor da pele, pela roupa que veste. Te chamam de viado, te chama de macaco. Quem são os animais?”).
Não pode, com ecos de AA UU fala das proibições do dia a dia com o refrão “se não, não. Se sim, talvez”. Pedofilia dá a fala à vítima (“Ele disse ‘é o nosso segredo, ninguém precisa saber’. Sou nojo de mim”). Senhor, com ecos de Policia (é do mesmo autor, Toni Belotto) é meio uma oração (“Não me livre do medo, me livre da multa. Não me livre do desejo, me livre do medo. Não me livre da mentira, me livre do segredo”).
A Geração 80 deu voz à primeira geração jovem que emergiu da ditadura e respirou a liberdade. Cabeça Dinossauro foi o manifesto daquela Geração, um exame ácido das instituições e costumes do Brasil que ensaiava um renascimento. 28 anos depois, a Geração dos anos 00, já em sua segunda década, tem uma realidade dura pela frente, mas não tem uma voz consciente na música. Está seduzida pela pobreza de Luans e Gustavos, de Jorges e Matheus, de Thiaguinhos e Sorrisos Marotos, de Anitas e Valeskas. O sacode vem dos coroas da Geração 80. Será que vão ouvir ou todos estão surdos?

2 comentários em “Um sopro de renovação no rock dos Titãs

  1. A conclusão é ótima e a pergunta final é mera retórica. Os jovens de hoje vivem plenamente a livre irresponsabilidade, ostentando discurso e comportamento pornográficos, e isso tudo em meio a um verdadeiro frenesi consumista e ignorante. Desses adjetivos, nem tão respeitosos assim, o que mais preocupa é “ignorante”. Desinformação é o que torna o jovem de hoje esse jovem despreparado. Em termos musicais, consumismo e ignorância têm andado juntos, desembocando no conteúdo vazio de músicas descerebradas…

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