Ditadura: coronel conta como se livrava dos corpos

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Por Mário Magalhães

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura (1964-85), o coronel reformado Paulo Malhães afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados. O relato histórico do oficial do Exército foi feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e revelado nesta sexta-feira pelo repórter Chico Otávio.

206730-600x600-1Malhães se referia a presos políticos assassinados na chamada Casa da Morte, um imóvel clandestino na região serrana fluminense onde servidores do Centro de Informações do Exército detinham, torturavam e matavam opositores da ditadura. De acordo com o coronel, os cadáveres eram ensacados junto com pedras. Dedos e dentes eram retirados para impedir a identificação, na eventualidade de os restos mortais serem encontrados. As vísceras, para o corpo não boiar.

Veterano da repressão mais truculenta do passado, Malhães figura em listas de torturadores elaboradas por presos. É ele quem assumiu ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva (post aqui).

Seu testemunho, sem vestígios de arrependimento, contrasta com o de aparente mitômano surgido em anos recentes. Malhães não é um semi-anônimo,mas personagem marcante para seus pares em orgãos repressivos e para presos políticos.

Dois trechos do seu depoimento à comissão, conforme reprodução de “O Globo” (a reportagem pode ser lida na íntegra clicando aqui):

1) “Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

2) “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Com a frieza de quem conta ter ido à padaria, Malhães afirmou, referindo-se ao local onde vive, a Baixada Fluminense: “Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui”.

2 comentários em “Ditadura: coronel conta como se livrava dos corpos

  1. Isso realmente acontece nas ditaduras, veja a cubana por exemplo, não ha como negar nem como “relativizar”.

    Recomendo a leitura do livro Contra Toda a Esperança de Armando Valladares.

    Armando Valladares passou 22 anos nas desumanas prisões políticas de Fidel Castro, unicamente por expressar suas idéias contrárias ao marxismo-leninismo. Preso rebelde, de profundas convicções cristãs e democráticas, negou-se ao planos de “reabilitação” do regime comunista. Isto desencadeou sobre ele represálias brutais, prisão solitária e torturas. Sua família sofreu perseguições. Negaram-lhe alimento durante 46 dias, na tentativa de quebrar sua resistência. Como consequência, teve de permanecer 8 anos em cadeira de rodas.
    A “Anistia Internacional” adotou-o como “prisioneiro de consciência”. Governantes, intelectuais e a imprensa de todo o mundo ocidental exigiram sua libertação. Finalmente, em 1982, o presidente francês, François Mitterrand, conseguiu de Fidel Castro a liberdade do poeta Armando Valladares. Este livro, mais do que uma narração dos infortúnios do corajoso autor, é um relato vibrante, dramaticamente informativo, sobre o “GUlag das Américas”: os cárceres do castrocomunismo em Cuba.

    Em seu livro Contra Toda Esperança, Valladares narra todo o horror das torturas nas masmorras do regime comunista cubano.

    “Eu havia chegado ao cárcere com uma formação religiosa católica. Minhas crenças eram genuínas, mas provavelmente superficiais, pois ainda não haviam sido submetidas a tão dura prova. Em meio a tantos sofrimentos, e quando via serem levados ao “paredón” de fuzilamento tantos de meus companheiros de cárcere, que morriam bradando “Viva Cristo Rei”, compreendi, como numa súbita revelação, que Cristo não era para ser invocado apenas para pedir que não me matassem, mas também para dar à minha vida, e inclusive à minha morte, se isto acontecesse no cárcere, um sentido que as dignificasse”.

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