A um passo da fronteira

Por Gerson Nogueira

Nelson Rodrigues disse que o Fla-Flu surgiu 40 minutos antes do nada. Que diria ele se fosse apresentado à gloriosa teia de conflitos de um Re-Pa? Ele, o maior poeta do imortal clássico carioca, morreu com essa nódoa no currículo de desportista. Não é ninguém, futebolisticamente falando, quem nunca viu um choque-rei da Amazônia. A paixão despudorada de um Estado inteiro, trincado ao meio por dois amores, é a justificativa viva do próprio futebol como esporte e manifestação popular. Nada mais espontâneo, incondicional e puro do que o amor de torcedor. Azulinos e alvicelestes têm o privilégio de exercitar isso sempre, sob as bênçãos dos deuses da bola.

unnamed (3)E é essa centenária rivalidade que entra em campo novamente neste domingo para testar corações e abalar as estruturas deste Pará continental. A ocasião é especial. Pouquíssimas vezes, nas últimas cinco décadas, ambos entraram em campo para um duelo que tem alcance regional e até internacional. Está em disputa a hegemonia da Região Norte. Quem passar adiante, conquista o título não oficial de campeão da Amazônia e se habilita a decidir a Copa Verde. Vamos ser realistas: o vencedor do confronto de hoje fica a um passo do título, pois será favorito ante o adversário brasiliense, ainda não definido,

Tantas coisas importantes em jogo e o engraçado é que o clássico nunca dependeu desses atrativos para galvanizar atenções e arrastar multidões. É claro, porém, que a possibilidade de um título aguça as expectativas, turbina as ambições. Fazia tempo que a torcida paraense não se via tão contrita em torno de uma decisão entre os velhos titãs. Depois de oito longos anos de frustração – de 2006 até 2013 -, sem nenhuma conquista de monta, a dupla Re-Pa tem a chance do renascimento, por vias inesperadas. A criação da Copa Verde reabriu a rota de fronteira, propiciando ao vencedor um lugar na Copa Sul-Americana 2015. Oportunidade de ouro para a ressurreição do Pará como força futebolística regional.
No jogo, a balança pende para o lado bicolor, pela vantagem mínima construída no primeiro embate. Como são equipes de perfil semelhante, tendem a equilibrar as partidas. Com isso, o empate desponta como grande possibilidade de resultado final – o que classifica o Papão. No afã de reverter a diferença caberá ao Remo lançar mão de todas as forças e manhas para vencer o confronto. O projeto não é impossível, mas as circunstâncias desfavorecem o Leão: tem três desfalques (Alex, Fernandes e Val Barreto) que podem comprometer a estratégia de buscar o gol a qualquer preço.
Outro ponto a complicar os planos azulinos é a crônica ausência de força coletiva. O Remo por vezes lembra um grupo de peladeiros, sem força ou direção. Não há jogo organizado, nem tramas urdidas para compensar essa deficiência. A situação se torna mais exasperante pois, do outro lado, o Paissandu ostenta como principal virtude justamente a força do entrosamento. É um time que traduz as ideias de seu comandante, Mazola Junior. Joga fechado, defende-se muito e sai com rapidez. Não cria tantas oportunidades reais de gol, mas é extremamente objetivo quando elas aparecem.
O clássico servirá, como sempre, para desnudar esses vícios e méritos. Vencerá quem melhor conviver com seus anjos e demônios internos.
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Campeões brasileiros destoam na Libertadores
A primeira fase da Taça Libertadores está revelando uma irônica realidade, inimaginável há quatro meses. Cruzeiro, campeão brasileiro, e Flamengo, campeão da Copa do Brasil, em tese os dois melhores representantes brasileiros na competição, estão sob risco sério de eliminação. Erros táticos pontuais em jogos caseiros, agravados pela vertical queda de rendimento de jogadores importantes nas duas equipes. O certo é que, mais cedo do que se podia supor, as torcidas que mais festejaram no ano passado estão abandonando a lua-de-mel com seus times.
Coisas do Brasil.
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Bola na Torre
Com Giuseppe Tommaso e Valmir Rodrigues, mais um convidado especial, estarei logo mais na RBATV debatendo todos os detalhes do clássico no Bola na Torre. Começa por volta de 00h15, depois do Pânico na Band.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 23)

 

Azulinos homenageiam atletas no treino

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Os jogadores do Remo se movimentaram na manhã deste sábado no estádio Evandro Almeida, como preparativo final para o clássico diante do Paissandu, domingo, no Mangueirão. O ex-jogador Gian comandou a prática. O técnico Agnaldo de Jesus, beneficiado por efeito suspensivo, teve sua presença confirmada no comando da equipe durante o jogo deste domingo. Depois do treinamento, os jogadores foram homenageados em campo por esposas e filhos. Os que não têm família em Belém foram homenageados por filhos de torcedores presentes ao Baenão. No final, uma oração foi feita no centro do gramado, com todos de mãos dadas.

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