Boca na botija

Por Renato Maurício Prado

O esquema é velho mas continua a ser usado por Confederações, Federações, Comitês, clubes etc. Consegue-se um patrocínio através de negociação direta entre contratante e contratado mas, na hora de assinar o compromisso, surge “do nada”, uma agência de publicidade (muitas vezes recém-criada), um empresário, um agente, em suma, um atravessador. Não passa, na verdade, de um laranja — em muitos casos das duas partes. Aquele que vai fazer a divisão da grana da “comissão” que será desviada para o bolso dos corruptos.
O grande mérito da reportagem de Lúcio de Castro (e põe merecimento nisso!) foi conseguir revelar e (o mais importante) comprovar uma dessas maracutaias, que vêm enriquecendo nababescamente vários dos dirigentes que estão há décadas no comando do nosso esporte, se perpetuando nos chamados “cargos de sacrifício” — aqueles nos quais, teoricamente, nada ou muito pouco recebem.
Quem milita no esporte, sabe muito bem que o “Dossiê do Vôlei Brasileiro”, como vem sendo chamado o espetacular furo do jornalista da ESPN Brasil, é apenas a ponta do iceberg. E se até naquela que sempre foi vista como a mais eficiente e bem sucedida das nossas confederações de esportes olímpicos acontece isso, imagine nas outras…
No caso em questão, entre outras maracutaias menores, Lúcio mostrou que dois contratos negociados diretamente pela CBV e o Banco do Brasil acabaram pagando comissões, de R$ 10 milhões cada (!!!), a empresas pertencentes a pessoas diretamente ligadas a Ary Graça, atual presidente da Federação Internacional de Vôlei e à época dirigente máximo da CBV. Uma delas, do ex-jogador de vôlei Marcos Pina, superintendente do órgão nacional durante anos; a outra, de Fábio André Dias Azevedo, diretor geral da FIV, agora dirigida por Graça.
Um escárnio que provocou revolta até dentro da Confederação, onde jogadores, técnicos e funcionários se sentiram, com razão, roubados. “Tem gente ficando rica às custas dos nossos joelhos, ombros e tornozelos”, disparou, por exemplo, em seu twitter, o atacante Murilo, um dos principais craques da seleção atual.
Num país sério, o patrocínio do BB seria imediatamente suspenso e os dirigentes envolvidos afastados, julgados e condenados. Tamanho escândalo deveria, ainda, ser o ponto de partida de vasta investigação de todas as negociações envolvendo o dinheiro público com entidades do gênero, inclusive o Comitê Olímpico Brasileiro e os clubes de futebol.
E não se surpreendam se começarem a aparecer na lista dos beneficiados empresas de “coleguinhas” que até bem pouco tempo exerciam altos cargos na mídia e sempre mantiveram íntimas ligações com os dirigentes do nosso esporte olímpico.
Parabéns, Lúcio! Isso é jornalismo esportivo e não “entretenimento”, como, infelizmente, acabam fazendo muitos companheiros da imprensa…

O verdadeiro motivo

Aqueles que acham que foi a Lei Pelé que provocou a disseminação dos empresários no futebol estão enganados. Foi a oportunidade que estes criaram para viabilizar o “por fora” que fez com que se multiplicassem e prosperassem. Certa vez, um ex-jornalista que virou agente me disse, sem pudor:

– Quando quero vender algum jogador, a primeira coisa que faço no clube é chegar no cara que leva grana. A partir daí, é moleza.
Sorrindo, me contou até um divertido caso:
— Pedi R$ 1 milhão de comissão e o sujeito fez cara feia! Pensei, melou. Aí, ele se virou pra mim, sério, e disse: vamos botar 2 milhões pra você. Mas metade desta grana é minha…

4 comentários em “Boca na botija

  1. Aí me lembrei que Remo e Paysandu estão com folhas salariais que já ultrapassam 500 reais cada, com atletas que claramente não merecem o salário que recebem.

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  2. É, por essas e outras é que pessoas que entedem que isso acontece faz tempo se recusam a pagar os altos preços de ingressos nos estádios. Uma pena, pois os clubes só se ferram e os dirigentes só enriquecem. Amo esporte, mas a continuidade dessa roda viva só tende a desacreditar algo que seria uma excelente oportunidade para tirarmos jovens do tráfico e outras mazelas!!

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