MMA e BBB: tudo a ver

Por Odair Borges (*)

MMA, UFC, PRIDE e outras siglas são sinônimos de briga de rua travestida de luta. Nos primórdios do Japão feudal, os vários estilos de lutas eram praticados com objetivo de defesa pessoal de importância vital para o guerreiro Samurai, onde os conceitos de honra, coragem, disciplina e respeito eram a essência na formação integral do homem. Não é essa a mensagem que atualmente vem sendo disseminada pelos lutadores, instrutores e patrocinadores do MMA, que sem formação e informação acadêmica, pegam carona na bandeira da moda, o que lhes proporciona a evidente exposição midiática, e sem duvida, a pecúnia vindoura.

No Brasil, o esperto cérebro do UFC encontrou clima propício e o espaço estratégico como um grande esquema para disseminar a modalidade onde é notória, em entrevistas tanto de lutadores como entrevistadores, comentaristas e cronistas a ignorância sobre o tema lutas. Em simples análise técnica, a luta de MMA resume-se na sua maior parte em socos sem conhecimento de boxe. Como disse nosso grande campeão Eder Jofre “se fossem lutar na regra do boxe não aguentariam um minuto”.

Na luta no solo, alguns praticam Ju Jutsu (JiuJitsu Brasileiro), mas a fragilidade técnica não permite finalizações nas oportunidades. Desse modo, preferem com força canhestra, socar o adversário, extravasando a própria estupidez. Há pouco tempo, quando de transmissão direta pela TV, torcedores de uma equipe de futebol, após assistirem em sua sede as lutas de MMA, saíram às ruas e mataram a socos e pontapés outro torcedor de equipe rival de futebol, levados que foram pela violenta emoção. É a união perfeita: torcidas de futebol e os fanáticos adeptos do MMA.

Poucos dias antes do inicio do último circo do MMA no Rio de Janeiro, durante entrevista coletiva, torcedores em manifestação grotesca e aos gritos de “Vai morrer! Vai morrer! Vai morrer!”, impediram o lutador americano Chad Mendes, desafiante do brasileiro José Aldo, de ouvir as perguntas dos jornalistas credenciados. Observando lutas anteriores de MMA, já vimos “nossos famosos” e também estrangeiros que, de forma rixenta e arrogante, desrespeitam adversários. É o retorno aos combates sangrentos da antiga Roma, demonstrando a supremacia da nova afirmação da fera sobre o homem, levando jovens praticantes a serem adestrados para demonstrações narcisistas em busca de afirmação, através da agressão física.

Estão na mídia as agressões a professores, invasão de universidades, alunos armados e brigas de torcidas. São jovens perdendo suas referências e seus ideais, deixando-se levar por supostos prazeres, poderes e exibições. A mídia por sua vez, apresenta o programa de lutas ou o “Panis et Circensis”, da época dos pervertidos Calígula (12-41 AD) e Cômodus (161-192 AD), como sendo a mais pura e moderna atração contemporânea. Ao mesmo tempo, o grande público vê nesse teatro de violência a oportunidade para exteriorizar uma perigosa agressividade que transcende o evento esportivo e que muitas vezes sem motivo aparente é transferida para a convivência social.

Podemos até pensar numa mostra de indignação dos que assistem, influenciados que estão, pela destruição de valores que temos presenciado em nosso meio político e social, que nos leva a pensar sobre o que é certo ou errado no comportamento das pessoas. Em análise acadêmica, fundamentada em pesquisa cientifica, de acordo com a teoria de aprendizagem social, (Bandura e Walters, 1963) reforçam o conceito de agressão imitativa por meio do qual, crianças expostas a uma atividade agressiva de adultos, imitam esse comportamento, especialmente quando o modelo adulto é observado sendo bem sucedido e recompensado. Segundo (Elias e Dunning, 1986) os benefícios econômicos e o prestígio fazem com que se deixe de lado a rivalidade amistosa convertendo-a em rivalidade hostil.

É bem estabelecido na literatura que o reforço influencia fortemente o comportamento futuro. Para (Skinner,1953), atos de violência emanam de uma variedade de fontes que podem ser:

a) O grupo de referência imediato do atleta: professores, treinadores, companheiros de equipe, amigos e família.

b)  A estrutura do esporte principalmente no que diz respeito: ao ambiente de aprendizado e prática, às organizações esportivas, patrocinadores, empresários esportivos, cujo objetivo é apenas o lucro financeiro sem a preocupação educacional.

c) Atitude e fanatismo de fãs e torcedores, a mídia na procura de audiência e a sociedade em geral.

A agressividade como um estereótipo masculino desejável é talvez uma causa arraigada e significativa do reforço positivo que os atletas masculinos recebem para agirem agressivamente. Quanto a isso os pais têm um importante papel na orientação de valores apropriados no comportamento social de seus filhos. Assumindo-se que o instinto para o comportamento agressivo do indivíduo é uma constante, cabe portanto ao educador, quando utilizar das lutas como conteúdo programático, explorar os aspectos educativo, filosófico e social, de suma importância no ensino de qualquer modalidade de luta. (Artigo publicado no jornal Correio Popular, de Campinas-SP).

(*) Mestre em Educação Física pela Universidade de São Paulo. Professor da USP-PUC Campinas. 7º Dan em Judô. 7º Dan em Jiu Jitsu. 4º Grau em Jiu Jitsu Brasileiro. Membro das Comissões de Graduação da Federação Paulista de Judô e da Confederação Brasileira de Judô.

11 comentários em “MMA e BBB: tudo a ver

  1. Concordo, essas lutas são demonstração cabal de pura brutalidade. Os lutadores até tentam demonstrar que é algo técnico e virtuoso, mas não passa de violência bruta. Há poucos dias noticiaram que um lutador faleceu depois de tomar uma sequencia brutal de socos no rosto.

    Mas também é um reflexo dos tempos em que vivemos onde há pouca compreensão do próximo, e a exposição gratuita de sanguinárias “lutas”.

    Preferia o boxe, isso sim, fina arte…

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  2. Torno a repetir, mais antes ter lutas, campeonatos de MMA, doque haver mortes nas grandes cidades, provenientes do mundo das drogas, ou então mortes envolvendo torcidas organizadas. Pelo menos nos ringues, arenas ou octagon, existem regras e entram apenas pessoas (lutadores) capacitados e bem preparados para este tipo de atividade.
    Enquanto politicos ao inves de se preocupar com este “esporte” afim de acaba-lo, deveriam discutir medidas para acabar com a fome, analfabetismo, procurar melhorias para saúde da população, agora quem não politico e quem e contra, só posso dizer – lamento profundamente, se nem JESUS CRISTO conseguio agradar a todos, que dirá um “esporte” como MMA.

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  3. sou praticante de MMA, sou vice presidente de uma torcida organizada e sou um educador! tenho tres filhos de 12, 07 e 02 anos! q me acompanham em todas as minhas atividades! nunca utilizei fora do tatame meus conhecimentos! e tive oportunidade de usar, nao é covardia, é disciplina! q utilizo em casa, no trabalho e na minha torcida! dizer q MMA estimula a violencia é dizer q nas organizadas so existem vagabundos, q na politica todo mundo é corrupto, q na imprensa so existe sensacionalista e por ai vai! vamos para de ser superficiais!

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  4. Tai, mais um adepto as artes marcias, assim como eu! Caro Flavio, tambéms tenho lá os meus conhecimentos de luta, mas apenas aprendi para auto defesa e manutenção da parte física, hoje eu não pratico mais nenhum esporte devido a uma lesão no tornozelo e estou impossibilitado para tal.

    Sou faxa marron de caratê, faixa roxa de jiu-jitsu, faixa azul de judô, cordel verde e amarelo de capoeira, nem conhecendo todos estes estilos de luta, nunca precisei utiliza-las ate hoje, sempre tive auto controle e disciplina. Outra coisa – jamais entraria em disputas como MMA, acho que apezar do conhecimento que possuo, não faz meu estilo lutar, apenas gosto de apreciar.

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  5. Assisti a trechos do referido programa por pura curiosidade. Mas, às sequências de cotoveladas “técnicas” que sucediam-se umas às outras nos embates entre os contendores, pensei: isso é esporte mesmo?

    Nossa sociedade, que não tolera as rinhas de animais; que se escandaliza ao ver nas telas de tv as agressões a mulheres, crianças, negros e homossexuais; que condena a violência do crime organizado, do tráfico de drogas, das torcidas uniformizadas e das forças policiais; que se indigna com a corrupção institucionalizada –
    mesmo que momentaneamente -, vetora de muitos processos de fomento à violência, seja ela simbólica, política, social ou cultural; que teme a violência nas malhas e espaços urbanos e reprova a violência que grassa no campo… tudo, na verdade demonstra ser hipocrisia. É um mise-en-scène necessário ao acochamento do politicamente correto, que não toleramos a bem da verdade, para o bem ou para o mal.
    “Somos um povo pacífico”. Esse mantra, divulgado, saudado e repetido de forma “gilbertofreyreana” na verdade é uma das maiores bazófias, uma frase de efeito com contornos de auto-promoção ou marketing pré-fabricado cuja única finalidade é esconder nossa passividade. Passividade essa que pode derivar de dois especulações: ou somos, de fato apáticos, ou temos um gosto ou predileção peculiar por arquétipos e modelos autoritários, patriarcais, machistas, viris e violentos. Legitimamos uma ditadura que bateu a torto e a direito, mas, como a projeção de um pai que, por sê-lo, reprendia com palmadas (ou pancadas) a um filho, em nome da ordem no lar, ficou por 21 anos encastelada. Desde que possamos nos regozijar ou tirar proveitos de certas contingências, o recurso a violência é validado. O contrário se aplica na invalidação do recurso. Repudiamos a violência de marginais e seus asseclas contra o tecido social, mas nos regozijamos quando
    os anticorpos (a polícia) entra em ação e com um maior grau de brutalidade, socializa a pancadaria nos meios marginais. Por seu turno, acusamos de serem fascistas os excesssos policiais no contigenciamento das manifestações dos movimentos de classe ou de trabalhadores.
    O MMA, na tv ou nas ruas de movimento diário, é apenas mais uma pequena amostra do quão hipócrita, contraditória e utilitarista é nossa sociedade. Seu status deriva de sua condição mediante nossas perspectivas sobre o sangue que jorra, pois há sangues mais vermelhos que outros. Se é “entretenimento”, então que seja menos vermelho… e que façamos de conta ser um catchup de proporções cenográficas. Mas pra mim, é sangue(nário) mesmo.

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  6. em todos os segmentos da sociedade existem gente inescrupulosas, sem carater, pessoas ruins mesmo! nos nossos trabalhos, na igreja, na politica, no esporte ate na casa da gente e etc. respeito todas as formas de pensamento e manifestaçoes a respeito de qualquer assunto! so nao se pode apontar para uma determinada situaçao e dizer q a mesma é responsavel pela dissiminaçao da violencia! concordo com o andre! digo existem tantas outras formas de violencia por ai, violencia contra saude, contra a educaçao contra a cidadania, no transito e por ai vai! tenho 31 anos e pratico artes marciais desde os 11 anos! e mma bem antes de existir tal sigla, pois misturava meus conhecimentos em luta marajoara com o boxe e por ultimo muay thai. nunca competi, e nem pretendo, apenas sempre achei artes marcias importantes pro corpo e pra mente! so lembrem-se d uma coisa, toda arte marcial tem contato fisico e por consequencia podera vir ou nao sangue! quem nao gosta, muda de canal creio q é o melhor q se pode fazer! mas pregar a proibiçao!? ai ja é censurar, ne?

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  7. E por isso que aqui nos EUA, so passa em canal fechado ou ppv, a policia e rigorosa quanto ao MMA, criancas por exemplo jamais entram para assistir essa pancadaria, ai no Brasil infelizmente isso e possivel e ainda com os responsaveis, que para eu e um absurdo.

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  8. Dizem os aficionados que o Box por ser “nobre” não é marcial. Gosto do Box desde que não haja massacre. Há que se diferenciar
    entre Jogar o Boxe e o Lutar com Luvas.

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  9. Texto muito bem composto pelo qualificado mestre da PUC/USP.

    Contudo, nada obstante o respaldo dos mestres (Skiner e cia) acho que o texto abriga alguns excessos. Afinal, a recente prática de transmitir os eventos de MMA pela televisão em cadeia nacional não está na origem da violência, que já não é de hoje, experimentamos cotidianamente.

    Admitir que está, seria admitir outro excesso, o de que as próprias artes marciais seriam a causa da violência. Afinal, a prática das mesmas já é secular no Brasil e muito da violência aqui tratada, desde sempre, e muitos anos antes do MMA, e da sua transmissão pela TV, é produzida por grupos de praticantes das artes marciais, inclusive os da da tal “arte suave”, que costumam barbarizar os leigos nas festas e demais eventos que reúnem muita gente.

    Mas, obviamente não são as artes marciais ou as academias as responsáveis por esta violência. Aqui mesmo em Belém, quem não se lembra da chamada “Turma da Bailique”, que há um bom tempo atrás, era temidíssima pela violência que praticava, cujos integrantes eram todos praticantes de artes marciais.

    A violência urbana tem outra origem e outros fatores de acirramento, os quais sem sombra de dúvida, não estão vinculados à violência inerente ao esporte. Com efeito, não será o desaparecimento da violenta modalidade ou a suspensão da transmissão dos eventos que vai fazer desaparecer ou diminuir a violência urbana.

    Quanto às mortes ou lesões decorrentes da prática do MMA, elas estão na esfera de livre disposição e consentimento dos praticantes. A Constituição garante isso. E quando ocorram fora dos limites das regras, existem os meios de buscar a reparação. Valendo dizer que a taxa de sinistros na modalidade é baixa levando em conta a violência que lhe é própria, estando na média quando comparada a outros esportes menos violentos, como futebol por exemplo.

    Eu gosto muito de assistir os eventos. Mas, compreendo perfeitamente e respeito a opinião daqueles que pensam diferente. Talvez uma melhor regulamentação quanto às transmissões, nomeadamente quanto ao horário, ajudasse a conciliar as opiniões conflitantes, atendendo a todas. Quanto às crianças são os pais e responsáveis que devem cuidar de selecionar o que é melhor para seus pupilos e fazer cumprir a seleção.

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