Na capital mais anti-Copa do país

Por Gerson Nogueira
A quatro dias da abertura da Copa, São Paulo viveu ontem um dia turbulento, com a gigantesca cidade mergulhada no caos provocado por protestos e a greve dos trabalhadores do metrô. Ao mesmo tempo, a madrugada nos bairros periféricos foi carregada de tensão pela prática de incendiar ônibus. Por mais que se procure entender a urgência de algumas reivindicações, fica claro que a Copa do Mundo se transformou em muleta para muita gente. Há quem pretenda resolver questões salariais, há quem busque dividendos políticos com o desgaste do governo federal e há simplesmente quem aproveita para surfar na onda.
Por essas e outras, não podia ter sido mais infeliz a escolha de São Paulo para sediar a abertura daquela que o mundo espera que venha a ser a Copa das Copas. É verdade que outras capitais também enfrentam manifestações. Mas na capital econômica do país tudo se torna grandioso, para o bem ou para o mal. Qualquer tumulto adquire proporções tsunâmicas, com repercussão correspondente. Além disso, é aqui que se concentra a maior população de viés claramente oposicionista no país, o que ajuda a entender a virulência dos tumultos e a agenda de greves que vem sendo cumprida nas últimas semanas.
unnamed (52)
Na fila para o credenciamento, no finalzinho da tarde, depois de um dia em que o transporte público praticamente não existiu na cidade, jornalistas uruguaios, franceses e indianos – dos quase 8 mil que já se encontram no Brasil – se preparavam para a cobertura dos protestos, excitados com a pauta extra-futebol. A fotógrafa francesa admitia que estava se credenciando, mas que o seu interesse estava centrado nas escaramuças de rua. E que ninguém reclame dessas intenções, pois jornalismo é isso. Privilegia-se os fatos, doa a quem doer. E os fatos conspiram contra um torneio que deveria ser o melhor dos últimos 45 anos, talvez no mesmo nível da inesquecível Copa de 70, no México.
Há quatro dias, em Lisboa, em evento promovido pelo setor turístico, fui seguidamente perguntado sobre o mundial. A maioria dos operadores estava impressionada com as notícias oriundas do Brasil. E, com boa dose de lógica, mostravam-se surpresos com a efervescência política, levando em conta os índices econômicos ostentados pelo país. Soa estranho a quem não é familiarizado com as tradições brasileiras. Nós, jornalistas presentes, tivemos que fazer um longo preâmbulo para tentar contextualizar os atuais problemas, quase nenhum deles diretamente relacionados com o presente.
Dentre as mazelas atuais, obviamente, pontificam os atrasos na entrega das obras da Copa, produto óbvio da velha mania nacional de complicar para obter lucros. Até o começo da noite de ontem, operários se empenhavam em concluir passarelas e calçamentos no entorno do Itaquerão, palco da abertura oficial do torneio na próxima quinta-feira.
Nas áreas internas, muita correria e confusão quanto a locais de atendimento, situações não muito diferentes do que testemunhei há quatro anos na África do Sul. Lá, com mais gravidade, principalmente quanto ao acabamento de prédios administrativos ao lado dos grandes estádios. Ao lado do Soccer City, por exemplo, onde começou e se encerrou a Copa, a Fifa viu-se obrigada a erguer enormes tendas para recepcionar os jornalistas.
Lá, porém, os imensos problemas relacionados com a má aplicação das verbas e o atraso nas obras não explodiu em descontentamento – sincero ou forçado – nas ruas. Talvez pela singela razão de que na África não havia uma eleição presidencial a balizar as emoções e interesses. 

————————————————————
Verde-amarelo quase invisível
Ao contrário de outras cidades, São Paulo tem pouquíssimos lugares engalanados para a Copa do Mundo. O verde-amarelo, que andou tímido em Belém até há algumas semanas, aqui continua invisível. Um ou outro camelô arrisca oferecer alguns produtos relacionados com a Copa. Nos shoppings, somente as lojas de material esportivo exibem as camisas das seleções, mas chama atenção a ausência de destaque para o uniforme canarinho. Em outros tempos, ruas estariam inteiramente decoradas e vitrines já se vestiriam das cores varonis desde o final de maio.
O próprio tratamento frio dado à chegada da delegação brasileira em várias capitais traduz um pouco desse desinteresse pelo escrete. O lado saudável disso é que a frieza impõe pressão aos jogadores e atiça a vontade de vencer. Sempre foi assim.
————————————————————
O trio de ouro da Croácia 
A Croácia, vítima da Seleção Brasileira na abertura da Copa de 2006, surge modificada e fortalecida oito anos depois. Reconhecida pela qualidade de seus meio-campistas, a seleção famosa pela camisa tipo toalha de mesa parece disposta a cumprir a velha tradição de tropeços dos donos da casa em aberturas de mundiais.
Rakitic, Modric e Kovacic, jogadores de boa técnica e muita resistência física, formam a meia-cancha e constituem o motor da equipe croata. Deles dependerá a sorte da seleção na Copa. Não chegam a ser futebolistas geniais, mas têm grande entrosamento e adoram o futebol de passes rápidos e curtos.
Sob o comando de Niko Kovac, o trio esbanja criatividade e intensidade. De maneira geral, as dificuldades que o Brasil sentiu diante da Sérvia, mesmo sendo um jogo amistoso, dão bem a medida do que poderá ser a batalha de estreia. Sérvios e croatas têm estilos parecidíssimos de jogar.
———————————————————–
Neymar e o fantasma das lesões
O susto com a queda de Neymar no treino de segunda-feira, na granja Comary, reacendeu o medo que ronda a Seleção nos dias que antecedem a estreia. Exemplos como o de Rogério, Romário, Emerson e Edmílson são sempre evocados nesses momentos. Ocorre que, ao contrário de todos os citados, Neymar vive o começo da carreira, não sofreu até hoje lesões mais sérias e é um atleta de rápida recuperação. São qualidades que, se não o tornam imune a acidentes de percurso, permitem acreditar que conseguirá disputar a primeira Copa de sua vida no auge da forma atlética.


(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 10)

24 comentários em “Na capital mais anti-Copa do país

  1. kkkkk fico só imaginando aqui o eforço do Gerson pra explicar pros tugas que os protestos são coisas da oposição e que a Dilma vem transformando o país numa Escandinávia!

    Protestos à parte, bagunça na organização, superfaturamento à parte, obras atrasadas e inacabadas à parte, quando a bola rolar tudo é varrido pra debaixo do tapete e vamos juntos torcer para Neymar não se machucar, o único jogador diferenciado que temos. Temos que mostrar que aqui dentro quem manda somos nós!

    Curtir

  2. E vejo agora nas redes sociais um jornalista paraense postando que o esquecido centenário do clássico mais editado do Planeta vai ser em 14 jun. 2014. É, meu caro F. da Costa e todos os outros jornalistas e historiadores, vocês estão enganados: não é hoje, 10jun., que Remo e Paysandú fazem 100 anos de rivalidade.

    Mas o que interessa isso?

    Curtir

  3. Mas, Valentim, o povo vai torcer pelo Brasil, sem dúvida.

    E quanto a estas manifestações, estas greves e o vandalismo é preciso estar atento que elas são patrocinadas por grupos que o próprio governo prestigia noutros momentos.

    O restante da população apenas não aceitou ser manipulada pela propaganda governista para fingir que tá tudo bem no país, como fingem os números oficiais de desemprego, de inflação, de violência, de investimento na saúde etc.

    A população vai torcer porque o futebol e a paixão pelo futebol no Brasil é uma das poucas coisas que o pt ainda não conseguiu se apropriar como uma invenção do partido.

    E não se preocupe que é capaz da própria população comum ajudar a polícia a colocar para correr estes baderneiros oportunistas que se dizem amigos do governo mas não perdem uma chance de achacá-lo nos momentos de grande visibilidade como este, prejudicando todo o mundo.

    Curtir

  4. – Concordo também. Mesmo com as ruas de muitas cidades não estando tão enfeitadas como em outros mundias, a torcida vai ser a mesma. Concordo também com o seu Valentim. Já assisti muitas reportagens em que na Argentina e no Uruguai as pessoas são bem mais apaixonadas por futebol do que aqui.
    – Por estarmos em ano de eleição, esse período vai ser apenas um ensaio do que vai ser a disputa entre a oposição coxinha e a situação pastel de vento de feira em outubro.

    Curtir

  5. É compreensível todo este cenário de copa no Brasil pois, a grande maioria da população brasileira, se sente enganada por estes governantes que estão à frente de toda essa canalhice. Um fenômeno que ao longo da minha vida acopanhando a seleção em copas do mundo, nunca tinha visto o fato do torcedor estar indiferente em relação a torcer pela seleção brasileira, eu mesmo não me sinto no clima da copa.
    Há sete anos atrás, só em pensar no que achava que iria acontecer muitas mudanças em relação a melhorias às cidades, já valeria essa copa, coisa que não aconteceu.
    A reportagem fala em oportunísmo das manifestações, acho que a candidatura do Brasil para sediar essa competição, já foi um oportunísmo político do PT, Lula era o mais iteressado nisso. Não concordo com o oportunísmo das atuais manifestações, porque roupa suja, lava-se dentro de casa e não neste momento em que o mundo todo se volta para a coberura da copa, a resposta tem que ser dada nas próximas eleições. Pena que brasileiro tem memória curta, quiçá daqui a um mes pós copa, todos lembrem dos fatos pré copa e no que aconteceu e se vale a pena apostar mais quatro anos de safadeza. Pode-se dizer que todos(politicos) fazem a mesma coisa, é verdade, mas a alternância no poder é salutar à democracia, porque o poder vicia, está mais que provado, quem diria que o PT derrapasse naquilo que mais pregrou a vida toda, a ética e a roubalheira.

    Curtir

  6. Fico triste com essa situação como foi exposta pelo amigo Gerson na sua coluna, com relação ao pouco interesse da população pela copa que está chegando. Na rua onde resido no conjunto Santos Dumont, tradicionalmente faziamos coleta para enfeitar a rua de verde e amarela, infelizmente este ano sequer fomos procurados pra fazer a tal coleta. Cheguei atá a pergutar ao vizinho que recolhia a grana, por que este ano não teve coleta, ele disse que ninguem se interessou e ficou por isso mesmo. A rua não terá a mesma alegria das copas anteriores, infelizmente. A questão politica está arrefecendo os animos dos torcedores brasileiros. Quando falo questão política cito todos os lados e ideais, hoje mesmo vi um canditado se vangloriando porque trouxe à copa do mundo pra Manaus, dando claras intenções de uso político da copa para angariar votos. Da minha parte vou agir como sempre, torcendo pelo meu Brasil esquecendo dos interesses por de trás de tudo isso. Sou apaixonado por futebol e não seria neste momento, apesar de tudo, que vou agir de outra forma. Que às coisas não estão como esra antes, não tenho dúvidas. Agora é torcer para que a seleção canarinha comece bem e consiga atrair o torcedor e com isso a alegria das rua voltem como dantes. Assim espero.

    Curtir

  7. No link abaixo, vejam um pequeno trecho de uma longa exposição dos motivos que levam a este estado de coisas referidas na Coluna vindo de um jornalista que muita vez é citado aqui no blog como referência. Interessante verificar que tudo o que ele diz aí com a experiência de muitas copas não é nenhuma novidade aqui no blog onde muitos comentaristas vem discutindo e apontando os mesmos aspectos que ele aponta. Vale a pena assistir:

    https://www.youtube.com/watch?v=swh3QM0t4es

    Curtir

  8. É verdade. Muita bobagem vem sendo dita em nome de um difuso direito de tripudiar sobre o governo, apenas porque o PT é um partido originário da revolta popular contra uma ditadura que se instalou com apoio estrangeiro e ‘purificado’ por gangues midiáticas aliadas daquela truculência.
    Paciência. Besteirol à parte, o povo começa a se dar conta que o momento é de celebração. Oito mil pessoas no treino da França, em Ribeirão Preto; cerca de três mil no da Espanha, em um estadinho que mal cabiam duas mil apertadinhas; jogadores alemães tentando entoar o hino do ‘Baêa’ abraçados a torcedores contrastam com a viralatice artificialmente inoculada na opinião publicada a respeito de sandices que não se sustentam, pois, a realidade é que, como disseram a você, Gerson, alguns jornalistas estrangeiros, a viralatice e o PIG estão anos-luz distantes da realidade ora vivida pelo país. Ainda bem.

    Curtir

  9. Agora,somente irei torcer pelo Brasil,pura e simplesmente pelo fato de o futebol ser algo extremamente importante em minha vida,pois estou decepcionando com muitas coisas que vêm acontecendo no país.

    Creio que o povo tenha todo o direito de protestar,de exigir melhorias do governo,mas,infelizmente,os oportunistas, que estão se”lixando” às reivindicações legítimas,farão um grande mal ao país e à população.

    Curtir

  10. O fato é que a posição genuflexa por um lado e conivente por outro, na qual o governo brasileiro recebeu e cumpriu as exigências da fifa é criticada por muitos jornalistas tão importantes como o Juca Kfouri, alguns até mais credibilizados, inclusive por um do qual não se pode atribuir qualquer vínculo com golpismo ou viralatice. Falo do Lúcio Flávio Pinto.

    Curtir

  11. COMO TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR, EIS A OPINIÃO DE JUCA KFOURI…NOS ANOS 80
    Quem tem um Mengão pode ter uma Copa. Nos anos 80, a Abril queria Copa no Brasil.

    Rodrigo Vianna – 09/06/2014

    “Na época, a Abril não se preocupava em municiar a mais virulenta campanha, jamais vista, contra uma Copa do Mundo.

    O artigo – que reproduzimos em tamanho original ao fim deste texto – era assinado por Juca Kfouri. E vejam o que ele dizia:
    “o velho argumento de que é melhor construir escolas e hospitais é falso”.

    Ou: “não há um só argumento razoável para que não sejamos nós os promotores da maior festa do esporte mundial”.

    O argumento de que não podemos sediar Copa porque Educação e Saúde não funcionam tão bem é falso. Já dizia a Abril dos anos 80. Quem raciocina por conta própria sabe que não há dinheiro do Orçamento federal no estádio do Itaquerão – por exemplo. É financiamento do BNDES. Financiamento que será pago.

    Mais que isso: o dinheiro gasto com estádios e outras obras (25 bilhões de reais) não representa um mês de gastos com Educação!

    No entanto, o Brasil foi envenenado – durante os últimos 2 ou 3 anos – com reportagens que davam a entender: “como fazer uma Copa, se a saúde pública não funciona bem?””
    (…)

    http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/radar-da-midia/nos-anos-80-a-abril-queria-copa-no-brasil.html#more-30062

    Curtir

    1. Recordar é viver, camarada Jorge. É incrível como as pessoas mudam e alteram até convicções profundas em função das circunstâncias.

      Curtir

  12. Interessante este resgate do passado. As afirmativas pinçadas da opinião atribuída ao Juca fazem supor que ele no século passado tinha uma posição diametralmente oposta a atual.

    De minha parte, antes de firmar convicção, vou teclar no link e consultar a fonte sugerida. Vou ver qual é a dela, afinal.

    Curtir

  13. O homem é um ser mutável e pode sim mudar de opinião. Vi atentamente o vídeo e achei muito coerente o que ele falou. Ele queria a copa aqui no Brasil, mas não nos moldes que estão sendo feito, muito justo.
    Uma coisa que tenho notado, é que a globo quer nos empurrar goela abaixo que esta copa, a maioria dos brasileiros está empolgadíssimos por esse torneio, o que é uma grande mentira. Da mesma forma que a Dilma em seu discurso ontem, quis mostrar que a maioria dos brasileiros está errada. Não dá mais pra enganar o povo, o maior legado da copa que vai ficar, é a conscientização do povo em relação a megaeventos, isso eu concordo plenamente com o que disse o Juca Kifuri. Vamos vê na próxima eleição o que vai acontecer.

    Curtir

  14. Li a íntegra da crônica escrita pelo Juca ainda no século passado. Pois bem, agora, meu entendimento sobre o caso é o seguinte:
    Minha impressão sobre o Juca foi sempre de alguma reserva. Por exemplo, eu acho que ele critica a Globo n’alguns aspectos da cobertura que ela faz do futebol por uma espécie de recalque pela exclusividade de que ela dispõe e faz uso. Na copa passada eu achei que ele foi intolerante com a religião do Kaka. Também achei que, na mesma época, ele artficializou uma polêmica com o craque para bombar o blog dele.

    Fora isso, aqui e acolá, aqui no blog, ou mesmo no blog dele, eu sempre divirjo d’alguma posição dele.

    Mas, aqui neste caso, devo admitir que hoje, la posição dele sobre a copa é a mesma que ele tinha no século passado. Lá como cá ele sempre foi a favor da copa, inclusive no que diz respeito ao financiamento feito pelo governo.
    Na realidade, do que ele diz discordar é da maneira deplorável que o governo conduziu a organização do evento. Sendo oportuno dizer que ele não fica apenas na superfície ou generalidade dos problemas que aponta, e muito menos se limita a tentar desqualificar aqueles que critica. Não, ele explica detalhadamente suas razões, as quais, de fato, elogiam quem e o que merece elogio, e efetivamente desqualificam quem e o que é realmente desqualificado e/ou desqualificavel.

    Curtir

Deixe uma resposta