Remo x Paissandu (comentários on-line)

Campeonato Paraense 2014 – Decisão

Remo x Paissandu – Estádio Jornalista Edgar Proença, 16h

Na Rádio Clube, Cláudio Guimarães narra; Carlos Castilho comenta. Reportagem – Valdo Souza, Paulo Caxiado, Dinho Menezes, Hailton Silva e Mauro Borges. Banco de Informações – Adilson Brasil e Fábio Scerni.

Da inutilidade de certos jogos

Por Gerson Nogueira
Ao contrário dos defensores de testes às vésperas da Copa do Mundo, sou partidário radical de treinos comedidos e descanso absoluto. Nada de jogo pra valer, sujeito a botinadas e lesões musculares. Se os convocados já atestaram seu valor, não há lógica em submetê-los a esforços e tensões desnecessários.
O amistoso de sexta-feira comprovou a tese. Jogadas ríspidas de lado a lado colocaram em perigo atletas fundamentais para as aspirações nacionais no torneio que se inicia na próxima quinta-feira. A cada tombo de Neymar, principal jogador do escrete, era um deus-nos-acuda.
Ao lado do campo, a cena era desconcertante. Felipão levava as mãos à cabeça, revelando preocupação e angústia. Nas arquibancadas e por todo o país, um sentimento de angústia com a exposição do craque do time a um jogo que pouco mais era que um peladão.
Afinal, para que tanto desassossego? Duvido que alguém tenha visto no amistoso algo mais que simples movimentação dos jogadores, como a cumprir um ato burocrático. Afinal, todos ali estão receosos de vir a sofrer qualquer choque que leve a um corte da lista de convocados. Com isso, tiram o pé e fazem com que o pretendido teste se torne uma encenação.
O torneio mais importante do futebol, por princípio, deve reunir os melhores do esporte, mas alguns dos mais aclamados futebolistas do mundo chegarão à Copa um tanto alquebrados.
É o caso do português Cristiano Ronaldo, melhor da temporada, segundo a Fifa. Lionel Messi também ainda convive com problemas de condicionamento. O Uruguai terá Luiz Suárez ainda convalescendo de cirurgia. E a Alemanha, vista por muitos como grande ameaça ao Brasil na competição, trará jogadores importantes recém-saídos de contusões sérias. Pior que isso: a França ficou sem Ribery na sexta-feira e a Colômbia já havia perdido Falcão García.
Ora, que dono de espetáculo abriria mão espontaneamente de suas atrações à custa de mero capricho de agenda? Se a Fifa prevê amistosos, caberia a técnicos e jogadores tomarem a atitude mais racional, indicando a necessidade de treinos que não impliquem em tantos riscos à integridade das seleções.
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Benfica e a força dos sócios
Os clubes lusitanos não estão hoje na linha de frente do futebol europeu. Benfica, Porto e Sporting tentam reeditar os dias de glória e, de certa forma, pelo menos um deles parece estar estruturado para alçar grandes voos no continente.
Em visita ao reformado estádio da Luz, palco da final da Champions League, conversei com funcionários e gestores do Benfica. Ainda tristes pela perda da Liga Europa, todos foram unânimes em manifestar a confiança na redenção do clube a partir de seus sócios.
Recordista mundial, o Benfica contabiliza mais de 240 mil sócios torcedores, agregados em cerca de 20 pacotes diferentes. É o que garante os gastos e investimentos. O passivo superior a 400 milhões de euros ainda é uma sombra assustadora, mas a diretoria tem se empenhado em evitar grandes gastos, optando por garimpar jovens revelações.
O atacante Lima, atual artilheiro da equipe, é paraense e já tem seu nome citado com entusiasmo pelos benfiquistas. Ao contrário de outros jogadores, que passaram pelo estádio da Luz e acabaram se transferindo para clubes mais endinheirados, Lima é mencionado como uma aposta para permanecer e frutificar.
É perceptível no clube, acima de tudo, a convicção de que a comovente devoção dos torcedores é o que garantirá a retomada dos tempos vitoriosos. Observar famílias inteiras, vestidas de vermelho, visitando o clube numa espécie de ritual em plena sexta-feira chuvosa de Lisboa me fez levar a sério essa crença.
No Bola na Torre deste domingo, a visita ao Benfica é será mostrada em matéria especial, gravada nas cadeiras da “catedral da Luz’.
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Caprichos da grande decisão 
Não vi o jogo, mas, como tanta gente, fiquei surpreso com a goleada. Não que o Remo não tenha feito por onde, mas é fato que placares elásticos são cada vez mais raros em futebol, principalmente em clássicos – os azulinos não goleavam o rival desde 1996. Mais relevante ainda foi a circunstância do jogo. Considerando que os remistas entraram com oito alterações, desfalcados por suspensões e problemas de contusão, o favoritismo natural pertencia ao Paissandu.
Rivalidades se alimentam da emoção, entre torcedores e também entre atletas. Com vários jogadores da base na escalação, o Remo se impôs pela forte presença ofensiva e o fôlego da equipe. Com base em exemplos felizes, mas fortuitos, como o da quarta-feira, há quem defenda o aproveitamento radical dos garotos, mesmo com carradas de exemplos que desaconselham esse procedimento. O meio-termo ainda é o melhor caminho. Nesse aspecto, o técnico Roberto Fernandes tem agido bem, sabendo valorizar o trabalho feito nas divisões formadoras do clube.

A decisão, porém, está em aberto. Por mais vantajosa que seja a situação azulina, o Re-Pa é sempre imprevisível. Uma batalha que muitas vezes contraria a lógica natural das coisas. Desgastado, sem seu melhor defensor e carente da confiança que exibia antes, o Papão terá que empreender uma jornada de superação. Impor três gols de diferença não é tarefa simples, embora seja possível acontecer.
Ao Remo caberá administrar a vantagem e evitar erros. Uma coisa é certa: caso venha mesmo a conquistar o título estadual neste domingo, será preciso lavrar no Baenão uma página de reconhecimento a esta jovem safra azulina, talvez a mais qualificada dos últimos 10 anos. Sempre que foi convocada a ajudar, mostrou-se apta, comprometida e guerreira. São jóias a serem lapidadas, mas que, literalmente, valem ouro.
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Da louvação ao banimento
A especulada substituição de Mazola Junior por Vica, que circulou insistentemente desde a quinta-feira, é mais um elemento a ser adicionado ao Re-Pa decisivo deste domingo. Responsável pelo acirramento dos ânimos, a partir de declarações intempestivas nas finais do returno, o técnico inicialmente ganhou o apoio de amplos setores no Papão, de torcedores a dirigentes. Caiu em desgraça, porém, ao sofrer acachapante derrota para o maior rival.
Da condição de quase mito, como era denominado nas redes sociais, Mazola passou a ser execrado, atestando a superficialidade dos amores nascidos da paixão futebolística. A própria diretoria, que aquiesceu quando ele investiu contra os rivais, agora lhe nega apoio.
Mazola não se tornou pior ou melhor em função da goleada no Re-Pa. Que ninguém se iluda. Ele é apenas mais uma vítima do açodamento que o futebol cultiva como regra sempre que isso é a saída mais conveniente.  

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 8)