Será o fim do encanto?

Por Gerson Nogueira
unnamed (86)
Depois de ganhar duas Euros e uma Copa do Mundo, a Espanha parece estar chegando àquela curva de fadiga que se abate sobre todos os grandes times. Ninguém está a salvo. Só não se esperava que a derrocada fosse assim tão clara. Levar uma surra de 5 a 1 logo na abertura de uma Copa num tradicional clássico europeu é de deixar qualquer um atordoado.
A bem da verdade, a decadência começou na Copa das Confederações. Mesmo chegando à final, a Fúria foi inapelavelmente atropelada pelo Brasil, com um categórico 3 a 0. Poderia ter sido apenas um dia ruim, com um gol logo de cara a desnortear os planos, mas a estreia desastrosa de ontem confirma a má fase.
As carências espanholas para o Mundial se desenharam desde a convocação, com a preocupação em arranjar um centroavante de verdade. A escolha acabou recaindo sobre o brasileiro Diego Costa, que abriu mão do chamado de Felipão e atendeu à convocação de Vicente Del Bosque.
E Diego Costa acabou aparecendo além da conta no começo do jogo, em Salvador. Por motivos não muito simpáticos. Foi vaiado sempre que tocou na bola. Os torcedores entendem que ele virou as costas para o Brasil, optando pela bandeira espanhola. Ora, é um direito legítimo de escolha. Fez o que achava mais interessante e vantajoso. Claro que terá que arcar com o ônus dessa opção.
No jogo, brilhou muito pouco. Só foi notado em um lance, na verdade. Lançado por Xavi na área, deu um corte em De Vrij e deixou o pé, à brasileira, para cavar o penal. O árbitro italiano caiu como um patinho, mais ou menos como o japonês no jogo do Brasil na véspera. Atacantes brazucas são malandros, ardilosos e quase sempre engabelam os apitadores. Às vezes, ludibriam até as câmeras.
Sorte da Holanda que a Espanha célebre pelos passes rápidos e curtos parece ter ficado no passado. Robben, Van Persie e Snijder, veteranos de outras Copas, só precisaram botar os nervos em ordem para que o jogo holandês brotasse no meio-de-campo. Ao contrário do adversário, a Holanda alterna passes longos e curtos, de acordo com a necessidade.
Foi assim que surgiu o gol de empate – e que gol! A bola foi lançada da linha do meio-de-campo, na diagonal, para a entrada de Van Persie nas costas dos zagueiros Piqué e Sérgio Ramos. Enquanto ambos olhavam a bola, Persie se adiantou e deu um salto para desviar de cabeça, fora do alcance de Casillas.
A jogada brilhante parece ter contagiado os holandeses, provocando sentimento inverso nos espanhóis. Nem mesmo Iniesta e Xavi, dois exímios passadores, estavam em jornada inspirada. Na base do entusiasmo, a Holanda cresceu e conquistou o apoio da torcida. Robben faria o segundo gol, também muito bonito, matando a bola na ponta da chuteira e driblando de uma só vez os dois beques.
Depois da virada, a Espanha avançou, tentando reagir, mas já era tarde. Havia perdido o chamado momento do jogo. O terceiro gol, com falta sobre Casillas, saiu de um escanteio desviado por De Vrij na metade do segundo tempo. A goleada se consolidou logo a seguir, com Persie aproveitando um presente do goleiro, que tentou distribuir a bola e errou o chute. O massacre findou com outro gol de craque: Robben arrancou da intermediária e teve fôlego para driblar quase toda a zaga adversária. O lance mais bonito do Mundial para coroar a vitória mais espetacular deste começo de competição.
————————————————————-
Espanhóis ou chilenos na rota do Brasil
Para os que imaginavam que a Espanha seria o osso mais duro de roer num cruzamento com o Brasil nas oitavas de final, a peia imposta pela Holanda impõe uma mudança de planos. Se conseguir se reabilitar do tombo, a Fúria é adversário respeitável, mas deixou evidente ontem que está cada vez mais vulnerável ao jogo de velocidade. Já havia sido assim no ano passado, na Copa das Confederações. Naquela ocasião, a Seleção Brasileira usando força e intensidade. Não permitiu que o passe articulado da Espanha se estabelecesse. A Holanda nem precisou fazer isso, apenas se mostrou mais organizada e objetiva nas saídas para o ataque. Fez três gols em contragolpes fulminantes.
Na segunda partida do Grupo B, o Chile passou pela Austrália com alguns enroscos. Fez 2 a 0 logo de início, mas permitiu que a atrapalhada seleção dos cangurus descontasse ainda no primeiro tempo. Na etapa final, os chilenos se contentaram em trocar passes, sem aprofundar as jogadas. Levaram alguns sustos, mas no final saiu o terceiro gol. Chile e Espanha decidirão a segunda vaga à próxima fase, visto que a Holanda deve sacramentar sua classificação contra os australianos na próxima rodada.
————————————————————-
As interpretações de dona Fifa
Ao absolver o árbitro Yuchi Nishimura, que apitou Brasil x Croácia, a comissão de arbitragem da Fifa mostra coerência com suas próprias orientações. Antes do Mundial, árbitros, jogadores e técnicos foram orientados para os lances de agarra-agarra dentro da área. O japonês interpretou como faltoso o agarrão de Lovren em Fred. As imagens o desmentiram, mostrando que o contato não seria suficiente para provocar a queda do atacante.
Um erro humano, corriqueiro até, mas que a imprensa internacional não perdoou, atribuindo a vitória brasileira na estreia ao deslize de Nishimura. O técnico croata apimentou a história, falando em circo de arbitragens. Felipão, mordaz, teve que lembrar que este é o país que conquistou cinco Copas do Mundo, todas longe de seus domínios.
A atestar que o julgamento dos árbitros não pode ser levado a ferro e fogo, no jogo entre México e Camarões aconteceram duas falhas capitais. Dois gols do atacante Geovane dos Santos foram anulados. Os auxiliares assinalaram impedimentos inexistentes. Felizmente, um gol de Peralta fez justiça à superioridade mexicana em campo.
————————————————————
Xingadores não representam a massa
Dilma disse o que todos os brasileiros civilizados certamente diriam. Os xingamentos puxados pelo setor Vip da Arena Corinthians, por ocasião da vitória do Brasil sobre a Croácia, na abertura da Copa, repercutiram no mundo inteiro. Longe de desgastar a presidente, passaram uma triste imagem dos brasileiros, aparentemente incapazes de respeitar sua maior autoridade.
Em discurso ontem, Dilma colocou as coisas em seus devidos lugares. Deplorou os palavrões, que não poderiam ser falados nem diante de crianças, e deixou claro que os xingadores não representam a população, pertencem a um segmento politicamente engajado em outro projeto e insatisfeito com as ações (principalmente as sociais) de seu governo.
Vaias são aceitáveis, principalmente num estádio de futebol; xingamentos são agressões intoleráveis quando dirigidos a uma chefe de Estado legitimamente eleita. E nem se pode dizer que os insultos partiram de torcedores. Na verdade, foram puxados pela minoria que pode pagar até R$ 1.600,00 por um ingresso.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 14)