Jornalista Eumano Silva lança em Brasília livro sobre o PCB na resistência ao regime militar

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Livro reconstitui a trajetória do Partidão na luta clandestina contra a ditadura e na formação da ampla frente política que redemocratizou o Brasil

O livro-reportagem “Longa jornada até a democracia – Volume II” conta a história do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no enfrentamento à ditadura e na redemocratização do país. Lastreada em documentos oficiais inéditos, entrevistas, reportagens e farto material bibliográfico, a obra editada pela Fundação Astrojildo Pereira recompõe a trajetória do Partidão – apelido do PCB – de 1967 até 1992.

Escrito pelo jornalista Eumano Silva, o livro reproduz o clima sombrio da Guerra Fria, com relatos minuciosos sobre a vida clandestina de dirigentes e militantes, fugas, prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de comunistas. O roteiro de histórias entrelaça personagens que parecem saídos dos romances policiais, como espiões e informantes infiltrados pela repressão nas organizações de esquerda. Mostra também o trabalho silencioso, e essencial para o partido, de caseiros, motoristas e distribuidores de jornais.

A CIA e da KGB aparecem em vários episódios do mundo real retratado pelo autor. O caso mais conhecido envolveu o “Agente Carlos”, apelido de um assessor do então secretário-geral do PCB, Luiz Carlos Prestes, que passou para o lado da repressão e trabalhou para a CIA.

O texto jornalístico percorre o submundo da ditadura e repassa, em ordem cronológica, os fatos e os personagens mais destacados na longa jornada dos brasileiros rumo à democracia, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e José Sarney. A reportagem reconstitui as agruras da clandestinidade e a participação do PCB, desde o final da década de 1960, na ocupação de espaços na sociedade e na formação da frente democrática de oposição ao regime militar.

O Volume II de “Longa jornada até a democracia” trata de fatos transcorridos entre dezembro de 1967, data do VI Congresso, e janeiro de 1992, quando o PCB realizou o X Congresso, encontro que decidiu pela mudança de nome para Partido Popular Socialista (PPS).

O primeiro volume, lançado em 2022, escrito pelo jornalista Carlos Marchi, aborda o período compreendido entre 1922, ano da fundação do PCB, e 1967, marco da mudança na estratégia da organização comunista. No VI Congresso, a definição por mudança na linha política tornou o PCB a única organização comunista a tomar o caminho pacífico no enfrentamento ao governo instalado no Brasil com o golpe de 1964. As demais forças originadas no partido fundado em 1922 optaram pela luta armada.

Apesar da opção pelo caminho pacífico, o Partidão se tornou alvo da repressão na mesma medida que as demais organizações de esquerda. Uma dezena de dirigentes do Comitê Central do PCB foi assassinada pelo governo militar.
Mesmo clandestino, e com perdas irreparáveis, o partido teve expressiva influência na política institucional ao atuar dentro do MDB, legenda legal de oposição. Os comunistas foram responsáveis, por exemplo, pela incorporação, pelos emedebistas, das bandeiras da anistia, da Assembleia Nacional Constituinte e da eleição direta para presidente.

Arquivos militares obtidos pelo autor documentam a montagem da máquina repressiva pelo governo fardado. Os papeis registram o passo a passo da estruturação dos Departamentos de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codis). Descrevem também as disputas entre o Exército e a Marinha pelo controle do aparato criado pelas Forças Armadas para perseguir adversários.
Os anexos do livro contêm fotos inéditas de dirigentes do Partidão procurados pela repressão e imagens de presos nas dependências militares. Apresentam ainda fac-símiles de páginas de exemplares raros do jornal Voz Operária.
Entre os episódios mais impressionantes narrados pelo livro, está a cinematográfica operação montada no exterior para retirar do Brasil o dirigente Giocondo Dias. A transferência do arquivo de Astrojildo Pereira, fundador do PCB, para a Europa também teve lances espetaculares. Outra façanha dos comunistas foi manter durante dez anos, longe das garras da repressão, uma gráfica no Rio de Janeiro, no subsolo de uma casa, onde era produzido o material impresso do partido. Os documentos oficiais também identificam um sargento da Polícia Militar de São Paulo infiltrado pelo PCB no DOI-Codi do estado. Quando tomava conhecimento de prisões de militantes, o policial avisava o partido e ou as famílias.
As artimanhas dos comunistas para enganar os órgãos de segurança incluíam disfarces, documentos falsos. Camaradas instalados nas fronteiras ajudavam nas travessias de militantes e dirigentes nas fronteiras com os países vizinhos – muitas vezes com malas de dólares.
“Longa Jornada até a democracia” resgata a experiência no exílio e os abalos sofridos pelo partido em decorrência da ação de dirigentes do partido cooptados pelos órgãos de segurança. O livro também desenredou mistérios que, durante décadas, suscitaram especulações. As apurações elucidaram, por exemplo, o segredo do “ouro de Moscou”, expressão usada pelos adversários dos comunistas para designar os recursos enviados ao PCB pelo bloco comunista. Com base em depoimentos dos responsáveis pelo transporte do dinheiro, o autor calculou valores anuais repassados ao Partidão.
O colapso da União Soviética, acelerado no final dos Anos 1980, teve contribuição determinante para as mudanças de rumo que levaram à mudança de nome em 1992. O desempenho eleitoral insatisfatório, e dissidências internas, como a saída do grupo de Prestes, abalaram e enfraqueceram o Partidão. O surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) no final da ditadura também reduziu o espaço de atuação dos comunistas e ajuda a explicar a perda de relevância do PCB depois da redemocratização.

Sobre o autor:
Formado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB) em 1987, Eumano Silva trabalhou em alguns dos principais veículos da imprensa brasileira. Nascido em 1964 em Iturama (MG), especializado em política, o autor foi repórter da revista Veja e dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Começou a carreira na cobertura da Assembleia Nacional Constituinte, dirigiu as sucursais de Brasília das revistas Época e Istoé, ocupou as funções de editor de política do jornal Correio Braziliense e editor-executivo do site Congresso em Foco e da revista Veja Brasília. Há mais de três décadas, realiza pesquisas sobre a ditadura militar. Concentrou-se, sobretudo, na busca e análise dos arquivos secretos das Forças Armadas.
O jornalista foi ainda observador independente nas buscas de desaparecidos na região da Guerrilha do Araguaia e participou dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. É também autor dos livros “A morte do diplomata” e “Nas asas da mamata”. Como analista político, fez trabalhos para Rádio CBN, Portal Metrópoles, TV Democracia, programa Sua excelência, o fato, e Broadcast Político.
Eumano ganhou os seguintes prêmios: Jabuti de melhor livro-reportagem com o livro “Operação Araguaia – Os arquivos secretos da guerrilha”; Esso, com uma série de reportagens sobre a Guerrilha do Araguaia. Excelência Jornalística, na categoria meio ambiente, da Sociedade Interamericana de Imprensa, com a reportagem digital “O Levante dos ribeirinhos”, posteriormente editada como livro impresso.

Atualmente, Eumano exerce a função de especialista em inteligência política da Oficina Consultoria.

O Leão e a conexão paraguaia

POR GERSON NOGUEIRA

Terminou o mistério. Cinco dias depois da demissão do técnico Ricardo Catalá, o Remo anunciou o nome do novo comandante. É Gustavo Morínigo, 47 anos, paraguaio que foi jogador de futebol e depois abraçou a carreira de treinador. Dirigiu o Cerro Porteño e Libertad, antes de vir para o Brasil, onde trabalhou com destaque no Coritiba e no Ceará.

Não foi uma negociação fácil. Gustavo estava sem clube, mas se insere naquele grupo de técnicos nível Série B, com salários acima do orçamento médio de equipes que disputam a Série C do Campeonato Brasileiro.

Domingo, antes do jogo com o Bragantino, o diretor de futebol Sérgio Papellin admitiu que a negociação estava em andamento, mas a questão financeira estava embaçando as coisas. O mau passo diante do Tubarão parece ter acelerado os entendimentos.

Sob o comando de Mariozinho e Agnaldo de Jesus, o Remo foi errático como em todo o período sob a direção de Ricardo Catalá. Nem mesmo a raça tão cobrada pela torcida apareceu em campo e o time terminou perdendo a segunda partida no Campeonato Estadual.

Apesar do investimento caro, a chegada de Gustavo sinaliza uma mudança radical na forma de atuar do time. Por esse motivo, é improvável que o elenco siga com os mesmos atletas. Ontem, horas depois do anúncio do novo técnico, o meia Camilo pediu desligamento.

Veterano, Camilo mostrava dificuldades para se encaixar na equipe. Não era o único, mas dele se esperava mais pela qualidade de seu futebol e pelos custos de sua contratação. Para o lugar dele, deve chegar o meia Silas, 28 anos, que estava no Atlético-GO.

Gustavo terá missão árdua e pouco tempo para mostrar serviço nas competições em andamento (Parazão e Copa Verde). Comenta-se que pelo menos seis atletas serão contratados, com ênfase no meio-campo (volantes) e linha de defesa.  

O acordo concretizado com Gustavo reflete o esforço da diretoria azulina para assegurar ao time a competitividade necessária para enfrentar a Série C e brigar pelo acesso à Série B. Como o plano inicial com Catalá não funcionou, o clube redireciona o planejamento e tenta acertar o passo, ainda a tempo de se recuperar no Parazão e se fortalecer para o Brasileiro.

Surge um candidato a xodó da Fiel bicolor

A torcida do PSC se mostra encantada com o artilheiro e ídolo Nicolas por razões óbvias. Oito gols marcados em oito jogos, entrega e transpiração em defesa do time. O Cavani do Norte é unanimidade na Curuzu desde que fez o caminho de volta nesta temporada. Tudo dentro da normalidade.

Surpreendente é a adoração que a Fiel demonstra pelo meia-atacante Esli Garcia, rápido e driblador, que entrou no segundo tempo da partida contra o Castanhal. Não fez gol, mas as fintas e o entusiasmo em campo cativaram o torcedor alviceleste.

Aplaudido diversas vezes, Esli e saiu de campo como um dos mais festejados da tarde vitoriosa, embora não tenha atuado desde o primeiro tempo, quando o time foi mais efetivo e agressivo.

Caso consiga manter a regularidade e o bom futebol, o jovem venezuelano tem chances não apenas de virar titular como de se candidatar a xodó da torcida, condições das mais valiosas dentro do futebol atual.

Vale lembrar que Esli acabou se atrapalhando na apresentação em janeiro por ter esquecido a certidão de nascimento, o que retardou sua regularização. A maneira como tem se dedicado em campo mostra que Esli está disposto a recuperar o tempo perdido.

Fifa abre temporada de reconhecimento de títulos

Postagem do site Meu Timão, espécie de porta-voz informal do Corinthians, a respeito do reconhecimento de títulos mundiais pela Fifa: “Sou a favor de brigar pelo reconhecimento da pequena taça do mundo de 1953. Barcelona, Caracas e Roma foram derrotados duas vezes pelo Corinthians. No mínimo somos tri mundial (sic), o terror dos europeus”.

O site corintiano não é o único. Várias torcidas têm se manifestado em relação a isso, defendendo o seu lado. O quadro de títulos que circula na internet mostra a lista dos novos campeões mundiais, incluindo clubes como o Remo, o Corinthians, o Fluminense e até o Bangu.

Os títulos reivindicados se referem aos torneios Octogonal Rivadavia, Copa Rio, Pequena Copa do Mundo, Torneio de Paris e International Soccer League, todos disputados na década de 50.

O último a ser reconhecido foi o Palmeiras, que recebeu na sexta-feira (1) a ata juramentada e traduzida da Fifa que reconhece a Copa Rio de 1951 como a primeira competição mundial de clubes.

Para obter o reconhecimento, o Palmeiras preparou um extenso dossiê, em 2006, com reportagens e documentos sobre a Copa Rio. Apesar de reconhecer a conquista, a Fifa considera, em seu site oficial, apenas os Mundiais de organização própria, cujo início foi em 2000.

Diante dessa movimentação toda, tem faltado à diretoria remista iniciativa e providências na busca pelo reconhecimento do Torneio de Caracas, visto que outras agremiações reivindicaram e foram atendidas pela Fifa.

Um site espanhol dedicado ao Real Madrid postou recentemente um histórico de todas as competições equivalentes a campeonatos mundiais e seus respectivos campeões. A publicação aponta o Remo como campeão mundial do torneio disputado em Caracas, na Venezuela, em 1950.

O Remo disputou o torneio convidado pela Federação Venezuelana de Futebol. O mundialito que dava ao campeão a “Taça Ministério de Obras Públicas da Venezuela”. O troféu está exposto na sede do Remo. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 05)

Remo anuncia paraguaio Morínigo para comandar o time na temporada

Depois de novo tropeço no Campeonato Paraense, a diretoria do Remo anunciou nesta segunda-feira a contratação do técnico paraguaio Gustavo Morínigo, de 47 anos, para o restante da temporada. Com passagens por clubes como Libertad, Coritiba e Ceará, o treinador e sua comissão técnica desembarcam em Belém nesta terça-feira, 5.

“Muito feliz com esse novo desafio na minha carreira. Agora vamos iniciar os trabalhos para conquistar os objetivos do Rei da Amazônia”, disse o treinador logo após a confirmação do acerto com o Remo.

É o primeiro trabalho de Morínigo na Região Norte do país e em um clube que disputa a Série C do Brasileiro. Natural de Assunção, iniciou no futebol como jogador, atuando no Libertad, Guaraní, Cerro Porteño e Nacional.

Seu bom desempenho o levou até a Copa do Mundo de 2002, quando defendeu o Paraguai contra a África do Sul, no empate por 2 a 2 em Busan, na Coreia Sul. Depois de pendurar as chuteiras em 2012, ele iniciou carreira como técnico. Inicialmente, Morínigo assumiu o comando do Nacional-PAR, levando o time à inédita final da Libertadores – perdeu o título para o San Lorenzo.

Desembarcou no Brasil na temporada 2021 para comandar o Coritiba, onde conquistou o acesso à Série A e o título do Campeonato Paranaense. Comandou também o Ceará e o Avaí, sua última equipe antes de assumir o Remo.

Papão absoluto no Parazão

POR GERSON NOGUEIRA

A primeira fase do Campeonato Paraense foi inteiramente dominada pelo PSC. Conquistou 20 pontos e não deu chance a nenhum adversário. Segue invicto, com oito vitórias e dois empates. Confirmou essa condição dominante com um triunfo categórico sobre o Castanhal, ontem, na Curuzu, por 3 a 0. E poderia ter sido 5 ou até 6 a 0. Quem impediu uma contagem mais larga foi o goleiro Xandão, que fez defesas portentosas.

Jean Dias abriu o placar aproveitando um rebote na área. Depois, Nicolas aproveitou cruzamento de Kevyn e marcou de cabeça, antecipando-se à defesa. Gol típico de Nicolas, cuja especialidade é o jogo aéreo. O centroavante fecharia o placar em 3 a 0, marcando um belo gol no segundo tempo, aproveitando o espaço permitido pela zaga castanhalense.

A vitória foi maiúscula. A produção ofensiva foi excelente, depois de um jogo travado e improdutivo contra o Ji-Paraná no meio da semana. Robinho voltou a jogar em grande estilo e municiou o ataque em diversas oportunidades. Nicolas, Jean Dias e o próprio Robinho tiveram chances, mas pararam nas mãos do goleiro do Japiim.

É bem verdade que a zaga castanhalense estava completamente exposta, permitindo seguidas oportunidades ao ataque do Papão. Empenhado em ir ao ataque para buscar a vitória, único resultado que garantiria sua classificação, o Castanhal se expôs em demasia.

Com a postura habitual de se impor contra qualquer adversário, o Papão começou adiantando a marcação e provocava seguidos erros do Castanhal. Os laterais subiam, transformando-se em atacantes e o meio-de-campo também se engajou no esforço para chegar ao gol. Esse comportamento inibiu o Castanhal e garantiu o êxito do Papão já na primeira etapa.

Depois de estabelecer o placar de 2 a 0, o Papão veio para o segundo tempo mais tranquilo, embora sem desprezar a tática da pressão em cima da defesa adversária. Foi assim que surgiu o terceiro gol, com os bicolores explorando as subidas desesperadas do Castanhal ao ataque.   

Um lançamento longo apanhou Nicolas entre dois zagueiros. Ele só precisou disparar, dominar a bola e tocar rasteiro na saída do goleiro. Lance simples, eficiente e mortal. Houve tempo para a entrada do ágil Esli Garcia, muito festejado pela torcida.

Uma vitória que carimba a melhor campanha do PSC no Parazão e aumenta a confiança na conquista do 50º título estadual. O time está encaixado e, apesar de problemas no setor de armação, tem obtido resultados que permitem afirmar que é a melhor equipe da competição até aqui.

Na próxima fase, encara o Bragantino, um oponente aguerrido, que deu trabalho jogando na Curuzu e que acaba de superar o Remo em seus domínios. Apesar disso, o favoritismo bicolor é incontestável.

Leão abusa dos erros e cai diante do Bragantino

Era jogo para 0 a 0, tamanha a ineficiência dos atacantes dos dois lados, mas um erro monumental da defesa remista permitiu ao Bragantino o gol que assegurou a importante vitória, ontem, no estádio Diogão. O Edicleber, revelado na base azulina, fez um gol improvável.

A bola veio da esquerda, após Gileard aplicar um drible desmoralizante no zagueiro Bruno Bispo. Não foi um cruzamento tão alto, mas apanhou a zaga aberta, Ícaro não cortou a bola e esta se ofereceu ao baixinho Edicleber. Para completar a lambança, o goleiro Marcelo Rangel saiu catando coquinhos e deixou a bola entrar.

O lance decisivo ocorreu aos 15 minutos do 2º tempo, sacudindo um jogo monótono e pobre em jogadas de área até então. O Remo havia ameaçado apenas uma vez, num chute de Marco Antônio que forçou o goleiro Henrique a defender duas vezes.

Várias bolas foram cruzadas para Ribamar, mas o centroavante mostra uma inquietante falta de jeito para finalizar as jogadas. Ele só acertou um cabeceio no gol, mas nas mãos do goleiro, e bateu rasteiro nos minutos finais, sem que nenhum companheiro aproveitasse o rebote.

Logo depois de sofrer o gol, o interino Mariozinho decidiu finalmente mexer na equipe. Botou Camilo e Matheus Anjo, acertando em 50%. Matheus jogou bem, quase marcou um golaço. Camilo, visivelmente desmotivado, pouco participou das articulações ofensivas.

Ronald também entrou e acabou deslocado para a ala esquerda quando Kanu foi lançado (no lugar de Raimar) nos minutos finais. Quase se arrastando em campo, o Bragantino conseguiu segurar a vantagem até o final e comemorou muito a suada classificação às quartas de final.

Os azulinos iniciam a semana sob a expectativa da contratação do novo técnico. As especulações apontam para o nome do paraguaio Gustavo Morinigo, ex-Coritiba e Ceará. Seja quem for o comandante, o trabalho será árduo para transformar o amontoado atual num time competitivo. Tarefa das mais indigestas com os jogadores disponíveis.

Histórias de superação e fracasso dos times interioranos

Caeté, Bragantino, São Francisco e Santa Rosa foram os representantes interioranos que mais se destacaram na primeira fase da competição. As decepções ficam por conta de Cametá e Castanhal, alijados das quartas de final após derrotas na oitava rodada. Na verdade, a eliminação de ambos foi construída ao longo da campanha.  

Em Marabá, com gol de Yuri Tanque, o Águia despachou o Cametá. Em Castanhal, o Caeté de Artur Oliveira foi buscar um empate (2 a 2) quando tudo indicava uma nova vitória da invicta Tuna.

Já o Santa Rosa de Netão passou pelo Tapajós, no estádio Baenão, com um gol de cabeça quase ao final da partida. E o São Francisco de Samuel Cândido confirmou o bom momento, derrotando o Canaã por 2 a 0, no estádio do Souza.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 04)

Então você acha que pode distinguir paraíso de inferno?

Por Milly Lacombe, no UOL

Começa com esse verso a canção “Wish you were here” (“Gostaria que você estivesse aqui”), do Pink Floyd: So you think you can tell heaven from hell?

Você é capaz de distinguir céu azul de dor? Um sorriso de um véu? Fizeram você trocar seus heróis por fantasmas? Fumaça por árvore? Ar quente por uma brisa?

Esses versos estão na música composta na metade dos anos 70. A letra fala da falta de capacidade de perceber a realidade ao nosso redor e aponta para as trocas que somos encorajados a fazer na vida. Fala de entorpecimento, de fuga, de quebras, de rompimento.

Pensei nela assistindo ao dilacerante “Zona de Interesse”, que conta a história da família do diretor geral de Auschwitz e de sua casa ao lado do campo de concentração: jardins, piscina, muitos empregados, luxo, fartura. Ao fundo, as chaminés queimam com vidas humanas e ninguém se importa. A existência segue com as crianças correndo na grama, vinho gelado sendo servido ao ar livre num fim de tarde. Gritos e gemidos de morte são escutados ao fundo. Não importam. Não são pessoas que estão morrendo, são coisas, gente abaixo da humanidade.

Quando o filme terminou eu estava catatônica.

Escrevi sobre ele nesse texto aqui (“Fomos Cúmplices”), mas ainda sem conseguir alcançar o que sentia. Finalmente, escutando Pink Floyd, entendi: nós somos a família alemã ao lado do campo de concentração.

Somos as pessoas que não se importam com os assassinatos na Baixada Santista. Que naturalizam discursos abjetos como o do governador de São Paulo explicando com frieza tétrica por que essas operações policiais são necessárias, construído a ideia do inimigo que precisa ser eliminado, o outro absoluto, abaixo da humanidade.

Somos as pessoas que assistem ao Jornal Nacional produzido no dia em que 112 palestinos famintos foram assassinados enquanto esperavam que a esmola humanitária fosse arremessada sobre suas cabeças e não têm impulso de quebrar o aparelho de TV de tanta raiva testemunhando a naturalização do horror através daquelas vozes tão familiares, que falam de modo tão manso, quase doce.

Como noticiar com pompa e verniz, conferindo espaço para a naturalização do horror, aquilo que só poderia ser devidamente comunicado com o fígado e com lágrimas. Tivemos uma aula.

Não nos perguntamos como exatamente tanques, armas e bombas conseguem entrar por terra mas a esmola humanitária precisa ser jogada do céu criando ainda mais angústias, medos, aflições e terror entre os que esperam a comida cair sobre suas testas.

Existe entre os médicos-heróis que seguem trabalhando em Gaza uma nova nomenclatura para alguns pacientes: WCNSF. Quer dizer Criança Ferida Sem Família Sobrevivente (Wounded Child No Surviving Family)

A Tv não mostra, não fala, não revela.

Pessoas morreram durante a confusão por comida, é o que nos dizem com suas vozes sérias mas ainda bastante amenas.

Vai começar a novela? Tá demorado esse Jornal Nacional de hoje, nossa. Ah, acabou. Ufa.

A fúria com que se tenta fabricar consenso, como coloca o linguista Noam Chomsky, é comovente. O que mais se produz no norte global é plástico e consenso. Arremessam sobre nossas cabeças as histórias que precisam vingar para que sigamos sem conseguir distinguir céu de inferno. Aceitamos. A vida é corrida. Trabalho. Pagar boletos. Tentar resistir.

Seria o caso de começarmos a falar de fake news de forma mais alargada.

O que acontece nas favelas e periferias do Brasil exatamente? Por que a polícia tem o direito de entrar atirando? Por que aceitamos tão passivamente que pessoas sejam assim exterminadas? Não nos enojamos que a televisão fale na cara dura do direito de ir e vir de manifestantes de inclinações nazi-fascistas mas não ligue que jovens negros não possam circular livremente pelos bairros ricos desse país à noite? Não nos importamos que mulheres não possam circular livremente pela cidade, pelo transporte público, em suas casas, sem correr o risco de serem abusadas? A TV se importa com o direito de ir e vir dos manifestantes indo para a Paulista defender a tortura e com nada mais. Deixem os fascistas circularem em paz!

Não somos capazes de olhar para o passado e tirar dele o exato momento em que precisamos nos levantar e berrar? Nos achamos assim tão diferentes dos oficiais nazistas, dos sul-africanos brancos do Apartheid, dos senhores e das sinhás de pessoas escravizadas, das mulheres dos oficiais nazistas que seguiam servindo o jantar em louça chinesa enquanto ali ao lado judeus eram queimados vivos? Dos colonizadores que invadiram as Américas e aniquilaram culturas e civilizações?

Será que conseguimos distinguir um nazi-fascista de um político de dentes muito brancos e terno de corte fino que fala mansamente as piores coisas? Uma manifestação que bajula tortura e torturador de atos democráticos?

Qual é o exato momento do levante? Quando diremos basta? Em que momento a água de nossa humanidade finalmente ferverá? Quando entenderemos que se alguns de nós já estão no inferno então todos estamos?

Rock na madrugada – AC/DC, “You Shook Me All Night Long”

POR GERSON NOGUEIRA

Keith Richards disse certa vez que o público argentino é o mais insano que existe. Não mentiu. A plateia (quase 100 mil pessoas) reunida no estádio do River Plate para cantar e celebrar com o AC/DC é de cair o queixo. O show é de dezembro de 2009. Difícil ver fãs tão ensandecidos, interessados exclusivamente no show, focados na música, pulando o tempo inteiro em completo arrebatamento. Não se vê nem mesmo aquela turma xarope que liga o celular e esquecer de curtir o espetáculo.

É bem verdade que o AC/DC faz um show contagiante. É o tipo da banda que se agiganta no palco. Os vocais rasgados de Brian Johnson e a guitarra de Angus Young garantem a festa, sem firulas. Nada de mudar arranjos ou de reinventar o som. Executam as músicas como foram gravadas, numa prova de respeito ao público.

Tenho alergia a bandas que se metem a alterar o ritmo com improvisos desnecessários que desfiguram as canções. Registros definitivos não podem ser alterados. Sou chato com isso. “You Shook Me All Night Long” é do discaço Back in Black (1980).

Cabe lembrar que o AC/DC é uma banda multinacional na origem. É australiana porque foi formada Sydney, em 1973, mas os fundadores – Malcolm e Angus Young – são escoceses. O estilo musical é normalmente classificado como hard rock, mas ganhou fama tocando metal pesado. Angus, quando insistem muito, resume bem essa definição: “rock and roll”. Direto e reto.

Papão passeia na Curuzu e Leão dá vexame em Bragança

Com uma vitória tranquila e categórica sobre o Castanhal, por 3 a 0, na Curuzu, o PSC fechou a primeira fase do Campeonato Paraense na liderança absoluta, com 20 pontos. Jean Dias e Nicolas (2) construíram o triunfo sobre o Japiim. O destaque da partida foi o goleiro Xandão, que fez defesas espetaculares ao longo dos dois períodos e evitou que a vitória do PSC fosse ainda mais ampla. Nas quartas de final, o Papão vai enfrentar o Bragantino.

No estádio Diogão, em Bragança, o Remo foi derrotado pelo Bragantino por 1 a 0, gol marcado aos 15 minutos do segundo tempo pelo meia Edicléber, após cruzamento de Gileard e falha coletiva do setor defensivo azulino de Gabriel Bispo, Ícaro e Marcelo Rangel. Ao longo dos dois tempos, o Leão foi lento e dispersivo, com nenhuma inspiração ofensiva e repetindo as fracas atuações da era Catalá. Com 14 pontos, o Remo terminou a fase de classificação em 3º lugar. Nas quartas de final, o Leão vai encarar o Santa Rosa.

Os outros resultados da oitava rodada foram: Caeté 2 x 2 Tuna, Águia 1 x 0 Cameta, Santa Rosa 1 x 0 Tapajós, São Francisco 2 x 0 Canaã.

Os demais jogos das quartas de final: Caeté x Águia e Tuna x São Francisco.

Nada de novo sob o sol

POR GERSON NOGUEIRA

A convocação inicial de um treinador da Seleção Brasileira funciona como um demarcador de princípios, uma sinalização de intenções. Com base nisso, Dorival Júnior estreou oficialmente no comando técnico do escrete de forma bem burocrática, sem acrescentar muito às convocações de Fernando Diniz, seu antecessor.

Há 55 anos, João Saldanha assumiu metendo o pé na porta. Logo na primeira entrevista, soltou a escalação das “feras do Saldanha”, dando o primeiro passo para a conquista do tri no México. Em plena ditadura militar, o comunista João Sem Medo acabaria trocado pelo conservador Zagallo, mas legou um exemplo de destemor que ninguém mais repetiu.

Coragem foi o que faltou na apresentação de Dorival. Para um time que desceu tanto de nível que está hoje em 6º lugar nas Eliminatórias da Copa do Mundo, atrás de seleções irrelevantes no continente, seria oportuno chegar chegando, até para sacudir o cenário.

Quem olhar a lista anunciada na sexta-feira vai até se surpreender, mas sem maior entusiasmo. Savinho, destaque no Girona (Espanha), é um desses sopros de renovação, mas que ficou só nisso.

As outras novidades são Andreas Pereira, volante do Fulham (Inglaterra); Beraldo, zagueiro do PSG; Murilo, zagueiro do Palmeiras; e Pablo Maia e Rafael, volante e goleiro do São Paulo, respectivamente.   

Além de passar a impressão de ser um técnico inseguro e, por isso mesmo, em busca de suporte, ao abrir espaço para jogadores de seu ex-clube (São Paulo), Dorival fez escolhas sem amparo no desempenho técnico.

Rafael é um goleiro bom, mas não especial. Como ele existem uns 10 ou mais no futebol brasileiro. O mesmo pode ser dito de Pablo Maia, um volante comum, sem brilho maior. É óbvio que só chegaram à Seleção porque o técnico é Dorival.

Prestigiar ex-comandados de qualidade duvidosa é um critério ruim, que atrai justificadas críticas. O próprio Beraldo, revelado no São Paulo, não é um zagueiro consolidado. Bremer, da Juventus (Itália), vive momento melhor, disputando um campeonato mais competitivo.

A outra escolha alvejada pelos corneteiros é a de Murilo, do Palmeiras, alvo de uma óbvia barbeiragem. Dorival confundiu o palmeirense com Murillo, do Nottingham Forest, eleito seguidamente melhor zagueiro da principal liga europeia. 

No meio, mais problemas. Entre os convocados para o setor não há um meia de ofício que tenha capacidade criativa. Quem mais se aproxima dessa condição é Lucas Paquetá, utilizado por Tite como meia de ligação, mas de atuações pouco convincentes, inclusive na Copa 2022.

Além de figuras carimbadas, como Casemiro, Dorival só chamou volantes: Bruno Guimarães, do Newcastle; Douglas Luiz, do Aston Villa, e João Gomes, do Wolverhampton. Completam o grupo Andreas Pereira, também volante do Fulham; André, do Fluminense, e o já citado Pablo.

Alguém lembrou que há uma longa estiagem de meias especialistas no Brasil. É fato, muito por culpa de Neymar, que exerce esse papel no escrete de forma dúbia. Carrega o número 10 às costas e conduz a bola o tempo todo, desprezando o manual da posição, que prevê lançamentos e troca de passes no repertório. Raphael Veiga, do Palmeiras, não foi lembrado.  

No ataque, Dorival prestigiou Richarlyson e ignorou Vítor Roque. Como é apenas a primeira lista, cabe relativizar os problemas e torcer (muito) para que esse grupo gere um time competitivo para enfrentar as seleções da Inglaterra e Espanha. A ausência de Gabriel Jesus já ajuda bastante.

Bola na Torre

Com apresentação de Guilherme Guerreiro, o programa começa às 22h, na RBATV, com participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense. Em pauta, a rodada final da fase classificatória do Campeonato Paraense. A edição é de Lourdes Cezar.

Papão joga para garantir a liderança do campeonato

Diante do Castanhal, na Curuzu, o Papão pode surgir inteiramente modificado em relação aos últimos jogos no Parazão. Hélio dos Anjos tem a chance de utilizar uma formação bastante modificada: Diogo Silva; Michel Macedo, Luan, Carlão (ou Naylhor) e Geferson; João Vieira, Leandro Vilela e Biel; Edinho, Leandro e Esli Garcia.

O jogo vale muito para o Castanhal, que briga desesperadamente pela classificação, mas para o PSC significa o fechamento da campanha na primeira fase do Parazão. O time está classificado, com 17 pontos, e dificilmente deixará escapar a liderança.

Com a necessidade de recuperação dos titulares depois da desgastante viagem a Rondônia para a estreia na Copa do Brasil, o time pode ter algumas alterações, como a entrada do estreante Geferson na lateral esquerda e a presença de Esli Garcia e Edinho no ataque.  

Já o Remo, também garantido na próxima fase do Parazão, vai a Bragança em busca de reabilitação na competição depois do empate em casa com o São Francisco, que causou a demissão do técnico Ricardo Catalá.

Agnaldo de Jesus vai dirigir a equipe e deve ter mudanças no setor defensivo e no meio-campo, pois Ligger e Henrique estão pendurados com dois amarelos e devem ser poupados. No ataque, o criticado Ribamar será mantido. Mais do que mudar peças, o Leão precisa de uma nova atitude.

Mais de 60 mil votos na 1ª parcial do Troféu Camisa 13

As torcidas já estão em contagem regressiva e há muita expectativa para o anúncio oficial da primeira parcial de votação do Troféu Camisa 13. Será na terça-feira, 5, durante o programa Camisa 13/RBATV, às 6h30.

Além de divulgar a seleção dos melhores da primeira fase do Parazão, serão sorteados prêmios aos “técnicos torcedores”, responsáveis pelos mais de 60 mil votos já contabilizados para a primeira parcial.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 03)

Rock na madrugada – Pearl Jam, “Love Boat Captain”

POR GERSON NOGUEIRA

Grande momento da discografia do Pearl Jam, a banda que (quase) nunca erra – segundo a quase totalidade dos críticos de rock que merecem ser levados a sério. Todos os elementos do grunge – guitarras distorcidas, baixo impecável, bateria seca e melodia forte – estão reunidos em “Love Boat Captain” (Capitão do Barco do Amor), que foi inspirada na dor e na tristeza.

A chave de tudo está no verso “perdemos nove amigos que nunca conheceremos”. A composição, de Eddie Vedder (letra) e Kenneth ‘Boom’ Gaspar (tecladista que acompanha a banda), é um tributo aos nove jovens que morreram em consequência da superlotação de um show na Dinamarca. O grupo ficou tão abalado com a tragédia que chegou a aventar a possibilidade de encerrar atividades.

Inclusa no álbum Rio Act (2002), o sétimo do PJ, a canção fala de dor, sofrimento, amor e redenção, com direito até a uma citação dos Beatles – “Tudo o que você precisa é amor” (do clássico “All You Need Is Love”) – para encerrar pacificamente com: “Capitão do barco do amor, assuma as rédeas, nos leve à calmaria”.

Em tempo, a morte dos nove fãs da banda aconteceu na noite de 30 de junho de 2000, no Roskilde Festival, na Dinamarca. Eles foram pisoteados ao tentar correr para junto do palco, sendo que mais 26 pessoas ficaram feridas durante o show.

Dois meses depois do fatídico episódio, Vedder comentou sobre Roskilde numa entrevista ao site oficial do Pearl Jam, citando o amigo Chris Cornell. “Nunca falei com ninguém sobre Roskilde. Foi a experiência mais brutal que tivemos e eu ainda estou tentando lidar com isso. Logo antes de irmos para o show, recebemos um telefonema. Chris Cornell e sua esposa, Susan, tiveram uma filha naquele dia… E também uma pessoa que cuidava do som teve que sair mais cedo, porque a esposa dele iria ter um filho. Aquilo me levou às lágrimas, porque eu estava tão feliz, sabe? Nós estávamos subindo ao palco naquela noite com dois novos nomes em nossas cabeças, mas em 45 minutos tudo mudou”.

Relataria anos depois que se tornou amigo de algumas das famílias que perderam filhos naquela noite na Dinamarca, procurando entender a dor dos pais. “Love Boat Captain” traduz tudo isso em forma de canção – e que canção.

Rock na madrugada – Keith Richards, “I’m Waiting For the Man”

POR GERSON NOGUEIRA

O velho Keef dá uma pausa em suas tarefas com os Rolling Stones para tributar postumamente Lou Reed, cujo aniversário é nesta sexta-feira (01), executando com extremo apuro esse clássico do líder do Velvet Underground. Mesmo quando se arvora a fazer cover, Richards arrebenta. Sobre o amigo, ele disse: “Para mim, Lou se destacou. Algo importante para a música americana e para TODAS AS MÚSICAS! Sinto falta dele e de seu cachorro”. Nada mais Keith do que a frase solta, bem humorada, brincando com um tema sério.

Pela passagem do natalício de Lou Reed, Keith Richards foi convidado a gravar uma música do cantor e compositor. Escolheu “I’m Waiting for the Man”, uma joia do repertório do nova-iorquino indomável. O single digital e o videoclipe já foram lançados e integram o álbum The Power of the Heart: A Tribute to Lou Reed, que traz participações de gente muito boa: Joan Jett and the Blackhearts, Rufus Wainwright, Maxim Ludwig. & Angel Olsen, Rickie Lee Jones, Bobby Rush, Automatic, The Afghan Whigs, Rosanne Cash e Keith, claro.

Lou Reed foi um ícone do rock alternativo do final dos anos 1960. Desde que começou com o Velvet em 1967, até o fim da vida, foi um cronista de olhar enviesado sobre seu tempo. Viveu sempre no limite entre realidade e delírio. O álbum The Power of the Heart é um tributo à liberdade criativa de Lou. Cada faixa selecionada é uma lufada de rock’n’roll puro, melódico e vanguardista, como bem diz o folheto que anuncia o trabalho.

Assassinato de famintos em Gaza e a falta de pudor do Jornal Nacional

Os grandes veículos de mídia minimizam a matança promovida em território palestino

Por Chico Alves (*), no ICL Notícias

Por muitas vezes, a imprensa brasileira foi cúmplice em episódios vergonhosos que marcaram história no noticiário local e também internacional. No âmbito doméstico, logo vem à lembrança a campanha sensacionalista contra Getúlio Vargas, que o levou ao suicídio; o apoio inicial ao golpe militar de 1964; a parceria nas atrocidades jurídicas da Lava Jato e a naturalização do extremista Jair Bolsonaro, que facilitou sua chegada ao poder.

No campo internacional, a imprensa local fez várias manchetes elogiosas a Hitler, no início de sua trajetória; apoiou o assassinato promovido pelos Estados Unidos na guerra do Vietnã e avalizou a falsa versão do governo norte-americano de que o Iraque foi o responsável pelo ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

A nova vergonha em curso é a cobertura do massacre que Israel impõe à população civil de Gaza, usando os métodos mais cruéis de extermínio contra mulheres, crianças e doentes. Desde 7 de outubro, quando os terroristas do Hamas invadiram Tel Aviv, matando mais de mil pessoas e fazendo reféns cerca de 200, os grandes veículos de mídia minimizam a matança promovida em território palestino pelo governo de Benjamin Netanyahu.

Ontem, testemunhas relataram a ação de militares israelenses que atiraram contra palestinos famintos na fila da comida. Atingidas pelos disparos ou pisoteadas pela multidão que fugiu do ataque, 112 pessoas morreram.

O episódio chocou o mundo, mas não os responsáveis pelo principal telejornal brasileiro. Líder de audiência, o Jornal Nacional, chamou dessa forma a notícia em sua abertura, na voz de Renata Vasconcelos:

“Um tumulto na entrega de ajuda a palestinos deixa dezenas de mortos e feridos na Faixa de Gaza”. Isso mesmo, um “tumulto” foi o motivo das mortes, para o Jornal Nacional. Aparentemente um mero problema de logística causou a tragédia.

Na apresentação da matéria, o mesmo “tumulto” voltou a ser acusado pelas mortes. Nos 3 minutos e 30 segundos da reportagem, a fala do porta-voz do governo de Israel prevaleceu amplamente e apenas três frases foram concedidas a autoridades que acusaram as forças israelenses pelo massacre, rápidas citações ao Hamas, a Mahmoud Abbas e ao embaixador palestino nas Nações Unidas. Mais de 90% do tempo foi dedicado a desviar o foco do horror causado pela matança.

O jornal Estado de São Paulo seguiu esse caminho ignominioso e estampou a chamada na primeira página segundo a qual “Morte na fila da ajuda em Gaza trava possível trégua, diz Biden”. O texto abaixo começa dizendo que “segundo Israel, vítimas morreram pisoteadas”.

O Globo optou por caminho diferente do Jornal Nacional e manchetou que “Mais de cem palestinos são mortos ao buscar ajuda humanitária” e, de forma correta, cita no texto que Hamas e testemunhas acusam ataque a tiros de Israel.

A abordagem mais condizente com a crueldade do episódio foi a da Folha de São Paulo, que não teve meias-palavras: “Israel atira em multidão à espera de comida em Gaza”.

Infelizmente, como sabemos, a maior parte da população brasileira se informa através da TV. O número de leitores que buscarão pela leitura nos jornais impressos ou mesmo redes sociais os detalhes do assassinato de palestinos na fila da comida é bem menor do que o número de telespectadores que assistiram ontem à apresentadora e a repórter do JN se desdobrando para minimizar o fato.

E assim, mais uma vez, gigantes da imprensa nacional (a TV Globo e o Estadão) atuam para desinformar o público brasileiro sobre um importante momento da história.

Pode-se dizer que são cúmplices da barbárie?

(*) Jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro ‘Paraíso Armado’, sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Atualmente é editor-chefe do site ICL Notícias.