Muvucas típicas de pré-decisão

unnamed (82)

Por Gerson Nogueira

A primeira sexta-feira sem jogo na Copa acabou jogando luzes sobre os preparativos finais dos times que abrem a fase eliminatória. Brasileiros, chilenos, uruguaios e colombianos estão no centro das atenções mundiais. Óbvio que é sobre o Brasil, favorito ao título e anfitrião, que se concentram as maiores expectativas. Ciente disso, o técnico Felipão preferiu encher linguiça na entrevista do dia e foi buscar nos desvios do tempo um personagem desconhecido. Falou de Paulo César Tatu, um obscuro boleiro dos anos 70, com quem jogou nos tempos de zagueiro.

Mais um dos truques de Felipão para descontrair a entrevista coletiva obrigatória e tentar escapar de perguntas inconvenientes. Aliás, Tatu entrou e saiu da conversa sem maiores explicações. Mas deve se entender como inconveniência a obrigatoriedade de comentar a tremenda responsabilidade sobre as costas da Seleção Brasileira e abordar a pressão que os chilenos estão fazendo em cima da arbitragem.

Felipão foi direto sobre a ansiedade e as cobranças sobre os jogadores. Não fugiu do pau. Bem ao seu estilo, disse aos jornalistas que lotavam a área de imprensa que existe o risco de eliminação precoce nas oitavas, mostrou respeito pelo Chile e considerou que o grupo está preparado psicologicamente para as dificuldades embutidas nas fases eliminatórias.

Sobre as insinuações quanto a possível favorecimento dos árbitros à seleção anfitriã, Felipão se armou para responder, mas foi prontamente interrompido pelo assessor da CBF Rodrigo Paiva, que fez um breve discurso em tom irritado. Disse, em resumo, que o Brasil pentacampeão do mundo merece respeito e que a pressão do Chile não se justifica. Exagerou um pouco ao avaliar que o povo brasileiro teria sido ofendido pelos chilenos.

Mais do que as arengas naturais de véspera de decisão, Felipão tem mesmo que se preocupar é com a arrumação do time que vai pegar seu maior desafio no torneio até agora. Com a entrada de Fernandinho já definida, resta confirmar se Maicon entra na lateral direita e se David Luiz (que não terminou o treinamento do dia) terá ou não condições de jogo.

Sem David Luiz, Dante entra na zaga e altera bastante a maneira de atuar da Seleção ali atrás. David sai mais, chegando a contribuir com tentativas de lançamento. Dante joga mais fixo, como Tiago Silva. O dado positivo é que acrescenta um potencial agressivo nas bolas aéreas.

De todas as modificações possíveis, a entrada de Fernandinho é a que mais interfere no jeito de atuar da Seleção. Ao contrário de Paulinho, que ficava mais recuado na versão atual, o volante do Manchester avança e sai bastante para o jogo. Vai tornar o time mais agudo e vertical, embora menos reforçado na marcação, obrigando Hulk a voltar para guarnecer suas subidas.

————————————————————

Chile vai concentrar marcação em Neymar

Do lado chileno, Jorge Sampaoli foi bem menos explícito que Felipão. Com as protocolares palavras de respeito pelo Brasil, o argentino deixou claro que sua preocupação é mesmo em relação a Neymar. Não menosprezou os demais brasileiros, mas elegeu o camisa 10 como alvo de sua atenção. Deu a pista de que pode impor marcação individual ao craque da Seleção, observando que se movimenta muito e flutua por todas as faixas do campo.

O técnico do Chile projeta um jogo diferente do que seu time vem praticando na Copa. Como o Brasil verticaliza jogadas, mas pouco valoriza a posse de bola no meio, avalia que o embate será amarrado no meio e que os contragolpes devem decidir a parada. Penso como ele, mas considero que a pressão inicial da Seleção pode mudar radicalmente o panorama do confronto. Um gol logo nos primeiros minutos servirá para alterar toda a programação da véspera.

————————————————————

Dilma acerta em comparecer à final

Sem medo de vaias ou xingamentos, que tanto constrangimento provocaram por ocasião da abertura da Copa do Mundo na Arena São Paulo, a presidente do Brasil vai mesmo entregar a taça aos campeões do mundo, depois da partida final, dia 13 de julho, no Maracanã. Não haverá discurso, apenas a presença da principal autoridade do país na entrega do troféu ao capitão da seleção vencedora.

Sem as manifestações que tantos profetas davam como certas para bagunçar a Copa, Dilma Rousseff irá cumprir o ritual que historicamente é cumprido nos mundiais de futebol. Faz muitíssimo bem. Representará todos os brasileiros, na condição de legítima presidente de um país democrático. Além disso, a mulher que enfrentou tantas violências físicas e psicológicas na luta contra a ditadura militar não pode amofinar diante de um grupelho de mal-educados.

————————————————————

Imprensa enaltece hospitalidade brazuca

Com destaque crescente na análise dos grandes veículos da mídia internacional, a aprovação à amabilidade do povo brasileiro é publicamente explicitada em pesquisa divulgada ontem. O levantamento indica que 30% dos jornalistas que cobrem a Copa no Brasil. Alegria, sensação de segurança, clima e beleza natural são outros itens destacados pelos profissionais estrangeiros. Eles responderam à pergunta sobre o que mais agradou aos visitantes.

De negativo, há queixas quanto a preços de serviços e produtos, além de um quase unânime queixume sobre o trânsito nas cidades-sede do Mundial, com ênfase para São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

————————————————————

Valcke receita tratamento; Tabarez ganha aplausos 

O secretário geral da Fifa surpreendeu com uma frase coerente em relação a Luis Suárez. Indagado sobre a pena aplicada ao jogador pela mordida em Chiellini, o francês Jerôme Valcke disse que o atacante precisa de tratamento. Ninguém tinha tocado nesse delicado tema ao abordar o caso, mas Suárez parece ter de fato problemas de agressividade e dificuldades de sociabilidade, fazendo por merecer já há algum tempo assistência especializada.

Valcke só não explicou os motivos da desumana cena de expulsão do jogador da concentração uruguaia. A virulência do ato de oficialização de seu desligamento é, desde já, o momento mais triste desta Copa das Copas.

Recebido como herói pela torcida uruguaia, Suárez continua sem admitir ter errado. Seu silêncio estimula o sentimento de que foi vítima de uma ação orquestrada, como defendem até jornalistas sérios do Uruguai. Por sorte, o professor (é mestre de verdade) Oscar Tabarez foi o primeiro a reconhecer que seu jogador teve uma conduta inadequada, embora criticando o excesso de rigor da pena.

Informou que o Uruguai vai entrar forte hoje contra a Colômbia, sem sentir os efeitos emocionais da perda de seu principal jogador. Figura de fino trato, Tabarez merece todos os aplausos ao final do pronunciamento à imprensa.

————————————————————

Nas Gerais, clássicos reverenciam o futebol

O clima pré-jogo em Belo Horizonte é dos mais animados, justificando a fama de cidade que ama futebol, dividida que é entre duas paixões centenárias. Cruzeirenses e atleticanos terão a oportunidade rara de unir forças e vozes hoje à tarde na Arena Mineirão. E devemos ter, pela primeira vez, uma torcida com bom gosto para a trilha sonora do espetáculo, afinal vêm de Minas algumas das canções brasileiras mais inspiradas sobre futebol.

A já clássica “Uma partida de futebol”, do Skank, é apenas parte de uma coleção admirável, que inclui a belíssima “Bola de meia, bola de gude” (Milton Nascimento/Fernando Brant) e “País do futebol”, que o próprio Milton celebrizou. Se depender de música para seguir em frente, a Seleção pode se considerar muito bem servida.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 28) 

Craque holandês ganha camisa de Mané

unnamed
Um dos destaques da fase de grupos da Copa do Mundo, o Robin van Persie afirmou que se inspira em Garrincha. Clube que Mané mais defendeu no Brasil, o Botafogo aproveitou a oportunidade e presenteou o holandês com a camisa 7 alvinegra, eternizada por Mané. “Que legal. Fiquei muito feliz em receber essa camisa do Garrincha, agradeço muito ao Botafogo pela lembrança”, afirmou Van Persie, que, na última semana, havia revelado admiração por Garrincha, ao ser perguntado sobre o que conhecia do futebol brasileiro.
“O que vi no último ano e meio foram melhores momentos de Seedorf no Botafogo, talvez um pouco do Ronaldinho. E não vi muito mais. Mas assisti a um filme anos atrás quando eu era um garoto, sobre o Garrincha. Aquilo me inspirou, moldou a minha vida no futebol. Como ele jogava, era rápido, sempre marcava belos gols. Foi minha primeira experiência, quando criança, com jogadores brasileiros”, detalhou.
O encontro do holandês com os botafoguense aconteceu com o apoio de André Bahia (zagueiro do Botafogo que jogou por sete anos no Feyenoord), Wijnaldum (meia holandês) e Seedorf. O gerente de Negócios do clube, Fabio Monterosso, foi ao hotel em que a seleção da Holanda está hospedada e entregou a camisa.
Confira a tradução da carta (originalmente em inglês) enviada pelo Botafogo:
“Caro Van Persie,
Muito nos orgulha saber que Garrincha, nosso grande ídolo, foi inspiração para a sua carreira. Pode ter certeza de que com essa demonstração de carinho a Holanda está no coração do torcedor botafoguense.
É também enorme a satisfação de ver que a genialidade tem o acompanhado na Copa do Mundo. Van Persie, você está fazendo história.
Aceite esta lembrança do Botafogo FR. Será um enorme prazer para nós vê-lo com a nossa camisa gloriosa.
Saudações Alvinegras!”. 

Balotelli sofre críticas e anuncia apoio ao Brasil

A eliminação da Itália ainda na primeira fase da Copa do Mundo gerou uma série de críticas aos jogadores da Squadra Azzurra, especialmente a Mario Balotelli. Em seu perfil oficial no Instagram, o atacante desabafou e respondeu a um torcedor que o acusou de não ser um italiano de verdade.O jogador ainda manifestou sua torcida pela seleção brasileira no restante do Mundial.

Balotelli nasceu na cidade de Palermo e seus pais são de Gana. O jogador tem sido vítima frequente de manifestações racistas, seja quando atua pelo Milan ou pela seleção italiana. Ele se isentou de qualquer culpa pela eliminação italiana, confirmada com a derrota por 1 a 0 para o Uruguai nesta terça-feira.

“Sou Mario Balotelli, tenho 23 anos e não escolhi ser italiano. Quis muito por ter nascido na Itália e sempre ter vivido na Itália. Queria muito esta Copa e estou triste, desiludido e irritado comigo mesmo. Se talvez pudesse fazer um gol na Costa Rica, teria razão, mas e daí? Qual o problema? O que você quer me dizer é tudo isso?”, questionou Balotelli, referindo-se ao torcedor que o acusou de não ser italiano em um vídeo reproduzido pelo jogador em seu perfil (“Mario, sabe qual é a questão? Você não é verdadeiramente italiano. Retire-se”, disse o torcedor).

O atacante aproveitou para se eximir de alguma culpa sobre a queda da Itália. “Não a coloco apenas sobre mim desta vez, porque Balotelli deu tudo pela seleção e não errou nada em nível de caráter. Portanto, procure outro desculpa, porque Balotelli tem a consciência limpa e está pronto para seguir em frente ainda mais forte e com a cabeça erguida”, escreveu, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa.

Por fim, Balotelli disse que jamais seria maltratado pelos africanos. “Tenho orgulho por dar tudo ao seu país. Ou talvez, como você disse, não sou italiano. Os africanos nunca tratariam um irmão assim. Quanto a isto, nós, negros, como você nos chamou, estamos anos-luz à frente. Vergonha não é quem erra um gol ou corre mais ou menos. Vergonhosas são estas coisas. Verdadeiros italianos. Sério?”, rebateu.

Em outra postagem, o atacante deixou uma mensagem em português aos seus fãs. Ele agradeceu aos brasileiros e disse para quem vai torcer agora na Copa: “Valeu, Brasil! A Copa não foi ótima para mim, mas estar com vocês foi nota 10! Os brasileiros estão no meu coração e deixam saudades… Agora mostrem que são o país do futebol e sejam os reis desta festa! Vai, seleção!”

A pena mais dura dos mundiais

Por Gerson Nogueira

O afastamento sumário de Luis Suárez prejudica tecnicamente a Copa por privá-la de um atacante em grande forma, mas tem o aspecto salutar de punir um ato que destoa da essência do futebol como esporte. A mordida que o uruguaio desferiu no italiano Chiellini agride o conceito de jogo limpo, tão defendido pela Fifa ao longo das últimas Copas.

Pode-se questionar o rigor da pena, afinal nove jogos parecem um exagero em comparação com outras infrações de jogo. O Comitê Disciplinar da entidade, que tem histórico de inclemência em relação a gestos antiesportivos, entendeu que a agressão foi fora da disputa normal de bola.

Suárez é reincidente em atitudes dessa natureza. Já foi punido na Holanda e na Inglaterra, onde pegou 10 jogos de gancho por morder Ivanovic, do Chelsea, no ano passado. A sentença tira o artilheiro uruguaio da Copa do Mundo, estabelece multa pesada (cerca de R$ 250 mil) e afastamento de qualquer atividade no futebol por quatro meses, incluindo partidas do Liverpool e presença em estádios.

Significa, em outras palavras, que Suárez passa a ser visto como um delinquente do esporte. Para a Fifa, seu comportamento é intolerável em um campo de futebol, ainda mais na disputa de uma Copa do Mundo, assistida por milhões de pessoas no mundo inteiro.

É a maior punição já determinada pelo Comitê Disciplinar na história da Fifa e, como todos os atos delituosos previstos no código interno da entidade, é passível de recurso, mas enquanto a apelação da Federação Uruguaia não for julgada, ele terá que cumprir a suspensão nos jogos oficiais da seleção uruguaia já a partir deste sábado – confronto com a Colômbia pelas oitavas de final.

unnamed

Depois do mundial, Suárez não poderá atuar na próxima Copa América e das eliminatórias para a Copa de 2018. Os artigos violados pelo ídolo uruguaio são o 48, parágrafo 1 do Código Disciplinar, e o 57.

Em conversa com jornalistas uruguaios no Centro de Imprensa da Fifa é possível perceber o ressentimento pelo que consideram uma pena exageradamente dura para Suárez. Deixam no ar a insinuação de que o goleador foi punido porque poderia representar uma ameaça ao Brasil, caso as duas equipes se defrontassem nas quartas de final.

Independentemente do raciocínio delirante, é preciso mergulhar na alma uruguaia para compreender essa reação. Para torcedores, jornalistas e jogadores da Celeste, determinadas atitudes não configuram anormalidades. Desde a infância aprendem a gostar do futebol raçudo e sanguíneo. Provocar, dar cusparadas, esbofetear adversários e peitar árbitros é parte desse arsenal de recursos, considerado plenamente válido quando o objetivo é vencer.

Na quarta-feira, o zagueiro Lugano já havia escolhido como alvo de sua ira a “imprensa brasileira”. Segundo ele, jornais e emissoras de TV do Brasil estariam amplificando episódio menor e normal, utilizado como forma de “desestabilizar emocionalmente” o jogador adversário. Parece um mero exagero verbal, mas a frase resume o pensamento médio dos uruguaios sobre futebol.

Desde Obdulio Varela que o Uruguai se aferrou à tese de que vencer jogos é questão de vida ou morte. As batalhas campais promovidas em inúmeros jogos da Libertadores confirmam essa vocação guerreira, que colide com o verdadeiro sentido do esporte mais popular do mundo. Suárez tem um passado de brigas nas divisões de base do Nacional, produto de uma infância problemática, segundo a própria imprensa de seu país.

Que ninguém se iluda: para os uruguaios, Suárez cometeu apenas um leve deslize, pelo qual não merecia qualquer punição. Para eles, ficará a convicção de que seu banimento foi imposto visando beneficiar diretamente o Brasil, que não aceita sofrer nova derrota em Copas.

É um jeito de pensar que tem a dupla utilidade de preservar a tradição guerreira e alimentar a vaidade, ao considerar que o Uruguai seria de fato o maior empecilho aos planos brasileiros de levantar a taça.

Ainda bem que o bom José Mujica, apesar de estimular a lorota de conspiração contra a seleção de Oscar Tabarez, admitiu que de Luizito Suárez não se pode esperar gestos delicados ou gentilezas. Melhor ainda se saiu Gigghia, que reprovou publicamente o gesto de Suárez, lembrando que não tinha o direito de fazer isso como representante de um país.

Por justiça, vale lembrar que, em 1994, o lateral brasileiro Leonardo foi punido com quase igual rigor por ter aplicado uma cotovelada no rosto de um jogador norte-americano. Pegou suspensão de sete jogos e desfalcou a seleção que viria a se sagrar pentacampeã do mundo.

————————————————————

E se o réu pedisse perdão?

A severidade da punição repercutiu muito no mundo do futebol, com alguns jogadores admitindo a dificuldade em aceitar uma condenação tão rigorosa e outros reconhecendo a necessidade de punição. Fred chegou a dizer que no calor dos acontecimentos esse tipo de atitude pode acontecer, lamentando que Suárez esteja fora da Copa.

Fica, porém, a tristeza pela ausência de um pronunciamento do próprio jogador. Reconhecer publicamente o erro seria o primeiro passo para que seu gesto fosse abrandado e sua pena pudesse ser revista. A recepção festiva a Suárez ontem em Montevidéu, dando a ele o tratamento de vítima, indica que esse gesto nobre de admitir o erro jamais vai acontecer.

————————————————————

Mudanças devem

dinamizar o jogo

Felipão finalmente deu o passo que se esperava. Entendeu que a meia cancha do escrete ia mal das pernas e que Paulinho era o responsável direto por isso, embora não o único. Como entrou bem na partida contra Camarões, Fernandinho tem a primazia de ocupar aquele espaço na intermediária onde a Seleção mais precisa de dinamismo e rapidez.

Na Copa das Confederações, o jogo intenso que começava no meio-campo acabava se irradiando pelos demais setores do time. Com isso, o Brasil saía forte para o ataque, levando a melhor nas investidas pelas laterais e também nas ações concentradas pelo meio do ataque.

Foi uma campanha irretocável, embora sem deixar saudades a respeito da velha troca de passes, tão cara a quem aprecia o jeito clássico de jogar bola. O Brasil que Felipão formatou para a Copa do Mundo tem muito a ver com aquele do torneio preparatório, mas convive com mudanças de comportamento por parte dos adversários.

Nenhum dos times enfrentados na primeira fase permitiu que os corredores laterais fossem ocupados pelos jogadores brasileiros. Até o México, que não prioriza o jogo pelos lados do campo, dedicou atenção especial a essa área tão explorada pela Seleção.

São evidências de que o Brasil da Copa das Confederações foi cuidadosamente estudado e mapeado pelos oponentes. Ninguém entra desprevenido contra Marcelo e Daniel Alves, alvos principais de marcação e combate. Com os alas vigiados, resta a Felipão preparar melhor seus meio-campistas, que dispõem de mais espaço para manobrar.

Luiz Gustavo faz uma boa Copa, mas Paulinho não reeditou as atuações de um ano atrás. Sua saída vai forçar uma recomposição de papéis do meio para frente. Oscar tende a se aproximar mais de Fernandinho, enquanto Hulk deve ficar próximo a Luiz Gustavo, como complemento e escolta.

A modificação era esperada desde o segundo jogo e Felipão chegou a pensar em escalar Hernanes, mas a boa presença de Fernandinho fez com que alterasse seus planos. Resta agora a questão da lateral direita, onde Maicon também pode ganhar uma chance, substituindo a um cansado e pouco inspirado Daniel Alves.

———————————————————–

Apagão germânico diante de Tio Sam

Sob chuva, a Alemanha derrotou os Estados Unidos com um futebol que em nada lembrou aquela dinâmica massacrante empregada contra Portugal na estreia. A força ofensiva do time só se manifestou duas vezes, através de Thomas Muller. No meio-de-campo, o time se embaraçou muito com a marcação apenas razoável dos americanos.

No final da partida, visivelmente desinteressada, a Alemanha permitiu que os Estados Unidos ameaçassem de verdade o gol de Neuer. Em dois momentos, Tio Sam cercou a pequena área e esteve a pique de empatar. Não foi evidência de grande futebol dos americanos, mas deixou claro que a poderosa seleção germânica tem seus momentos de apagão.

———————————————————-

CR7 deixa marca, mas decepciona

 

Cristiano Ronaldo sai devendo muito da Copa que tinha tudo para ser a sua Copa. Fez gol contra Gana e inscreve seu nome na história como único português a marcar seguidamente em três mundiais – 2006, 2010 e agora. Badalado e rico, eleito melhor do mundo pela Fifa, o craque do Real Madri chegou cercado de expectativas e desconfianças. No fim das contas, a pífia campanha lusitana e sua discretíssima performance deram plena razão aos desconfiados.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 27)

Suspensão de Suárez é a maior das Copas

A decisão do Comitê Disciplinar da Fifa, anunciada na manhã desta quinta-feira (26), de suspender o atacante uruguaio Luis Suárez por 9 jogos pela mordida dada no ombro esquerdo do zagueiro Chiellini é a mais pesada punição por um ato violento cometido em campo ocorrida dentro da disputa de uma Copa do Mundo.

Nem episódios lendários da história dos Mundiais, envolvendo agressões do brasileiro Leonardo e do italiano Tassotti, em 1994, e do francês Zidane, em 2006, receberam da Fifa uma resposta tão severa.

A cotovelada desferida pelo lateral-esquerdo Leonardo, nas oitavas-de-finais, contra o americano Tab Ramos durante a vitória por 1 a 0 do Brasil contra os Estados Unidos, por exemplo, rendeu suspensão de 4 jogos, o que tirou o jogador do resto do Mundial disputado em território americano. Na fase seguinte, o defensor Tassotti também deu uma cotovelada, no espanhol Luís Enrique. Levou oito jogos de suspensão e não pode disputar a semifinal e a final da Copa daquele ano.

Em 2006, em uma das cenas mais emblemáticas da história das finais das Copas do Mundo, o meia francês Zidane respondeu às provocações do zagueiro italiano Materazzi com uma cabeçada no peito do adversário. Foi expulso pelo árbitro argentino Horácio Elizondo. Como já havia anunciado sua aposentadoria após o Mundial da Alemanha, recebeu apenas uma multa, de 7,5 mil francos (cerca de R$ 13 mil, àquele época).

A suspensão de Luis Suárez – que além dos 9 jogos oficiais pela seleção uruguaia também foi banido do futebol por quatro meses, não podendo nem treinar por seu clube, e multado em cerca de R$ 250 mil – é a segunda decidida pela Fifa durante a disputada da Copa do Mundo realizada no Brasil. Após a segunda rodada, o volante camaronês Song tomou um gancho de três jogos por ter dado uma cotovelada nas costas do atacante croata Mandzukic.

Copa: o Brasil ganhou, a mídia perdeu

Por Luis Nassif

Já se tem o resultado parcial da Copa: reconhecimento geral – da imprensa nacional e internacional – que é uma Copa bem organizada, com estádios de futebol excepcionais, aeroportos eficientes, sistemas de segurança adequados, logística bem estruturada e a inigualável hospitalidade do povo brasileiro.

Vários jornais (internacionais) já a reconhecem como a maior Copa da história.

***

Agora, voltem algumas semanas atrás, pouco antes do início da Copa.

A imagem disseminada pela imprensa nacional – era a de um fracasso retumbante. Por uma mera questão política, lançou-se ao mundo a pior imagem possível do Brasil. O maior evento da história do país, aquele que colocou os olhos do mundo sobre o Brasil, que atraiu para cá o turismo do mundo,  foi manchado por uma propaganda negativa absurda. Em vez das belezas do país, da promoção turística, do engrandecimento da alma brasileira, da capacidade de organização do país, os grupos de mídia nacionais espalharam a imagem de um país dominado pelo crime e pela corrupção, sem capacidade de engenharia para construir estádios – justo o país que construiu duas das maiores hidrelétricas do planeta -, com epidemias grassando por todos os poros.

Um dos jornais chegou a afirmar que haveria atentados na Copa, fruto de uma fantasiosa parceria entre os black blocks e o PCC. Outro informou sobre supostas epidemias de dengue em locais de jogo da Copa.

***

O episódio é exemplar para se mostrar a perda de rumo do jornalismo nacional, a incapacidade de separar a disputa política da noção de interesse nacional. E a falta de consideração para com seu principal produto: a notícia.

Primeiro, cria-se o clima do fracasso.

Criado o consenso, abre-se espaço para toda sorte de oportunismos. É o ex-jogador dizendo-se envergonhado da Copa, é a ex-apresentadora de TV dizendo que viajará na Copa para não passar vergonha.

***

Tome-se o caso da suposta corrupção da Copa. O que define a maior ou menor corrupção é a capacidade de organização dos órgãos de controle. O insuspeito Ministério Público Federal (MPF) montou um Grupo de Trabalho para fiscalizar cada ato da Copa, juntamente com o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União. O GT do MPF tornou-se um case, por ter permitido economia de quase meio bilhão de reais.

***

Antes da hora, é fácil afirmar que um estádio não vai ficar pronto, que um aeroporto não dará conta do movimento, que epidemias de dengue (no inverno) atingirão a todos, que os turistas serão assaltados e mortos. Fácil porque são apostas, que não têm como ser conferidas antecipadamente.

Quando o senhor fato se apresenta, todos esses factóides viram pó.

A boa organização da Copa não é uma vitória individual do governo ou da presidente Dilma Rousseff. É de milhares de pessoas, técnicos federais, estaduais e municipais, consultores, membros dos diversos poderes, especialistas em segurança, trânsito, empresas de engenharia, companhias de turismo, hotelaria.

E tudo isso foi jogado no lixo por grupos de mídia, justamente os maiores beneficiários. Eram eles o foco principal de campanhas publicitárias bilionárias, sem terem investido um centavo nas obras. Pelo contrário, jogando diuturnamente contra o sucesso da competição e contra qualquer sentimento de autoestima nacional.