São Paulo finalmente encarna espírito da Copa

unnamed (70)

São Paulo amanheceu finalmente em clima de Copa do Mundo nesta quinta-feira. Ruas cheias de gente vestindo verde-amarelo, empunhando bandeiras, carros buzinando. Enfim, o tipo de movimentação que o maior torneio de futebol sempre provoca nas cidades, mas que aqui estava meio adormecido. As manifestações de rua deram espaço finalmente ao verdadeiro torcedor, que saiu para mostrar seu entusiasmo com a Seleção Brasileira e a fé no hexacampeonato.

Em torno da Arena Corinthians, em Itaquera, o movimento dos torcedores buscando as bilheterias começou antes de meio-dia, contrariando a velha máxima de que brasileiro deixa tudo pra cima da hora. Aqui, talvez em função do feriado, todos que compraram ingressos deram um jeito de chegar mais cedo, provocando filas cerca de cinco horas antes do jogo começar.

unnamed (69)

Das bolas de meia às arenas modernas

Por Gerson Nogueira

O futebol é o esporte que mais cativa e apaixona as pessoas. Todos os estudos confiáveis indicam isso. As razões são bem claras: é o jogo coletivo mais simples de entender e mais fácil de praticar. Nos campos de várzea e nos barrancos de todo o Brasil, os garotos aprendem a controlar a bola sem precisar calçar chuteiras ou tênis. E a bola não precisa ser oficial ou de marca. Até uma laranja serve, aquela meia velha também pode quebrar o galho. E assim caminha a humanidade.

Os maiores craques da história do futebol surgiram dessa maneira primitiva. Corriam e chutavam bolas improvisadas em áreas precárias, às vezes uma ruela, outras tantas um terreno baldio. Pelé, Garrincha, Zizinho, Danilo, Ademir, Jairzinho, Rivelino, Amarildo, Didi, Nilton Santos, Tostão, Romário, Sócrates, Zico, os Ronaldos e Neymar. Todos surgiram assim. Talvez por isso mesmo desenvolveram habilidade ímpar para dominar a pelota. Driblavam primeiro as dificuldades do terreno, antes de aprender a driblar os marcadores.
É o único elo entre o futebol dos primeiros tempos e o atual. Continuam a brotar craques dos rincões mais inóspitos do Brasil, mas o jogo mudou, virou negócio e passou a movimentar milhões de dólares a cada evento. A Copa do Mundo tornou-se um espetáculo de amplitude planetária, alavancada pela mídia e pelo televisionamento para todos os países. Ninguém fica indiferente aos seus encantos. Alguns contestam, protestam, vociferam, mas não ignoram a Copa.
Nas últimas duas edições, na Alemanha e na África do Sul, pude observar como o fascínio do futebol pode influenciar pessoas de formações tão diferentes. Normalmente frios e distantes, os alemães organizaram uma Copa vibrante, marcada por grandes festas públicas e envolvimento maciço da população. O jovem escrete pecou pela inexperiência e ficou em terceiro lugar, mas nem isso arrefeceu o entusiasmo dos anfitriões.
Há quatro anos, os sul-africanos desafiaram todas as previsões funestas, promovendo um mundial (quase) impecável. Em paralelo, o povo pontificou com sua alegria e hospitalidade. Mesmo os que não entendiam patavina de futebol estavam presentes aos eventos, festejando os Bafana-Bafana e aplaudindo os demais times.
Nas ruas e praças do Brasil, inicialmente hesitantes em relação à Copa, os últimos dias começam a marcar uma virada positiva. Bandeiras já estão desfraldadas e o torcedor decidiu sair à rua, extravasando como sempre faz há cada quatro anos. Seria trágico se a negativização da Copa surtisse o efeito que alguns buscavam. Seria patético se o país do futebol virasse as costas para o maior campeonato de futebol de todos os tempos. Felizmente, a festa vai acontecer, combinando a razão lógica das coisas com a emoção que une todos os brasileiros em torno de uma bola.
Aqui mesmo, no Media Center do Itaquerão, onde escrevo a coluna neste começo de noite de quarta-feira, não deixa de ser espantoso que um galpão de quase 10 quilômetros quadrados reúna, em autêntica babel, centenas de jornalistas de todos os continentes. Nos momentos de maior efervescência, o ruído soa tão forte e incompreensível como um imenso zumbido. Tantos profissionais da informação reunidos em um só lugar, como não ocorre em nenhum outro tipo de evento, permitem concluir que estamos mesmo diante da Copa das Copas.
E que todos, por um mês, tenhamos a sorte de ver um futebol que justifique tanta expectativa.
unnamed (66)
Estreias existem para testar nervos
Com as desconfianças normais que cercam toda estreia, o Brasil se exercitou na tarde de ontem no Itaquerão. Tiago Silva, o capitão, alvo de tantas dúvidas quanto ao condicionamento físico, correu como se nada sentisse. Neymar também treinou normalmente, sem acusar qualquer sinal de trauma pelo problema no tornozelo. São notícias que tranquilizam, principalmente se for levado em conta o inferno astral do adversário. A Croácia, cujas qualidades têm sido muito enaltecidas neste período pré-Copa, se ressente de oito desfalques em relação á lista original de convocados. Lesões seguidas golpearam os planos de aprontar uma zebra em tons quadriculados logo na abertura da Copa.
Caso se comporte como nos últimos amistosos e até mesmo na Copa das Confederações, o Brasil terá uma estreia sem maiores dramas, embora sem a moleza que os “pachecos” costumam esperar. Depois do superar o nervosismo natural dos primeiros movimentos, o time tende a se impor, abrindo caminho para a classificação.
A força do meio-de-campo, intenso na marcação e rápido nas saídas, deve ser a marca maior do esquema de Felipão hoje e ao longo do torneio. A conferir.
————————————————————-
A derrota do pessimismo
A presidente disse anteontem, em rede nacional, algumas verdades que precisavam ser ditas. Esclareceu pontos nebulosos que alguns espertos aproveitaram para distorcer e usar contra a Copa no Brasil. Foi fundamental, por exemplo, lembrar que os investimentos feitos para a competição não subtraem nada de setores tão carentes quanto educação, saúde, segurança e transporte. Pelo contrário, com os lucros que o país terá será possível atender necessidades que essas áreas têm hoje. Os ataques à organização do mundial compõem um cenário de inspiração político-partidária, que aposta na desinformação e prega a redenção do país em 30 dias, ignorando mais de 500 anos de desigualdades e imperfeições. Pretendem passar o Brasil a limpo em um mês, desafiando a inteligência das pessoas.
Tanto esforço derrotista acabou não funcionando. Contra os arautos da desesperança, Dilma lembrou que o Brasil foi capaz novamente de desmentir seus críticos, externos e internos. Tudo está pronto para que o país abrigue o maior torneio já realizado pela Fifa. Mas, para que seja perfeito, cabe à população recepcionar e tratar com carinho todos os visitantes. Este é o país do futebol, mas é também a terra da generosidade.
————————————————————
Palco à altura da grande estreia
Na primeira visita à Arena Corinthians para o começo dos trabalhos de cobertura da estreia do Brasil na Copa tem-se a impressão de que o estádio foi mesmo finalizado às pressas. De fora, na definição de Flávio Prado, lembra uma dessas impressoras modernas, até na cor de gelo.
Dentro, apesar de se diferenciar das demais arenas construídas para a Copa no Brasil, o Itaquerão é um belíssimo e confortável estádio. Lembra, inclusive, o formato do Ellis Park, em Johannesburgo, e a arena do Borussia, em Dortmund, na Alemanha.
Pelos amplos corredores, percebe-se a preocupação com ampliações futuras. Afinal, este é o estádio que pode fazer do Corinthians um dos maiores clubes do mundo.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 12) 

 

Mazola se despede alegando problemas pessoais

unnamed (65)

O técnico Mazola Junior se desligou oficialmente do Paissandu na tarde desta quarta-feira, confirmando a boataria em torno de sua saída desde a goleada sofrida para o Remo (4 a 1) no primeiro jogo da decisão. Dirigentes ainda desmentiram a demissão, mas correntes dentro do clube defendiam o afastamento imediato do treinador. Mazola alegou razões de ordem pessoal (“problemas familiares”) para não retornar a Belém depois do período de recesso da Copa. As polêmicas declarações na final do returno do Parazão podem também ter aumentado o desgaste de Mazola junto à diretoria.

Como comandante do time, ele obteve 41 vitórias, com aproveitamento de 61%. Ficou, porém, devendo um título à torcida que tantas vezes homenageou, dirigindo palavras de carinho e cativando com provocações dirigidas ao maior rival. A perda da Copa Verde e do Parazão no ano do centenário do clube pesaram bastante na avaliação final de seu trabalho pela diretoria do Papão.

A diretoria parte agora para a contratação de um substituto. Vica, muito citado depois da derrota frente ao Remo, volta a ser especulado. Mas Luiz Carlos Carioca também é mencionado. (Com informações da Ascom/PSC; foto: MÁRIO QUADROS)

Aquecimento para a abertura da Copa

134

132

A primeira impressão que se tem da Arena Corinthians, na distante Itaquera, é de uma espécie de impressora moderna, na feliz definição do irreverente Flávio Prado. Na parte interna, porém, é um belíssimo estádio de futebol, capaz de abrigar com conforto e segurança a abertura oficial da Copa do Mundo no Brasil. Ao passar pelos corredores e dependências destinadas à imprensa e autoridades da Fifa, percebe-se ainda um corre-corre dos operários, tentando fazer os últimos ajustes, botar os últimos pregos nas passarelas e paredes móveis.

Dentro do gramado, Felipão e os jogadores do escrete fazem o primeiro contato com o campo, sob os olhares de voluntários, funcionários e jornalistas. Na sala destinada aos jornalistas, movimentação intensa e sotaques de todo tipo. Não há dúvida, a Copa das Copas está começando agora.

137

Pronto para mais uma Copa

unnamed (48)

À espera do credenciamento, no Centro de Imprensa da Fifa, junto à Arena Corinthians (Itaquerão), na tarde da última segunda-feira. O processo de legalização foi rápido e, menos de dez minutos depois, recebi a credencial, que permite lugar nas tribunas de imprensa dos jogos e treinos e livre circulação pela área de mídia. A partir de agora, o escriba baionense está definitivamente habilitado para cobrir mais uma Copa, amigos e baluartes. Vamos ao hexa!

unnamed

Uma Copa com vários favoritos

Por Gerson Nogueira
Entre as seleções que disputarão a chamada Copa das Copas há um grupo que está no Brasil apenas passando uma chuva e deve permanecer no máximo até a terceira partida. Os outros, com diferentes graus de ambição e possibilidades, devem ir mais longe na estrada da competição. Isso nos leva naturalmente à pergunta mais frequente a esta altura do campeonato: quais os times favoritos para levantar o caneco.
Ora, por uma questão natural, o país-sede sempre tem boas chances. Dos que receberam a Copa nos últimos anos, somente mexicanos, norte-americanos, sul-coreanos, japoneses e sul-africanos não tinham chances concretas de título. Franceses e alemães fizeram Copas na condição de favoritos, embora só os patrícios de Asterix e Obelix tenham confirmado na prática as projeções.
Por esse raciocínio, o Brasil é favorito, e dos grandes. Não adianta fugir a isso, nem faria sentido. Com um técnico vencedor e experiente em Copas, a trajetória da Seleção deve ser tranquila na primeira fase, mas reserva um desafio terrível nas oitavas de final. Poderá ter de encarar a campeã mundial Espanha ou a vice-campeã Holanda. Se superar esse obstáculo, o time dificilmente será contido até a final.
Apenas um degrau abaixo do Brasil, aparecem outros favoritos respeitáveis. Espa, a atual detentora do título, e Alemanha estão nesse seleto grupo. Os dois times vêm com força completa, embora os alemães tenham jogadores importantes em recuperação. A dúvida em relação à Fúria diz mais respeito à capacidade de reproduzir o jogo envolvente e solidário do Mundial passado. A derrota acachapante para o Brasil na decisão da Copa das Confederações também semeou dúvidas quanto ao potencial da equipe de Vicente Del Bosque.
Incluo a Argentina no terceiro degrau. Apesar das instabilidades do time, é das poucas seleções favoritas que conta com um fora-de-série indiscutível. Lionel Messi, melhor jogador do mundo até 2013, não exibe o condicionamento de outras temporadas, mas ainda assim é um jogador acima da média. Outro aspecto particularmente favorável aos argentinos é o caminho a percorrer na Copa. Em situação normal, só devem enfrentar um adversário mais temível nas semifinais.
No quarto degrau, algumas equipes que podem surpreender, mas não fazem parte do primeiro pelotão. França, Inglaterra, Itália, Holanda, Uruguai e Portugal ocupam este honroso grupo, sendo que a França perdeu Ribbery e Portugal tem em suas fileiras o melhor futebolista do mundo. A Itália é sempre a Itália, capaz de façanhas inimagináveis, como em 1982 e 2006. O Uruguai, apesar das limitações, surpreendeu na África do Sul. A Holanda tem o velho estigma de chegar e não levar, mas é um time respeitável.
Chile, Bélgica, Croácia, Colômbia, Japão, Estados Unidos, Suíça, México, Bósnia, Rússia e Gana formam o contingente mais numeroso. São os azarões. Caso algum deles chegue ao topo, a Copa terá um vencedor inédito, como a Espanha em 2010. É possível, mas improvável.
No penúltimo degrau, ficam os que podem até fazer alguma ferida, mas não alimentam chance de conquista. Camarões, Equador, Costa do Marfim, Nigéria e Grécia integram essa tropa de sonhadores. Abaixo deles, Argélia, Costa Rica, Honduras, Coréia do Sul e Austrália, que realmente vieram fazer turismo às custas da Fifa.
unnamed (50)
————————————————————-
A presença que incomoda
O árbitro Yushi Nishimura já nos deu motivos para chorar. Apitou aquele fatídico Brasil e Holanda em Porto Elizabeth, na Copa da África do Sul, há quatro anos. Minha lembrança dele é mais do sorriso exageradamente gentil em direção aos jogadores. Lá, das cabines de imprensa, podia-se ver Nishimura desmanchando-se em mesuras, que só tinham o efeito de estimular a pancadaria. Os holandeses deitaram e rolaram, baixando o sarrafo em Robinho e Kaká. Este, aliás, sofreu um pênalti claro no primeiro tempo, que o japonês ignorou por completo.
Vencemos os primeiros 45 minutos com uma atuação impecável do time de Dunga. Aliás, a melhor atuação da Seleção Brasileira naquela Copa. Desgraçadamente, não por culpa específica de Nishimura, o Brasil naufragou diante da própria instabilidade emocional. Começou o segundo tempo com razoável tranquilidade, mas aos poucos se deixou envolver por um nervosismo que não combinava com a raça exigida pelo comandante.
Felipe Melo, espécie de representante de Dunga em campo, havia dado o passe preciso para Robinho fazer o gol, mas passou a distribuir pontapés e acabou ajudando Julio César a entregar o ouro em lance bobo, uma bola erguida por Snijder na área brasileira. O popular bumba-meu-boi. Pouco tempo depois, ainda mais destemperado, Melo desferiu um pontapé sem bola em Robben, sendo acertadamente excluído do jogo pelo árbitro.
Que a escalação de Nishimura sirva pelo menos para reavivar esse mau exemplo do futebol brasileiro em Copas, para que não tenhamos a lamentar mais à frente.
————————————————————-
Torcedor pode transformar a Copa 
As grandes cidades ainda parecem arredias, retardando um envolvimento emocional maior com a Copa. Em São Paulo, a população nas ruas parece mais a fim de demonstrar seu apoio nas últimas horas. Bandeirinhas começam a circular nos carros e ruas próximas ao centro começam a aparecer decoradas. Ainda é um movimento tímido, mas certamente deverá se multiplicar até a hora do jogo contra a Croácia.
Felizmente, em outras capitais, o carinho da população tem repetido o que se vê em todos os mundiais de futebol. Diante da presença de craques, como Messi, Cristiano Ronaldo, Thomas Müller, Iniesta, Rooney, Balottelli e Benzema, os torcedores se esmeram em demonstrar gentileza e carinho. A essência do cidadão brasileiro, cordial e receptivo, brota nesses momentos.
Há muito tempo que o Brasil esperava pela chance de sediar de novo uma Copa. Tanta espera não pode se desfazer em atos de oposição ao Mundial e em resmungos em relação aos visitantes, sejam eles atletas, técnicos ou simples turistas. Os moradores de São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro, Natal, Manaus, Brasília, Cuiabá e Porto Alegre têm a imensa responsabilidade de tornar a Copa a festa que todos sonhamos.
Ainda há tempo para isso.
———————————————————–
Suarez: a alma de um valente

Nem os jornalistas uruguaios acreditam que Luizito Suarez conseguirá ser o atacante esperto, raçudo e oportunista de sempre nesta Copa do Mundo. Ameaçado de corte depois de uma cirurgia de alta complexidade, o artilheiro do Liverpool surpreendeu com excepcional recuperação, bem própria dos jogadores uruguaios, que costumam levar ao pé da letra a noção de dedicação à seleção.

Para a estreia na Copa, é improvável que Suarez já esteja em ponto de bala, mas os últimos treinos indicam que para o segundo jogo poderá aparecer como titular. O fato é que nesta ou na próxima fase – se o Uruguai se classificar – ele irá a campo e se a forma física não for a ideal certamente compensará isso com alma e empenho. Sobre ele repousam algumas das maiores esperanças uruguaias de êxito na competição.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 11)