Equilíbrio prevalece, por enquanto

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Por Gerson Nogueira
Não se tem notícia de uma Copa do Mundo com tantas alternativas, surpresas e revelações de zebras na era moderna do futebol. É tudo ao mesmo tempo, agora. A rigor, quase todas as seleções que estão em ação nesta primeira fase (com a exceção óbvia das já eliminadas Espanha, Inglaterra, Austrália e Camarões) têm possibilidades de chegar à decisão. Não se está falando do tradicional papo de boleiro, que receita respeito aos adversários, mesmo os mais fraquinhos. Não. A história aqui é pra valer. Ou alguém tem dúvida de que a ousada Costa Rica, algoz de duas tradicionais escolas futebolísticas, tem chances de ir longe?
É uma Copa inteiramente diferente de todas as demais, a começar pela presença maciça da torcida em todos os jogos. Na África do Sul, cansei de ver estádios semi-desertos e povoados de crianças de escolas públicas.
Mas para os fãs do jogo o que importa é a qualidade dos espetáculos mostrados até agora. E há uma palavra que define bem o que se viu até agora: equilíbrio. Até nos escores, quase sempre apertados. Apenas Holanda, Alemanha, Croácia e França se destacam na artilharia. Aplicaram goleadas em seus primeiros jogos, com méritos maiores para alemães e holandeses, que massacraram Portugal e Espanha, respectivamente. A Croácia bateu Camarões e a França sapecou 3 a 0 em Honduras e 5 a 2 na Suíça, feitos que não podem ser comparados aos das outras equipes citadas.
Já em termos de posicionamento em suas chaves, os destaques são Costa Rica, Chile e Colômbia, todos de língua espanhola e jogando em altíssimo nível. Conquistaram a classificação em grupos difíceis, vencendo e convencendo.
A maioria dos participantes, porém, se concentra ali na zona intermediária, embolados. São os que ainda não deslancharam totalmente. O bloco é puxado pelos arquirrivais Brasil e Argentina. Favoritos naturais, ambos mostraram pouco mais do que o básico nas estreias e a Seleção Brasileira já tropeçou no México, semeando certo desapontamento entre os torcedores.
Com base em outros mundiais, cabe guardar cautela quanto às projeções de caminhada nas fases eliminatórias. Exemplos como o da França em 1958, da Holanda em 1974, do Brasil em 1982 e da Dinamáquina em 1986 desaconselham palpites entusiasmados a essa altura do campeonato. Alguns
Até porque o mundo já descobriu, assombrado, que alguns times que capengaram na primeira fase se transformaram nos jogos de mata-mata, partindo para glórias inimagináveis. A Itália de 1982 é talvez o maior de todos os fenômenos de transfiguração, saindo de uma etapa inicial sofrível para um título mundial incontestável.
Por ora, vale seguir a antiga lição de mestre João Saldanha. Segundo ele, o importante é desfrutar da festa de bola que é a Copa do Mundo.
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A saga de um carrasco de favoritos
A Costa Rica chegou de fininho, sem fazer muito alarde, como cabe a participantes sem pedigree. De figura carimbada para fazer turismo na Copa, a seleção já deixou a condição de simples coadjuvante. Depois de vitórias categóricas sobre Uruguai e Itália, garantiu classificação antecipada e o direito de sonhar com trajetória inédita na competição. Chama atenção a sua forma organizada e lúcida de jogar. Bem preparada fisicamente, a equipe se defende com vários jogadores e se reposiciona para atacar com três e até quatro homens, o que lhe permite controlar a bola na intermediária inimiga e esperar o momento do arremate. Como chega muito bem pelos lados do campo, alterna cruzamentos bem ensaiados para a área. Foi dessa forma que surpreendeu o Uruguai e matou a Azzurra, ontem.
É preciso considerar, porém, que no jogo contra os italianos houve a decisiva contribuição do fator climático. Sob temperatura de quase 30 graus, as duas equipes sofreram um desgaste acentuado, mas a Itália passou a se arrastar em campo nos últimos 30 minutos. As seguidas pausas técnicas não foram suficientes para atenuar o visível sofrimento do time de Prandelli. Até Pirlo, impecável nos passes e lançamentos, errou quatro vezes nos minutos finais.
De maneira geral, porém, esse detalhe não tira os méritos de Costa Rica, cujo expoente máximo é Brian Ruiz. Além dele, há o goleiro Navas, o volante Yeltsin e o atacante Campbell. Os demais são carregadores de piano, mas como correm e se doam ao time…
O fato é que, no justificadamente apelidado de Grupo da Morte, brilha até agora uma seleção pouco badalada da América Central, que deixou no chinelo dois times caros e respeitados. Já é um feito respeitável.
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Ataque francês desmancha ferrolho
Já faz algum tempo que a França assumiu um papel de vilã no imaginário do torcedor brasileiro. Os motivos são bem conhecidos. Em 1986, Platini & cia. impôs uma dolorosa e injusta eliminação (nas penalidades) à seleção dirigida por mestre Telê Santana. Depois, veio a pior de todas as batalhas: a final de 1998, quando a até hoje mal explicada convulsão de Ronaldo abriu caminho para Zinedine Zidane brilhar intensamente. Finalmente, em 2006, a derrota mais idiota de todas, propiciada por um descuido de Roberto Carlos, que resolveu ajeitar o meião junto na hora de um cruzamento que atravessou a grande área endereçado aos pés de Thierry Henry.
Circunstâncias mais do que suficientes para tornar o Brasil freguês de carteirinha dos franceses. Para a Copa atual havia o indicativo de que, sem Frank Ribéry, não haveria força capaz de levar a França ao alto do pódio. O equilíbrio reinante – tema do texto principal de hoje – e a eficiência ofensiva da seleção de Didier Deschamps parecem desmentir essas primeiras impressões. Benzema assumiu a responsabilidade de liderar o renovado escrete e tem tido a companhia de atacantes igualmente ligadíssimos.
Contra a Suíça, dona de um sistema defensivo sempre enaltecido, a França meteu três gols logo no primeiro tempo, com extrema facilidade. Inversão de posicionamentos e muitas trocas de passes foram fundamentais para confundir a marcação. No segundo tempo, vieram mais quatro gols, dois para cada lado, mas a goleada estava definida. O jogo teve também o primeiro pênalti desperdiçado (por Benzema) e o primeiro gol em cobrança de falta da Copa.
Todo cuidado com essa França aparentemente despretensiosa e com discurso de humildade.
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Pitacos de um professor

Um leitor assíduo da coluna, certamente um dos 27 baluartes, Rosemiro Pamplona escreve atenciosa mensagem discorrendo sobre a desafortunada seleção da Espanha. “Caro Gerson, depois que me aposentei como professor universitário resolvi virar palpiteiro de futebol. E iniciando minha nova vida gostaria de “falar” sobre a seleção espanhola (tenho descendência espanhola basca) e comparando-a com a seleção brasileira”.

Rosemiro observa que, em 1958, “fomos campeões do mundo pela primeira vez com o talento do jovem promissor Pelé e o anjo das pernas tortas Garrincha. Repetimos o feito em 1962 (praticamente com o mesmo time, porém 4 anos mais velho). Infelizmente, Pelé se contundiu, porém , o nosso Mané resolveu tudo. Em 1966, na Inglaterra, foi um fiasco. Fomos eliminados por Portugal no terceiro jogo. Esta Copa foi histórica, pois marcou o último jogo em que Pelé e Garrincha jogaram juntos (ganhamos de 2 a 0 da Bulgária)”.
Sobre a derrocada da Espanha, ele avalia que a seleção foi vítima de envelhecimento de sua espinha dorsal. “O time ganhou quase todos os títulos que disputou desde 2006. No time atual, sete jogadores que disputaram o último mundial na África do Sul foram convocados para 2014. Infelizmente, como a seleção brasileira em 1966, foi um fiasco sendo eliminada no segundo jogo”.
Quanto ao Brasil, Rosemiro questiona as convicções de Felipão, para quem o time melhorou contra o México. “Égua, ter um timoneiro como ele me causa arrepios. Se os times americanos (norte, central e sul) continuarem ganhando (Che Guevara deve estar feliz), então vamos ter uma nova versão da Copa América fora de época”.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 21/06)

15 comentários em “Equilíbrio prevalece, por enquanto

  1. Gerson, já estive na Itália na primavera. É muito quente. Muito mesmo. Não é úmido, mas mais quente pra nós nortistas, apesar de diferente sensação. Condições climáticas ou geográficas (tipo altitude ou clima) fazem parte do jogo. Nenhum time brasileiro deixou de jogar (e algumas vezes ganhar) Libertadores por altitude, ou, de outro lado, nenhum grande time deixou de ganhar nossos times, em Belém, por questões climáticas. Todos os campeões mundiais europeus vieram aqui, mas alguns estão sucumbindo, independente do clima. Alemanha fez 4 em Portugal às 13 em Salvador. Time bom é time bom. Ponto. Parece que vários paradigmas estão sendo quebrados. Só espero que sejamos campeões.

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  2. Concordo Alexandre. Aliás, o futebol deveria ser científico na Europa. Observem. Muitas equipes foram se preparar no calor dos EUA. Tudo bem, só que Belém e Santarém se candidataram a receber seleções e ninguém quis. Lá em Ribeirão Preto, a França trocou o gramado do estádio. Então porque uma seleção não se preparou ou ficou na Amazônia, até em Manaus? Porque não quiseram. Sete a dez dias seriam razoáveis. Chove para os dois times e faz calor para ambos. Dos europeus, só Alemanha e Grécia foram para o calor, no caso o nordeste, onde, nessa época, chove bastante. Clima não é desculpa, até porque muitos jogos são no RJ, SP, PR e RS, onde é outono até dia 23, quando começa o inverno.

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  3. – Que o calor influencia negativamente em algumas seleções, disso não tenho dúvidas, mas Copa do mundo, é assim mesmo… O que dizer de uma Copa na altitude Mexicana? Teriam que fazer como fez algumas seleções, como a Alemanha que se preparou para enfrentar o calor brasileiro…
    – Penso que Holanda e Alemanha são candidatas ao título dessa Copa do mundo no Brasil… Brasil, pra entrar nessa briga, terá que melhorar muito… Mata mata, é outro tipo de disputa e aí, se não mudar, dará adeus a Copa.. Infelizmente..
    – Em relação ao pitaco do amigo Rosemiro, penso que a Espanha pagou caro, por trocar um técnico como Guardiola por Del Bosque…Além de alguns de seus principais jogadores, chegarem a esta Copa, não conseguindo estar nos seus melhores dias..

    É a minha opinião.

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  4. NOTAS PAYSANDU:

    1- Meia Raul, já contratado pelo Papão… Esposa do craque aguarda transferência de seu trabalho de Recife para Fortaleza, onde mora sua família e a do jogador, e não Belém como tenho visto e escutado falar.. Aliás, se fosse pra Belém, já estaria aqui… 2ª feira tudo se resolve.. Quase 100% certo para sua transferência… Dei de prima aqui…

    2- Sonho de consumo do novo técnico do Papão, é um jogador que veste, por enquanto, Azul Marinho…. Me falou isso, ontem… Vishi…

    3- Vica chega na madrugada de 2ª feira e pela manhã, já reúne com a diretoria para tratar de reforços…

    4- Técnicos de Remo e Paysandu, se apresentam na 2ª feira e começarão a tratar de reforços e tudo mais..

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  5. Quem não gostaria de ter o Dadá em seu time..
    As seleções européias estão reclamando do calor? Tem que se preparar para o calor da copa em Moscou e no Catar isso sim.

    Mais uma vez na moderação. Falar a verdade tem suas consequências.

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  6. Olimpíadas são importantes, tanto que a Argentina levou Messi e ganhou em Pequim. E a Espanha só manda no junior europeu (ganhou os dois últimos sub21). Últimos campeões mundiais sub20: França, Brasil, Gana e Argentina (em ordem decrescente). Espanha faturou só em 99.

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  7. Messi foi as olimpíadas, pois tinha menos de 23 quando esta foi realizada.
    Mas de fato tem sua importância. Em termos de futebol é a segunda mais importante. Mesmo sendo disputada com jogadores até 23 anos.

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