Da inutilidade de certos jogos

Por Gerson Nogueira
Ao contrário dos defensores de testes às vésperas da Copa do Mundo, sou partidário radical de treinos comedidos e descanso absoluto. Nada de jogo pra valer, sujeito a botinadas e lesões musculares. Se os convocados já atestaram seu valor, não há lógica em submetê-los a esforços e tensões desnecessários.
O amistoso de sexta-feira comprovou a tese. Jogadas ríspidas de lado a lado colocaram em perigo atletas fundamentais para as aspirações nacionais no torneio que se inicia na próxima quinta-feira. A cada tombo de Neymar, principal jogador do escrete, era um deus-nos-acuda.
Ao lado do campo, a cena era desconcertante. Felipão levava as mãos à cabeça, revelando preocupação e angústia. Nas arquibancadas e por todo o país, um sentimento de angústia com a exposição do craque do time a um jogo que pouco mais era que um peladão.
Afinal, para que tanto desassossego? Duvido que alguém tenha visto no amistoso algo mais que simples movimentação dos jogadores, como a cumprir um ato burocrático. Afinal, todos ali estão receosos de vir a sofrer qualquer choque que leve a um corte da lista de convocados. Com isso, tiram o pé e fazem com que o pretendido teste se torne uma encenação.
O torneio mais importante do futebol, por princípio, deve reunir os melhores do esporte, mas alguns dos mais aclamados futebolistas do mundo chegarão à Copa um tanto alquebrados.
É o caso do português Cristiano Ronaldo, melhor da temporada, segundo a Fifa. Lionel Messi também ainda convive com problemas de condicionamento. O Uruguai terá Luiz Suárez ainda convalescendo de cirurgia. E a Alemanha, vista por muitos como grande ameaça ao Brasil na competição, trará jogadores importantes recém-saídos de contusões sérias. Pior que isso: a França ficou sem Ribery na sexta-feira e a Colômbia já havia perdido Falcão García.
Ora, que dono de espetáculo abriria mão espontaneamente de suas atrações à custa de mero capricho de agenda? Se a Fifa prevê amistosos, caberia a técnicos e jogadores tomarem a atitude mais racional, indicando a necessidade de treinos que não impliquem em tantos riscos à integridade das seleções.
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Benfica e a força dos sócios
Os clubes lusitanos não estão hoje na linha de frente do futebol europeu. Benfica, Porto e Sporting tentam reeditar os dias de glória e, de certa forma, pelo menos um deles parece estar estruturado para alçar grandes voos no continente.
Em visita ao reformado estádio da Luz, palco da final da Champions League, conversei com funcionários e gestores do Benfica. Ainda tristes pela perda da Liga Europa, todos foram unânimes em manifestar a confiança na redenção do clube a partir de seus sócios.
Recordista mundial, o Benfica contabiliza mais de 240 mil sócios torcedores, agregados em cerca de 20 pacotes diferentes. É o que garante os gastos e investimentos. O passivo superior a 400 milhões de euros ainda é uma sombra assustadora, mas a diretoria tem se empenhado em evitar grandes gastos, optando por garimpar jovens revelações.
O atacante Lima, atual artilheiro da equipe, é paraense e já tem seu nome citado com entusiasmo pelos benfiquistas. Ao contrário de outros jogadores, que passaram pelo estádio da Luz e acabaram se transferindo para clubes mais endinheirados, Lima é mencionado como uma aposta para permanecer e frutificar.
É perceptível no clube, acima de tudo, a convicção de que a comovente devoção dos torcedores é o que garantirá a retomada dos tempos vitoriosos. Observar famílias inteiras, vestidas de vermelho, visitando o clube numa espécie de ritual em plena sexta-feira chuvosa de Lisboa me fez levar a sério essa crença.
No Bola na Torre deste domingo, a visita ao Benfica é será mostrada em matéria especial, gravada nas cadeiras da “catedral da Luz’.
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Caprichos da grande decisão 
Não vi o jogo, mas, como tanta gente, fiquei surpreso com a goleada. Não que o Remo não tenha feito por onde, mas é fato que placares elásticos são cada vez mais raros em futebol, principalmente em clássicos – os azulinos não goleavam o rival desde 1996. Mais relevante ainda foi a circunstância do jogo. Considerando que os remistas entraram com oito alterações, desfalcados por suspensões e problemas de contusão, o favoritismo natural pertencia ao Paissandu.
Rivalidades se alimentam da emoção, entre torcedores e também entre atletas. Com vários jogadores da base na escalação, o Remo se impôs pela forte presença ofensiva e o fôlego da equipe. Com base em exemplos felizes, mas fortuitos, como o da quarta-feira, há quem defenda o aproveitamento radical dos garotos, mesmo com carradas de exemplos que desaconselham esse procedimento. O meio-termo ainda é o melhor caminho. Nesse aspecto, o técnico Roberto Fernandes tem agido bem, sabendo valorizar o trabalho feito nas divisões formadoras do clube.

A decisão, porém, está em aberto. Por mais vantajosa que seja a situação azulina, o Re-Pa é sempre imprevisível. Uma batalha que muitas vezes contraria a lógica natural das coisas. Desgastado, sem seu melhor defensor e carente da confiança que exibia antes, o Papão terá que empreender uma jornada de superação. Impor três gols de diferença não é tarefa simples, embora seja possível acontecer.
Ao Remo caberá administrar a vantagem e evitar erros. Uma coisa é certa: caso venha mesmo a conquistar o título estadual neste domingo, será preciso lavrar no Baenão uma página de reconhecimento a esta jovem safra azulina, talvez a mais qualificada dos últimos 10 anos. Sempre que foi convocada a ajudar, mostrou-se apta, comprometida e guerreira. São jóias a serem lapidadas, mas que, literalmente, valem ouro.
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Da louvação ao banimento
A especulada substituição de Mazola Junior por Vica, que circulou insistentemente desde a quinta-feira, é mais um elemento a ser adicionado ao Re-Pa decisivo deste domingo. Responsável pelo acirramento dos ânimos, a partir de declarações intempestivas nas finais do returno, o técnico inicialmente ganhou o apoio de amplos setores no Papão, de torcedores a dirigentes. Caiu em desgraça, porém, ao sofrer acachapante derrota para o maior rival.
Da condição de quase mito, como era denominado nas redes sociais, Mazola passou a ser execrado, atestando a superficialidade dos amores nascidos da paixão futebolística. A própria diretoria, que aquiesceu quando ele investiu contra os rivais, agora lhe nega apoio.
Mazola não se tornou pior ou melhor em função da goleada no Re-Pa. Que ninguém se iluda. Ele é apenas mais uma vítima do açodamento que o futebol cultiva como regra sempre que isso é a saída mais conveniente.  

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 8)

16 comentários em “Da inutilidade de certos jogos

  1. Todo clássico é imprevisível, porém, este chegou a tal ponto que não temos a previsibilidade da escalação. A briga nos bastidores pelo lado bicolor é reflexo de uma tentativa de justificar a eminente derrota do campeonato. Desrespeitar o TJD representa jogar a toalha no campo e querer justificar a derrota no tapetão. REPA é imprevisível, mas 4a1 é previsivelmente definidor, principalmente pelo desiquilíbrio emocional que proporciona. Sem Charles, as favas ficaram muito mais contadas dentro de campo. Fora dele, resta a tentativa do tumulto pela diretoria para enganar a torcida listrada.

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  2. Eu vejo a mídia paraense sempre exaltando o sub-20 do Remo pela goleada de 4×1, e não tiro o mérito dos meninos que entraram no jogo, mas o que não vejo nenhum comentário é sobre as mexidas erradas no jogo de 3×3.

    Naquele empate, já era pra servir de alerta para o rival, aonde o Remo conseguiu um placar de 2×0 ainda no 1º tempo. Tudo bem que o Mazola mexeu corretamente para buscar o empate, mas foi muito colaborado pelas substituições do Roberto Fernandes, que colocou até 4 zagueiros chamando o PSC para o ataque. A euforia do empate deveria ficar apenas para o torcedor, mas para o técnico deveria ficar a preocupação: “Se o meu adversário substitui corretamente, o que eu poderia fazer?”

    Já no jogo de 4×1, apesar de 8 desfalques, é preciso lembrar que no time titular apenas 2 (Igor João e Ameixa) são da base que jogaram muito pouco e o restante são reservas e já tinha um certo ritmo de jogo profissional.

    Óbvio que os que entraram no jogo da base (Igor João, Ameixa e no 2ºT o Tsunami) foram muito bem e reconheço isso, mas precisa lembrar que o RF não cometeu o mesmo erro que nem da última vez.

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    1. De fato, amigo Valentim. Na correria aqui, acabei omitindo esse detalhe simbólico. Por outro lado, a confusão toda envolvendo a suspensão dos jogadores parece ter tirado um pouco o foco do jogo em si aqui no blog.

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  3. O Charles tido como craque por muitos, foi o maior responsável pela perda da copa verde e pela derrota de 4×1 pro rival.

    O Mazola obviamente falou acima do que devia, mas não pode ser responsabilizado por tudo de errado que aconteceu. É injusto, e injustiça é uma desgraça.

    Na verdade algumas pessoas da imprensa, em especial da Radio Clube, posso citar o sr Ruy Guimarães, não sabemos porque, tem feito do Mazola um alvo de criticas, tanto faz o papão , ganhar, empatar ou perder.

    Aliás, não se sabe porque, este sr. há tempos vem sendo implacável com sua língua ferina a qualquer técnico do papão.

    Reciclagem já, até o Badboy com toda sua marra dá de 10 a 0 neste cidadão. Pois pelo menos le não olha camisa de clube ou a cara de pessoas pra elogiar ou criticar.

    Aliás, em quase todo re-pay este ano, sempre teve um fato novo contra o papão, o primeiro foi o caso do Pikachu, agora, é o a demissão do Mazola.

    Ô Pará pai’dégua!!!!

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  4. Não, amigo Gerson.
    A minha grita é com relação às autoridades – municipais, estaduais, Federação, diretorias dos clubes. Remo e Paysandú faz parte da cultura paraense, é um patrimônio imaterial de todos nós.
    Só se faz cem anos de novo só em 2114.
    Esse jogo de hoje deveria ser na terça, dia 10. Portões abertos, bandas, festas, fogos, canal de tevê para todo o Brasil, um acontecimento, a despeito da véspera da Copa.
    Ora, desprezaram a força do nosso torcedor do Pará, não prestigiando Belém como uma das sedes. Então a Copa não ofuscaria a festa que deveria ser feita para o clássico do centenário.

    E agora, ainda para piorar mais o descaso, me vem o Tjd com essa decisão assim no apagar das luzes, o que dará azo a, possivelmente, se melar o campeonato.

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  5. – Pois é, eu também não entendo porque fazer esses amistosos quando muitos jogadores ficam prestes a morrer na praia. Dois exemplos citados na coluna: Alemanha e França vão ficar sem dois bons jogadores que foram igual a Moisés. Deveria haver descanso absoluto.

    – O profeshô Claudio Santos sempre dizia aos quatro ventos que o técnico Mazola Jr era muito bom. Com esse elenco, o PSC derruba qualquer técnico, bom ou ruim. Também fiquei surpreso com a goleada e parece que a maldição do Sem Ter Nada vai continuar com o PSC, se bem que eu acredito que os jogadores fritaram o técnico na partida anterior. CR campeão e técnico demitido.

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  6. Para mim o campeonato mixou com todas estas lambanças de TJD e cia Ltda!
    Tanto faz o Remo confirmar o seu 43° título ou o Paysandú ganhar o seu 46° para mim, este ano, o do centenário do clássico mais disputado no mundo!, deveria ser de festa, está se fechando com todas estas manchas tirando o brilho dos dois protagonistas!
    O campeonato estava muito bem, jogos acirrados e esta vitória maiúscula do Remo. Era para ser uma final digna, mas o que vemos, é um Sr. Não sei quem, querer aparecer mais do que que realmente sustenta o futebol do Pará!

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  7. Também sou contrário à exposição dos convocados a risco desnecessário, máxime nestes tempos de vacas magras de grandes jogadores. Salvo quanto ao arqueiro, uma lesão agora significa um desfalque irreparável. Mas, mesmo o Júlio Cesar não merece um castigo destes.

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  8. Vi o jogo, mas a surpresa foi a mesma. Agora, temos de convir que algumas ausências foram reforços para o Mais Querido. A melhor forma de administrar a vantagem é não se entregar àquela retranca bovina temperada Com chutões e ligações diretas.

    Quanto aos garotos da base, realmente eles foram os “caras” até aqui. Salvaram o Remo financeiramente no inicio do ano e tecnicamente agora, quando pegaram a situação crítica e devolveram com uma vantagem considerável. Isso revela uma coisa muito importante: a gestão atual tem muito pouco a ver com o progresso do futebol.

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  9. Quanto ao Mazola, mantendo a opinião: é um treinador que tem algum potencial. Nada mais do que isso. Agora trata-se de um profissional um tanto inseguro e que faz da retranca seu sistema de atuação. E sua incontinência verbal é só mais um sintoma desta insegurança. Pra mim o Mazola é vítima dele próprio e da sua virgindade de títulos.

    Mas, ainda não acabou a peleja. Se o Mais Querido vacilar o Mazola pode iniciar hoje a contar os títulos em seu currículo. Toc, toc toc.

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  10. LEÃO CAMPEÃO!!!!!!!!!!
    MAS A MINHA ALEGRIA E O MEU PRAZER, DAQUI A DISTÂNCIA, SÓ FOI POSSÍVEL DEVIDO À POSSIBILIDADE QUE A RÁDIO CLUBE ME DEU PELA INTERNET. OBRIGADO, CACHEADO(?, PELA ATITUDE DE ESTIMULAR A TORCIDA DO REMO. HOJE SOFRI DE FORMA INCOMPARÁVEL; MAS VALEU A PENA.

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