E o cachorro roubou a cena…

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Por Gerson Nogueira
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unnamed (92)A cena do cachorro invadindo a área do Paissandu aos 41 minutos do segundo tempo, no momento em que Ratinho poderia definir o jogo, foi um dos episódios mais inusitados da história do Re-Pa (720 jogos) em todos os tempos. Não há registro de ocorrência parecida na longa saga de duelos entre os rivais. Ontem, a entrada em cena do animal teve o mérito de temperar de emoção um jogo entregue à sonolência e aos erros no segundo tempo.
Surpreendente na estruturação do time para a partida, o técnico Mazola Junior modificou sua linha de zaga, usando no papel três zagueiros – Pablo, Charles e João Paulo -, mas sem usar os laterais como exige o 3-5-2 clássico. Com isso, tinha na verdade cinco homens na última linha e quatro no meio, pois Héverton voltava para compor o bloqueio ao lado de Bruninho, Augusto Recife e Djalma. Lima se isolava na frente.
Do lado remista, Charles Guerreiro só mudou o desenho do meio-campo, com a escalação de Ilaílson ao lado de Jonathan e Dadá. E coube a Ilaílson o papel estratégico de barrar os avanços de Héverton, que se posicionava à esquerda sempre que o Papão tinha a posse da bola para atacar. Implacável na vigilância e no combate, Ilailson se transformou no grande nome do Remo. Charles liderou a defesa bicolor, sem cometer erros. Ambos foram os destaques do clássico.
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O brilho de um volante e de um zagueiro dá bem a medida do jogo atravancado e de poucas escapadas. O gramado enlameado fazia prevalecer a marcação e o choque. Ainda assim, em jogadas de contra-ataque, o Paissandu teve três bons lances de ataque, com Héverton e Lima, e o Remo podia ter chegado ao gol com Leandrão e Val Barreto.
Depois do intervalo, o posicionamento dos times se alterou. O Paissandu liberou Djalma e Pikachu para avançarem pela direita, deixando Aírton mais atento à marcação sobre Potiguar. O Remo se mantinha mais fechado, à espera de espaço para contra-atacar, com Ilaílson muito próximo aos zagueiros e apenas Jonathan saindo para ajudar os homens de ataque. A expulsão de Rogélio logo aos 16 minutos mudou a feição do time. Eduardo Ramos, de atuação apagada, foi substituído por Carlinho Rech.
A partir da saída de Rogélio, o Paissandu foi todo à frente, entusiasmando-se com a vantagem numérica. Héliton entrou pela esquerda e passou a ir à linha de fundo, mas poucas chances foram criadas. A mais aguda foi em cabeceio de Lima à esquerda do gol de Fabiano, por volta dos 20 minutos. Instantes depois, Pablo também foi expulso e o panorama se reequilibrou.
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Foi então que Ratinho substituiu Potiguar e o Remo teve, por uns dez minutos, um ataque operante e dinâmico. Posicionado pela direita, Ratinho obrigou o Paissandu a também alterar sua maneira de marcar, atraindo Vanderson e Charles e criando espaço para Val Barreto no centro da área. Desperdiçou um cruzamento rasante de Jonathan e disparou dois chutes com endereço certo e bem defendidos por Paulo Rafael, sendo o último o lance que teve o cãozinho como coadjuvante involuntário.
O resultado deixa tudo em aberto para o próximo domingo. (Fotos: MÁRIO QUADROS/Bola)
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Um craque da embromação
Existem árbitros que deixam o jogo rolar, outros preferem vida mansa. O de ontem se insere no segundo grupo. Cozinhou o galo, enrolou o quanto deu e na etapa final, certamente cansado, parava todos os lances que podia. Com isso, prestou um desserviço ao jogo, que não era um primor de técnica, mas se desenvolvia com rapidez e combatividade. Todos os choques eram interpretados como faltosos, fazendo com que o período derradeiro tenha tido pouco mais de 20 minutos de bola rolando efetivamente.
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Nem controlando tudo tão de perto, segurando as jogadas, o alagoano foi bem sucedido na avaliação disciplinar. Pelo contrário. Aplicou a lei com severidade para alguns e com extrema condescendência com outros. Foi duro ao amarelar Pablo, Potiguar e Val Barreto, mas deixou Héverton, Dadá e Augusto Recife à vontade. Além disso, conversou demais, contemporizou em excesso.
As regras devem ser aplicadas sem hesitação e não podem ser usadas como artifício para tornar o jogo arrastado e chato. O torcedor merecia um clássico menos travado.
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Orgulho de uma família baionense
Recebi, a respeito de postagem no blog e no Facebook, mensagem atenciosa do professor Rosemiro Pamplona. Hoje aposentado, ele foi mestre de várias gerações na Faculdade de Engenharia Elétrica da UFPA. Meu irmão Edilson Nogueira Rodrigues, que colou grau na última sexta-feira, teve o privilégio de ser orientado por ele, em Tucuruí. “Sou do Marajó, de Santa Cruz do Arari, e lendo a sua mensagem passa o mesmo filme na minha cabeça. Meu pai era vaqueiro, pescador, calafate, pintor, mecânico (auto didata), eletricista, entretanto, a melhor ‘profissão’ foi a de pai. Minha mãe era professora leiga (tinha apenas o 5º ano primário). Foi a minha primeira ‘tia’ (risos). Depois, formou-se em advogada”, diz Rosemiro.
Sua manifestação permite que eu registre, aqui na coluna, minha alegria pelo êxito de meu irmão. Lutador, como todos os Nogueira, filho de um mestre de obras e de uma dona de casa, conseguiu com grande esforço a graduação em Engenharia Elétrica, acumulando estudos com as atividades de funcionário da Eletronorte em Tucuruí. Ao homenagear meu mano, estou também festejando meu amado pai José Dias. Com humildade e muito trabalho, sem alarde, ele já tem dois engenheiros na família (Edmilson, meu outro irmão, também é formado). Não é pouca coisa para um caboclo de Baião. Parabéns aos velhos e aos manos!
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 17)

Capa do DIÁRIO, edição de segunda-feira, 17

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Remo 0 x 0 Paissandu (comentários on-line)

Campeonato Paraense 2014 – decisão do 1º turno

Remo x Paissandu – estádio Mangueirão, 16h

Rádio Clube _ IBOPE_ Segunda a Sexta _ Tabloide

Na Rádio Clube, Ronaldo Porto narra, João Cunha comenta. Reportagem – Paulo Caxiado, Hailton Silva.

Como dois e dois são cinco

Por Gerson Nogueira

É de impressionar a animação quase carnavalesca que contagia a todos – torcidas, jogadores, técnicos, imprensa – na semana do Re-Pa. Quase um mini Círio. As pessoas são tomadas de um entusiasmo quase juvenil, como se a simples existência do clássico tivesse o condão de apagar as mazelas e desfazer as amarras do nosso maltratado futebol.

A analogia com o Carnaval não é gratuita. Cada vez que o choque-rei se aproxima traz junto uma certa angústia, como se duas velhas escolas de samba estivessem fazendo seus últimos desfiles.

unnamed (32)Não que a paixão louca que envolve o culto aos rivais seja algo nefasto. Pelo contrário. Deve ser mais valorizada ainda, pois é o que resta dos tempos de fartura. Tão forte que ainda consegue disfarçar a pindaíba reinante, com um campeonato que gera prejuízos superiores a R$ 100 mil por rodada.

O mundo de ilusão que domina a cena futebolística paraense teve início ali pelo final dos anos 90, ganhando força a partir da derrocada do Paissandu na Série A e do canto de cisne do Remo representado pelo título da Série C 2005.

Há uma cultura enraizada de atribuir todas as culpas aos dirigentes. Nós mesmos, da imprensa, temos essa mania recorrente. Sim, eles são perdulários, imprevidentes, ordenam gastanças que jamais permitiriam em seus negócios ou casas. Claro que têm forte responsabilidade no descalabro, mas não estão sozinhos.

Encaremos os fatos. Todos têm sua parte neste latifúndio. Federação, governos, políticos, dirigentes, sócios/conselheiros, imprensa e torcida. A derrocada aconteceu diante de todos: jovens e talentosos atletas surgiram e se perderam pelo caminho, bons negócios foram negligenciados, patrimônios foram dilapidados, parceiros de peso ignorados. E ninguém agiu de verdade para interromper o processo.

A realidade se impõe e revela um quadro exasperante. Não há nada a comemorar. O Pará perdeu espaço nas divisões de elite, o que se reflete na queda no ranking das federações. As gangues uniformizadas aterrorizam estádios e arredores. O Paissandu caiu da Série B para a C. O Remo segue sem divisão. O Águia, terceira força, está fora do Parazão. A Tuna, tradicional e centenária, também.

O campeonato se interiorizou, mas é deficitário e chato, disputado em estádios mambembes, com gramados ridículos – a penosa exceção é o Mangueirão. Os times do interior são sucatões de veteranos e raramente revelam um jogador mediano. É natural que o torneio não sensibilize patrocinadores privados. Só atrai o torcedor apaixonado por Remo e Paissandu porque a paixão é cega.

A recém-criada Copa Verde pode representar o pulo do gato, mas a sobrevivência depende do amor incondicional de duas torcidas, que ocupam seu tempo trocando insultos entre si, e o sustento financeiro vem da subvenção oficial. A referência ao decadente carnaval paraense não é mera coincidência.

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Onde a lógica não tem lugar

O primeiro clássico evidenciou as diferenças de estilos. O Paissandu, sem um meia-armador de ofício, foi acima de tudo marcação e rapidez na saída para o ataque. Com objetividade e disciplina, garantiu a vitória. Operário, investiu na transpiração e se deu bem.

O Remo, com dois armadores especialistas, concentrou suas apostas em jogadas triangulares e tentativas de ir à linha de fundo. Não fez nenhuma coisa nem outra, principalmente porque não foi capaz de superar o bloqueio adversário e nem teve inspiração para achar alternativas.

Os remistas perderam o jogo no primeiro tempo. Frágil na marcação, cometeu falhas muitíssimo bem aproveitadas pelo Papão. No tempo final, veio a reação, com força e intensidade, mas sem o apuro necessário para garantir a igualdade no placar.

Espera-se hoje uma espécie de tira-teima. Os times evoluíram depois daquele confronto e hoje se conhecem mais. Pela ordem natural das coisas, a partida tende a ser equilibrada e o empate surge como resultado mais provável.

Como a tensão é parte obrigatória do duelo, os erros terminam por aparecer. E aí sempre prevalece quem está mais organizado. A vantagem na decisão pertence ao Remo, o que dá a Charles Guerreiro a opção de esperar. Já o Paissandu terá que ir ao ataque para reverter a situação. É o que diz a lógica, mas quem disse que futebol precisa de lógica para sobreviver?

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Bola na Torre

O clássico será jogado à tarde, mas o terceiro tempo será no Bola na Torre (RBATV), depois do Pânico na Band. Guilherme Guerreiro comanda o programa, ao lado de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 16)