O incrível e o inacreditável

Por Luis Fernando VeríssimoO 

“Incrível” e “inacreditável” querem dizer a mesma coisa – e não querem. “Incrível” é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom. Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando – a linha média do Execrável Futebol Clube.

Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do corner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.

Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase “ir de mal a pior”.

Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana n.º 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr do sol que enleva.

Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.

Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.

Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.

Incrível é um solo do Yamandu.

Inacreditável é este verão.

Cabra bom… Quando crescer quero escrever assim, tidizê.

23 comentários em “O incrível e o inacreditável

  1. Se incrível é o elogio e o inacreditável é o nefasto, então, vamos lá:

    Inacreditável é o Brasil pagar R$10 mil por médico cubano e os mesmos serem efetivamente remunerados com pouco mais de R$ 900 e o Brasil só ter o inacreditável Bolsonaro e seus inacreditáveis colegas para amparar a escravizada.

    Incrível é a coragem dos lullopetistas para insistir nas inacreditáveis práticas de alavancagem de verba de financiamento de campanha eleitoral, mesmo depois do mensalão ter sido firmemente punido pela STF por maioria de votos.

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  2. Inacreditável, xará, aí nesse exemplo citado por você, só para a lógica capitalista, na qual os médicos brasileiros – geralmente bem nascidos, já que o nascido pobre normalmente não tem condições de competir o nascido rico – estão inseridos.
    Inacreditável, xará, é o próprio Conselho Federal de Medicina ser contra a iniciativa do governo de levar médicos aos rincões onde médico brasileiro algum quer ir, nem ganhando 10 mil reais.
    Já para Cuba, país pobre e covardemente vítima de um bloqueio econômico da parte dos norte-americanos e seus lambe-botas, cujo índice de mortalidade infantil é até menor que de países ricos, e que se orgulha de não ter nenhuma criança dormindo nas ruas, esse repasse faz parte do reembolso é para o país continuar educando suas crianças, adolescentes e jovens e assim continuar a formar mais médicos para a ilha e para o mundo.

    De outro lado, caro Gerson e demais frequentadores deste espaço, há algo maior e mais poderoso que o PSol por trás de todos esses protestos, que, como era previsível, agora atingiu até um elemento da imprensa, um trabalhador como muitos. É só perguntar: a quem interessa tudo isso?

    O pior de tudo é a grande imprensa manipular toda essa questão e colocar a culpa no próprio governo. Parece piada de português – que me desculpem os portugueses: alguém fazer protestos contra si mesmo. O pior ainda é que muita gente vai acreditar nisso.

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  3. Oliveira, geralmente nesses tópicos meus pontos de vista se alinham com os seus e costumo estar de acordo e até gostar de como você escreve. Mas faço questão de deixar sempre registrado meu apartidarismo. Fosse qualquer partido ou pessoa no poder provavelmente acharia muita coisa inacreditável e quase nada incrível. Nosso sistema político baseado na corrupção é podre e ninguém escapa.

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  4. É incrível, caro Maurício Carneiro. Antigamente quem dava as cartas no mundo era os ‘irmãos’ do norte. Cabia ao Brasil apenas dizer amém.
    Você lembra do caso em que o chanceler brasileiro Celso Lafer teve de tirar os sapatos no aeroporto por ordem de uns bate-paus americanos. Uma vergonha. Um membro do governo brasileiro abaixar-se a subalternos de outro país.

    Com a chegada do PT ao poder isso começou a mudar. A Globo, através do humorístico Zorra Total, criticava o Lula com aquele bordão “Lá vai o Lula… lá vem o Lula”, numa alusão às viagens internacionais que o grande presidente brasileiro fazia à China, à Rússia, à Coreia, à África…

    Ia até lá para abrir portos aos produtos brasileiros. Sábia atitude. Com isso o Brasil não sofreu os efeitos da crise que atingiu os EUA em 2008, já que não mais – como antes – dependia exclusivamente deles.

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  5. Maurício, quanto a estas agremiações partidárias que estão por aí, eu também posso dizer que sou apartidário. Mas, registro que desde o meu primeiro voto, até a oportunidade em que, o Lula de então, venceu o primeiro pleito presidencial, eu vinha sempre votando nele e nos candidatos que tinham afinidade com ele.

    Nada obstante, como qualquer pessoa, eu naturalmente tomo partido diante das várias questões que a realidade cotidianamente nos presenta, sempre nesta linha que escrevo desde a primeira vez que postei aqui.

    Quanto a ninguém escapar, não tenho uma ideia tão absoluta assim. Afinal, àqueles que eu ainda não conheço o trabalho e a postura, eu reconheço o benefício da dúvida.

    Por isso, com tranquilidade, posso dizer que no caso específico do lulla e respectivos pares e adversários, eu concordo com você, pois tendo assistido ao trabalho e à postura de todos eles na cena política nacional, posso dizer que já os conheço muito bem.

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  6. Incrível foi o pedantismo do Abner Luis no jogo de ontem, enquanto os narradores faziam uma transmissão bem humorada e positiva, esse AL fazia inserções chulas e despropositadas. E nós ….

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  7. É incrível e inacreditável que ainda se perceba o velho discurso da “tal esquerda” que ainda se refere a globo e a direita como culpados pelos problemas do Brasil, é incrível que capitalista somos todos nós, inclusive os que fazem sua refeições nos melhores restaurantes de Lisboa, até mesmo a “presidenta”, é incrível falar em igualdade quando se paga um salário miserável a um médico cubano para trabalhar no Brasil, é Incrível como esquecem que um dos maiores desvios de recursos e roubos deste Pais foi executado pela cúpula do PT , que jamais na história deste pais o inacreditável iria acontecer: Sr Lula unido a Sarney, Collor, Renan e Sr Barbalho, políticos dos quais o PT sempre incrivelmente classificou como os inimigos do Brasil, é incrível que uma “presidenta” inaugure um porto moderno em Cuba, e não o faça o mesmo no Brasil, qual o porto que Dilma inaugurou neste pais, Qual uma grande obra inaugurada por Dilma neste seu Governo???
    Incrível é o povo protestando contra a Copa do Mundo. Inacreditável é esse mesmo povo ter comemorado quando o Brasil ganhou o direito de sediá-la, como se não soubesse no que isso iria dar.

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  8. Com todo respeito a Verissimo, de livros e crônicas fantásticas (gosto muito de Incidente em Antares), mas é inacreditável que acreditemos na civilidade, quando as máquinas que movem o mundo são incrivelmente bárbaras. É inacreditável que em um país que ten taxa de desemprego em 4,5 porcento possa ser incrivelmente violento. Mas inacreditável ainda é acreditarmos no discurso do pobrezinho que mata o Pai de família por que é incrivelmente produto e vítima de sociedade.

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  9. Meu prezado xará, pois eu tenho um testemunho pra lhe dar:

    há uma médica aqui no Pará, a qual eu conheço desde sempre.

    Desde quando os pais dela ainda só a projetavam pensando em dar-lhe o nome com as iniciais das futuras avós;

    Desde quando ela já gerada estava no ventre materno;

    Desde quando ela já nascida eu teimava em carregá-la no colo sob os olhares preocupados e vigilantes dos pais, pois eu só tinha seis anos mais que ela;

    Desde quando já maiorzinha eu a acompanhava toda caracterizada no carrinho de anjo do círio de um município do interior para pagar promessa dos pais;

    Desde quando eu dava meus braços como cobaia para ela exercitar suas primeira aulas práticas relativa à aplicação de medicamentos injetáveis;

    Enfim, pois eu conheço esta médica que competiu com centenas de outros candidatos para o teste de seleção do ensino médio da época, para o vestibular de medicina, pra residência em São Paulo e venceu vários endinheirados, tudo com muito esforço e humilde abençoada ajuda dos pais ele agente administrativo do judiciário ela professora do ensino fundamental.

    Pois bem, esta médica aí, que como podes tirar uma base pela síntese que escrevi, é muito bem nascida e criada, mesmo em berço muito humilde, com toda a razão, do alto de todo o especializadíssimo trabalho social que faz juntamente com vários outros médicos, não concorda jamais, que o Estado de um modo geral e o governo mais especificamente, em especial o governo federal que aí está, jogue a culpa de seu secular imobilismo, do seu criminoso descaso com a saúde da população na conta da classe médica. Transformando uma questão típica de secular falta de vontade política, de inexistência do mínimo compromisso republicano, num caso de mero elitismo corporativo.

    Ah, e concluindo, é preciso registrar que na condição de consumidor/paciente, já tiver sérios atritos com vários médicos devido a procedimentos, condutas e posturas que julguei inadequadas no exercício do respectivo mister (e estou sempre pronto para ter outros).

    Mas, há que distinguir:

    a postura do médico (e há médicos e médicos, como há advogados e advogados, jornalistas e jornalistas, militares e militares);

    das políticas públicas no campo da saúde do brasileiro (e estas são sofríveis).

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  10. Feitos futebolísticos KKKK
    Lá vem o Celira com realismo fantástico pra cá.
    Como diria o Zé Ramalho, nos aqui disparando “balas de canhão” e o homem vem com baladeira e ‘caroço de açai’.
    Mas, no domingo, a coisa volta pro trilho e os listrados acabam com a marra. Tomara!

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  11. Parabéns, caro xará. Há em tudo exceções, claro. Tomara que um dia consigamos formar médicos, dentistas e outros profissionais de saúde que se disponham a ir aos mais distantes rincões deste Brasilsão, visando amenizar a dor de tantos brasileiros menos favorecidos.

    Eu vejo duas razões ao menos para que o paraense não tenham tanta esperança e não vejam com nitidez, ou com boa vontade, as mudanças que se põem em prática de 11 anos para cá:

    1ª o bombardeio da grande mídia brasileira, que, expressando a vontade das gentes bem-nascidas, somente procuram divulgar os problemas, problemas estes que vêm acontecendo há mais de 500 anos no Brasil;
    2ª a presença de há muito de alguns governos no Pará.

    É isso.

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  12. Tomara, xará.

    Mas, para tanto, é importante que o governo faça sua parte e desenvolva políticas públicas de caráter autenticamente republicanos para o segmento da saúde, as quais aludem aos profissionais, mas vão muito mais além desta investida eleitoreira do governo federal.

    Afinal, há necessidade de postos de saúde, de hospitais, medicamentos, equipamentos etc. Sei porque vi, ninguém me disse, de cubanos que estão muito aborrecidos porque não desfrutam de condições de exercer condignamente a missão para a qual vieram por falta deste suporte.

    Ademais, é necessário não esquecer que o governo precisa encontrar meios para atração e manutenção do serviço de saúde dotado de um padrão de dignidade mínima no interior. Pois, como visto nos últimos dias, nem os cubanos que cujo espírito é descrito pela propaganda governista como magnânimos no exercício da medicina, estão dispostos a ser explorados.

    Por exemplo, os juízes de direito, e outras carreiras congêneres, têm um plano de carreira, incluindo os salários, que oferece condições de atrair os profissionais e manter no interior do país o serviço de publico inerente ao poder judiciário.

    Aliás, os serviços alusivos à própria caserna dispõe de uma carreira que proporciona este tipo de condição.

    Com isso não quero dizer que os serviços a cargo dos magistrados e congêneres e também dos militares estejam imunes de qualquer questionamento quanto à qualidade e à satisfação da população. Muito pelo contrário.

    Mas, algumas perguntas são impositivas:

    será que os magistrados e congêneres, e também os militares são melhores ou mais importante que os médicos para o Brasil democrático e republicano? Ou,

    será que a área de atuação, ou os destinatários da atuação dos magistrados e congêneres e também dos militares, são melhores e mais importantes que a área de atuação e os destinatários dos serviços prestados pelos médicos?

    Ademais, não se pode esquecer que o programa mais médicos não resolve o problema dos planos de saúde, por exemplo. Bem assim que os usuários dos planos de saúde também são brasileiros e merecem tratamento digno de seus governantes.

    É isso!

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  13. Valentim, concordo que os médicos brasileiros devem ir para os rincões que vc se refere, mas que, primeiro, esse governo de cumpanheiros PeTralhas deixe de se preocupar com a mídia mundial e com o sofrido, mas conformado e passivo, povo cubano, e volte sua artilharia no sentido de dotar de estrutura mínima os consultórios e postos de saúde desses distantes rincões deste Brasilsão. Mesmo chovendo no molhado, digo que o país não precisaria de importar médicos comunistas, se esse governo desse a devida importância à estrutura mínima que deve ter um local onde se trata da saúde de seu povo. Antes de importar médicos, que se importassem políticos sérios e que essa nossa (nossa ??? minha, não!!!) imprensa repleta de vendilhões fosse menos parcial. Fácil construir porto em Cuba, o dindim não sai do bolsinho da presidentA. Fácil, também, é transferir renda para Cuba, sob o edredon do programa Mais Médicos. Ou será que esse dindim não volta para o Brasil-sil-sil pra financiar campanhas e mais campanhas ?

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  14. “DISCUTIR COM PETISTA É COMO JOGAR XADREZ COM POMBO. ELE VAI DERRUBAR AS PEÇAS, CAGAR NO TABULEIRO E SAIR DE PEITO ESTUFADO CANTANDO VITÓRIA” . SÁBIAS PALAVRAS DO LOBÃO

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  15. A grande mídia na visão Ptista é aquela que informa à população dos desmandos, dos desvios, da má conduta dos dirigentes deste pais,estes são os inimigos do Pt, partido que tem a tática de tentar sempre denegrir a imagem de alguém que é contra o governo,mas na realidade a grande mídia é o que o PT armou na internet, criando blogs , financiados com dinheiro público, como caixa econômica federal, para esconder as verdades, e fazer elogios aos “cumpanheuros”.

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  16. Valentim, se viver em Cuba fosse uma maravilha, não existiriam todos do dias milhares de cubanos tentando sair da ilha de Fidel, se fosse bom, a imprensa seria livre, teríamos a liberdade de expressão e do pensamento, haveria eleição todos os anos. Interessante a questão do bloqueio econômico americano, todos nós já assistimos diversas manifestações contra os americanos, inclusive com a queima da bandeira americana, se os americanos são ruis porque reclamar do bloqueio americano??Como acreditar que os médicos cubanos estão preparados para atuar no Brasil se lá não existem aparelhos médicos modernos, não existe internet livre para atualização e pesquisa, o governo local restringe o acesso??Leia este blog : Generación Y a autora é Yoani Sánchez , ela escreve um dos blogs mais visitados do mundo, com vários milhões de acessos mensais, mas quase não consegue ser lida em Cuba. Tem versão em português. Reflita.

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  17. Caro Gerson, em entrevista ao Jô Soares, Luis Fernando Veríssimo foi perguntado sobre a que devia o dom de escrever. Respondeu que em grande parte a sabedoria do seu pai, pois quando criança era bom de português e ruim de matemática; o pai ao invés de contratar um professor de matemática, contratou um de português para reforçar suas habilidades. Taí um grande ensinamento para nós pais e educadores.

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  18. Caros amigos, vou lhes dar um exemplificativo caso.

    Conheço um falecido, que não era de familia abastarda (como a maioria dos médicos de Belém, ainda hoje não entendo porque a UEPA não tem cota social para os alunos da escola estadual) passou mais de dez anos para se formar na UFPA, todavia, após formado, mandou-se para o Marajó, lá foi tudo, médico, enfermeiro, parteiro etc. Seu espirito aventureiro era de dar inveja aos grandes aventureiros da história. Lá foi rei, apesar de não ter conseguido se eleger prefeito na única vez que se candidatou, esse cidadão, que infelizmente os médicos paraenses pouco conhece, chama-se Edilberto Tavares. Se tivéssemos outros médicos assim, não precisaríamos de médicos cubanos, espanhóis, argentinos etc.

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