O país em que xingar virou normal

Por Julio Gomes

Sabem o que eu acho engraçado nas boas discussões sobre torcedores no estádio de futebol, que estamos vendo diariamente? A seguinte frase:

“Torcedor tem direito de vaiar, de xingar… só não pode ter violência”.

Oras. Por que tem direito de xingar? Xingar agora é “normal”?

No trânsito, também podemos “vaiar, xingar, só não vale violência”?

Na reunião de condomínio, também podemos “vaiar, xingar, só não vale violência”?

Fico extremamente assustado quando vejo amigos, gente que eu respeito, que forma opinião, perpetuando a máxima de “vai lá, xinga. Se o torcedor pagou ingresso, tem direito de xingar”.

Ah, Julio. Deixa de ser chato. Não pode nem mais xingar no estádio?

Bom, cada um com seus valores. Poder, pode tudo. Achar que é “normal” já é outra coisa…

Xingamos os atores no teatro se a peça for ruim? Xingamos os cozinheiros de um restaurante em que a comida não ficou legal? Xingamos todo mundo quando não estamos felizes? Xingar, então, é normal???

Eu já xinguei no estádio. Muito mais do que faço hoje. Acho que proibir xingamentos é impossível. Mas, repito, perpetuar a ideia de que isso seja normal, de que no estádio o cidadão tem o “direito” de extrapolar é que é o perigo. Para uns, extrapolar é dar um murro na cadeira. Para outros, mandar um jogador à merda. Para outros, é dar porrada em quem aparecer na frente.

O que acontece no estádio nada mais é do que o retrato do que vemos no nosso dia a dia. Com a diferença que algumas coisas ainda são tratadas como “normais” porque “quem paga ingresso tem o direito de extrapolar”, segundo alguns.

Um dia, possivelmente, o “xingar” não “podia”. Daqui alguns anos, do jeito que vai a coisa, a análise será: “poxa, pode vaiar, pode xingar, pode ter violência… só não vale matar”. Até o dia em que possa matar também.

Parece até estar mais próximo do que eu pensava.

9 comentários em “O país em que xingar virou normal

  1. O Júlio não me parece num dia inspirado hoje. Não lembra que há xingamentos e xingamentos e que o futebol não é um espetáculo milimetricamente igual a uma peça de teatro e quejandos.

    Curtir

  2. Correto, Antonio. Se não, daqui há pouco vão enquadrar na Lei Maria da Penha o cara que xingar algo no jogo do sofá de sua casa. Depois, quem observa o comportamento desses torcedores porradeiros percebe que eles praticamente não xingam ninguém, apenas berram, pulam, cantam e vão pra porrada quando avistam torcida rival. Totalmente diferente daquele que extravasa suas tensões com palavrões, e geralmente não passam disso.
    É o mesmo que responsabilizar o Richarlyson pelo ‘toque’ do Alecsandro no Igor Sartori. Aliás, mais violento é o preconceito que escarafuncha e condena o ocorrido como se isso tivesse revelado a existência de um vilão, da mesma forma que é associar o xingamento à violência impune que grassa nos estádios, quando até o mundo mineral sabe que as causas dessa truculência são bem outras que não o santo palavrão.

    Curtir

  3. Amorim, tem uns torcedores destes a que te referes que sequer assistem o jogo, passam o tempo inteiro de costas para o campo de jogo, pulando e cantando ameaças pra polícia, pra torcida adversária .

    Curtir

  4. Mas, Valentim, o objetivo do “xingamento” não é propriamente o efeito que a manifestação vai causar no destinatário, mas, sim, a ação desopilante provocada naquele que “xinga”.

    Sem embargo de que muito técnico acabou substituindo o perna de pau que escalou, depois das vaias e similares vindos da torcida. Muitos técnicos ruins foram dispensados depois dos apupos da galera. Outros tantos dirigentes ineptos renunciaram após a manifestação de descontentamento verbal dos adeptos. Muitos jogadores tímidos do time adversário não conseguiram render o seu potencial por conta da pressão da torcida.

    Enfim, mesmo que nada de positivo resultasse do xingamento da torcida, não se lhe pode retirar o direito de expressão.

    Agora, como faz o Amorim, é preciso ressalvar que tudo deve ser feito dentro de certos limites, sem concessões às monstruosidades próprias do marginal que se faz passar por torcedores.

    Curtir

  5. Que viagem não pode xingar agora? O futebol ta ficando cada vez mais chei de frescurite. Esse que é o problema querem comparar futebol com ópera…

    Curtir

  6. Sr. Julio Gomes, infelizmente, já “mataram” vários torcedores, com paulada, com sinalizador náutico, com barras de ferro etc…Não lembras ? E, agora, a considerar a invasão do CT do Coríntians, parece ter chegado a vez dos jogadores. Em 08.02.14, Marabá-PA.

    Curtir

Deixe uma resposta