Futebol fora-da-lei

Por Humberto Miranda (do Blog do Juca Kfouri)

O caso da “invasão” dos torcedores ao CT do Corinthians sintetiza bem o problema do futebol brasileiro como organização, ou seja, a ausência de leis republicanas formais e de instituições que as levem à prática. É um mundo marginal.

Quanto mais se mexe, mas fica evidente que o mundo do futebol é um mundo apartado. Não se submete à Constituição Federal promulgada em 1988 e, acho, nem à primeira constituição republicana, de 1891, redigida por um político liberal, Ruy Barbosa de Oliveira.

Veja você: os jogadores do Bom Senso FC juntamente com o Sindicato vão pedir licença para decretar greve. Senti-me no Brasil Império.

Império da Cartolagem de José Maria Marin I, nosso Old-Infante. A falta de conhecimento de leis, a falta de cidadania e a falta de participação política do coletivo de jogadores (o sentido de classe) marcam a vida dos profissionais do futebol, embora eu elogie e admita que o Bom Senso FC seja a expressão coletiva do “sentimento de classe”, noção atribuída ao historiador E. P. Thompson: os trabalhadores, ao vivenciarem essa experiência de luta comum, adquirem consciência de classe, que, nesse caso, não é algo abstrato. Mas não é só isso.

O futebol é um mundo das grandes transações financeiras, dos super salários, das arenas padrão-Fifa e ao mesmo tempo da superexploração, do coronelismo paternalista, de existência de trabalho escravo e maus tratos.

Vive à margem das leis e a sua marginalidade penetra nas instâncias legais.

O ilegal e o ilícito convivem com o legal e lícito, pois quando são eleitos ex-jogadores e dirigentes a deputado, vereador etc. espera-se que contribuam para elevar a cidadania do mundo futebolístico em especial, mas serve, em boa medida, para o oposto: aumenta e reitera-se, em geral, as ilicitudes.

Reforçam-se também o próprio sentido marginal das políticas estatais.

É impressionante como o cotidiano do futebol como organização é avesso à vida cidadã. É mundo só se oficializa e obriga-se a sair da marginalidade quando tem dívidas para serem perdoadas. Só aí que se tem alguma pressão para reduzir o poder de barganha da cartolagem frente à esfera pública. Isso acontece na América e na Europa, não é privilégio brasileiro, mas aqui a sua marginalidade é mais “institucionalizada” (é a regra do jogo).

Dirigente de confederação, de federações, de clubes… ministros… secretários…. de esporte, ninguém assume nada.

É um mundo marginal socialmente consentido e os meios de comunicação jogam um papel muito grande na massificação desse consenso quando são poucos os seus críticos.

E quando eles existem são logo tratados como ameaça e sujeitos a processos judiciais até que venham a falir financeiramente ou, em casos extremos, são calados à bala, como acontece no Pará, no Maranhão e outros estados com menor visibilidade.

A imprensa livre ajuda a protegê-lo nesse caso. Até o Estatuto do Torcedor, que deveria ser um guia fundamental para melhorar as vida futebolística no Brasil, torna-se um estorvo.

Isto porque o mundo marginal (em relação a leis) é propenso à formação de grupos de interesse de todo tipo, máfias, facções de torcida, sindicatos de faxada, familismo amoral (ou oligarquias), empresários postiços, agentes cuja conduta não tem limites perante o estado, enfim, um mundo fragmentado onde não se consegue separar torcedor de marginal, lícito de ilícito; tem com códigos de conduta e regras próprias feitos sob medida para atender ao jogo político paroquial das facções, como é o STJD.

É também um mundo economicamente marginal com regras e condutas obscuras, onde a vida familiar e futebolística é misturada e apostada num contrato (Neynar), é um mundo ao mesmo tempo rico e miserável, que atrai os socialmente deserdados e os “Eike Maravilha” endinheirados, onde se compra voto descaradamente à despeito da rigidez do estatuto eleitoral do TSE, das recomendações de TCU e TCEs, de interpretações do STF e decisões do STJ.

A vida pública tem a cidadania cada ver mais tutelada e a vida privada é cada vez mais promíscua. Num, a cidadania é cada vez mais judicializada; noutro, pode-se tudo. Qual a diferença afinal entre Paulo Maluf e Marco Polo Del Nero? Se cabe algum bom senso nesse mundo do futebol é o de torná-lo submisso às leis do país, às regras democráticas (o exemplo do EC Bahia é uma exceção que pode ter vida curta) e ao respeito à cidadania (o Estatuto do Torcedor obedecido). Isso está explícito.

As coisas mudam muito lentamente, mas os problemas ganham uma cumulatividade explosiva. A invasão do CT do Corinthians pareceu mais um consentimento do que uma ação marginal. A PM estava lá.

A mesma PM que entrou na USP baixando o pau, supostamente, em “estudante maconheiro”, muda de comportamento no CT do clube de futebol; câmeras são desligadas para se criar a versão oficial ou as inúmeras versões sobre o ocorrido; jogadores, treinadores e dirigentes tratam o direito de greve, que está na Constituição, como anomalia, quando é uma regra do Estado Democrático de Direito!

Isso tudo para dizer que os jogadores podem e devem fazer greve. Só se preocupa em “legalizar” movimento grevista quem vive na marginalidade das leis. Isto é um precedente perigoso para a democracia. Feita a greve, como de praxe, a justiça se manifestará depois de acionada pelos patrões.

Mas nesse mundo de assessores, de diretores disso e daquilo, de agentes desse e daquele… nem sabemos quem é patrão. Ele é uma figura postiça, diluída entre o torcedor, o cidadão e a trapaça política da cartolagem. Uma greve ajudaria a arrancar essas máscaras uma a uma.

O futebol como organização não pode continuar no feudalismo, onde os “donos do futebol” criam as regras, tomam as decisões e julgam as pessoas, que pedem permissão para reclamar.

Os jogadores continuarão servos desse antigo regime? É hora de bater o pênalti da democracia. Afinal, um dia ele ganhou um adjetivo próprio ao ser chamada de corintiana. Olhando daqui, vemos o quanto precisamos dela no sentido geral para o futebol brasileiro.

* Humberto Miranda é professor de Economia da Unicamp.

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