Hugo Motta desafia STF para proteger o fugitivo Ramagem

STF determinou a cassação de Ramagem, mas Motta afirmou que ‘ainda vai consultar o departamento jurídico’ da Casa.

Por João Filho – Intercept_Brasil

A condenação de Bolsonaro e de sua gangue golpista, entre eles Alexandre Ramagem, foi um acontecimento grandioso para o país. Os militares ameaçam a democracia desde a República, mas nunca sofreram qualquer punição. A prisão dos bandidos de farda é um feito inédito e temos muito o que comemorar.

Diferente dos EUA, que absolveu um líder golpista e permitiu que ele voltasse ao poder para um segundo mandato ainda mais autoritário, a democracia brasileira tornou o seu tirano inelegível e o colocou na cadeia. Não é pouca coisa. 

Mas o golpismo continua à espreita e convém manter-se vigilante. A fuga de Alexandre Ramagem, às vésperas de ser condenado a 16 anos de prisão, é desmoralizante para o STF, que agora assiste a um réu condenado atacando a justiça brasileira do exterior.

É vergonhoso também para a Polícia Federal, que permitiu que um criminoso dessa magnitude fugisse do país mesmo com passaporte cancelado. Nos EUA, Ramagem passou a desafiar Alexandre de Moraes — a quem chama de “violador de direitos humanos” e “tirano de toga” — e a pedir sua extradição.

Ele alega estar seguro nos EUA pois tem a “anuência” do governo de Donald Trump. É vexatório para o estado brasileiro ver um criminoso desse quilate escapar para o exterior e engrossar a campanha internacional de difamação da democracia brasileira, iniciada por Eduardo Bolsonaro.  

Ramagem é potencialmente mais perigoso

Ramagem não foi qualquer um na trama golpista. Ele usou a estrutura da Abin para monitorar clandestinamente adversários políticos do bolsonarismo e dar apoio a tentativas de ruptura institucional. Durante 3 anos do mandato de Jair Bolsonaro, ele teve acessos a informações do interesse da soberania nacional brasileira.

Sem nenhum freio moral, Ramagem usou e abusou do aparato de inteligência do estado. A Abin foi transformada em um órgão a serviço do bolsonarismo. Montou-se ali uma estrutura de espionagem da qual Ramagem era o líder operacional.

Segundo a PF, quase 2 mil pessoas consideradas inimigas do bolsonarismo foram monitoradas pelo software de espionagem israelense FirstMile.

O programa foi acessado mais de 30 mil vezes contra jornalistas, políticos, advogados, militantes, policiais, ministros do STF e quem mais estivesse na mira do bolsonarismo.

O delegado do caso Marielle e procuradores que atuaram contra Bolsonaro tiveram seus passos monitorados. Até mesmo alguns aliados foram investigados pelo esquema de Ramagem.

Esse é o homem que fugiu para os EUA e diz estar agora sob proteção do governo Trump. No Brasil, ele usou essas informações obtidas de forma ilegal para auxiliar os ataques de Bolsonaro contra as urnas eletrônica.

Agora, pode usá-las em favor de Donald Trump em troca de proteção. Um criminoso foragido, munido de segredos de estado, está em solo americano em um momento turbulento das relações diplomáticas entre os dois países.

Segundo um servidor da Abin ouvido pelo ICL Notícias, Ramagem é, entre os condenados que fugiram, potencialmente o mais perigoso. “É quem teve maior acesso a documentos restritos, materiais sigilosos e contatos sensíveis. Participou de viagens institucionais e acompanhou de perto informações estratégicas. Por isso, o risco representado por ele é muito maior”, revelou o servidor.

Não nos esqueçamos que, ao sair da Abin em 2022, Ramagem roubou um notebook e um celular que pertenciam à agência e os levou para sua casa.

Não podemos confiar em Trump

Recentemente, os ataques do governo americano contra a soberania brasileira arrefeceram, mas a imprevisibilidade de Trump pode mudar tudo outra vez. Se isso acontecer, o presidente americano terá ao seu lado um aliado valiosíssimo.

Conforme lembrou o jornalista Octávio Guedes da Globo News, Ramagem participou da Operação Paraguai, criada para investigar suspeitas de que o governo Trump estava por trás de uma campanha liderada por ONGs para que aquele país parasse de vender energia excedente da hidroelétrica de Itaipu para o Brasil.

Em maio deste ano, o secretário americano Marco Rubio demonstrou publicamente o interesse dos EUA em comprar energia de Itaipu para alimentar os data centers de inteligência artificial.

Agora, Ramagem está lá balançando o rabinho pro Tio Sam. O apátrida que se diz patriota não hesitará em municiar o presidente americano em troca de proteção. Esse é o tamanho da brecha dada pelo STF e pela PF ao permitir a fuga do criminoso.

O pedido de extradição do deputado cairá nas mãos do próprio Marco Rubio e se tornará mais um problema com que a diplomacia brasileira terá que lidar. 

A Câmara dos Deputados até agora tem sido uma mãe com o criminoso. Desde que fugiu, Ramagem participou de 24 sessões e conseguiu votar remotamente em 132 propostas. Até a última terça-feira, o criminoso tinha direito a voto na Câmara.

É um acinte à democracia brasileira que só é possível graças à leniência e à frouxidão do presidente Hugo Motta.

Chegou-se ao cúmulo do foragido apresentar à Câmara pedidos de reembolso de gastos em postos de gasolina no Rio de Janeiro enquanto está nos EUA. A verba parlamentar foi usada por terceiros para o abastecimento de carros, o que é proibido pelo regimento da casa.

Ou seja, o criminoso tentou dar um golpe na democracia, fugiu para outro país e agora manda as notas para a “casa do povo” para cobrir seus gastos com gasolina. O golpista continua desfrutando de salário e das verbas do gabinete. 

Hugo Motta trata decisão do STF com desdém

Depois da fuga, o STF determinou a cassação do deputado, mas Motta continua se fazendo de louco. Ele afirmou que “ainda vai consultar o departamento jurídico” da Casa, antes de qualquer decisão relativa à cassação do mandato de Ramagem.

O presidente da Câmara está tratando uma determinação do STF com desdém. A cassação imediata do mandato de Ramagem é uma obrigação legal. Hugo Motta está desafiando o STF ao tratar a determinação como um pedido passível de aval do departamento jurídico da Câmara. 

Colocar Jair Bolsonaro e seus capangas golpistas na cadeia foi um avanço enorme e histórico para a democracia brasileira, mas ainda há muito o que se fazer. Deixar que Ramagem volte a conspirar contra o país depois de ser condenado por participar de uma tentativa de golpe é um erro grave demais para ser ignorado.

STF e PF devem ser louvados pela ação contra o golpismo, mas um erro desse naipe pode colocar tudo a perder no futuro. Já do presidente Hugo Motta não se pode esperar nada mesmo. Se dependesse dele, Eduardo Bolsonaro, Zambelli e Ramagem poderiam formar a “bancada dos fugitivos” no exterior. 

O mantra que embalou o acesso

POR GERSON NOGUEIRA

A frase, insistentemente usada como gancho de reforço da autoestima entre os jogadores do Remo, ganhou as ruas e passou a ser repetida como mantra pela torcida na arrancada vitoriosa iniciada com a goleada sobre o CRB e que culminou com o triunfo em cima do Goiás, no domingo passado, 23.

Palavras movem o mundo e são armas poderosas quando bem empregadas. Os azulinos fizeram do grito de guerra “O Remo é para quem acredita” uma peça similar ao “Eu acredito!”, explorado pela primeira vez pela torcida do Atlético-MG em campanha pela Copa Libertadores.  

Nada disso teria qualquer efeito se em campo o time não tivesse correspondido à expectativa da torcida. A sequência de seis vitórias, que fez o Remo subir da 12ª colocação para a disputa direta por uma vaga no G4, respaldou o ruidoso incentivo vindo das arquibancadas.

Acreditar é o primeiro passo para qualquer conquista, mas palavras de ordem que não têm eco na atuação dos jogadores terminam esvaziadas e até ridicularizadas, como aquela célebre provocação “Real Madrid, a tua hora vai chegar”, puxada certa vez nos vestiários do Flamengo.

(Naquela ocasião, a frase infeliz foi atribuída ao ex-dirigente do Flamengo, Marcos Braz, atual executivo do Remo e um dos nomes mais importantes do projeto azulino de acesso à Série A.)   

O fato é que merece destaque a força mental que o elenco azulino exibiu após a derrota para o Avaí, embalada pelo coro que partia da torcida, incluindo a vibrante demonstração de confiança na conquista. Tudo isso turbinado pela apoteótica celebração que conduziu o Leão à vitória.

Guto Ferreira tem destacado o aspecto anímico da trajetória do Remo e a vinculação com as manifestações religiosas, influindo na resiliência física e no esforço final de jogadores comprometidos com a causa do acesso. (Foto: Beatriz Reis/ge PA)

Dificuldades na rota da reconstrução bicolor

Conciliar a necessidade de contratar reforços com a realidade das finanças do clube é o maior problema para os envolvidos com a reconstrução do PSC. A entrada em cena de novos personagens – Júnior Rocha (técnico) e Marcelo Sant’Ana (executivo) – torna ainda mais urgente a resolução de problemas que contribuíram para o rebaixamento à Série C.

Rocha e Sant’Ana foram apresentados oficialmente nesta semana, expuseram ideias e planos, mas ainda estão tomando pé da situação. Aos poucos, passam a conhecer os problemas do clube em minúcias.

O primeiro desafio é a contratação de jogadores para começar a montagem do elenco para 2026. A vantagem de ter a Série C prevista para abril não exclui a urgência de arrumar a casa com vistas às primeiras competições – Campeonato Paraense, Copa Norte/Verde e Copa do Brasil.  

Além disso, as contratações precisam ser fechadas antes que o mercado fique mais restrito, a partir da janela para times das Séries A e B.  

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa especial deste domingo, às 22h, na RBATV, dedicado à conquista do acesso do Clube do Remo à Série A. O convidado é Pedro Rocha, ídolo azulino e artilheiro da Série B 2025. Participação deste escriba de Baião. A edição é de Lourdes Cezar.  

De estrela do tênis a futura imperatriz do açaí

O que o tênis de alto rendimento tem a ver com o açaí paraense? Tudo porque Aryna Sabalenka, bielorussa que é a nº 1 do ranking da WTA, pode ser considerada como a futura rainha do açaí em escala planetária. Afinal, é a namorada do empresário e desportista Georgios Frangulis, CEO e fundador da Oakberry, empresa que investiu na produção de açaí no Pará e passou a dominar as exportações nacionais do produto, presente hoje como franquia em mais de 40 países.

A fábrica original, a Oakville, fica em Santa Izabel, a 60 quilômetros de Belém. Foi inaugurada em setembro de 2022. O Pará, como se sabe, é o maior produtor de açaí do Brasil, com mais de 90% da produção nacional.

Georgios Frangulis, além de sócio majoritário do grupo, acompanha Sabalenka pelas quadras mais importantes do tênis mundial e entrou para o ramo do futebol ao adquirir o clube Le Mans FC, da 2ª divisão francesa.

(Coluna publicada na edição do Bola de sábado/domingo, 29/30)

Remo na Série A: um relato especial do dia do acesso

Uma reportagem interessante do Vlog do Braune sobre o acesso do Remo, a paixão da torcida e os encantos de Belém.

Desafios que a fartura impõe

POR GERSON NOGUEIRA

Clubes que conviveram durante décadas com orçamentos apertados e dificuldades terríveis para equilibrar receita e despesa costumam enfrentar problemas quando alcançam um patamar de segurança financeira. Sair da pindaíba para a fartura não é um processo simples. É o momento de organizar as contas e redobrar cuidados com os gastos.

É justamente a situação do Remo, que no espaço de um ano conquistou dois acessos (da Série C para B e desta para A) e saltou de um orçamento inferior a R$ 2 milhões em 2024 para cerca de R$ 4 milhões em 2025 e agora vai para algo em torno de R$ 180 milhões, entre contratos, premiações e patrocínios diversos.  

O volume de recursos previstos para a próxima temporada vai exigir da gestão uma rígida política de investimentos, capaz de equilibrar as exigências pela montagem de um elenco competitivo para a disputa do Brasileiro da Primeira Divisão e os gastos com as obras estruturais, igualmente importantes e urgentes.

Dentre essas obras, destaque para a finalização das obras do CT de Outeiro e a revitalização do estádio Evandro Almeida. Nunca antes em sua história o Remo teve tantos recursos financeiros para se organizar e investir, tornando-se verdadeiramente grande no cenário do futebol nacional.

A chance é única e impõe muita responsabilidade. Todos os envolvidos estão conscientes desse momento especial na vida do clube. Ao contrário do que ocorreu da última vez em que esteve na Série A, o cenário atual dá ao Remo a condição de ingressar na elite do futebol brasileiro com recursos suficientes para permanecer lá por muito tempo.  

Quarteto mágico é questão fechada no Leão

O esforço inicial dos dirigentes do Remo se concentra na manutenção de uma base para terminar o ano e ganhar segurança para buscar os reforços necessários. Nesse sentido, com base no que realizaram na temporada, alguns jogadores encabeçam a lista de prioridades.  

Marcelo Rangel, Ygor Vinhas, Klaus, Marcelinho, Nathan Camargo, Caio Vinícius, Jaderson, Pavani, Cantillo, Panagiotis, Pedro Rocha, João Pedro, Nico Ferreira e Diego Hernández. Com poucas variações, para mais ou menos, esta é a relação dos que devem ficar.

Alguns têm contrato até dezembro deste ano, outros até o final do ano que vem, mas segurar o quarteto Marcelo Rangel, Pedro Rocha, Nico e Diego Hernández é questão absolutamente fechada entre os dirigentes azulinos. (Foto: Samara Miranda/Ascom CR)

Marco zero do processo de reconstrução

A apresentação do técnico Júnior Rocha marca oficialmente o início da reconstrução do PSC, após o desastre que foi a participação na Série B 2025. A entrada em cena do novo comandante traz a premissa de que, a partir de agora, o clube descarta tudo que deu errado e investe de verdade em práticas que podem ajudar na retomada.

Técnico da nova geração, Rocha tem experiência em clubes que disputaram a Série C, o que é valioso para a temporada que o PSC vai fazer. No primeiro contato com a imprensa, destacou a importância de formar um time competitivo, com espírito solidário e noção de jogo coletivo.

Tocou discretamente na questão das escolhas de atletas em fim de carreira e que muitas vezes se escondem em clubes periféricos. Polido, disse que sua pregação pelo comprometimento não é uma referência a esse tipo de atleta problemático, que o PSC tem prestigiado nos últimos anos.

É fundamental que o novo comandante tenha voz ativa e autonomia para influir nas escolhas, juntamente com o executivo de futebol Marcelo Sant’Ana, a fim de evitar os muitos erros cometidos nesta temporada, repleta de apostas que só trouxeram prejuízo ao Papão.

Goleiro paraense vai defender a Seleção Sub-16

O goleiro Zafir Ayan, que começou nas divisões de base do Remo e hoje no Fluminense, foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-16. Ele vai se juntar a um seleto grupo de jogadores que vestiram a camisa canarinho, incluindo a do escrete de base.

Zafir faz companhia a Sócrates, que jogou as Copas de 1982 e 1986; Paulo Victor, presente à Copa de 1986; Giovanni, que esteve no Mundial de 1998; e Paulo Henrique Ganso, convocado para a Copa América de 2011.

Além deles, outros atletas paraenses tiveram a honra de vestir a camisa da Seleção – casos de Rosemiro, Manoel Maria, Charles Guerreiro e, mais recentemente, Rony.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 28)

Como a extrema direita e o Centrão ajudaram o banqueiro do Master

Lobby poderosíssimo na defesa de interesses espúrios permitiu que Daniel Vorcaro tivesse vida de luxo financiada pela trambicagem.

Por João Filho – Intercept_Brasil

A Polícia Federal desbaratinou mais um escândalo no mercado financeiro. A operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana, investigou a emissão de títulos de créditos falsos por instituições financeiras que integram o sistema financeiro. O grande beneficiário do esquema era o Banco Master, que oferecia a seus clientes investimento em renda fixa, o CDB, a valores muito abaixo do valor de mercado. 

Foram cumpridos sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em todo o Brasil. A Polícia Federal prende os milionários e, talvez, esse seja o principal motivo pelo qual Guilherme Derrite, o Centrão e o bolsonarismo desejarem tanto excluí-la das investigações contra o crime organizado no PL Antifacção.

Não foi uma novidade. Até os sapatênis que desfilam na Faria Lima conheciam as pilantragens de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que foi preso enquanto se preparava para fugir no seu jatinho particular. Tudo indica que o banqueiro, muito bem relacionado no mundo político, preparou a fuga ao receber a informação de que seria preso.

O cheiro de trambique que vinha do Banco Master sempre foi forte, mas Vorcaro conseguiu ir longe graças ao grande arco de alianças políticas que ele construiu ao longo dos anos. 

Antonio Rueda, presidente do União Brasil; Ciro Nogueira, senador e presidente do PP; e Ibaneis Rocha, governador do DF pelo MDB (Arte: Giovana Abreu)

Um lobby poderosíssimo na defesa dos seus interesses foi instalado em Brasília, permitindo que o banqueiro tivesse uma vida de luxo e ostentação financiada pela trambicagem. A pessoas próximas, ele confessava ter feito “fortes amigos” na capital federal e dizia que, sem o apoio de poderosos, não estaria no lugar aonde chegou. 

Muito se falou que Vorcaro mantinha relações com integrantes dos três poderes e de espectros ideológicos variados. É verdade. Esse é mais um caso que revela a intensa promiscuidade entre a classe política e jurídica com banqueiros. Mas é importante diferenciar quais dessas conexões atuaram diretamente para proteger o trambique.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, fez parte do comitê consultivo estratégico do Master. Ele foi contratado pelo banco assim que deixou o STF e, em seguida, deixou o cargo para integrar o governo. Me parece algo eticamente questionável por si só, mas foi a PF, subordinada a ele, que colocou o banqueiro na cadeia. 

O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, também foi contratado por Vorcaro. Apesar de não haver ilegalidade na contratação, não me parece adequada a aproximação de um parente de ministro do Supremo com uma figura reconhecidamente controversa. 

O sócio de Vorcaro é amigo íntimo do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia. Nada disso cheira bem, é verdade, mas, até aqui, não há indícios que essas relações tenham facilitado a vida criminosa de Vorcaro. 

Parte da imprensa está louquinha para ressaltar os laços, digamos, mais governistas do banqueiro. Mas o fato concreto é que o lobby político em defesa dos interesses espúrios de Vorcaro mora no Centrão e na extrema direita. 

A tropa de choque do banqueiro em Brasília tem nome e sobrenome: Antonio Rueda, presidente do União Brasil; Ciro Nogueira, presidente do PP; e Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, do MDB. Essa trinca se mobilizou de maneira intensa em defesa dos interesses do Banco Master em Brasília. 

Em abril deste ano, Ciro Nogueira atuou fortemente nos bastidores para barrar uma CPMI que investigaria o Banco Master. À época, o senador Jorge Kajuru, do PSB de Goiás, declarou: “O lobby contra a CPI está pesado nos bastidores. Boa parte dos senadores não vai se vender, mas evidentemente que tem gente que tem preço”. 

Apesar de haver assinaturas suficientes, o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro conseguiu evitar a CPMI que investigaria os negócios do seu banqueiro. E essa não foi a primeira vez que Ciro Nogueira atuou para ocultar os trambiques de Vorcaro. 

No ano passado, ele tentou malandramente fazer uma alteração na PEC que garante a autonomia financeira do Banco Central, que ficou conhecida como “emenda Master”. O senador buscou aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, para as aplicações financeiras como o CDB, justamente o principal produto do banco de Vorcaro. 

A ideia, que daria passe-livre para o trambique, acabou sendo rejeitada pelo relator da PEC na Comissão de Constituição e Justiça, o senador Plínio Valério, do PSDB do Amazonas.

Essa CPMI seria aberta para investigar a escandalosa compra de ações do Master pelo BRB, o banco estatal de Brasília. O negócio foi feito sob as bênçãos de Rueda, Ciro e Ibaneis. Segundo as investigações da PF, a compra das ações do Master pelo BRB foi feita por “pura camaradagem” como “tentativa de abafar a fiscalização” feita pelo Banco Central. 

‘Trata-se da velha fórmula do neoliberalismo: privatiza-se o lucro e socializa-se os riscos’.

O negócio de cerca de R$ 2 bilhões foi defendido publicamente por Ibaneis e rapidamente autorizado por todos os deputados da base do governador. Na época, Ibaneis declarou que a compra do banco ajudaria o Distrito Federal a investir em mais obras: “Isto tem um significado muito grande para a população do Distrito Federal, porque nós, como acionistas majoritários de um banco público, passamos a ter mais dividendos para poder investir nas obras que são necessárias na cidade”. 

Sob alertas do órgãos de controle, mas com o intenso apoio de Ciro Nogueira e Rueda, o governador do DF colocou um banco público para salvar um banco privado rumo à falência. Trata-se da velha fórmula do neoliberalismo: privatiza-se o lucro e socializa-se os riscos.

As investigações apontam também que Vorcaro recebeu investimentos bilionários de um fundo suspeito de ligação com o PCC. Coincidência ou não, há fortes suspeitas de que Rueda e Ciro Nogueira se relacionam com empresários ligados à facção. 

O aprofundamento das investigações sobre o escândalo do Master é promissor e está deixando muita gente apavorada, principalmente parte da turma que queria enfraquecer o papel da Polícia Federal no PL Antifacção do Derrite. 

Aliás, nunca é demais lembrar: Rueda e Nogueira são os principais articuladores da candidatura presidencial de Tarcísio, o homem que indicou Derrite para cuidar do PL Antifacção. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.

Dia de Remo: bastidores da conquista do acesso

Vídeo editado pela Remo TV com o relato dos bastidores do acesso à Série A, após 32 anos de ausência da Primeira Divisão nacional. Um dos dias mais importantes da história do Clube do Remo.

Rangel e Rocha, os melhores

POR GERSON NOGUEIRA

Saiu a lista dos melhores jogadores da Série B 2025 e a escolha do goleiro é o primeiro ponto a ser questionado. Marcelo Rangel, do Remo, de atuações excepcionais durante todo o campeonato, perdeu o posto na seleção do torneio para o jovem Pedro Mourisco, do Coritiba, escolhido pelo fato de pertencer ao time campeão.

Em termos de desempenho não há como ignorar a excepcional participação de Marcelo Rangel, responsável pela segurança defensiva do Remo e um dos baluartes da campanha do acesso, que já tinha sido o herói da subida à Série B em 2024.

É uma trajetória impecável, com direito a um punhado de defesas milagrosas em vários jogos deste campeonato, como nas partidas contra América-MG (lá e cá), Coritiba, CRB, Operário e Athlético-PR.

Mais impressionante ainda foi a excepcional recuperação, após a lesão no joelho, que poderia ter significado o fim do campeonato para ele. Desfalque em dois jogos, Rangel ficou apenas 15 dias fora da equipe, retornando contra a Chapecoense, no Baenão. O fato indiscutível é que merecia a titularidade na seleção da Série B.

Pedro Rocha entrou na lista dos melhores, nem poderia ser diferente, mas ficou a impressão de que só foi selecionado porque não podia ser ignorado, afinal de contas é o artilheiro do campeonato. Ocorre que suas atuações pelo Remo deveriam ser mais do que suficientes para a escolha.

Rocha fez a melhor temporada de sua carreira, com o maior número de gols marcados. Até pontificar como goleador do Remo e figura exponencial na campanha do acesso, suas características eram de um atacante de lado que oportuniza situações de gol para o centroavante.

No Remo, ele mudou a maneira de atuar e assumiu um papel de definidor mais pelas carências que o time apresentava, com o baixo rendimento de seus homens de área (Felipe Vizeu e Ítalo) no começo do campeonato.

No encerramento do Brasileiro, fica claro que Rocha foi o maior reforço contratado pelo Remo para a campanha em busca do acesso à Série A.

Ainda quanto à lista dos melhores, talvez fosse justo lembrar de Caio Vinícius, um dos melhores volantes da competição, fato valorizado por ter se transformado em emérito finalizador sob o comando de Guto Ferreira.

De qualquer maneira, o fundamental mesmo era a conquista do acesso. Escolhas que dependem de avaliações pessoais nem sempre são inteiramente certeiras. Neste caso, fica a convicção de que houve injustiça em relação a Marcelo Rangel. (Foto: Samara Miranda/Ascom CR)

Manter o técnico é prioridade mais urgente

A permanência do técnico Guto Ferreira é a prioridade mais urgente dentre tantas que o Remo estabeleceu para o período pós-acesso. As negociações já começaram e é provável que o comandante permaneça. As declarações dele após a partida com o Goiás sinalizam para o desejo de continuar.

Sem dúvida, a manutenção do técnico é o passo mais importante para dar início ao processo de formatação do novo elenco, que precisa estar pronto até janeiro, quando o Remo terá o Campeonato Estadual e o Brasileiro da Série A, a partir do dia 28.

Guto conseguiu transformar positivamente o Remo nas dez partidas sob seu comando. Conquistou sete vitórias, dois empates e uma derrota. Conquistou mais pontos de que seus antecessores – 23.  

É claro que o desafio da Série A é muito complexo, mas Guto tem em seu favor a longa experiência no ramo. Seu conhecimento e capacidade de observação serão extremamente preciosos na etapa de construção do time para a Primeira Divisão.

Scaloni do Interior é o novo comandante do Papão

Júnior Rocha será o técnico do PSC para a Série C e demais competições de 2026. Não tem o perfil de técnico famoso e bem credenciado como a torcida esperava, mas é um nome que se adequa às aspirações do Papão na próxima temporada, levando em conta o executivo de futebol escolhido – Marcelo Sant’Ana, apresentado oficialmente ontem.

Gaúcho de São Leopoldo, Rocha foi jogador por oito temporadas. Desde 2011, abraçou o ofício de técnico e já conquistou dois acessos para a Série B: com a Ferroviária de Araraquara, no ano passado, e com o Luverdense (MT), em 2013. Aliás, foi pelo clube de Mato Grosso que ele ficou por três anos seguidos na Segunda Divisão.

Ele também ganhou o título da Copa Verde, contra o PSC, em 2017, e venceu o campeonato mato-grossense e a Recopa Catarinense. Um fato curioso é que, em 2022, quando era técnico da Inter de Limeira (SP), Rocha foi chamado de “Scaloni do Interior”, por força de certa semelhança física com o treinador da Argentina, campeão do mundo naquele ano.

A melhor notícia para a torcida do Papão é que, nas três vezes em que disputou a Série C, entre 2022 e 2025, Rocha comandou times que obtiveram classificação para o quadrangular que define o acesso.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 27)

Bolsonaro e aliados começam a cumprir pena de prisão por tentativa de golpe contra a democracia

Decisão finaliza julgamento da trama golpista; ex-presidente vai permanecer na Superintendência da Polícia Federal, onde está preso desde sábado

Do Opera Mundi

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou o início do cumprimento da pena de prisão para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime inicialmente fechado por tentativa de golpe de Estado. Ele vai permanecer na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde está preso desde sábado (22/11).

O cumprimento da pena ocorre após o STF declarar o trânsito em julgado da ação penal. Isso significa que os réus já esgotaram todos os recursos disponíveis dentro da Corte. Bolsonaro foi condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição do Estado Democrático, golpe de Estado, dano qualificado pela violência, grave ameaça contra patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

O ex-presidente já está preso preventivamente na Superintendência da Polícia Federal na capital brasileira desde a manhã do último sábado. De acordo com a corporação, Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica. Moraes havia determinado o uso do equipamento no âmbito da investigação sobre a tentativa de obstrução do julgamento da trama golpista, com a ajuda de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos Estados Unidos.

Além do ex-presidente, Moraes decretou o trânsito em julgado para o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres e para o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). O ministro também determinou o início do cumprimento das penas de Mauro Cid, Walter Braga Neto, Anderson Torres, Almir Garnier, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Alexandre Ramagem.

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL

“O momento tão aguardado por ativistas de esquerda brasileiros e familiares de vítimas do coronavírus chegou”, escreveu, nesta terça-feira (25/11), o jornal El País sobre o início da pena de 27 anos de prisão por Jair Bolsonaro por “liderar uma conspiração golpista”. O periódico espanhol que o ex-presidente brasileiro “está agora tecnicamente preso, mas sem sair um centímetro da cela onde está detido em Brasília”.

Ao dar destaque aos “problemas gastrointestinais” de Bolsonaro, a publicação afirmou que o ex-presidente cumprirá pena no local “levando em conta sua idade e saúde frágil”, consideradas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), — órgão classificado pelo jornal como um “grande defensor da democracia”.

Segundo o El País, “se Bolsonaro cumprisse toda a sua pena na prisão, seria libertado após quase 100 anos [de idade]”, detalhando que, segundo o direito penal brasileiro, o ex-presidente deve cumprir pelo menos 25% ou seis anos em regime fechado. Após esse período, teria “permissão para trabalhar”, mas está “está impedido de concorrer a cargos públicos desde 2023”, escreveu, lembrando de sua inexigibilidade.

“Seu afastamento da vida pública e o silêncio imposto pelo juiz o enfraqueceram politicamente. Os esforços de seus filhos e de seu partido para aprovar uma lei de anistia ou uma redução de pena no Congresso — que o livraria da prisão ou ao menos diminuiria sua punição — fracassaram até agora”, analisou ainda.

Para o El País, nem a “formidável pressão exercida pelo presidente [dos Estados Unidos] Donald Trump, na forma de ameaças, tarifas e sanções econômicas contra juízes, não conseguiu salvar seu aliado e impedi-lo de ser responsabilizado por tentar subverter a ordem constitucional”

De acordo com a publicação, “as instituições brasileiras demonstraram notável resiliência diante das ameaças e agressões do político mais poderoso do mundo”.

francês Le Monde afirmou que Bolsonaro começou a cumprir sua sentença, tornando “definitiva sua condenação” após “esgotar todos os recursos cabíveis contra sua condenação”.

“O ex-capitão do Exército, que mobilizou os conservadores brasileiros para se tornar presidente em 2019 e remodelou a política do país, agora terá que cumprir uma longa pena de prisão”, escreveu o jornal.

Qual era o plano de fuga de Bolsonaro?

Pista de pouso vizinha ao condomínio de Bolsonaro, controlada pela família de Nelson Piquet, pode entrar no radar da PF como possível peça de plano do ex-presidente.

Por Paulo Motoryn, em Cartas Marcadas

Na edição desta semana, não podemos falar de outra coisa que não a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro após a tentativa de violação da tornozeleira eletrônica. Como você já sabe, a avaliação enviada pela Polícia Federal ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, apontou risco concreto de fuga e levou à ordem de detenção imediata.

A decisão se baseou no entendimento de que Bolsonaro já não estava sob controle suficiente das medidas cautelares e que havia, sim, indícios de preparo para escapar.

Desde sábado, dediquei minhas horas a investigar quais poderiam ser os possíveis planos de fuga do ex-capitão. Não por especulação, mas porque essa pergunta passou a orientar também o trabalho da PF.

Que caminhos reais estavam ao alcance imediato de Bolsonaro? E que estruturas poderiam ser usadas em uma eventual tentativa de evasão?

Vamos aos fatos.

Durante o esforço de apuração desta reportagem, descobri que a própria Polícia Federal passou a reexaminar informações para tentar reconstruir o que poderia ter sido um plano de fuga. Entre essas pistas, estavam informações idênticas a de um relato que chegou até mim em agosto de 2025.

Na ocasião, uma moradora do condomínio de Bolsonaro, o Solar de Brasília, no bairro do Jardim Botânico, disse que vizinhos temiam que um aeródromo privativo da família Piquet, a menos de 200 metros do condomínio, fosse cogitado como peça de um plano de fuga.

À época, procurei integrantes da PF para tentar confirmar a possibilidade e ouvi, de uma fonte do departamento, um categórico: “Chance zero”. O assunto morreu ali.

Com a prisão consumada e a suspeita de que a vigília bolsonarista na porta do condomínio pudesse servir para criar tumulto e atrasar uma ação policial para deter a fuga, a hipótese reapareceu na mesa.

Desta vez, não como fofoca de vizinhança, mas como elemento considerado pela própria PF. A mesma fonte do Departamento de Inteligência Policial, que antes havia negado a chance de uma fuga pela pista dos Piquet, confirmou que o aeródromo “entrou no radar” da corporação após o episódio da tornozeleira.

A PF, inclusive, estaria estudando diligências no local, levantamento de imagens e a eventual oitiva do proprietário, Geraldo Piquet Souto Maior, irmão de Nelson Piquet, tricampeão mundial da Fórmula 1 e aliado de primeira hora de Bolsonaro.

A pista de pouso e decolagem em questão, chamada simplesmente de Piquet, é registrada na Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, como aeródromo privado e localizado na borda do condomínio de Bolsonaro, imediatamente atrás da antiga Hípica Lago Sul, terreno que pertenceu à família Piquet até 2016.
Segundo documentos oficiais da ANAC e imagens de satélite consultadas pela reportagem, trata-se de uma pista asfaltada de 590 metros de comprimento por 18 metros de largura, com autorização para operação visual diurna e noturna, equipada com iluminação de borda e farol de aeródromo.

A pista é adequada para monomotores e bimotores leves, comuns na aviação executiva privada, e plenamente operacional para helicópteros, que independem de extensão para decolagem.
Para a fonte ouvida pela reportagem, a combinação da capacidade para aeronaves discretas, a operação regular e a proximidade inferior a 200 metros do condomínio tornam o aeródromo relevante em um cenário de possível evasão.
O responsável pela pista, Geraldo Piquet, mantém uma longa trajetória como piloto. Em entrevista publicada por uma revista especializada, ele conta que pilota “diferentes aeronaves”, inclusive jatos, e que sempre buscou “testar limites” para sentir a liberdade durante os voos.
As redes sociais de Geraldo reforçam essa identidade: vídeos mostram acrobacias sobre Brasília, voos de helicóptero e pousos e decolagens que parecem ocorrer na própria pista Piquet.
Esse repertório, somado ao histórico aeronáutico da família e à localização estratégica da pista em relação ao Solar de Brasília, explica o interesse renovado da PF em verificar a hipótese.
Questionei Geraldo Piquet sobre a possibilidade de uso do aeródromo em um eventual plano de fuga e se ele havia sido procurado por autoridades policiais nas últimas horas. Até o momento, não houve resposta. Também pedi uma nota oficial à PF, mas não tive retorno.
A relação entre Bolsonaro e Nelson Piquet é digna de nota. A visita do ex-piloto ao ex-presidente durante a prisão domiciliar, em 5 de novembro, autorizada por Alexandre de Moraes, reforça a hipótese.
Nos últimos anos, Piquet foi um dos mais visíveis apoiadores de Bolsonaro, dirigindo o Rolls-Royce presidencial no 7 de Setembro e participando de manifestações públicas em sua defesa.
Por ora, não há qualquer prova de que Bolsonaro tenha utilizado o aeródromo ou de que alguma movimentação real tenha sido feita em direção à pista. A apuração busca esclarecer se a estrutura chegou a ser cogitada, mesmo que informalmente, como rota de fuga.
As próximas etapas podem incluir análise de imagens, varredura de registros, inspeção técnica da pista e a oitiva de Geraldo Piquet, caso haja avanço para diligências formais.

Com raça, paixão e fé

POR GERSON NOGUEIRA

A festa continua rolando em todas as cidades paraenses e em outras paragens também. Poucas vezes se viu tanto entusiasmo e alegria nas ruas partindo de torcedores do Clube do Remo. O motivo é mais do que justo: o acesso à elite do futebol brasileiro. Por força de uma campanha memorável, o Leão está de volta ao topo.

No jogo de domingo, no Mangueirão, o enredo foi tão meticulosamente construído que pareceu obra de roteirista de cinema dos bons, com direito a pausas de suspense e emoção, momentos de aflição e a redenção final, com direito à expectativa pelo resultado do jogo Cuiabá x Criciúma.

Nem o torcedor mais fanático e pacheco conseguiria criar um desfecho tão espetacular. O hino diz que “em cada um de nós mora a esperança”, mas esse grau de confiança foi testado no limite em vários momentos do campo. Por isso mesmo, o júbilo pelo acesso extrapolou os limites do Pará e saiu mundo afora, despertando aplausos e admiração sincera.

A grande mídia nacional, sempre tão indiferente ao que acontece na parte superior do mapa, despertou finalmente para o Remo. Quarto colocado na Série B, coube ao Leão o tratamento mais caprichado nas matérias e comentários das emissoras de TV e canais de internet, justamente porque a história mais bonita e comovente é a azulina.

Com todo respeito a Coritiba, Athlético-PR e Chapecoense, também muito merecedores do acesso, nada é comparável ao que se passou com o Remo, e não me refiro só às últimas semanas. A história do clube é um tributo à capacidade de sobrevivência e de dar a volta por cima. Não há dúvida: a grande notícia do fim de semana é o renascimento do Leão.

O Remo já esteve sem divisão, frequentou a Série D, passou poucas e boas no limbo do futebol, disputando partidas em campinhos de areia e lama, com bandeiras de escanteio demarcadas por sacos plásticos. Todas essas provações tornam mais grandioso o atual momento de glória.

O Remo está na Série A do Campeonato Brasileiro por merecimento, quase uma reparação histórica para uma torcida resiliente e apaixonada, uma das maiores nações do futebol no Brasil, que em todos os jogos aprendeu a pedir apenas que os jogadores honrem a camisa com raça, paixão e fé.

Sim, a fé é fundamental e necessária. Foi pelos braços fervorosos de torcedores e atletas que a Santinha peregrinou por estádios de todo o Brasil nesta Série B, atestando a profunda religiosidade de um povo.

Belém tem fissura por futebol e devoção pela santa padroeira. Esses caminhos se encontraram na campanha magnífica que o Remo fez neste ano. Sagrado e profano lado a lado, como no Círio de Nazaré. (Foto 1: Samara Miranda/Ascom CR; fotos 2 e 3: Agência Pará)

Sete esteios da longa marcha rumo ao topo

Alguns jogadores se destacaram por rendimento, entrega e comprometimento na campanha do Remo, em nível acima dos demais atletas do elenco. Em primeiríssimo plano, acima de todos, aparecem dois nomes de grande importância para a conquista: Pedro Rocha e Marcelo Rangel. Duas verdadeiras instituições azulinas.

Pedro Rocha foi o melhor jogador do campeonato e o principal artilheiro, com 15 gols marcados. Ninguém exemplifica melhor a sinuosa trajetória do Leão do que o camisa 32. Ele iniciou bem, como todo o time, sob o comando de Daniel Paulista.

Caiu de rendimento quando o comandante era Antônio Oliveira e renasceu com Guto Ferreira, tornando-se mais decisivo ainda. Gols de valor inestimável, como o primeiro da partida com o Goiás, que reabriu as esperanças e sacudiu a massa no Mangueirão.

Marcelo Rangel foi outro pilar, garantindo lá atrás vitórias importantes. O melhor goleiro da Série B foi sempre preciso e econômico, sem firulas ou brilharecos desnecessários. Viveu momentos de aflição, após a lesão no joelho que o deixou fora de combate por duas semanas.

Quando ninguém imaginava que poderia voltar ao gol azulino, pois a previsão era de um tratamento de dois a três meses, ele se ergueu e voltou a campo, a tempo de garantir segurança ao sistema defensivo do Leão.

Além de ambos, é justo destacar também Caio Vinícius, Klaus, Nico Ferreira, Diego Hernández e João Pedro. A reinvenção de Caio Vinícius é um dos milagres operados por Guto Ferreira, que mudou o posicionamento do volante, transformando-o em um atacante improvável em vários jogos.

Na zaga, Klaus brilhou pela regularidade. Impecável no jogo aéreo, aplicado nos lances de chão, ele foi um dos responsáveis pela boa performance da defesa remista – o Remo é um dos três times que menos perderam, com somente oito derrotas na competição.

Os uruguaios Nico e Hernández precisaram de tempo para pegar ritmo e condicionamento, mas, quando isso ocorreu, tornaram-se peças imprescindíveis na equipe. Hernández brilhou nas cobranças de falta. Nico pontificou com aplicação e disciplina tática.

Por fim, é preciso falar de João Pedro, transformado em herói na apoteótica jornada final diante do Goiás. Com poucos e importantes gols, como na vitória sobre o Cuiabá, o centroavante português (nascido em Guiné Bissau) provou sua importância com os gols que levaram o Remo à elite. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 25)

Remo tem o jogo de maior público e lidera arrecadação da Série B

A vitória por 3 a 1 sobre o Goiás, que assegurou o acesso do Remo à Série A, quebrou os recordes de renda e público do Brasileiro da Série B. O estádio Jornalista Edgar Proença (Mangueirão) teve 43,3 mil pagantes e R$ 3,1 milhões arrecadados – valor líquido de R$ 2,2 milhões para o Leão. É apenas mais um recorde do Remo na competição, onde é também líder de arrecadação, com R$ 15.794.757 nas bilheterias obtidos nas bilheterias.

TimeRenda bruta total
RemoR$ 15.794.757
CoritibaR$ 10.327.646
Athletico-PRR$ 9.814.868
PaysanduR$ 7.021.650
ChapecoenseR$ 4.304.365
CriciúmaR$ 4.051.890
AvaíR$ 3.192.410
GoiásR$ 2.659.655
Operário-PRR$ 1.441.565
Vila NovaR$ 1.419.360
CRBR$ 1.149.905
Botafogo-SPR$ 1.089.135
Athletic ClubR$ 769.735
Atlético-GOR$ 694.680
CuiabáR$ 649.214
FerroviáriaR$ 632.190
América-MGR$ 569.910
AmazonasR$ 515.280
Volta RedondaR$ 483.600
NovorizontinoR$ 483.220

O campeão Coritiba aparece em 2º lugar, com R$ 10,3 milhões de renda bruta total. Athletico, Paysandu e Chapecoense fecham o grupo dos cinco clubes com as maiores arrecadações da Série B. 

Maiores públicos da Série B

Além de ter estabelecido o maior público do campeonato, o Remo ainda tem outras seis partidas no ranking dos maiores públicos da Série B. Já o Paysandu tem quatro jogos na lista.

JogoEstádioPúblico pagante
Remo 3 x 1 GoiásMangueirão43.315
Athletico-PR 1 x 0 América-MGLigga Arena42.091
Ahtletico-PR 0 x 1 CoritibaLigga Arena39.469
Athletico-PR 2 x 0 Volta RedondaLigga Arena38.930
Remo 0 x 1 PaysanduMangueirão38.154
Coritiba 0 x 0 Athletico-PRCouto Pereira36.391
Coritiba 0 x 0 RemoCouto Pereira33.679
Paysandu 2 x 3 RemoMangueirão33.513
Coritiba 0 x 0 Athletic ClubCouto Pereira31.922
Coritiba 0 x 0 GoiásCouto Pereira30.332
Remo 1 x 1 Botafogo-SPMangueirão28.604
Remo 1 x 0 AmazonasMangueirão27.514
Remo 1 x 1 Volta RedondaMangueirão26.887
Athletico-PR 1 x 0 Operário-PRLigga Arena26.429
Coritiba 1 x 0 Vila NovaCouto Pereira25.651
Coritiba 2 x 1 AvaíCouto Pereira23.449
Coritiba 0 x 0 NovorizontinoCouto Pereira22.731
Coritiba 2 x 5 PaysanduCouto Pereira22.612
Paysandu 1 x 1 CRBMangueirão22.035
Coritiba 2 x 0 Operário-PRCouto Pereira20.921

Júlio César, ex-Flamengo e Seleção, participa da festa da torcida do Remo no Mangueirão

Um ”torcedor” inusitado despertou atenção na festa de acesso do Remo à Série A: o ex-goleiro Júlio César. Famoso pela passagem pelo Flamengo, Inter de Milão e Seleção Brasileira, ele marcou presença no gramado do Mangueirão após a partida e até chorou com a empolgante vitória de 3 a 1 sobre o Goiás, de virada, que colocou o time azulino de volta à elite nacional.

Mas, afinal, por que o ex-arqueiro estava em Belém? Júlio César mantém relação próxima com funcionários do Remo, principalmente com Marcos Braz, ex-vice-presidente do Flamengo e que hoje é executivo de futebol do clube paraense.

O ex-goleiro já tinha sido convidado pelo dirigente há um mês para assistir ao clássico contra o Paysandu. O duelo, inclusive, terminou com vitória azulina por 3 a 2. Na ocasião, ele conheceu as dependências do estádio e ganhou uma camisa personalizada.

”O Remo acabou sendo abençoado com um belíssimo gol ali no final, uma cobrança de falta realmente magistral. Parabéns aos dois times, acho que foi um Re-Pa digno de Re-Pa. Obviamente a torcida do Remo saiu mais feliz, mas para quem ama futebol, curtiu uma grande partida”, disse em entrevista à TV, após o clássico.

Neste domingo, no jogo decisivo contra o Goiás, Júlio César esteve em Belém novamente e até acompanhou a delegação do Remo no ônibus até o estádio. Com o ex-goleiro presente, o time azulino venceu por 3 a 1 com dois gols de João Pedro e outro de Pedro Rocha e contou com tropeço do Criciúma para selar o acesso.

Após o apito final, a torcida invadiu o gramado. Júlio César, por sua vez, participou da festa, foi reconhecido pelos torcedores e foi visto, emocionado, em meio à festa azulina.