
Por Tony Vilhena (*)
Na história, tudo parece contra o Remo. A CBF e suas injustiças com o futebol do Norte; a imprensa do resto do Brasil que despreza os feitos do clube e a beleza da torcida Fenômeno Azul; os times do eixo sul-sudeste que acham desgastante jogar aqui, esquecendo que pelo critério distância o Remo é o mais prejudicado de todos (para jogar o Brasileirão o clube viajará a distância de mais de duas voltas completas na terra).
É bem verdade que as vezes o próprio Remo se atrapalhou sozinho, com dirigentes que só afundaram o clube (um botou o Baenão à venda para se locupletar, mas não deu certo) e com a presença no estádio de um grupo de delinquentes disfarçado de torcida organizada que já fez o clube perder mando de campo e ser multado.
Mas a torcida de verdade nunca o prejudicou ou abandonou, mesmo no pior momento quando ficou sem divisão nacional, sem grandes jogos, numa crise financeira desalentadora. A sua torcida fez valer o trecho de seu hino que canta “em cada um de nós mora a esperança”…
Nesse espírito, a torcida do Remo o reergueu, junto a remistas sérios que assumiram a direção e juntaram profissionais de apoio e atletas num projeto audacioso, mas realista.
Chegar no domindo, 23 de novembro de 2025, fazer 3 a 1 no Goiás e garantir o tão sonhado acesso à Série A foi consequência desse trabalho competente, árduo e coletivo. Virou história.
E é aqui neste feito, Pai, que eu só pensava que o senhor também faz parte desta história. Mesmo sendo apenas mais um daqueles remistas desconhecidos e apaixonados que, diante do orçamento familiar apertado, dava um jeito de comprar os ingressos para nos levar desde crianças para ver o jogo do Remo.
Lembro que chegando nas proximidade do estádio (Baenão, Mangueirão ou aonde fosse) alternava quem ia um tempo pendurado no seu cangote e quem ia segurando com toda a força a barra da sua camisa para não se perder no meio da multidão. Já no intervalo do primeiro para o segundo tempo, era “sagrado” o senhor comprar para cada um de nós uma rosquinha amarela, daquela impossível mentir que comeu, vistos os farelos que se espalhavam pelo rosto e pela roupa da garotada, e uma laranjinha, que não passava de um saquinho de gelo com corantes e saborização de laranja (o mais apreciado e daí ter dado o nome ao produto), uva, tutti-frutti ou coco. Pai, o senhor não permitia a gente perceber o sacrifício das moedas juntadas. Talvez, se a gente soubesse, aceitaria somente assistir o nosso Remo sem precisar gastar com nada mais.
Hoje somos nós, filhos e filhas, que levamos nossa prole. Pois o que faz o Remo ser grande, além das suas conquistas esportivas, é a reunião das pessoas anônimas apaixonadas pelo clube e que na medida de suas possibilidades nunca deixaram de contribuir (mesmo que seja com pouco) e acreditar (mesmo que seja de modo desarrazoado), assim, repito, igual ao senhor.
Por isso, na minha escalação lendária, ladeado de tantas mulheres e homens que fazem o Clube do Remo ter a importância que tem, orgulhoso escrevo o seu nome em letras garrafais: PEDRO DE CASTRO VILHENA.
Receba, aí no céu nosso muito obrigado. O Remo subiu!
Com amor e admiração, do seu filho Tony Vilhena.
Obs: 22 de dezembro de 2025, marca 4° ano de seu falecimento. Ele foi radialista durante mais de 40 anos, atuando na Rádio Liberal e Marajoara, sempre secretariando o programa do Diplomata do Rádio, Costa Filho Show.
(*) Tony Vilhena é professor e cientista político
Foto: Tiago Gomes/O Liberal

