Para não esquecer a poesia

Elegia: indo para o leito

John Donne

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

A má vontade com a base

POR GERSON NOGUEIRA

Na contramão do que ocorre em boa parte do futebol brasileiro, a base é cada vez mais tratada com desprezo pelos principais clubes paraenses. Aqui não há espaço para atletas vindos das divisões de formação. Quando surgem três ou quatro jogadores promissores, não existe um plano de carreira para aproveitamento no time profissional.

Em muitos casos, parece claramente que há um desconforto em lidar com os garotos que o próprio clube acolheu e formou. Contradição absoluta. É como se não houvesse necessidade de bons valores. Ao invés de olhar para suas crias, a gestão prefere insistir na importação de jogadores, alguns deles já na faixa sub-40.

Remo e PSC fazem isso há décadas, mas os últimos anos trouxeram uma realidade que torna esse erro crucial ainda mais danoso e irresponsável. O futebol profissional é movido a muito dinheiro, o que exige dos clubes emergentes sacrifícios monumentais para montar times competitivos.  

Ora, se a base oferece atletas que podem reforçar o elenco, por que teimar em recorrer a refugos de aproveitamento capenga? Existem muitas possíveis respostas para esse comportamento, porém o mais explícito é o desinteresse em investir no processo de evolução dos garotos.

Preferem apostar em jogadores indicados por empresários, executivos e técnicos, uma fauna que normalmente não tem qualquer vínculo mais forte com o próprio clube. São profissionais contratados para contribuir com o crescimento da instituição, mas com mentalidade inteiramente diferente dos reais interesses do empregador.

Desconfio que os próprios dirigentes desconhecem a importância técnica e financeira de valorização dos jogadores da base. Já escutei alguns que só enxergam as divisões amadoras como uma obrigatoriedade legal.

A atual temporada pode reapresentar alguns exemplos desconcertantes a respeito do tratamento dado a atletas caseiros. Antes do início do Campeonato Brasileiro, o PSC liberou o atacante Roger, uma das joias da base bicolor, para defender o CSA de Alagoas.

Não que o time que disputa a Série B possa se dar ao luxo de descartar um atacante rápido e habilidoso. Muito pelo contrário. O PSC só conta mesmo com cinco para as funções ofensivas – Nicolas, Esli García, Vinícius Leite, Ruan Ribeiro e Edinho.  

O Remo segue o mesmo exemplo. Dos sete jogadores oriundos da base – Henrique, Jonilson, Ronald, Guty, Cadu, Felipinho e Kanu –, o técnico da vez, Rodrigo Santana, só utilizou Felipinho e Ronald por alguns minutos nos últimos dois jogos. Uma das melhores safras de revelações tratada com visível menosprezo.

Kanu, o melhor centroavante do elenco, um dos poucos a apresentar bom índice de finalização e qualidade para jogar dentro e fora da área, parece ter sido marcado como descartável. Não é lembrado nem mesmo quando o time conta com atacantes de baixíssima produção de gols.

Ribamar e Ytalo são escalados regularmente. Mateus Lucas, recém-contratado, é opção no banco de reservas. Kanu não é relacionado nem entre os suplentes. É óbvio que a decisão dos técnicos não é sequer alvo de cobrança por parte da diretoria. Escalam seus preferidos, ignoram a base.

Agora, com o Remo se arrastando na Série C, surge a notícia de que Kanu deve ser negociado com o futebol português. Para isso, propõe antecipar o fim de seu contrato. Não há como recriminar. Tem mesmo que buscar um clube que ofereça oportunidades. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

Tropeço acende alerta para a Copa América

O Brasil segue sem convencer nos amistosos de preparação para a Copa América. Ontem, uma falha de Alysson em falta cobrada por Christian Pulisic deu o empate aos Estados Unidos. Apesar de atacar mais e buscar o gol, principalmente no 2º tempo, o time não deslanchou, mesmo enfrentando um adversário limitado – perdeu por 5 a 1 para a Colômbia em jogo recente.

O fato é que apenas Rodrygo mostrou qualidade e determinação. Marcou o gol brasileiro, participou de todas as manobras ofensivas e pareceu sempre comprometido. As demais estrelas estiveram em nível sofrível. Vinícius Jr. manteve a rotina de atuar mal na Seleção, Paquetá pareceu desligado e Raphinha exagerou nas investidas erradas.

Quando conseguia envolver a marcação, o Brasil finalizava mal, com chutes fracos e defensáveis. No geral, o que se viu foi um time preguiçoso, lento nas saídas para o ataque e bastante atrapalhado na marcação. Em dois momentos, na reta final da partida, os americanos quase desempataram o confronto.

Ficou no ar um quê de preocupação com a Copa América, que terá competidores de respeito. Além da campeã mundial Argentina, as seleções da Colômbia, Equador e Uruguai chegam bem cotadas ao torneio continental. Pelo que o Brasil mostrou contra México e EUA, a caminhada será cheia de dificuldades.  

O amistoso começou com pressão norte-americana. Uma bola no travessão logo aos 4 minutos assustou o goleiro Alisson. Com o time titular em campo, o Brasil reagiu e passou a cerca a área adversária em manobras de Rodrygo e Vini Jr.

O gol brasileiro veio aos 16 minutos. Raphinha, em seu melhor momento no jogo, lançou Rodrygo na área. O camisa 10 bateu cruzado longe do alcance do goleiro e abriu o placar. Não demorou muito e os EUA chegaram ao empate. João Gomes derrubou Pulisic na entrada da área.

Só o confuso comentarista de arbitragem da Globo entendeu que não houve falta. Na cobrança, o camisa 10 chutou rasteiro bem no canto onde estava Alisson, que pulou atrasado.

A Seleção só ganhou novo impulso com a entrada de Endrick, mas o camisa 9 não teve chances para marcar. Os americanos ainda perderam duas grandes chances e o jogo se arrastou, meio monótono, até o fim.

Foi o último teste do Brasil para a Copa América. A estreia será no dia 24, às 22h, contra a Costa Rica. Dorival Junior, que segue invicto no comando do escrete, avaliou como positiva a atuação do time titular. Jogo de cena ou não, o certo é que deveria botar as barbas de molho.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 13)