O diploma de Luiz Inácio

POR ÂNGELO CAVALCANTE

Agora ficou fácil! Todo idiota com um diplomazinho de curso superior se vê no direito de atacar o Lula; e o ataca com uma ferocidade impiedosa que vai do “analfabeto”, “burro” a cretinices similares. Todo bobão preconceituoso e cheio de ódios interiores e que cursou “nas coxas” uma graduaçãozinha de quinta categoria se vê na legitimidade de atacar pessoas mais simples e que, pelas mais diversas razões não puderam estudar e mesmo seguir seus estudos.

Não raro, vemos por aí um “formado” esperneando em meio a uma contenda com alguém mais simples: “Sabe com quem você está falando?” ou “Ponha-se no seu lugar!” ou “Eu sou parente do fulano de tal e você está ferrado!”. São frases que se inscrevem naquilo que a sociologia irá definir como “discurso da ordem”. E que “ordem” é essa? A do mandonismo, da hierarquia social, das assimetrias sociais que deitam raízes na predação sobre a vida indígena, negra ou popular. Na ordem social e política, toda ela elitista e segregacionista, e que prega direitos sem-fim aos brancos e bem-nascidos e deveres eternos e somente deveres aos do “andar de baixo”.

Fico impressionado com as reações de uns e outros com a possibilidade de efetiva igualdade nesse país. A grita vai da lacrimação pura e simples ao ordenamento de organizações paramilitares supostamente “defensoras” da pátria brasileira. E conforme atestamos, todas as armas são utilizadas. Da ofensa mais sútil e simbólica ao golpismo bananeiro e militar de novidade alguma.

Nem vou mais dizer pra essa gente preguiçosa, alienada ou cheia de privilégios descabidos estudar porque já não se trata mais disso. Não estudam e jamais irão estudar. Aliás, odeiam o estudo porque estudar é se pôr diante da história, dos seus protagonistas, do feito e do não-feito, de erros, acertos e possibilidades e mais do que isso, estudar é se permitir a rupturas internas, ao aperfeiçoamento de olhares, perspectivas e de maneira livre, autônoma, desapegada e profunda o que, conforme bem sabemos, essa gente nunca e jamais irá fazer.

Mas, vamos lá… O regime militar que rompeu com um ordenamento democrático frágil, delicado, contudo, promissor foi uma ampla tragédia social; uma aberração econômica que aprofundou endividamentos e nossa muito definidora dependência e sob a perspectiva dos direitos humanos… Melhor nem comentar.

Aliás, o vão democrático, o amplo hiato para o aperfeiçoamento da nossa brejeira democracia, as fissuras comportamentais criadas e sofisticadamente desenvolvidas nos comportamentos individuais e coletivos do país por meio da ideologia de governo, da propaganda oficial e pelo alinhamento das instituições nacionais à batuta dos generais é que permite, ainda hoje permite, que cretinismos e patuscadas como esses movimentos “sem pé e sem cabeça” aconteçam pelas ruas do Brasil.

O “Fora Dilma” é o fluxo derradeiro da ampla fissura democrática e que, como tinha que ser, reage por estar sendo vedada, eternamente vedada. É o último esperneio de 1964. A análise de Luís Nassif a esse respeito é bastante pertinente quando afirma que o “monstro se recolhe com suas panelas” e a vida nacional se reencontra.

Espero que a democracia seja aprofundada, que o governo federal continue tributando ricos, que amplie e garanta os direitos dos trabalhadores, que renuncie imediatamente a esse ajuste fiscal neoliberal, neocolonial e profundamente dependentista e que o tamanho dessa democracia se achegue, por fim, na fundamental lógica da distribuição das rendas, ou seja, democracia sem distribuição de rendas é uma piada de péssimo gosto.

E aos pedantes que se sentem melhor do que o Lula, do que o seu Francisco ou do que a dona Maria Rita pelo simples fato de possuírem um diploma de curso “superior” e que de superior não tem absolutamente nada digo que essa é uma das maiores corrupções éticas e morais que tornam o nosso cotidiano estratificado um campo muito minado.

8 comentários em “O diploma de Luiz Inácio

  1. A observação é factual, portanto objetiva, irretocável e historicamente (muito) oportuna. Considero tudo isso, e não sei sinceramente se já chamam esse fenômeno social desse modo, e gostaria de contribuir para isso, que se chame a essa observação científica, sobre isso a que o autor do texto se refere, de “mérito presumido”. A legitimidade é presumida, e presumidamente uma herança colonial. É uma distorção produzida pela herança cultural colonialista, de jugo do Brasil desde aqueles tempos do período escravocrata, e higienista. É preciso notar, é preciso que o pobre note, que o discurso elitista favorável ao militarismo não é uma preocupação com o brasileiro mais pobre, com o povo, essa massa trabalhadora e honesta, é uma preocupação exclusiva com o próprio umbigo, uma expectativa de retorno dos “bons tempos” em que o pobre sabia o seu lugar. Não se trata de defesa da democracia, mas de reivindicar seu “lugar ao sol”, merecidamente o lugar daquele que tem seu diploma, ou não necessariamente, o “doutor”. O “nobre” título, assim mesmo entre aspas, tanto o “nobre”, como o “doutor”, são os títulos ostentatórios da opressão, da humilhação, da forma discursiva de calar o oprimido. O tom dos protestos, as reivindicações, são indubitavelmente a marca da saudade do tempo em que cada qual sabia o seu lugar e temia a ação do estado contra qualquer comunista. Qualquer comunista falará em distribuição de renda e em justiça social, falará em saúde e educação públicas de qualidade. A rejeição é claramente direcionada aos avanços sociais conquistados nos últimos doze anos. O discurso é o de que a distribuição de renda não funciona porque falta o mérito e o hábito ao pobre para viver com o dinheiro extra. Penso que, talvez, pela mesma falta de mérito, o Brasil não tenha evoluído em quinhentos anos, pela mais absoluta falta de mérito da oligarquia em ganhar mercados com produtos quase exclusivos e com mão de obras escrava. Acostumados a escravizar, usam e abusam do discurso capitalista da livre concorrência para impor uma coisa que nunca foi verdadeira ou justa, do mérito de possuir meios de produção e os lucros vultosos obtidos a partir deles. Não há mérito, nem orgulho, na escravidão. E não há justiça na pregação, falsa, de que o sol nasce para todos. Ele nasce, todos os dias, para lembrar que uns sofrem, e outros gozam.

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  2. E o que diria o Angelo Cavalcante sobre o Porta dos Fundos Gregório Duvivier que, talvez precipitadamente, desembarcou do governo escrevendo isso:
    (…)
    “Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês –mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.

    “O PT é indefensável –cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.”

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  3. Caro Oliveira, a decepção petista passa exata e justamente por aí. A escolha por Lula em 2002 não ocorreu por causa da aliança com o PL de José Alencar, mas se deu com a frustração com o modo tucano de governar. A insistência em alianças desnecessárias (e moralmente erradas), leva agora o partido a essa crise. Mas digo, e digo bem, que o excesso de partidos torna o Brasil ingovernável. E não é uma cláusula de barreira que impedirá a criação de novos partidos, mas o financiamento público de campanha porque é esse modo vigente de fazer política, com arrecadação de “doações”, que prostitui a política nacional.

    A queda do avião de Eduardo Campos derrubou também qualquer noção de ética em política, no Brasil. Desde lá, quando a comoção do líder pernambucano alçou Marina à disputa eleitoral cabeça a cabeça com Dilma, que a mídia tem feito tudo para mantê-la (Dilma) sob suspeita e, hoje, após um ano da tragédia de Eduardo Campos, a tática ainda é a mesma. Enquanto os partidos forem financeiramente dependentes dessas “doações”, permitidas por lei, e de apoio da mídia, haverá suspeição sobre esse ou aquele candidato, esse ou aquele chefe do executivo, legisladores e partidos. A reforma política não só põe fim às legendas de aluguel, como força a fidelidade partidária e instrui o eleitor. Sempre haverá um tom de fraude a ser explorado pela mídia, e uma falsa moralidade, ou fascismo, oportunista.

    Precisamos (e muito) da reforma política que contemple um código de ética aos políticos, porque isso caracterizaria imediatamente a falta do decoro parlamentar e simplificaria um eventual processo criminal no STF. Um código de ética para políticos, como há para tantos e tantos profissionais. Pense no que isso simplificaria as coisas para a lei e para o povo. O que pode e o que não pode ser feito não devem ser objetos de interpretação de magistrados, mas itens objetivos, claros e inequívocos do cumprimento do dever parlamentar. Só assim o PT, e todo partido político brasileiro, se livram desse dedo na cara, embora permaneçam sempre, daqui para a frente, com a desconfiança do cidadão.

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  4. O Brasil é um dos países que mais cobra impostos e este governo é o mais corrupto de todos os tempos. As migalhas repassadas a pobreza apenas trouxe alivio, para alguns, de uma situação de semi-jejum para um condição temporária alternada de aforramento digestivo, hoje em decadência. Bem aventurados estão condenados e outros na mira da justiça.

    Não precisa tantas linhas para a verdade ser dita sem o auxílio de ornamentações gráficas que hoje não convence, Para que desenhar? Rsrsrs

    Ângelo Cavalcante PT saudações.

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    1. O engraçado é que a carga de impostos surgiu só agora, hein, Ferdinando. Rsss… Só levando na graça mesmo diante de tanta desinformação histórica. O mais curioso disso tudo é que a direita brazuca, bovina como sempre, não consegue distinguir o fato de que há uma apuração de crimes de corrupção como nunca houve no Brasil. E acho bom tirarem o cavalo da chuva quanto a uma renúncia de Dilma. O mais inteligente seria se preparar para tentar retomar o poder nas urnas daqui a 3 anos. Esta é a via normal e democrática. O resto é algazarra de reacionários sem noção, manipulados pela velha mídia e conduzidos (veja você..) por Lobão e Bolsonaro. Não dá pra levar a sério. Te dizer.

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  5. Conforme já disse antes, mesmo absolutamente cético com um futuro resultado positivo, sou pela reforma política. Afinal, se trocando os políticos como ocorreu há 12 anos não deu certo, já que os substitutos se apressaram em chamar de volta os substituídos, quem sabe trocando o sistema político não venha a dar certo.

    Mas, dois pontos cumpre chamar atenção: há bem mais do que odiadores de classe entre os críticos do governo nestes 12 anos; há de se tomar cuidado para não se alçar estelionatários políticos, malfeitores da república, à condição de inexoráveis vítimas de um sistema político sucetível de distorções prejudiciais ao interesse público.

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  6. A carga tributária não é novidade e sabemos que não é cobra criada no governo Dilma, mas que nunca teve a preocupação de reduzir e hoje mais agravada pela crise. Quanto a renúncia só o desenrolar dos acontecimentos ditarão se ocorrerá, considerando que para a próxima eleição está distante. Quanto a Lobão e Bolsonaro só levando na brincadeira, caro Gerson. .

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