O sanatório geral da política

POR LUIS NASSIF

Tem-se um país pronto para alçar voo, com uma sociedade civil complexa, estrutura universitária, de pesquisas, grandes empresas, diversidade regional, mercado de capitais,  múltiplas vocações econômicas.

Mas há um vácuo político e uma imprevisibilidade total sobre os desdobramentos da crise.

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Vamos a uma análise dos principais personagens:

Fernando Henrique Cardoso – ainda é o principal mentor dos grupos de oposição. Mas seu único objetivo é a revanche com Lula. O resto – país, PSDB, aliados – que exploda.

Lula – entrou na chamada sinuca de bico. Tem que preservar Dilma e o PT, mas, ao mesmo tempo, teme afundar com ambos. Sua decantada intuição travou.

PT – desde a prisão dos principais líderes, uma militância sem comando. com os parlamentares votando sistematicamente contra bandeiras que levantou um dia. A única bandeira capaz de unir a todos é a perspectiva de um impeachment de Dilma.

PSDB –não existe mais como partido. Tem votado sistematicamente contra o rigor fiscal e contra um conjunto de leis que ele próprio patrocinou. Há um grupo com articulação com mídia e empresariado (FHC-Serra), um governador que tenta se articular, mas sem possuir familiaridade para os grandes arranjos políticos (Geraldo Alckmin) e um garotão sem noção (Aécio). Debaixo deles, um bando de tresloucados.

Aécio Neves –colocado na linha de frente por FHC para o chamado fogo de exaustão no governo Dilma desgastou-se sozinho. É figura descartável, assim que formar-se um consenso sobre os rumos da crise.

PMDB – os presidentes da Câmara e do Senado precisam acumular poder para escapar do risco de prisão. Ou sentam no trono ou vão para o calabouço. A única âncora de bom senso é o vice-presidente Michel Temer.

Grupos de mídia- a palavra de ordem é impeachment, e se colocam todos a produzir clima para tal. A ponte quebrou, exageramos, e toca a produzir artigos de bom senso relativo.  Todos disciplinadamente andando em manada ao sabor da falta de rumo.

Presidência da República –  poucas vezes na história se teve uma quadra tão medíocre e sem noção. Dilma só se valeu da palavra de presidente para defender a si própria das insinuações e dos abusos do inquérito. Não montou nenhuma estratégia consistente para poupar a economia dos reflexos da Lava Jato, nem se abriu para fora do seu gabinete, para preparar projetos minimamente articulados com a opinião pública.

Procurador Geral da República – hoje em dia, qualquer réu pode acertar contas com qualquer adversário. Basta tornar-se delator e mencionar o nome do desafeto em um interrogatório. Os bravos procuradores e delegados da Lava Jato se encarregarão de levar para a mídia. Foi necessário o Ministro Teori Zavascki chamar os procuradores à razão, para o PGR agir.

STF (Supremo Tribunal Federal) – só tem dois Ministros com coragem de investir contra as ondas: Marco Aurélio Mello, e sua tradição de remar contra a corrente; e Gilmar Mendes, e sua tradição de atuar de forma vergonhosamente partidária.

Grupos econômicos – o “road show” de Dilma nos EUA mostrou que ruim com ela, pior sem ela, péssimo com o impeachment. Mas, sem Dilma apresentar um projeto consistente, ficam ao sabor das manchetes.

Repito: quem disser que sabe o que sairá dessa miscelânea estará mentindo.

5 comentários em “O sanatório geral da política

  1. Não é preciso sair da política para entendê-la, mas, pelo contrário, mergulhar nela. É bem aí que está a maior dificuldade de entender o que se passa hoje no Brasil. Que o futuro é imprevisível, disso já se sabia desde que o mundo é mundo. No entanto, o futuro pode ter tantos desdobramentos econômicos por causa da política atualmente que é difícil direcionar investimentos de médio e longo prazo. É por isso que a oposição é irresponsável, juntamente com a mídia pró-Aécio. As incertezas são as já corriqueiras tentativas de desestabilizar o governo, com os “aliados” do PMDB a toda… Não é nenhum mistério que os executivos não se baseiam apenas em números para tomar decisões nas empresas. Precisam de conhecer as políticas públicas e os projetos do executivo para determinar diretrizes e seguir com um planejamento, afinal, o dinheiro da iniciativa privada vem principalmente das suas vendas. Tudo o que toda a campanha pró-Aécio tem feito é lançar dúvidas sobre as metas e políticas públicas do governo, já que sobram delações e faltam provas, num momento em que seria necessária uma coalizão em favor do país, para superar não uma crise institucional, mas uma crise do modo de produção. A atuação da oposição tem o efeito objetivo de atrasar investimentos porque investidores internacionais acabam escolhendo outras praças para pôr seu dinheiro, o que vai durar até que as coisas se acalmem por aqui. E isso feito por uma oposição que se esmerou para atraí-los. A oposição “responsável” agora brada contra as próprias bandeiras, negando aquilo que não apenas já defendeu, como botou em prática no passado. É preciso que se diga, a visão macartista da economia e de estado mínimo (será?), levou o PSDB a fatiar e vender justamente as empresas brasileiras com maior potencial de lucro: as telefônicas, as concessionárias de energia elétrica, a CVRD (hoje apenas VALE), siderúrgicas, e metade da Petrobras, pra falar das maiores. Por que não se privatizou o SUS e se obteve um programa social a partir do lucro daquelas estatais para financiar um plano de saúde universal para o povo? Quem sabe assim, não se precisasse hoje dos médicos cubanos, tão combatidos e tão competentes. Não se trata de uma oposição com ideias prontas para salvar o país, não. A oposição é entreguista e politicamente oportunista, agindo miseravelmente contra aquele preceito capitalista do lucro. Ora, quem defende a livre iniciativa e o valor social do trabalho também defende o lucro, então porque abrir mão de empresas lucrativas, e estratégicas, e manter programas dispendiosos? Na contramão da lógica, a oposição age como sempre agiu, em benefício próprio.

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  2. De fato, amigo Lopes, o que temos hoje é o seguinte: uma oposição que condena o que fez quando era governo e um governo que faz o que condenava quando era oposição.

    Noutras palavras não temos uma disputa política, mas, sim, uma briga pela “boca” como acontecia no “Cidade de Deus”.

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  3. Caro Oliveira, as políticas econômicas monetárias, quero dizer, de valorização da moeda, e as bases de meta de inflação, como de superávit, foram destacadas nos anos 90 pelo PSDB, capitaneado por FHC, como a solução à hiperinflação dos anos 80. Meta de inflação, superávit, pactuação do SUS, políticas nacionais de educação determinadas pelo MEC e outros mecanismos, não são obras de governo, são a tecnicização da administração, como há nos países desenvolvidos. Há muita confusão porque os jargões são os mesmos, como SELIC, superávit, meta de inflação, dívida pública. Os termos não correspondem às políticas públicas, mas a parâmetros ou indicadores que tornam a administração algo técnico, científico. O PT não manteve as mesmas políticas públicas de FHC, o que é mostrado pelos indicadores/parâmetros que a administração petista adota. Por exemplo, a meta de inflação de FHC era de uns 2,5% a.a., e a do PT, de 4,5% a.a. A diferença desses indicadores sinaliza fortemente uma grande diferença em termos de políticas públicas. Os mecanismos (técnicos) de controle de inflação necessariamente desencorajam o consumo, aumentando os juros sobre financiamentos (pela SELIC) e forçando os salários a estagnar em valor e poder de compra (arrocho). A escolha desses parâmetros é consciente e ciente das consequências. A meta de 4,5% a.a. necessariamente permite um pequeno aumento dos preços (claro, agora a meta é mais “ampla”), mas o objetivo disso é também facilitar o crédito, estimular a produção em todos os setores e isso acaba permitindo alguma valorização salarial e geração de empregos. Isso numa economia capitalista, seja socialista, seja neoliberal. O discurso neoliberal do estado mínimo defende (mentirosamente, na minha opinião) que o dinheiro falta ao trabalhador pelo intervencionismo do estado, confundindo o estado proprietário dos meios de produção e de economia planificada (comunista) com o regime de vanguarda socialista. Nesse caso, se observa que a intervenção do estado na economia tem sido benéfica porque tem garantido desenvolvimento pela geração de empregos e crescimento do mercado interno, o que FHC foi incapaz de realizar. Ao privatizar as empresas brasileiras mais lucrativas também tirou das mãos do governo o destino das riquezas da nação, e dificultou a arrecadação dos impostos (isto é, se tornou conivente com a sonegação). Os dados relativos ao aumento salarial, de distribuição de renda, de geração de empregos, com o sucesso do fome zero, do luz para todos e do bolsa família são objetivos e o país, com toda a crise do capitalismo, sustentou esses ganhos, não retrocedeu à dura realidade dos anos FHC. Dilma é presidente pelo PT, trabalhou ao lado de Lula para obter essas conquistas e mantém políticas públicas que permitem ao país continuar crescendo, ou, por enquanto, sobreviver sem arrocho salarial, pois o que quer o governo é que não haja perdas maiores às que já estão ocorrendo a quem trabalha e emprega. As perdas, por ora, são inevitáveis sim, porque isso sim se admite, que o governo errou a mão (e errou feio) ao não avaliar corretamente a dimensão da crise e sua extensão no tempo. Quem defende que PT e PSDB são farinha do mesmo saco comete um grande erro.

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  4. Amigo Lopes, como sempre respeito sua opinião. Aliás, você não está sozinho nesta tese de que são diferentes pt e psdb. Todavia, apesar do respeito, não me é possivel concordar com sua opinião. Deveras, a realidade milita contra ela. Desde a Carta aos Brasileiros, passando pela reforma previdenciária ainda no primeiro mandato presidencial do partido rubro, pelo mútuo apoio ao pp, ptb, pmdb, S a r n e y, ao c o l l o r, ao R e n a n, ao J e f e r s o n, ao m a l u f, até chegar ao pacote de arrocho trabalhista e previdenciário, e sem esquecer, do auxílio luxuoso do L e v y , da K a t i a A b r e u. A propósito, vale dizer que também não estou sozinho nesta opinião:
    “Se existe um momento específico que simboliza a irrupção da segunda alma do p t, acredito ter sido o da divulgação da “Carta ao Povo Brasileiro”, em 22 de junho de 2002. É óbvio que houve longa gestação anterior, e seus fios podem ser rastreados, no mínimo, até a derrota de 1989, cuja história foge aos objetivos deste capítulo. Mas, a silenciosa criatura veio à luz somente quando se iniciava a campanha de 2002 e, em nome da vitória, se impôs com facilidade surpreendente.
    (…)

    “A alma do Anhembi, expressa no programa ” l u l a 2002 ” , compromete-se com a estabilidade e atira as propostas de mudança radical ao esquecimento. Enquanto a alma de Sion, poucos meses antes, insistia na necessidade de “operar uma efetiva ruptura global com o modelo existente”, a do Anhembi toma como suas as “conquistas” do período neoliberal: “a estabilidade e o controle das contas públicas e da inflação são, como sempre foram, aspiração de todos os brasileiros”, afirma.
    (…)

    “O compromisso com a estabilidade monetária e responsabilidade fiscal volta a comparecer no programa presidencial quatro anos depois, e a preservação da estabilidade econômica continuava como diretriz, agora para o governo DR, oito anos mais tarde. A defesa da ordem viera pra ficar, e a direção decidida no Anhembi se tornaria programa permanente. O que estava em jogo, na verdade, era o abandono da postura anticapitalista que o partido adotara na fundação.” (A n d r é S i n g e r. Os Sentidos do L u l i s m o. Cia das Letras. 2012).

    Com efeito, amigo Lopes, na minha opinião os dois partdos, mais que do mesmo saco, os dois partidos são farinha da mesma mandioca. E comete grande engano quem não constata isso do exame da realidade cotidiana da da vida brasileira.

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